3 de junho de 2017

Capítulo 10 - Uma questão delicada

Os músculos das costas de Roran saltavam e ondulavam enquanto erguia do chão a pedra enorme.
Por um instante, pousou a rocha nas coxas e então, com um grunhido, se esforçou para levantá-la acima da cabeça, com os braços retesados. Por um minuto inteiro, segurou no alto o peso esmagador. Quando seus ombros tremeram e estavam prestes a não aguentar mais, jogou a pedra no chão à sua frente. Ela caiu com um baque surdo, deixando na terra batida uma marca de alguns centímetros de profundidade.
De cada lado de Roran, vinte guerreiros dos Varden lutavam para levantar pedras de tamanho semelhante. Somente dois conseguiram. Os demais voltaram para as pedras mais leves, com as quais estavam acostumados. Agradou a Roran saber que os meses passados na ferraria de Horst e os anos anteriores de trabalho na lavoura tinham lhe dado força suficiente para não se envergonhar diante de homens treinados com armas todos os dias da vida, desde os doze anos de idade.
Roran sacudiu o calor que corria nos braços e respirou fundo diversas vezes, sentindo o frio do ar no peito nu. Levantando um braço, massageou o ombro direito e, com a mão cobrindo a bola de músculo, o explorou com os dedos. Mais uma vez confirmou que não restava sinal da lesão que tinha sofrido com a mordida do Ra’zac. Abriu um sorriso, feliz por estar ileso e são novamente, já que isso havia lhe parecido tão improvável quanto uma vaca dançando quadrilha.
Um gritinho de dor fez com que voltasse o olhar para Albriech e Baldor, que estavam treinando esgrima com Lang, um veterano mulato, cheio de cicatrizes de combate, que ensinava as artes da guerra.
Mesmo sendo dois contra um, Lang se saiu bem: com sua espada de treinamento, de madeira, desarmou Baldor, com um golpe atravessado na altura das costelas, e atingiu Albriech com tanta força na perna que ele caiu esparramado, tudo em questão de alguns segundos. Roran se identificou com eles, pois havia acabado sua própria sessão com Lang, o que o deixara com algumas contusões novas para fazer companhia às quase apagadas que sobraram de Helgrind.
Na maior parte do tempo, preferia o martelo a uma espada, mas achava que ainda deveria ser capaz de manejar uma lâmina, se a ocasião pedisse. As espadas exigiam mais refinamento do que ele achava que qualquer luta merecia: golpeie um espadachim no pulso e, com ou sem armadura, ele ficaria preocupado demais com os ossos quebrados para tentar se defender.
Depois da batalha da Campina Ardente, Nasuada convidara os moradores de Carvahall para se juntarem aos Varden. Todos haviam aceitado sua oferta. Os que teriam recusado já haviam decidido ficar em Surda quando os aldeões pararam em Dauth a caminho da Campina Ardente. Todos os homens capazes de Carvahall pegaram em armas decentes – desfazendo-se das lanças e escudos improvisados – e vinham trabalhando para se tornar guerreiros à altura de qualquer outro na Alagaësia. O povo do vale Palancar estava acostumado a uma vida dura. Brandir a espada não era pior do que cortar lenha; e era muito mais fácil do que romper a terra dura ou cultivar hectares de beterrabas no calor do verão.
Quem sabia uma profissão útil continuou a viver dela a serviço dos Varden, mas nas horas de folga continuavam a se esforçar para dominar o uso das armas que lhes foram dadas, pois era esperado que cada homem lutasse quando soasse o chamado para o combate.
Roran tinha se entregado ao treinamento com uma dedicação total desde seu retorno de Helgrind. Ajudar os Varden a derrotar o Império e, em última instância, Galbatorix, era a única coisa que podia fazer para proteger os aldeões e Katrina. Roran não era arrogante a ponto de acreditar que sozinho pudesse provocar um desequilíbrio de forças na guerra, mas tinha confiança na sua capacidade de fazer alguma diferença e sabia que, caso se aplicasse, poderia aumentar as chances de vitória dos Varden. Ele precisava manter-se vivo, porém, e isso significava condicionar o corpo e dominar as ferramentas e técnicas de trucidar pessoas, para evitar cair, vítima diante de um guerreiro mais experiente.
Enquanto atravessava o campo de treinamento, voltando para a barraca que dividia com Baldor, Roran passou por um trecho gramado com pouco menos de vinte metros de comprimento onde estava uma tora de uns seis metros, toda descascada e polida pelos milhares de mãos que a esfregavam diariamente. Sem perder o ritmo dos passos largos, Roran se virou, deslizou os dedos pela extremidade mais grossa da tora, ergueu-a e, grunhindo com o esforço, fez com que ficasse em pé. Deu então à tora um empurrão e ela tombou para a frente. Pegou-a pela extremidade mais fina e repetiu o processo mais duas vezes. Sem conseguir reunir forças para tombar a tora novamente, Roran deixou o campo e seguiu correndo pelo labirinto de tendas de lona cinzenta, acenando para Loring, Fisk e outros que reconhecia, bem como para cerca de meia dúzia de desconhecidos que o cumprimentaram.
— Salve, Martelo Forte! — gritaram, amistosos.
— Salve! — respondeu ele. É estranho, pensou, ser reconhecido por pessoas a quem não se foi apresentado.
Um minuto depois, chegou à tenda que tinha se tornado sua casa e, abaixando-se para entrar, guardou o arco, a aljava de flechas e a espada curta que os Varden lhe tinham dado. Puxou seu odre que estava ao lado da camada de palha onde dormia, voltou correndo para o sol forte e, tirando a tampa do odre, derramou o conteúdo sobre as costas e os ombros.
Banhos costumavam ser acontecimentos esporádicos e raros para Roran, mas hoje era um dia importante, e queria estar renovado e limpo para o que estivesse por vir. Com a ponta aguda de um bastão polido, raspou a sujeira grudada nos braços e pernas e retirou a que estava debaixo das unhas. Depois penteou os cabelos e aparou a barba.
Concluindo que estava apresentável, vestiu uma túnica recém-lavada, enfiou o martelo no cinto e estava prestes a sair pelo acampamento afora quando se deu conta de Birgit o observando por trás do canto da tenda. Com as duas mãos, ela segurava firme uma adaga embainhada.
Roran ficou paralisado, pronto para sacar o martelo diante da menor provocação. Sabia que estava correndo um perigo mortal e, apesar de sua bravura, não tinha certeza de conseguir derrotar Birgit se ela atacasse, pois, como ele, perseguia os inimigos com uma determinação ferrenha.
— No passado você me pediu que o ajudasse — disse Birgit —, e eu concordei porque queria encontrar os Ra’zac e matá-los por terem devorado meu marido. Não cumpri minha parte no trato?
— Cumpriu.
— E você se lembra de eu ter prometido que, uma vez que os Ra’zac morressem, eu exigiria minha compensação de você pelo seu papel na morte de Quimby?
— Eu me lembro.
Birgit torceu a adaga com insistência cada vez maior, o dorso das mãos riscado de tendões. A adaga saiu quase três centímetros de dentro da bainha, com o aço brilhante exposto, e então aos poucos voltou para a escuridão.
— Que bom! — disse ela. — Eu não ia querer que sua memória o traísse. Hei de exigir minha compensação, filho de Garrow. Nunca duvide disso. — Com o passo ágil e firme, ela partiu, já com a adaga escondida entre as dobras do vestido.
Soltando a respiração, Roran se sentou num banquinho ali perto e esfregou o pescoço, convencido de que tinha escapado por um triz de ser esfaqueado por Birgit.
Sua visita o alarmou, mas não foi nenhuma surpresa. Já havia meses que estava consciente das suas intenções, desde antes de partirem de Carvahall, e sabia que um dia teria de acertar sua dívida com ela.
Um corvo passava lá no alto e, enquanto Roran acompanhava seu voo, sentiu sua disposição de espírito ficar mais leve e sorriu. Ora, disse a si mesmo. É raro que um homem saiba o dia e a hora em que vai morrer. Eu poderia ser morto a qualquer instante, e não há nada que eu possa fazer a respeito. O que será, será, e não vou desperdiçar com preocupações o tempo que tenho acima da terra. Desgraças sempre chegam aos que esperam. O segredo é encontrar a felicidade nos breves intervalos entre os desastres. Birgit fará o que sua consciência mandar, e eu lidarei com isso quando for preciso.
Junto do pé esquerdo, viu uma pedra amarelada, que apanhou e rolou entre os dedos. Concentrando-se nela ao máximo, disse “Stenr reisa”. A pedra não deu atenção ao comando e permaneceu imóvel entre seu polegar e o indicador.
Bufando com desdém, ele a atirou longe.
Levantou-se e caminhou decidido em direção ao norte, entre as fileiras de tendas. Enquanto andava, tentava desfazer um nó na amarração da gola, mas ele resistia aos seus esforços. Desistiu de desfazê-lo quando chegou à tenda de Horst, que tinha o dobro do tamanho da maioria.
— Ô de casa! — chamou ele, batendo no poste entre as duas abas de lona da entrada.
Katrina saiu correndo da tenda, com os cabelos da cor de cobre esvoaçantes, e o abraçou. Rindo, Roran a levantou pela cintura e a fez girar em torno de si mesmo, com o mundo inteiro fora de foco menos o rosto de Katrina.
E então a pôs no chão com delicadeza. Ela lhe deu um curto beijo nos lábios, uma, duas, três vezes. Ele parou e olhou no fundo dos seus olhos, mais feliz do que conseguia se lembrar de ter se sentido um dia.
— Que cheiro bom! — disse ela.
— E você, como está?
A única falha na sua alegria era ver como a prisão a tinha deixado magra e pálida. Dava-lhe vontade de ressuscitar os Ra’zac para que pudessem suportar o mesmo sofrimento que tinham imposto ao seu pai e a ela.
— Todos os dias você me pergunta, e todos os dias eu lhe digo “Melhor”. Tenha paciência. Eu vou me recuperar, mas vai levar tempo... O melhor remédio para o que me aflige é estar aqui com você à luz do dia. Isso me faz um bem maior do que eu poderia descrever.
— Não era só isso que eu queria saber.
Manchas vermelhas surgiram nas bochechas de Katrina, e ela inclinou a cabeça para trás, dando-lhe um sorriso malicioso.
— Ora, é uma audácia sua, meu caro senhor. Muita audácia. Não sei se deveria estar sozinha na sua companhia, para que o senhor não tome liberdades comigo.
O tom da resposta acalmou a preocupação de Roran.
— Liberdades, hein? Bem, como você já me considera um patife, acho melhor eu começar a desfrutar de algumas dessas liberdades. — E a beijou até que ela interrompesse o contato, apesar de continuar nos seus braços.
— Ai — disse Katrina, ofegante. — É difícil discutir com você, Roran Martelo Forte.
— É mesmo. — Com um gesto de cabeça na direção do interior da tenda atrás dela, ele abaixou a voz e perguntou: — Elain sabe?
— Saberia se não estivesse tão mergulhada na própria gravidez. Acho que o estresse da viagem de Carvahall pode provocar a perda do bebê. Ela passa mal uma boa parte do dia e sente dores que... bem, dores de natureza preocupante. Gertrude vem cuidando dela, mas não consegue fazer muito para aliviar sua indisposição. Seja como for, quanto mais rápido Eragon voltar, melhor. Não sei ao certo por quanto tempo vou conseguir manter isso em segredo.
— Vai dar tudo certo, tenho certeza. — Ele a soltou e puxou a bainha da túnica para alisar as rugas. — Estou bem assim?
Katrina o examinou com olho crítico, molhou a ponta dos dedos e passou pelo cabelo de Roran, afastando-o da testa. Ao perceber o nó na gola, ela começou a desfazê-lo.
— Você devia prestar mais atenção às suas roupas.
— É que as roupas não andaram tentando me matar.
— Bem, as coisas agora estão diferentes. Você é o primo de um Cavaleiro de Dragão, e sua aparência deveria ser condizente. É o que as pessoas esperam.
Ele permitiu que ela continuasse a arrumá-lo até ficar satisfeita com sua aparência. Com um beijo de despedida, foi caminhar os oitocentos metros que o separavam do centro do enorme acampamento dos Varden, onde ficava o pavilhão vermelho de comando de Nasuada.
O estandarte hasteado no alto trazia um escudo preto e abaixo duas espadas paralelas, inclinadas, que panejava e estalava com o vento quente vindo do leste. Os seis guardas do lado de fora do pavilhão – dois humanos, dois anões e dois Urgals – baixaram as armas quando Roran se aproximou.
— Quem vem lá? — gritou um dos Urgals, um bruto musculoso, de dentes amarelos, exigindo que se identificasse, num sotaque quase ininteligível.
— Roran Martelo Forte, filho de Garrow. Nasuada mandou me chamar.
O Urgal bateu no peitoral com um punho, o que produziu um forte estrondo, antes de anunciar:
— Roran Martelo Forte solicita audiência com lady Caçadora Noturna.
— Permitam que entre — veio a resposta lá de dentro.
Os guerreiros ergueram as armas, e Roran passou com cuidado por eles. Observavam-no, e também ele os observava, com o ar neutro de homens que poderiam ter de lutar uns com os outros a qualquer instante.
No interior do pavilhão, Roran ficou alarmado ao ver que a maior parte da mobília estava quebrada ou caída. As únicas peças que pareciam estar incólumes eram um espelho instalado num poste e a cadeira imponente em que Nasuada estava sentada.
Sem fazer caso do ambiente, Roran se ajoelhou e fez uma reverência diante dela. As feições e o porte de Nasuada eram tão diferentes daqueles das mulheres com quem Roran tinha crescido que não tinha certeza de como agir. Ela parecia estranha e imperiosa, com seu vestido bordado, as correntes de ouro no cabelo e a pele escura, que, no momento, tinha um tom avermelhado, decorrente da cor das paredes de tecido. Em forte contraste com o restante do traje, ataduras de linho envolviam seus antebraços, testemunho da sua coragem espantosa durante o Desafio das Facas Longas. Seu feito havia sido tópico de conversas constantes entre os Varden desde que Roran voltara com Katrina. Esse era um aspecto de Nasuada que Roran acreditava compreender, pois ele também faria qualquer sacrifício para proteger aqueles com quem se importava. Por acaso, ela se importava com um grupo de milhares de pessoas, ao passo que a dedicação dele era para com sua família e seu lugarejo.
— Pode se levantar — disse Nasuada. Ele obedeceu à instrução e pousou a mão na cabeça do martelo, esperando enquanto ela o observava. — Minha posição raramente me permite o luxo de falar de modo direto e claro, Roran; mas com você vou falar hoje sem rodeios. Você me parece ser um homem que aprecia a franqueza, e nós temos muito a examinar num período curto demais.
— Obrigado, minha lady. Jamais gostei de jogos de palavras.
— Ótimo. Para ser franca, então, você me apresenta duas dificuldades, nenhuma das quais consigo resolver facilmente.
— Dificuldades de que tipo? — perguntou ele, franzindo o cenho.
— Uma, de caráter; a outra, de natureza política. Seus feitos no vale Palancar e durante sua fuga de lá com os aldeões seus companheiros são praticamente inacreditáveis. Eles me dizem que você tem uma mente ousada, que tem talento para o combate, para a estratégia e para inspirar pessoas a acompanhá-lo com uma lealdade sem questionamentos.
— Eles podem ter me acompanhado, mas sem dúvida nunca pararam de me questionar.
— Pode ser — disse ela, com um sorriso discreto. — Mas ainda assim conseguiu trazê-los para cá, não foi? Você possui talentos valiosos, Roran, e poderia ser útil para os Varden. Suponho que queira ser aproveitado, certo?
— Quero.
— Como sabe, Galbatorix dividiu seu exército e enviou tropas para o sul para reforçar a cidade de Aroughs, para o oeste na direção de Feinster e para o norte na direção de Belatona. Ele espera que essa guerra se arraste, para esgotar nossa última gota de sangue em uma longa disputa. Jörmundur e eu não podemos estar numa dúzia de lugares ao mesmo tempo. Precisamos de capitães nos quais possamos confiar para lidar com a infinidade de conflitos que brotam ao nosso redor. Nisso, você poderia provar seu valor para nós. Mas... — Sua voz sumiu.
— Mas vocês ainda não sabem se podem confiar em mim.
— É verdade. Proteger os amigos e a família fortalece uma pessoa, mas eu me pergunto como você se sairá sem eles. Sua coragem vai se manter? E embora você saiba liderar, será que sabe também obedecer a ordens? Não lanço dúvidas sobre seu caráter, Roran, mas o destino da Alagaësia está em jogo e não posso me arriscar a entregar a responsabilidade por meus homens a alguém incompetente. Esta guerra não perdoará erros desse tipo. Nem seria justo para com os homens já com os Varden dar a você uma posição superior à deles sem um bom motivo. Você precisa conquistar suas responsabilidades conosco.
— Entendi. O que se espera que eu faça então?
— Ah, mas não é assim tão fácil, pois você e Eragon são praticamente irmãos, e isso complica imensamente as coisas. Como tenho certeza de que você percebeu, Eragon é fundamental para nossas esperanças. É, portanto, importante protegê-lo de perturbações para que possa se concentrar na tarefa que tem pela frente. Se eu mandá-lo para a batalha e você morrer, a dor e a raiva poderiam muito bem desequilibrar Eragon. Já vi isso acontecer. Além disso, preciso tomar extremo cuidado com a pessoa a quem vou permitir que você se reporte. Pois haverá quem queira procurar influenciá-lo por causa da sua relação com Eragon. Agora você tem uma boa ideia do alcance das minhas preocupações. O que tem a dizer sobre elas?
— Se a própria terra está em jogo e esta guerra for tão acirrada quanto a senhora sugere, só posso dizer que vocês não podem se dar ao luxo de me deixar ocioso. Seria um desperdício semelhante se me empregassem como mais um espadachim. Mas acho que isso a senhora já sabe. Quanto à política... — Ele deu de ombros. — Para mim não faz a menor diferença a quem serei designado. Ninguém chegará a Eragon através de mim. Meu único interesse é acabar com o Império para poder voltar com meus parentes e amigos para nossa terra natal e lá viver em paz.
— Você tem determinação.
— Muita. A senhora não poderia permitir que eu permanecesse encarregado dos homens de Carvahall? Somos unidos como se fôssemos uma família e funcionamos bem juntos. Testem-me dessa forma. Assim, os Varden não seriam prejudicados se fracassássemos.
— Não — disse ela, abanando a cabeça. — Talvez no futuro, mas não por enquanto. Eles precisam receber instrução adequada, e eu não vou poder avaliar seu desempenho se você estiver cercado de pessoas tão leais que, por recomendação sua, se dispuseram a abandonar seus lares e atravessar a Alagaësia de um lado a outro.
Ela me considera uma ameaça, percebeu ele. Minha capacidade de influenciar os aldeões faz com que mc trate com cautela.
— Eles tinham seu próprio bom senso a guiá-los — disse ele, numa tentativa de desarmá-la. — Sabiam que seria loucura permanecer no vale.
— Você não vai conseguir anular o comportamento deles, Roran, com essa explicação.
— Então, senhora, o que quer de mim? Vai permitir que eu lhe sirva ou não? E, em caso positivo, como?
— Eis minha oferta. Hoje pela manhã, meus mágicos detectaram uma patrulha de vinte e três soldados de Galbatorix seguindo para leste. Estou despachando um contingente sob o comando de Martland Barba Ruiva, conde de Thun, para destruí-los e explorar um pouco o terreno. Se você concordar, servirá sob o comando de Martland. Dará ouvidos a ele, obedecerá às suas ordens, e esperemos que aprenda com ele. Ele, por sua vez, vai observá-lo e me informar se achar que tem potencial para ser promovido. Martland é muito experiente, e eu confio plenamente na sua opinião. Isso lhe parece justo, Roran Martelo Forte?
— Parece. Só preciso saber quando eu partiria e quanto tempo levaria para voltar.
— Partiria hoje e voltaria no prazo de quinze dias.
— Então, preciso lhe pedir, seria possível aguardar para me enviar numa expedição diferente, daqui a alguns dias? Gostaria de estar aqui quando Eragon voltar.
— Sua preocupação com seu primo é admirável, mas tudo se desenrola rapidamente, e não podemos nos atrasar. Assim que soubermos o que houve com Eragon, pedirei a um membro da Du Vrangr Gata que entre em contato com você para lhe transmitir a notícia, seja boa, seja má.
Roran passou o polegar pelas pontas aguçadas do martelo enquanto procurava compor uma resposta que convencesse Nasuada a mudar de opinião e ao mesmo tempo não lhe revelasse seu segredo. Por fim, abandonou a ideia por ser impossível e se resignou a contar a verdade.
— A senhora tem razão. Estou preocupado com Eragon, mas ele é a pessoa que mais sabe se defender. Vê-lo são e salvo não é o motivo pelo qual desejo ficar.
— Por que, então?
— Porque Katrina e eu queremos nos casar e gostaríamos que Eragon realizasse a cerimônia.
Ouviu-se uma cascata de estalidos enquanto Nasuada batia com as unhas nos braços da cadeira.
— Se você acredita que vou permitir que você fique à toa, quando poderia estar prestando serviços aos Varden, só para que você e Katrina possam ter sua noite de núpcias alguns dias antes, está terrivelmente enganado.
— É uma questão de certa urgência, lady Caçadora Noturna.
Os dedos de Nasuada pararam no ar e seus olhos se contraíram.
— Que tipo de urgência?
— Quanto mais cedo nos casarmos, melhor para a honra de Katrina. Se a senhora me entende, saiba que eu jamais pediria um favor para mim mesmo.
A luz mudou sobre a pele de Nasuada quando ela inclinou a cabeça.
— Entendo... Por que Eragon? Por que você quer que ele realize a cerimônia? Por que não outra pessoa: talvez um ancião do seu vilarejo?
— Porque é meu primo, eu gosto dele e ele é um Cavaleiro. Katrina perdeu quase tudo por minha causa: a casa, o pai e o dote. Não posso compensá-la por nada disso, mas pelo menos quero lhe dar um casamento digno de ser lembrado. Sem ouro nem gado, não posso pagar por uma cerimônia esplêndida. Por isso, preciso encontrar outros meios que não sejamos da riqueza para tornar nosso casamento memorável. E me parece que nada poderia ser mais impressionante que pedir a um Cavaleiro de Dragão que nos case.
Nasuada ficou tanto tempo em silêncio que Roran começou a se perguntar se ela esperava que ele saísse.
— Seria realmente uma grande honra que um Cavaleiro de Dragão casasse vocês dois, mas seria um dia triste se Katrina precisasse aceitar sua mão sem um dote decente. Os anões me deram muitos presentes de ouro e pedras preciosas quando morei em Tronjheim. Alguns, já vendi para financiar as atividades dos Varden, mas o que me resta manteria uma mulher vestida em cetim e peles ainda por muitos anos. Pertencerão a Katrina, se você concordar.
Pasmo, Roran fez mais uma reverência.
— Obrigado, sua generosidade é inimaginável. Não sei como vou conseguir retribuir um dia.
— Retribua lutando pelos Varden como lutou por Carvahall.
— Lutarei. Eu juro. Galbatorix amaldiçoará o dia em que mandou os Ra’zac atrás de mim.
— Tenho certeza de que já amaldiçoa. Agora vá. Pode permanecer no acampamento até Eragon voltar e casá-lo com Katrina. Mas então espero que esteja pronto para partir na manhã do dia seguinte.

Um comentário:

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Boa leitura :)