23 de junho de 2017

Capítulo 10 - Uma cantiga de ninar

A luz ténue do pôr-do-sol iluminava o interior da tenda de Eragon. Tudo lá dentro estava cinzento, como se fosse talhado em granito.
Eragon conseguia distinguir facilmente a forma dos objetos com a sua visão de elfo, mas sabia que Gertrude iria ter dificuldades; por isso disse:
— “Naina hvitr un böllr” — produzindo uma pequena luz mágica e colocando-a a flutuar junto do topo da tenda. A suave esfera branca não produzia calor perceptível, mas iluminava tanto como uma lanterna brilhante. Evitou usar a palavra brisingr no feitiço, para não incendiar o gume da espada.
Ouviu Gertrude deter-se atrás dele e virou-se, vendo-a olhar para a luz mágica e apertar o saco que trouxera consigo. O rosto familiar recordava-lhe a sua casa e Carvahall, e ele sentiu uma inesperada pontada de saudades.
Gertrude baixou lentamente os olhos para ele.
— Como você mudaste — disse ela. — Acho que o rapaz de quem um dia cuidei, enquanto lutava contra a febre, há muito que desapareceu.
— Ainda me conheces — respondeu Eragon.
— Não, acho que não.
A afirmação perturbou-o, mas não podia dar-se ao luxo de pensar muito no assunto, por isso tentou abstrair-se e aproximou-se do seu catre, transferindo muito delicadamente a recém-nascida dos braços para cima dos cobertores, como se esta fosse de vidro.
A rapariguinha acenou-lhe com o punho cerrado. Ele sorriu, tocando-lhe com a ponta do indicador direito e ela gorgolejou suavemente.
— O que tencionas fazer? — perguntou Gertrude, ao sentar-se no único banco que havia junto da parede da tenda. — Como vais curá-la?
— Não sei bem.
Só então Eragon reparou que Arya não os acompanhara até ao interior da tenda. Chamou por ela e ela respondeu do exterior, instantes depois, com a voz abafada pelo tecido grosso que os separava.
— Estou aqui — disse ela — e vou esperar aqui. Se precisares de mim, basta projetares os teus pensamentos na minha direção e eu vou aí.
Eragon franziu ligeiramente a sobrancelha, pois contava tê-la perto de si durante o processo para o ajudar no que não sabia e corrigilo se cometesse algum erro. “Bom, não tem importância. Poderei à mesma fazer-lhe perguntas, se quiser. Esta é única forma de evitar que Gertrude desconfie que Arya fez algo à bebé.” Eragon estava impressionado com as precauções que Arya estava a tomar para evitar levantar suspeitas de que a criança fora trocada e interrogou-se se ela alguma vez teria sido acusada de roubar um filho a alguém.
A estrutura do catre rangeu ao baixar-se lentamente sobre ela e encarar a criança. Franziu mais a sobrancelha. Sentia Saphira a observar a pequena menina deitada sobre os cobertores, através de si. A criança estava agora a dormitar e parecia alheia ao mundo. A sua língua brilhava através da fenda que lhe dividia o lábio superior.
O que achas?, perguntou ele.
Vai devagar, para que não mordas a tua própria cauda, acidentalmente.
Concordou com ela. Depois, sentiu-se um pouco travesso e perguntou-lhe. Alguma vez te aconteceu morderes a tua própria cauda?
Saphira manteve-se silenciosamente distante, mas ele captou, por breves instantes, uma série de sensações, uma miscelânea de imagens — árvores, erva, sol, as montanhas da Espinha —, bem como o aroma saturado de orquídeas vermelhas e um súbito e doloroso apertão, como se uma porta se tivesse fechado sobre a cauda.
Eragon riu em silêncio para consigo, concentrando-se depois em compor os feitiços que achava serem necessários para curar a criança. Demorou bastante tempo. Cerca de meia hora. Ele e Saphira passaram grande parte do tempo a rever repetidamente as frases ocultas, examinando e debatendo cada palavra e cada frase — mesmo a sua pronunciação — para se assegurarem de que os feitiços produziriam o efeito que ele pretendia e nada mais.
A meio da sua conversa silenciosa, Gertrude remexeu-se no lugar e disse:
— Ela parece estar na mesma. O trabalho está a correr mal, não está? Não vale a pena esconderes-me a verdade, Eragon; já lidei com coisas piores na minha vida.
Eragon arqueou as sobrancelhas e disse, brandamente:
— O trabalho ainda não começou.
Gertrude deu-se por vencida e voltou a recostar-se. Tirou um novelo de fio amarelo do saco, uma camisola meio acabada e um par de agulhas de tricô de bétula polida. Os seus dedos ágeis e rápidos moviam-se com a destreza da prática quando começou a tricotar. O ruído constante das agulhas a bater uma na outra reconfortou Eragon. Era um ruído que ouvira frequentemente em criança e que associava aos serões passados à volta da lareira da cozinha, nas noites frias de outono, a ouvir os adultos contar histórias, a fumar cachimbo ou a saborear uma caneca de cerveja preta, depois de um grande jantar.
Quando ele e Saphira se deram finalmente por satisfeitos, concluindo que os feitiços eram seguros e Eragon se assegurou de que não iria tropeçar em nenhum dos estranhos sons da língua antiga, recorreu à força combinada de ambos os corpos e preparou-se para lançar o primeiro dos encantamentos.
Depois hesitou.
Tanto quanto sabia, sempre que os elfos usavam magia para incitar uma árvore ou uma flor a crescer, na forma que desejavam, ou para alterar o seu corpo ou o de outra criatura, formulavam o feitiço sob a forma de uma canção. Parecia-lhe adequado fazer o mesmo, mas conhecia apenas algumas das canções dos elfos e nenhuma delas tão bem que lhe permitisse reproduzir com rigor — ou até mesmo convenientemente — tão belas e intrincadas melodias. Por isso, decidiu ir buscar uma canção a um recanto profundo da sua memória, uma canção que a sua tia Marion lhe cantava quando era pequeno, antes de a doença a levar; uma canção que as mulheres de Carvahall cantavam em voz baixa aos filhos, desde tempos imemoriais, quando os aconchegavam debaixo das cobertas para uma longa noite de sono — uma canção de embalar. As notas eram simples, fáceis de memorizar e tinham algo de tranquilizante que esperava que ajudasse a manter a criança serena. Começou suavemente, em voz baixa, deixando as palavras fluir lentamente. O som da sua voz espalhava-se pela tenda como o calor de uma fogueira. Antes de usar magia disse à rapariguinha, na língua antiga, que era seu amigo, que as suas intenções eram boas e que ela devia confiar nele.
Ela remexeu-se no sono, como que em resposta, e o rosto tenso suavizou-se.
Depois, Eragon entoou o primeiro dos feitiços: um simples encantamento com duas frases curtas, que recitou repetidas vezes, como uma oração. A pequena cavidade rosada onde ambos os lados do lábio da criança se encontravam, cintilou e moveu-se, como se uma criatura adormecida começasse a mexer-se abaixo da superfície.
O que ele estava a tentar fazer não era de todo fácil. Tal como os ossos de todos os recém-nascidos, os ossos da criança estavam moles e cartilaginosos, eram diferentes dos de um adulto e consequentemente diferentes de todos os ossos que regenerara durante o tempo que passara com os Varden. Teria de ter cuidado para não preencher o intervalo da boca dela com osso, carne e pele de um adulto, de contrário essas zonas não iriam desenvolverse convenientemente, em conjunto com o resto do corpo. Além disso, quando reparasse o intervalo no palato superior e nas gengivas, teria de o mover, endireitar e criar duas raízes simétricas para os dentes da frente, algo que nunca fizera antes. Para complicar ainda mais as coisas, nunca vira a criança sem a sua deformidade, por isso não sabia ao certo que aparência deveria ter a boca e os lábios. Ela parecia-lhe um bebé como todos os outros que vira: roliço, rechonchudo e sem feições definidas. Ocorreu-lhe depois que lhe poderia dar um rosto que parecesse agradável naquele momento, mas que se tornasse estranho e pouco atraente com o passar dos anos.
Por isso prosseguiu cautelosamente, fazendo apenas pequenas modificações de cada vez e fazendo uma pausa depois de cada uma delas, para ponderar nos resultados. Começou pelas camadas mais profundas do rosto da menina — os ossos e as cartilagens —, avançando lentamente para fora e cantando à medida que o fazia. A dada altura, Saphira começou a trautear com ele, lá fora, no sítio onde estava, fazendo vibrar o ar com a sua voz cava. A luz mágica animava-se e esmorecia de acordo com a intensidade do cântico, um fenómeno que Eragon achou extraordinariamente curioso, decidindo inquirir Saphira sobre o assunto, mais tarde.
Palavra após palavra, feitiço após feitiço, hora após hora, a noite foi passando, embora Eragon não prestasse atenção ao passar do tempo. Quando a bebé chorava com fome, alimentava-a com umas gotas de energia. Tanto ele como Saphira evitaram alcançar a sua mente, pois não sabiam de que forma o contato poderia afetar a sua consciência imatura, mesmo assim roçaram nela algumas vezes; Eragon achou a mente vaga e indistinta, um mar revolto de emoções irrestritas que reduziam tudo o mais no mundo a uma insignificância.
Junto dele, Gertrude continuava a bater com as agulhas uma na outra, interrompendo apenas o ritmo quando perdia a conta das malhas ou tinha de desfazer uma série delas para corrigir um erro. Muito lentamente, a fissura nas gengivas e no palato da criança fundiu-se num todo, bem como ambos os lados do lábio fendido. A pele fluía como um líquido, configurando lentamente o lábio superior num arco rosado.
Preocupado com a forma do lábio, Eragon perdeu mais algum tempo a remexer nele e a ajustá-lo, até que finalmente Saphira lhe disse: Está feito. Não mexas mais, e ele teve de admitir que não poderia melhorar mais a aparência da criança, apenas piorá-la. Depois terminou a canção de embalar. Sentia a língua grossa e seca, e a garganta irritada. Levantou-se do catre e ficou meio curvado sobre ele, sentindo os músculos demasiado rígidos para se endireitar totalmente.
Para além da iluminação da luz mágica, uma luz pálida invadiu a tenda, tal como quando tinham começado. No início ficou confuso
— certamente que o sol já se tinha posto! — Mas depois percebeu que a luz vinha de Este e não de Oeste e entendeu tudo. Não admira que esteja dorido. Passei a noite inteira sentado!
E eu?, perguntou Saphira. Os meus ossos doem-me tanto como os teus. A confissão dela surpreendeu-o, pois raramente reconhecia o seu próprio desconforto, por muito extremo que fosse. O combate devia tê-la afetado mais do que parecia à primeira vista.
Ao chegar a essa conclusão e Saphira apercebendo-se disso, recuou parcialmente da sua mente e disse: Cansada ou não, ainda consigo esmagar qualquer número de soldados que Galbatorix mande para nos defrontar.
Eu sei.
Guardando o tricô no saco, Gertrude levantou-se e aproximou-se do catre a coxear.
— Nunca pensei ver uma coisa destas — disse ela. — Muito menos, vindo de ti, Eragon, Filho de Brom. — Olhou-o interrogativamente. — Brom era teu pai, não era?
Eragon acenou com a cabeça, dizendo depois num tom de voz rouco:
— Lá isso era.
— Parece fazer um certo sentido.
Eragon não estava na disposição de falar mais no assunto, por isso limitou-se a roncar e a extinguir a luz mágica com um olhar e um pensamento. Tudo ficou imediatamente escuro, iluminado apenas pela luz do amanhecer. A sua visão adaptou-se à mudança mais rapidamente que a de Gertrude que piscou os olhos e franziu o sobrancelha, virando a cabeça de um lado ao outro como se não soubesse bem onde estava.
Ao pegar na criança Eragon sentiu-a quente e pesada nos seus braços. Não sabia se o cansaço que sentia se devia à magia que criara ou ao tempo que demorara a cumprir a tarefa.
Ao baixar os olhos para a bebé, foi subitamente assaltado por um instinto de proteção e murmurou:
— “Sé ono waíse ília.” Que sejas feliz. — Não era propriamente um feitiço, mas esperava que a ajudasse a evitar alguma da infelicidade que afligia tanta gente ou, no mínimo, que a fizesse sorrir.
E fez mesmo. Um largo sorriso espalhou-se pelo seu rosto diminuto e ela disse com grande entusiasmo:
— Gahh!
Eragon sorriu também. Depois virou-se e saiu da tenda.
Quando afastou as palas da entrada, viu uma pequena multidão reunida num semicírculo, em torno da tenda, uns de pé, outros sentados, outros de cócoras. A maioria era de Carvahall, mas Arya e os outros elfos também lá estavam — um pouco afastados dos outros — bem como diversos guerreiros dos Varden, cujo nome não sabia. Viu Elva escondida atrás de uma tenda próxima, com o véu de renda preto puxado para baixo, tapando-lhe o rosto.
Eragon concluiu que o grupo devia estar há horas à espera e ele não dera sequer pela sua presença. Estava em segurança com Saphira e os elfos de guarda, mas não tinha desculpa para se tornar tão complacente.
“Tenho de fazer melhor do que isto”, disse para si mesmo.
Horst e os filhos estavam à frente da multidão. Horst olhou para o volume nos braços de Eragon, de testa franzida, e abriu a boca como se fosse dizer algo, mas não emitiu qualquer som.
Sem qualquer tipo de pompa ou cerimónia, Eragon aproximou-se do ferreiro e virou a criança para que ele lhe pudesse ver o rosto. Por instantes Horst não se mexeu, mas depois os seus olhos começaram a cintilar e o seu semblante carregado deu lugar a uma expressão de alegria e a um alívio tão profundos que poderiam ser confundidos com dor.
Ao entregar a bebé a Horst, Eragon disse:
— Tenho as mãos demasiado sujas de sangue para este tipo de trabalho, mas fico feliz por ter podido ajudar.
Horst tocou no lábio superior da filha com a ponta do dedo do meio e abanou a cabeça:
— Não posso acreditar... não posso acreditar... — Olhou para Eragon. — Eu e Elain ficaremos eternamente em dívida para contigo. Se...
— Não há dívida nenhuma — disse Eragon, delicadamente. — Fiz apenas o que qualquer pessoa faria se pudesse.
— Mas foste você que a curaste e é a ti que estou grato.
Eragon hesitou e depois curvou a cabeça, aceitando a gratidão de Horst.
— Que nome lhe vais dar?
O ferreiro sorriu para a filha.
— Se Elain gostar, pensei em chamar-lhe Esperança.
— Esperança... é um bom nome. Todos precisamos de um pouco de esperança nas nossas vidas. Como está Elain?
— Cansada mas bem.
Depois Albriech e Baldor reuniram-se em torno do pai, olhando para a sua nova irmã, tal como Gertrude — que saíra da tenda pouco depois de Eragon. Assim que perderam a timidez, todos os outros aldeões se reuniram a eles. Até um grupo de guerreiros curiosos se acotovelavam junto de Horst, esticando o pescoço para tentar ter um vislumbre da criança.
Algum tempo depois, os elfos descruzaram os seus longos braços e aproximaram-se também. Ao verem-nos, todos se desviaram apressadamente do caminho para dar passagem até Horst. O ferreiro empertigou-se e crispou o maxilar, como um bulldog, enquanto os elfos se curvavam e examinavam a bebé, um por um, sussurrando-lhe por vezes uma ou duas palavras na língua antiga. Nenhum pareceu reparar ou importar-se com os olhares desconfiados que os aldeões lhes atiravam.
Quando já só estavam apenas três elfos em fila, Elva saiu apressadamente de trás da tenda onde estivera escondida e reuniuse à cauda da procissão. Pouco depois estava diante de Horst.
Embora parecesse relutante, o ferreiro baixou os braços e dobrou os joelhos, mas era muito mais alto que Elva pelo que ela teve de se pôr em bicos de pés para ver a criança. Eragon conteve a respiração enquanto ela olhava para a criança anteriormente deformada, incapaz de adivinhar a sua reação através do véu.
Segundos depois Elva voltou a assentar os calcanhares no chão, avançando determinadamente pelo caminho que passava pela tenda de Eragon. A uns vinte metros de distância parou e virou-se na direção dele.
Ele inclinou a cabeça e arqueou a sobrancelha.
Ela acenou com um movimento breve e brusco de cabeça, e seguiu o seu caminho.
Enquanto Eragon a via afastar-se, Arya aproximou-se:
— Devias estar orgulhoso do que fizeste — murmurou. — A criança é saudável e bem formada. Nem os mais hábeis feiticeiros poderiam melhorar a tua magia. Concedeste algo de grandioso a esta bebé — um rosto e um futuro — e tenho a certeza de que ela não o esquecerá... Nenhum de nós esquecerá.
Eragon reparou que Arya e todos os elfos o olhavam com um respeito renovado — mas era a admiração e a aprovação de Arya que mais significado tinha para si.
— Tive os melhores mestres — respondeu ele, num tom igualmente baixo. Arya não argumentou e ficaram ambos a observar os aldeões a pairar em torno de Horst e da filha, trocando palavras de entusiasmo. Sem tirar os olhos deles, Eragon inclinou-se para Arya e disse:
— Obrigado por ajudares Elain.
— Não tens de agradecer. Teria sido negligente se não o fizesse. Host virou-se e levou a criança para dentro da tenda, para que Elain visse a sua filha recém-nascida, mas o aglomerado de gente não parecia querer dispersar e quando Eragon se fartou de apertar mãos e responder a perguntas, despediu-se de Arya e escapou-se para a sua tenda, fechando e prendendo as palas depois de entrar. Não quero ver ninguém nas próximas dez horas, nem mesmo Nasuada, a menos que sejamos atacados, disse a Saphira, atirando-se para cima do catre. Importas-te de informar Blödhgarm?
Claro, disse ela. Descansa, pequenino. Eu farei o mesmo.
Eragon suspirou e colocou um braço sobre o rosto, protegendo-se da luz da manhã. A sua respiração abrandou, a sua mente
começou a vaguear e, pouco depois, as estranhas visões e sons dos seus devaneios envolveram-no — reais ainda que imaginários; vívidos ainda que transparentes, como se as visões fossem feitas de vidro colorido — e, durante algum tempo, conseguiu esquecer as responsabilidades e os angustiantes acontecimentos do dia anterior. Ouvia a canção de embalar em todos os sonhos, como um sussurro do vento, meio audível, meio perdido, deixando que esta o embalasse com as memórias de casa, acalentando nele uma paz infantil.

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Boa leitura :)