24 de junho de 2017

Capítulo 11 - Nenhum descanso para os exaustos

Dois anões, dois homens e dois Urgals dos Falcões da Noite – a guarda pessoal de Nasuada – parados do lado de fora da sala do castelo onde ela instalara o seu quartel-general fitaram Roran com um olhar insonso e vazio, e ele olhou-os com um ar igualmente inexpressivo.
Um jogo que já tinham jogado antes.
Apesar da impassibilidade dos Falcões da Noite, Roran sabia que eles tramavam a forma mais rápida e mais eficaz de matá-lo. Sabia disso porque fazia o mesmo em relação a eles, como sempre fizera.
Teria de retroceder o mais depressa possível... dispersá-los um pouco, concluiu. Os homens seriam os primeiros a me apanhar, pois são mais rápidos que os anões e bloqueariam os Urgals atrás de si... Tenho que tirar aquelas alabardas deles. Seria difícil, mas creio que conseguiria... pelo menos de um deles. Talvez tivesse que atirar o martelo. Assim que tivesse uma alabarda, poderia manter os outros à distância. Então os anões não teriam grandes chances, mas os Urgals seriam um problema. Brutamontes horrendos... se usasse aquele pilar para me proteger, poderia...
A porta revestida de ferro entre as duas fileiras de guardas rangeu ao se abrir. Um pajem de roupas coloridas com dez ou doze anos saiu e anunciou mais alto do que seria necessário:
— Lady Nasuada o receberá agora!
Vários guardas distraídos estremeceram e os seus olhos vacilaram por uns instantes. Roran sorriu ao passar por eles e ao entrar na sala, sabendo que o lapso deles, por mais ligeiro que fosse, o teria permitido matar pelo menos dois dos guardas antes que pudessem retaliar. Fica para a próxima, pensou.
A sala era grande, retangular e parcamente decorada: um tapete pequeno no chão; uma tapeçaria estreita, roída pelas traças, pendurada na parede à sua esquerda; e uma janela ogival na parede da direita. Além disso não havia qualquer decoração. Encostada a um canto estava uma longa mesa de madeira, com pilhas de livros, pergaminhos e folhas de papel soltas. Algumas cadeiras grandes - revestidas com couro fixadas com tachas de latão oxidado – estavam espalhadas em torno da mesa, mas nem Nasuada, nem as doze pessoas que andavam atarefadas em torno dela se dignavam usá-las. Jörmundur não estava lá, mas Roran conhecia vários dos guerreiros presentes: lutara ao lado de alguns, vira outros em combate ou ouvira os homens da sua companhia falar deles.
— ... e não me interessa que tenha um ataque de bócio! — exclamou Nasuada, batendo ruidosamente com a palma da mão direita na mesa. — Se não tivermos essas ferraduras e mais algumas, mais vale comermos os cavalos, pois não nos servirão para nada. Estamos entendidos?
Os homens responderam afirmativamente como se fossem um só. Pareciam um pouco intimidados, senão envergonhados. Roran achava estranho e ao mesmo tempo impressionante que Nasuada, sendo mulher, conseguisse impor tanto respeito aos seus guerreiros, respeito esse que partilhava. Ela era uma das pessoas mais determinadas e inteligentes que jamais conhecera e estava convencido de que ela teria sido bem-sucedida independentemente do lugar onde tivesse nascido.
— Agora, vão! — ordenou Nasuada e, quando os oito homens passaram por ela, fez sinal a Roran para que se aproximasse da mesa.
Ele esperou pacientemente enquanto ela mergulhava uma pena num tinteiro e rabiscava várias linhas num pequeno pergaminho, entregando-o depois a um pajem e dizendo:
— Leve isto ao anão Narheim e, desta vez, certifique-se de obter a resposta deles antes de regressar. Senão o mando para levar recados e fazer limpeza para os Urgals.
— Sim, lady! — disse o rapaz, saindo apressadamente, meio apavorado.
Nasuada começou a folhear uma pilha de papéis que tinha diante de si, dizendo depois sem levantar os olhos:
— Está bem descansado, Roran?
Ele perguntou-se porque teria ela interesse em saber isso.
— Não especialmente.
— Mas que infelicidade. Ficou acordado a noite toda?
— Parte da noite. Elain, a mulher do nosso ferreiro, deu à luz ontem, mas...
— Sim, eu fui informada. Presumo que não ficou de vigília até Eragon curar a criança.
— Não, estava muito cansado.
— Pelo menos teve esse bom senso. — Esticando o braço sobre a mesa, pegou num outro papel e examinou-o em detalhe antes de juntá-lo à pilha. Depois falou no mesmo tom prosaico que utilizara antes: — Tenho uma missão para você, Martelo Forte. As nossas tropas encontraram forte resistência em Aroughs, maior do que prevíamos. O capitão Brigman não conseguiu resolver a situação e agora nós precisamos daqueles homens de volta. Portanto, vou mandá-lo a Aroughs para substituir Brigman. Há um cavalo à sua espera no portão sul. Cavalgará o mais depressa possível até Feinster e de lá para Aroughs. Terá um cavalo pronto à sua espera de quinze em quinze quilômetros, daqui até Feinster. Daí em diante, você mesmo terá que arranjar os cavalos. Conto que chegue em Aroughs dentro de quatro dias. Depois de pôr o sono em dia, terá aproximadamente... três dias para acabar com o cerco. — Levantou os olhos para ele. — Dentro de uma semana, à partir de hoje, quero o nosso estandarte desfraldado em Aroughs. Não quero saber como o fará, Martelo Forte. Quero apenas que o faça. Se não puder, não terei outra alternativa senão mandar Eragon e Saphira a Aroughs, o que nos deixará praticamente indefesos, no caso de Murtagh ou Galbatorix nos atacarem.
E Katrina ficará em perigo, pensou Roran. Uma sensação desagradável assentou-lhe nas entranhas. Cavalgar até Aroughs em apenas quatro dias seria um suplício horrível, especialmente estando ele tão dolorido e contundido. Além disso, tomar a cidade em tão pouco tempo seria combinar sofrimento com loucura. No geral, a missão era tão apelativa quanto lutar contra um urso com as mãos amarradas atrás das costas.
Ele coçou o rosto através da barba.
— Não tenho experiência nenhuma em cercos — disse ele. — Pelo menos, não um como esse. Deve haver alguém entre os Varden mais indicado para a missão. Que tal Martland Barba Ruiva?
Nasuada fez um gesto displicente.
— Ele não pode cavalgar a todo o galope com uma só mão. Devia ter mais confiança em si mesmo, Martelo Forte. É claro que há outros entre os Varden que sabem mais sobre a arte da guerra – homens que estão no campo há mais tempo e que foram treinados pelos melhores guerreiros da geração dos seus pais – mas, quando o que importa é desembainhar espadas e combater, o mais importante não é o conhecimento nem a experiência, mas vencer, e essa é uma estratégia que você parece dominar. Além disso, você tem sorte.
Pousou os papéis que estavam por cima e apoiou-se nos braços.
— Você provou que sabe lutar e que sabe seguir ordens... quando lhe agrada, quero dizer. — Ele resistiu à tentação de curvar os ombros ao lembrar-se do ardor amargo e incandescente do chicote a retalhar-lhe as costas depois de ser castigado por desafiar as ordens do capitão Cedric. — Provou que sabe comandar um destacamento invasor, por isso veremos se é capaz de algo mais, Roran Martelo Forte.
Ele engoliu em seco.
— Sim, lady.
— Ótimo. Promovi você a capitão para esta missão. Se for bem-sucedido em Aroughs, poderá considerar o título permanente, pelo menos até demonstrar que merece maiores ou menores honras.
 Voltando a olhar para a mesa, começou a separar uma confusão de pergaminhos, obviamente à procura de algo escondido por baixo.
— Obrigado.
Nasuada respondeu com um vago ruído evasivo.
— Quantos homens terei sob minhas ordens em Aroughs? — perguntou ele.
— Dei mil guerreiros a Brigman para tomar a cidade. Desses mil, não restam mais de oitocentos ainda em condições de lutar.
Roran quase praguejou alto. Tão poucos.
— Fomos levados a crer que as defesas de Aroughs eram mais fáceis de vencer do que são na realidade — Nasuada disse num tom de voz seco, como se o tivesse ouvido.
— Compreendo. Posso levar comigo dois ou três homens de Carvahall? A senhora disse uma vez que nos permitiria lutar juntos se nós...
— Sim, sim — disse ela, acenando com a mão. — Eu sei o que disse. — E comprimiu os lábios, ponderando o assunto. — Muito bem, leve quem quiser, desde que parta dentro de uma hora. Me informe quantos homens vão com você e eu tomarei providências para ter o número de cavalos necessários à espera pelo caminho.
— Posso levar Carn? — perguntou ele, referindo-se ao mágico ao lado de quem lutara em várias ocasiões.
Ela fez uma pausa e fitou a parede por alguns instantes com um olhar disperso. Depois, para seu alívio, acenou afirmativamente, retomando a sua busca no amontoado de pergaminhos.
— Ah, aqui está. — Tirou um tubo de pergaminho preso com uma tira de couro. — Um mapa de Aroughs e das imediações, bem como um mapa maior da província de Fenmark. Sugiro que estudes ambos muito cuidadosamente.
Entregou-lhe o tubo, que ele guardou dentro da túnica.
— Aqui está a sua missão — disse ela, entregando-lhe um pergaminho dobrado e selado com uma gota de cera vermelha — e aqui estão as suas ordens. — Entregou-lhe um segundo retângulo mais grosso que o primeiro. — Mostre-as a Brigman, mas não deixe que ele fique com elas. Se a memória não me engana, nunca aprendeu a ler, não é?
Ele deu de ombros.
— Para quê? Sei contar e calcular tão bem quanto qualquer homem. O meu pai dizia que nos ensinar a ler fazia tanto sentido quanto ensinar um cão a andar nas patas traseiras: é divertido, mas não vale o esforço.
— E eu poderia concordar se continuasse a ser lavrador, mas você não é mais. — Fez um gesto para os pergaminhos que ele tinha na mão. — Um destes pergaminhos poderia ser um mandato com ordens para executá-lo. Não me servirá de muito nestas circunstâncias, Martelo Forte. Não posso lhe enviar mensagens sem que outros precisem lê-las para você e se precisar me enviar informações, você não tem outra alternativa senão confiar em um dos seus subalternos para que redija as suas palavras com precisão. Isso o torna facilmente manipulável e pouco digno de confiança. Se espera conseguir posições mais altas entre os Varden, sugiro que procure alguém que o ensine. Agora vá, há outros assuntos que exigem a minha atenção.
Ela estalou os dedos e um dos pajens correu ao seu encontro. Colocando uma mão no ombro do rapaz, baixou-se ao nível dele e disse:
— Quero que vá buscar Jörmundur e o traga aqui imediatamente. Irá encontrá-lo em algum lugar na rua do mercado, onde aquelas três casas... — noDeteve-se  meio das instruções e arqueou a sobrancelha ao ver que Roran não se mexera. — Precisa de mais alguma coisa, Martelo Forte?
— Sim. Gostaria de ver Eragon antes de partir.
— Por que motivo?
— Grande parte das proteções que me concedeu antes da batalha desapareceu.
Nasuada franziu a sobrancelha e depois disse ao pajem:
— Na rua do mercado onde aquelas três casas foram incendiadas. Conhece o local a que estou me referindo? Ótimo, então vá. — Bateu de leve nas costas do rapaz e endireitou-se enquanto ele corria para fora da sala. — Seria melhor que não o visse.
Sua afirmação confundiu Roran, mas este ficou em silêncio, esperando que ela se explicasse. Nasuada explicou-se, embora indiretamente.
— Reparou como Eragon estava cansado durante a minha audiência com os meninos-gatos?
— Mal se aguentava de pé.
— Exatamente. Ele se excedeu, Roran. Ele não pode proteger você, a mim, a Saphira, a Arya e sabe-se lá quem mais e ainda conseguir fazer o que precisa. Ele precisa poupar as suas forças para quando tiver de enfrentar Murtagh e Galbatorix. Quanto mais nos aproximarmos de Urû’baen, mais importante será que esteja preparado para enfrentá-los a qualquer momento, de dia ou de noite. Não podemos permitir que todas essas preocupações e distrações o enfraqueçam. Foi nobre da parte dele curar o lábio fendido da criança, mas sua façanha poderia ter nos custado a guerra! Você lutou sem proteções quando os Ra’zac atacaram a sua aldeia na Espinha. Se gosta do seu primo e quer derrotar Galbatorix, terá de voltar a aprender a lutar sem elas.
Quando terminou, Roran, curvou a cabeça. Ela tem razão.
— Partirei imediatamente.
— Agradeço muito.
— Com a sua permissão...
Roran virou-se e encaminhou-se para a porta, mas no momento em que passava pela soleira, Nasuada chamou-o:
— Ah, Martelo Forte.
Ele olhou para trás, curioso.
— Tente não incendiar Aroughs, por favor. Cidades são bastante difíceis de substituir.

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Boa leitura :)