3 de junho de 2017

Capítulo 11 - Lobo-de-sangue

Que homem orgulhoso, pensou Nasuada ao observar Roran sair do pavilhão. É interessante; ele e Eragon são iguais em várias coisas, mas ainda assim suas personalidades são fundamentalmente diferentes. Eragon talvez seja um dos guerreiros mais mortíferos da Alagaësia, mas não é uma pessoa dura ou cruel. Roran, entretanto, é feito de um material mais inflexível. Espero que jamais se oponha a mim; eu seria obrigada a destruí-lo para contê-lo.
Ela verificou as bandagens e, satisfeita por ainda estarem limpas, chamou Farica e pediu que trouxesse a refeição. Depois que sua aia entregou a comida e se retirou da tenda, Nasuada fez um sinal para Elva, que emergiu de seu esconderijo atrás do falso painel nos fundos do pavilhão. Juntas, compartilharam o repasto do meio da manhã.
Nasuada passou as horas seguintes revisando os últimos relatórios dos Varden, calculando o número de vagões necessários para removê-los mais para o norte e adicionando e subtraindo fileiras de números que representavam as finanças de seu exército. Enviou mensagens para os anões e Urgals, pediu aos espadeiros que aumentassem a produção de pontas de lança, ameaçou dissolver o Conselho de Anciãos – como fazia a cada semana – e, para variar, participou dos afazeres dos Varden.
Então, com Elva a seu lado, cavalgou seu garanhão, Tempestade na Guerra, e se encontrou com Trianna, que havia capturado um membro da rede de espiões de Galbatorix, a Mão Negra, e estava ocupada interrogando-o.
Quando ela e Elva saíram da tenda de Trianna, Nasuada deu-se conta de um tumulto ao norte. Ouviu gritos e hurras e então um homem apareceu do meio das tendas correndo em sua direção. Sem dizer uma palavra, todos os seus guardas formaram um círculo fechado em torno dela. Salvo um dos Urgals, que se plantou no caminho do corredor e ergueu seu porrete. O homem diminuiu a velocidade até parar diante do Urgal e, arfando, gritou:
— Lady Nasuada! Os elfos estão aqui! Os elfos chegaram!
Num átimo primitivo, Nasuada pensou que ele estava querendo dizer Islanzadí e seu exército, mas então se lembrou que a rainha estava perto de Ceunon; nem mesmo os elfos poderiam deslocar um exército tão grande através da Alagaësia em menos de uma semana.
Devem ser os doze criadores de encantamentos que Islanzadí enviou para proteger Eragon.
— Rápido, meu cavalo — disse ela, estalando os dedos.
Seus antebraços queimaram enquanto montava sobre Tempestade na Guerra. Esperou apenas o suficiente para que o Urgal mais próximo lhe desse Elva e então esporeou o garanhão. Pôde sentir os músculos dele intumescerem assim que o animal começou a galopar. Curvando-se bastante sobre o pescoço do cavalo, ela o conduziu através de uma senda tosca entre duas tendas, desviando de homens e animais e saltando sobre um barril de água de chuva que lhe bloqueava o caminho. Os homens não pareceram ter ficado ofendidos; riram e correram atrás dela para poderem ver os elfos com seus próprios olhos.
Quando chegou à entrada norte do acampamento, ela e Elva desmontaram e rastrearam o horizonte em busca de algum sinal de movimento.
— Lá — apontou Elva.
Quase cinco quilômetros dali, doze figuras altas emergiram de trás de um grupo de juníperos, seus contornos ondulando no calor da manhã. Os elfos corriam em uníssono, tão leves e rápidos que seus pés não levantavam poeira. Parecia que voavam por sobre o campo.
Nasuada sentiu um comichão no couro cabeludo. A velocidade deles era não só bela como também pouco natural. Eles lhe lembravam um bando de predadores caçando sua presa. Teve a mesma sensação de perigo quando vira um Shrrg, um lobo gigante, nas montanhas Beor.
— São dignos de louvor, não são?
Nasuada tomou um susto e encontrou Angela a seu lado. Ficou aturdida e intrigada pela forma como a herbolária conseguira surgir de modo tão furtivo. Desejava que Elva a tivesse avisado de sua aproximação.
— Como é possível que você sempre consiga estar presente quando alguma coisa importante está para acontecer?
— Ah, bem, eu gosto de saber o que está acontecendo, e estar no local é bem mais rápido do que esperar que alguém me conte depois. Além disso, as pessoas sempre omitem partes importantes da informação, tipo se o dedo anular de uma pessoa é maior do que o indicador, ou se possui uma blindagem mágica, ou se o jumento que está montando tem uma parte sem pelo no formato de cabeça de galo. Você concorda?
Nasuada franziu o cenho.
— Você nunca revela seus segredos, não é?
— Agora me diga, o que isso adiantaria? Todo mundo ficaria excitado por causa de alguma baboseira ou algum encantamento e aí eu teria de passar horas e horas tentando explicar, e no fim o rei Orrin ia querer arrancar minha cabeça e eu teria de enfrentar metade dos feiticeiros do reino durante minha fuga. Simplesmente não vale a pena o esforço, se quer saber.
— Sua resposta não me inspira muita confiança. Mas...
— Isso é porque você é séria demais, lady Caçadora Noturna.
— Mas, diga-me — persistiu Nasuada —, por que você teria interesse em saber se alguém está montando um jumento com uma parte sem pelo no formato de uma cabeça de galo?
— Ah, isso? Bem, o homem que possui este jumento específico me enganou em um jogo de pedrinhas e por três pedrinhas eu perdi um fragmento muito interessante de cristal encantado.
— Enganou você?
Angela mordeu os lábios, obviamente entediada.
— O tabuleiro estava cheio. Eu mudei algumas pedras de lugar, mas ele substituiu por outras quando eu estava distraída... Ainda não estou certa de como conseguiu me enganar.
— Então, vocês dois estavam roubando.
— Era um cristal valioso! Além disso, como se rouba de um ladrão?
Antes que Nasuada pudesse responder, os seis Falcões da Noite vieram marchando do campo e se posicionaram em torno dela. Ela escondeu seu desgosto quando foi invadida pelo calor e o cheiro de seus corpos. O odor dos dois Urgals era particularmente pungente. Então, de modo até certo ponto surpreendente para ela, o capitão de plantão, um homem corpulento com um nariz torto e de nome Garven, aproximou-se:
— Minha lady, permita-me uma palavra em particular? — perguntou ele, entre dentes, como se estivesse lutando para conter uma grande emoção.
Angela e Elva olharam para Nasuada para confirmar que desejava que se retirassem. Ela assentiu, e as duas começaram a caminhar em direção ao oeste, para o rio Jiet.
Assim que Nasuada teve certeza de que estavam a uma distância segura, começou a falar, mas Garven passou por cima dela, exclamando:
— Raios, lady Nasuada, você não deveria ter nos abandonado dessa maneira!
— Calma, capitão — retrucou ela. — Foi um risco suficientemente pequeno, e eu senti que era importante estar aqui a tempo de saudar os elfos.
A cota de malha de Garven farfalhou quando ele golpeou a perna com a mão empunhada.
— Um pequeno risco? Não faz mais do que uma hora, teve a prova de que Galbatorix ainda tem agentes escondidos entre nós. Ele tem conseguido se infiltrar em nossas fileiras seguidamente e ainda assim julga sensato abandonar sua guarda pessoal e sair cavalgando em meio a um exército de potenciais assassinos! Esqueceu-se do ataque em Aberon? Ou de como os Gêmeos trucidaram seu pai?
— Capitão Garven! Você está indo longe demais.
— Irei mais longe ainda se isto significar garantir seu bem-estar.
Os elfos, Nasuada observou, haviam dividido ao meio a distância entre eles e o acampamento.
Zangada e ansiosa para encerrar a conversa, disse:
— Não estou sem minha proteção pessoal, capitão.
Garven piscou rapidamente os olhos na direção de Elva e disse:
— Tivemos a mesma percepção, lady. — Seguiu-se uma pausa, como se ele estivesse na esperança de que ela lhe forneceria mais informações de livre e espontânea vontade. Como ela permanecesse em silêncio, ele avançou: — Se estava realmente segura, então eu estava errado em acusá-la de imprudência e peço desculpas. Mas, ainda assim, segurança e aparência de segurança são duas coisas diferentes. Para os Falcões da Noite serem eficientes, temos de ser os guerreiros mais inteligentes, duros e cruéis da região, e as pessoas têm de acreditar que nós somos os mais inteligentes, os mais duros e os mais cruéis. Têm de acreditar que, se tentarem esfaquear ou atirar na senhora com uma besta ou se usarem magia, nossos soldados acabarão com elas. Se acreditarem que têm mais ou menos as mesmas chances de matá-la quanto um camundongo de matar um dragão, então com certeza abandonarão a ideia e nós teremos evitado um ataque sem nem mesmo precisar erguer um dedo.
“Nós não podemos combater todos os seus inimigos, lady Nasuada. Para isso seria preciso um exército. Até mesmo Eragon não poderia salvá-la se todos que a querem morta tivessem a coragem de agir de acordo com seu ódio. Talvez a senhora sobrevivesse a uma centena ou mesmo a um milhar de atentados à sua vida, mas no final algum obteria sucesso. A única maneira de evitar que isso aconteça é convencer a maioria de seus inimigos de que jamais sobrepujarão os Falcões da Noite. Nossa reputação pode protegê-la tão certamente quanto nossas espadas e nossas armaduras. Então, não é bom para nós que a vejam cavalgando sem nossa vigilância. Sem dúvida nós parecemos um bando de tolos tentando alcançá-la naquele frenesi. Afinal, lady, se a senhora não nos respeita, por que os outros deveriam nos respeitar?”
Garven aproximou-se e diminuiu a voz:
— Nós morreremos de bom grado pela senhora, se preciso for. Tudo o que pedimos em troca é que nos permita realizar nossas tarefas. Se pensar bem, é um pequeno favor. E um dia, quem sabe, nos será grata por estarmos aqui. Sua outra proteção é humana, portanto falível, quaisquer que sejam seus arcanos. Ela não fez os mesmos juramentos na língua antiga que nós, Falcões da Noite, fizemos. Sua amizade pode mudar de lado, e faria bem em avaliar seu destino se ela se voltar contra a senhora. Os Falcões da Noite, entretanto, jamais a trairão. Nós somos seus, lady Nasuada, total e completamente. Então, por favor, deixe que os Falcões da Noite façam o que devem fazer... Deixe-nos protegê-la.
Inicialmente, Nasuada foi indiferente aos seus argumentos, mas sua eloquência e clareza de raciocínio a impressionaram. Ele era, imaginou, um homem que talvez ela pudesse utilizar em alguma outra função.
— Vejo que Jörmundur me cercou de guerreiros tão habilidosos com suas línguas quanto são com suas espadas — disse, com um sorriso.
— Minha lady.
— Você tem razão. Eu não deveria ter deixado você e seus homens para trás. Peço desculpas. Fui descuidada e desrespeitosa. Ainda não estou acostumada a ter guardas comigo todas as horas do dia, e às vezes me esqueço de que não posso me deslocar com a liberdade de antes. Você tem minha palavra de honra, capitão Garven, que isso não se repetirá. Desejo salvaguardar os Falcões da Noite tanto quanto você.
— Obrigado, minha lady.
Nasuada voltou-se para os elfos, mas estavam escondidos atrás da margem de um ribeirão seco a uns trezentos metros dali.
— Garven, fiquei impressionada por você ter inventado um lema para os Falcões da Noite há poucos instantes.
— Eu? Se inventei, não me recordo.
— Inventou sim. “Os mais inteligentes, os mais duros e os mais cruéis”, você disse. Isso daria um excelente lema, embora talvez sem o e. Se os outros Falcões da Noite aprovarem, fale para Trianna traduzir a frase para a língua antiga e eu vou mandar gravar nos escudos e bordar nos estandartes de vocês.
— Você é muito generosa, minha lady. Assim que retornarmos à nossa tenda, vou discutir o assunto com Jörmundur e os outros capitães. Só que...
Ele hesitou, e, adivinhando o que poderia estar perturbando-o, Nasuada disse:
— Mas você está preocupado com o fato de que tal mote talvez seja vulgar demais para homens de sua posição e preferiria algo mais nobre e elevado, estou certa?
— Exatamente, minha lady — concordou ele, com uma expressão de alívio.
— É uma preocupação válida, suponho. Os Falcões da Noite representam os Varden, e vocês devem interagir com notáveis de todas as raças e escalões no curso de suas tarefas. Seria lamentável se transmitissem a impressão errada... Muito bem, deixo para você e seus compatriotas criarem um lema apropriado. Tenho confiança de que farão um trabalho excelente.
Naquele momento, os doze elfos emergiram de seu esconderijo, e Garven, após murmurar agradecimentos adicionais, afastou-se discretamente de Nasuada.
Compondo-se para uma visita oficial, Nasuada fez um sinal para que Angela e Elva retornassem.
Quando ainda se encontrava a vários metros de distância, o líder dos elfos parecia preto como fuligem, dos pés à cabeça. A princípio, Nasuada achou que ele tivesse a pele escura como ela própria, e estivesse igualmente vestido com um traje escuro, mas à medida que se aproximava, ela viu que o elfo estava vestindo apenas uma tanga e um cinto de tecido trançado com uma pequena bolsa atada a ele. O resto era coberto com uma pelagem azul-escura que refletia um brilho lustroso e saudável à luz do sol. Em média, o pelo tinha um centímetro de espessura – uma armadura macia e flexível que acompanhava o formato e o movimento dos músculos subjacentes – mas nos tornozelos e abaixo dos antebraços, chegava a uns dois centímetros. Entre os ombros, havia uma crina eriçada que se destacava um palmo além de seu corpo e descia acompanhando suas costas até a base da coluna. Mechas rebeldes faziam uma sombra sobre sua testa, e tufos parecidos com os dos gatos brotavam das pontas de suas orelhas pontudas. Mas, fora isso, o pelo em seu rosto era tão curto e baixo que apenas a cor traía sua presença. Seus olhos eram de um amarelo vivaz. Em vez de unhas, uma garra saía de cada um dos dedos médios. E quando diminuiu o passo e chegou perto dela, Nasuada reparou que um certo odor o acompanhava: um almíscar salgado remanescente de madeira seca de junípero, couro oleoso e fumaça. Era um cheiro tão forte, e tão obviamente masculino, que Nasuada sentiu sua pele ficar quente e fria ao mesmo tempo e se agitar com a expectativa. Enrubesceu e ficou feliz por não demonstrar.
O restante dos elfos tinha a aparência mais condizente com sua expectativa, com o mesmo tamanho e fisionomia de Arya, com túnicas curtas de um amarelo soturno ou verde-claro. Seis homens e seis mulheres. Todos tinham o cabelo de um preto retinto, salvo duas das mulheres cujos cabelos pareciam luz estelar. Era impossível determinar as idades deles, já que os rostos eram lisos e inexpressivos.
Aqueles eram os primeiros elfos, além de Arya, que Nasuada conhecia pessoalmente, e estava ansiosa para descobrir se a princesa elfa era representativa de sua raça.
Tocando seus dois primeiros dedos nos lábios, o líder elfo fez uma mesura, assim como seus companheiros, e então torceu a mão direita contra o peito e disse:
— Saudações e felicitações, Nasuada, filha de Ajihad. Atra esterní ono thelduin.
Seu sotaque era mais pronunciado do que o de Arya: uma cadência ritmada que transformava suas palavras em música.
— Atra du evarínya ono varda — replicou Nasuada, como Arya lhe havia ensinado.
O elfo sorriu, revelando dentes mais afiados do que o normal.
— Sou Blödhgarm, filho de Ildrid, a Bela. — Ele apresentou os outros elfos um a um antes de continuar: — Nós lhe trazemos boas-novas da rainha Islanzadí; ontem à noite nossos feiticeiros destruíram os portões de Ceunon. Neste exato instante, nossas forças avançam através das ruas em direção à torre onde lorde Tarrant montou uma barricada. Alguns ainda resistem, mas a cidade caiu, e logo nós todos teremos controle total sobre o lugar.
Os guardas de Nasuada e os Varden atrás dela gritaram de alegria com a notícia. Também ela regozijou-se com a vitória, mas logo uma sensação de apreensão e inquietação amainou seu clima de celebração ao imaginar os elfos – principalmente os tão fortes quanto Blödhgarm – invadindo lares humanos.
Que forças sobrenaturais terei eu liberado?, imaginou.
— Estas são boas-novas de fato — disse ela —, e eu estou bastante feliz de ouvi-las. Com Ceunon capturada, nós estamos bem mais próximos de Urû’baen e, por conseguinte, de Galbatorix e do alcance de nossas metas. — Com uma voz mais particular, ela disse: — Eu confio que a rainha Islanzadí será gentil com o povo de Ceunon, com aqueles que não sentem nenhum amor por Galbatorix, mas são desprovidos dos meios ou da coragem para se opor ao Império.
— A rainha Islanzadí é delicada e clemente para com seus súditos, mesmo os súditos refratários, mas se alguém ousar se opor a nós, será varrido como se fosse uma folha morta antes das tempestades de outono.
— Eu não esperaria menos de uma raça tão antiga e poderosa como a sua — replicou Nasuada. Após satisfazer as demandas de cortesia com diversas outras trocas mais polidas de crescente trivialidade, Nasuada julgou apropriado mencionar a razão da visita dos elfos. Ela mandou a multidão reunida se dispersar e então disse: — O propósito de sua visita é, do modo como entendo, proteger Eragon e Saphira. Estou certa?
— Está, Nasuada Svit-kona. E nós estamos cientes de que Eragon ainda está no interior do Império, mas que logo retornará.
— Também estão cientes de que Arya partiu em sua busca e de que estão agora viajando juntos?
Blödhgarm sacudiu a orelha.
— Fomos informados disso igualmente. É uma pena que ambos estejam em perigo, mas esperamos que nada de mal lhes aconteça.
— O que pretendem fazer, então? Vocês os procurarão e os conduzirão em segurança de volta aos Varden? Ou ficarão aqui na esperança de que Eragon e Arya possam defender-se dos asseclas de Galbatorix?
— Ficaremos como seus hóspedes, Nasuada, filha de Ajihad. Eragon e Arya ficarão suficientemente seguros na medida em que evitarem ser detectados. Nos juntarmos a eles no Império poderia muito bem atrair uma atenção indesejada. Nas atuais circunstâncias, parece mais sensato utilizarmos nosso tempo onde ainda seremos úteis. É muito provável que Galbatorix ataque os Varden aqui, e se ele o fizer, e se Thorn e Murtagh reaparecerem, Saphira precisará de nossa ajuda para repeli-los.
Nasuada ficou surpresa.
— Eragon disse que figuravam entre os feiticeiros mais fortes de sua raça, mas vocês têm mesmo os recursos para rechaçar aquela dupla maldosa. A exemplo de Galbatorix, eles têm poderes muito maiores dos que o que os Cavaleiros comuns possuem.
— Com Saphira nos ajudando, sim, nós acreditamos que podemos igualar ou superar Thorn e Murtagh. Sabemos do que os Renegados são capazes, e apesar de Galbatorix ter, provavelmente, tornado Thorn e Murtagh mais fortes do que qualquer membro individual do grupo, ele certamente não os tornará seus iguais. Neste particular, pelo menos, seu medo de traição está a nosso favor. Mesmo três dos Renegados não poderiam vencer doze de nós e um dragão. Portanto, estamos confiantes de que poderemos nos manter contra todos, exceto Galbatorix.
— Isso é animador. Desde a derrota de Eragon nas mãos de Murtagh, tenho imaginado se nós não deveríamos recuar e nos esconder até suas forças aumentarem. Sua certeza me convence de que não estamos totalmente desprovidos de esperança. Podemos não ter ideia de como mataremos Galbatorix, mas até derrubarmos os portões de sua cidadela em Urû’baen, ou até que ele escolha voar sobre Shruikan e nos confrontar no campo de batalha, nada deverá nos deter. — Ela fez uma pausa. — Vocês não me deram motivo algum para não confiar em vocês, Blödhgarm, mas antes que entre em nosso acampamento, devo pedir que permita que um de meus homens toque cada uma de suas mentes para confirmar que são realmente elfos e não humanos que Galbatorix enviou disfarçados. É muito triste para mim fazer essa solicitação, mas temos sido vítimas de incontáveis espiões e traidores e não ousamos acreditar em suas palavras nem de ninguém mais. Não é minha intenção causar ofensa, mas a guerra nos ensinou que estas precauções são necessárias. Certamente você, que já proveu toda a extensão de folhas de Du Weldenvarden com encantos protetores, pode entender meus motivos. Então eu pergunto: está de acordo?
Os olhos de Blödhgarm ficaram ferozes e seus dentes assustadoramente afiados enquanto respondia:
— A maior parte das árvores de Du Weldenvarden possui hastes, não folhas. Pode nos testar, se assim deseja, mas eu a aviso, quem quer que indique para a tarefa deve tomar um grande cuidado para não mergulhar muito profundamente em nossas mentes a menos que queira se ver despido de sua razão. É perigoso para os mortais perambular por nossas mentes; podem ficar facilmente perdidos e não conseguir retornar para seus corpos. E nem nossos segredos estão disponíveis para uma inspeção geral.
Nasuada entendeu. Os elfos destruiriam qualquer um que se aventurasse em território proibido.
— Capitão Garven — chamou ela.
Dando um passo para trás com a expressão de um homem que está prestes a encarar seu fim, Garven ficou de frente para Blödhgarm, fechou os olhos e franziu intensamente o cenho enquanto vasculhava sua consciência.
Nasuada mordeu a parte de dentro de seus lábios enquanto observava. Quando era criança, um homem de uma perna só chamado Hargrove a ensinou a esconder os pensamentos de telepatas e a bloquear e desviar as lanças pontiagudas de um ataque mental. Era bastante talentosa em ambas as habilidades, e embora jamais tivesse obtido êxito em iniciar contato com a mente de outra pessoa, era totalmente familiarizada com os princípios envolvidos. Era solidária, então, com a dificuldade e a delicadeza do que Garven estava tentando fazer. Um desafio ainda mais difícil, devido à estranha natureza dos elfos.
Angela inclinou-se em sua direção e sussurrou:
— Você deveria ter me mandado verificar os elfos. Teria sido mais seguro.
— Talvez — disse Nasuada. Apesar de toda a ajuda que a herbolária dera a ela e aos Varden, Nasuada ainda sentia-se desconfortável em confiar nela para assuntos oficiais.
Por mais alguns instantes, Garven continuou com seus esforços, e então seus olhos ficaram arregalados e ele começou a respirar em espasmos explosivos. Seu pescoço e rosto ficaram inchados e manchados devido ao esforço e suas pupilas dilatadas, como se fosse noite. Em contraposição, Blödhgarm parecia imperturbável; sua pelagem continuava lisa, sua respiração regular e um tênue sorriso bem-humorado insinuava-se nos cantos de seus lábios.
— E então? — perguntou Nasuada.
Parecia que Garven estava levando mais tempo do que o normal para ouvir a pergunta, e então o corpulento capitão de nariz encurvado respondeu:
— Ele não é humano, minha lady. Disso eu não tenho dúvida. Nenhuma dúvida.
Satisfeita e perturbada, já que havia algo desconfortavelmente remoto naquela resposta, Nasuada disse:
— Muito bem. Prossiga.
Consequentemente, Garven passou a requerer cada vez menos tempo para examinar os outros elfos, passando não mais do que alguns segundos com o último membro do grupo.
Nasuada manteve um olhar atento nele durante todo o processo, e viu como seus dedos ficaram brancos e sem sangue e a pele na altura das têmporas parecia encovada como os tímpanos de um sapo e como adquiriu a lânguida aparência de uma pessoa nadando debaixo d’água. Tendo completado sua tarefa, Garven retornou ao seu posto ao lado de Nasuada. Ele era, pensou a líder, um outro homem. Sua determinarão e firmeza de espírito originais haviam desvanecido na atmosfera sonhadora de um sonâmbulo. E enquanto olhava para ela quando foi perguntado se estava bem e respondera num tom suficientemente neutro, Nasuada teve a nítida sensação de que seu espírito estava bem distante, vagando por entre sendas secas e ensolaradas em algum canto da misteriosa floresta dos elfos.
Nasuada ficou torcendo para que se recuperasse logo. Do contrário, pediria que Eragon ou Angela, ou quem sabe os dois juntos, cuidasse de Garven. Até que suas condições melhorassem, decidiu que ele não mais serviria como membro ativo dos Falcões da Noite; Jörmundur daria algo mais simples para ele fazer, de modo que ela não precisasse se sentir culpada por lhe causar ainda mais dores e ele pudesse, finalmente, ter o prazer de desfrutar quaisquer que tivessem sido as visões que seu contato com os elfos havia lhe proporcionado.
Amargurada com sua perda e furiosa consigo mesma, com os elfos, com Galbatorix e com o Império por tornarem tal sacrifício necessário, ela teve dificuldade em manter a polidez e as boas maneiras.
— Quando falou em perigo, Blödhgarm, poderia ter mencionado que mesmo aqueles que retornam a seus corpos não escapam totalmente ilesos.
— Minha lady, eu estou bem — disse Garven. Seu protesto era tão fraco e inócuo que quase ninguém reparou, e apenas serviu para fortalecer a sensação de ultraje de Nasuada.
A pelagem sobre a nuca de Blödhgarm se eriçou e endureceu.
— Se eu falhei em me fazer suficientemente claro antes, peço desculpas. Entretanto, não nos culpe pelo que aconteceu; nós não podemos mudar nossa natureza. E tampouco culpe a si mesma, porque vivemos numa época de suspeitas. Permitir que passássemos incólumes teria sido negligente de sua parte. É lamentável que um incidente tão desagradável estrague este nosso encontro histórico, mas pelo menos agora a senhora pode ficar tranquila e confiante de que estabeleceu nossas origens e de que nós somos o que parecemos ser: elfos de Du Weldenvarden.
Uma refrescante nuvem almiscarada proveniente do elfo aterrissou em Nasuada, e mesmo endurecida de raiva, suas juntas amoleceram e ela foi tomada por imagens de caramanchões acetinados, jarras de vinho de cereja e das canções tristes dos anões que costumava ouvir ecoando através dos corredores vazios de Tronjheim. Distraída, comentou:
— Gostaria muito que Eragon e Arya estivessem aqui, porque poderiam examinar as mentes de vocês sem temer perder a sanidade.
Mais uma vez, sucumbiu à sensual atração do odor de Blödhgarm, imaginando como seria passar as mãos por sua juba. Só retornou a si quando Elva puxou seu braço esquerdo, forçando-a a se inclinar e colocar a orelha perto da boca da criança-bruxa. Com uma voz baixa e rascante, Elva disse:
— Marroio-branco. Concentre-se no sabor de marroio-branco.
Seguindo o conselho, Nasuada resgatou uma lembrança do ano anterior, quando havia comido bala de marroio-branco durante uma das festas do rei Hrothgar. A simples lembrança do sabor acre da bala ressecou sua boca e combateu as qualidades sedutoras do almíscar de Blödhgarm. Ela tentou ocultar seu lapso de concentração.
— Minha jovem companheira gostaria de saber por que você é tão diferente dos outros elfos. Devo confessar que nutro a mesma curiosidade. Sua aparência não é a que normalmente esperamos de sua raça. Você teria a gentileza de compartilhar conosco o motivo de suas feições serem mais animalescas?
Uma ondulação brilhante percorreu a pelagem de Blödhgarm quando ele deu de ombros.
— Essa forma me agradou. Algumas pessoas escrevem poemas sobre o sol e a lua, outras cultivam flores ou constroem grandes estruturas ou compõem músicas. Por mais que aprecie essas várias formas de arte, eu acredito que a verdadeira beleza só existe no dente de um lobo, no pelo de um gato selvagem, no olho de uma águia. Então eu adotei esses atributos. Daqui a cem anos, talvez eu perca o interesse nos animais terrestres e decida que os animais marinhos incorporam tudo o que é bom, e então me cobrirei de escamas, transformarei minhas mãos em nadadeiras e meus pés num rabo e sumirei em meio às ondas para jamais ser visto novamente na Alagaësia.
Se aquilo era uma brincadeira, como Nasuada acreditava, ele não estava dando nenhuma indicação. Muito ao contrário, estava tão sério que ela imaginava se não estaria caçoando dela.
— Muito interessante — limitou-se a dizer. — Espero que a vontade de se transformar em peixe não lhe apareça num futuro próximo, porque necessitamos de você aqui na terra. É claro que se Galbatorix decidir também escravizar os tubarões e os peixes, então um feiticeiro que consegue respirar debaixo d’água pode ser de grande utilidade.
Sem aviso, os doze elfos encheram o ar com uma sonora gargalhada em uníssono, e os pássaros num raio de dois quilômetros em todas as direções começaram a cantar.
O som de tamanha alegria era como água caindo sobre um cristal. Nasuada sorriu sem querer, e ao seu redor viu expressões similares nos rostos dos guardas. Até mesmo os dois Urgals pareciam loucos de alegria. E quando os elfos silenciaram e o mundo voltou a ser como era antes, Nasuada sentiu a tristeza de um sonho que se esvai. Uma lágrima obscureceu sua visão por alguns segundos, e então até isso desapareceu.
Sorrindo pela primeira vez e, portanto, apresentando um semblante ao mesmo tempo bonito e aterrorizante, Blödhgarm completou:
— Será uma honra servir ao lado de uma mulher tão inteligente, capaz e sagaz como a senhora, lady Nasuada. Qualquer dia, quando seus afazeres permitirem, terei prazer em lhe ensinar nosso jogo de runas. A senhora daria uma formidável oponente, tenho certeza.
A repentina mudança de comportamento dos elfos a fez lembrar de uma palavra que eventualmente ouvia os anões usarem para descrevê-los: volúveis. Parecia uma descrição suficientemente inofensiva quando era criança – reforçava a crença que tinha dos elfos como criaturas que saltavam de um prazer para outro, como fadas em um jardim – mas agora reconhecia que o que os anões realmente queriam dizer era: Cuidado! Cuidado porque nunca se sabe o que um elfo vai fazer.
Suspirou internamente, deprimida pela perspectiva de ter de lidar com outro grupo de seres com a intenção de manipulá-la.
A vida é sempre assim tão complicada?, perguntou-se. Ou será que eu atraio esse tipo de coisa?
Nas cercanias do acampamento, viu o rei Orrin cavalgando em sua direção à frente de uma maciça fileira de nobres, cortesãos, funcionários de alto e baixo escalões, conselheiros, assistentes, criados, soldados e uma pletora de outras espécies que ela nem. se importou em identificar.
Enquanto do oeste, descendo rapidamente com suas asas abertas, viu Saphira. Preparou-se para o barulhento tédio que estava para tomar conta deles:
— Talvez demore alguns meses até que eu possa aceitar seu convite, Blödhgarm, mas agradeço assim mesmo. Adoraria a distração de um jogo após um longo dia de trabalho. Por enquanto, contudo, este prazer deve permanecer adiado. Todo o peso da sociedade humana está para cair sobre vocês. Sugiro que se preparem para uma avalanche de nomes, perguntas e solicitações. Nós humanos somos muito curiosos e nenhum de nós jamais viu tantos elfos antes.
— Estamos preparados para isso, lady Nasuada — disse Blödhgarm.
Assim que o tonitruante cortejo do rei Orrin se aproximou e Saphira preparou-se para aterrissar, achatando a grama com o vento de suas asas, o último pensamento de Nasuada foi: Céus... Vou ter de colocar um batalhão em torno de Blödhgarm para impedir que seja despedaçado pelas mulheres no acampamento. E talvez nem isso resolva o problema!

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