23 de junho de 2017

Capítulo 1 - Ao ataque

Saphira rugiu e os soldados diante dela se acovardaram.
— Sigam-me! — gritou Eragon. Ele levantou Brisingr acima da cabeça, mantendo-a erguida para que todos a vissem. A espada azul resplandecia radiosa e iridescente, nítida contra a parede de nuvens negras que se aglomeravam a oeste. — Pelos Varden!
Uma flecha passou zunindo por ele; Eragon não lhe deu atenção. Os guerreiros se reuniram na base da encosta de escombros em cima da qual estavam Eragon e Saphira e lhe responderam com um retumbante grito:
— Pelos Varden! — Eles brandiram suas próprias armas e arremeteram, avançando por cima dos blocos de pedra empilhados.
Eragon se virou para os homens. Do outro lado do monte havia um amplo pátio. Cerca de duzentos soldados do Império estavam postados ombro a ombro ali. Atrás deles, erguia-se uma alta e escura torre central com fendas estreitas a guisa de janelas e várias torres quadradas, a mais alta das quais tinha uma lanterna iluminando seus aposentos. Em algum lugar no interior da torre central, Eragon sabia, estava lorde Bradburn, governante de Belatona – a cidade que os Varden vinham tentando conquistar havia várias horas. Com um brado, Eragon saltou dos escombros em direção aos soldados. Os homens se moveram para trás, embora mantivessem as lanças e os piques apontados para o buraco estraçalhado que Saphira abrira na muralha exterior do castelo. O tornozelo direito de Eragon torceu ao bater no solo. Ele sentiu o joelho e se apoiou no terreno com a espada na mão. Um dos soldados aproveitou a oportunidade para sair rapidamente da formação e espetar a lança contra a garganta exposta do Cavaleiro. Eragon aparou o golpe, balançando Brisingr num movimento mais rápido do que um humano ou elfo poderiam conseguir. O soldado ficou apavorado quando se deu conta de seu erro. Tentou fugir, mas, antes que pudesse se mover mais que alguns centímetros, Eragon havia avançado, acertando-o no estômago.
Com chamas azuis e amarelas se derramando de suas mandíbulas, Saphira saltou para dentro do pátio atrás de Eragon. Ele se agachou e tensionou as pernas quando ela bateu contra o terreno pavimentado. O impacto sacudiu o pátio inteiro. Muitas das lascas de vidro que formavam um mosaico grande e colorido na frente do castelo se soltaram e voaram, girando para cima como moedas quicando em um tambor.
A elfa Arya acompanhou Saphira. Seu longo cabelo preto esvoaçava desalinhado ao redor de seu rosto anguloso enquanto ela saltava da pilha de escombros. Respingos de sangue lhe riscavam os braços e o pescoço; entranhas manchavam a lâmina de sua espada. Ela aterrissou com um ligeiro raspar de couro contra a pedra.
A presença dela animava Eragon. Não havia mais ninguém que preferisse ter ao seu lado e de Saphira. Ele a achava a companheira perfeita de armas. Eragon lançou-lhe um sorriso rápido, e Arya respondeu da mesma forma, com expressão feroz e feliz. Na batalha, sua postura geralmente reservada desaparecia, substituída por um sentimento de entrega que ela raramente exibia em outros lugares.
O Cavaleiro se agachou atrás de seu escudo quando o fogo azul surgiu entre eles. Por baixo da borda de seu elmo, ele observou Saphira banhar os soldados assustados numa torrente de chamas que fluía ao redor deles, sem, contudo, lhes causar mal algum. A fileira de arqueiros nas muralhas do castelo lançou uma salva de flechas contra Saphira. O calor que a envolvia era tão intenso que um punhado delas irrompeu em chamas em pleno ar e se desfez em cinzas, e as defesas mágicas que Eragon pusera ao redor de seu dragão desviaram as outras. Uma das flechas desviadas bateu e quicou contra o escudo de Eragon com um baque surdo, causando uma rachadura.
As chamas envolveram subitamente três soldados, matando-os tão rápido que sequer tiveram tempo de gritar. Os outros se agruparam no centro das labaredas, as lâminas de suas lanças refletindo clarões de luz azul. Por mais que tentasse, Saphira conseguia apenas chamuscar os sobreviventes. Enfim, ela abandonou seus esforços e cerrou as mandíbulas, decidida. A ausência de fogo deixou o pátio surpreendentemente silencioso. Eragon supôs que, como já havia acontecido muitas vezes antes, quem dera proteção aos soldados era um mago hábil e poderoso. Seria Murtagh?, pensou. Então, por que ele e Thorn não estavam ali para defender Belatona? Será que Galbatorix não se preocupa em manter o controle de suas cidades?
Eragon avançou correndo e, com um único golpe de Brisingr, arrancou as pontas de uma dúzia de lanças altas com a mesma facilidade com que tirara sementes da cevada quando era mais jovem. Ele retalhou no peito o soldado mais próximo, cortando sua cota de malha como se fosse tecido fino. Sangue jorrou. Eragon golpeou o soldado seguinte na fileira e acertou o da esquerda com o escudo, derrubando o homem sobre três dos companheiros e atirando-os todos ao chão.
A reação dos soldados pareceu lenta e desajeitada para Eragon quando ele se lançou em meio às fileiras, derrubando os homens e saindo impune. Saphira se aproximou entrando na luta à sua esquerda – jogando os soldados ao ar com suas patas enormes, golpeando-os com sua cauda serrilhada, mordendo-os e matando-os com uma sacudida de cabeça.
À direita do Cavaleiro de Dragão, Arya era um borrão de movimento, cada golpe de sua espada assinalando a morte de mais um servo do Império. Quando Eragon virou-se para desviar de um par de lanças, viu Blödhgarm, o elfo coberto de pelos, bem perto de si, assim como os onze outros elfos cuja tarefa era proteger ele e Saphira. Atrás deles, os Varden entravam em bandos no pátio pela fenda na muralha externa, mas os homens se abstiveram de atacar; era perigoso demais se aproximar de Saphira. Ela, Eragon e os elfos não precisavam de ajuda para se livrar dos soldados.
A batalha logo separou Eragon e Saphira, levando-os para extremidades opostas do pátio. O Cavaleiro não se preocupou. Mesmo sem seus defensores, Saphira era mais do que capaz de derrotar sozinha um grupo de vinte ou trinta homens. Uma lança bateu contra o escudo de Eragon, machucando-lhe o ombro. Ele girou em direção ao arremessador – um homem grandalhão cheio de cicatrizes, sem os dentes inferiores – e correu para ele. O homem lutou para tirar um punhal do cinto. No último instante, Eragon torceu o corpo, tensionou os braços e o peito e bateu com o ombro dolorido contra o esterno do inimigo. A força do impacto empurrou o soldado para trás vários metros, e ele caiu, apertando o coração.
Uma saraivada de flechas negras caiu, matando ou ferindo muitos dos soldados. Eragon se desviou dos projéteis e se cobriu com o escudo, apesar de estar confiante de que sua magia o protegeria. Não seria bom se descuidar; ele nunca sabia quando um feiticeiro inimigo poderia lançar uma flecha mágica que pudesse penetrar em sua proteção.
Um sorriso amargo surgiu em seus lábios. Os arqueiros tinham se dado conta de que a única esperança que tinham de vencerem seria matar Eragon e os elfos de algum modo, não importava quantos de seus companheiros tivessem de sacrificar. É tarde demais, pensou Eragon com dura satisfação. Vocês deveriam ter deixado o Império enquanto podiam.
A violenta saraivada de flechas lhe deu uma oportunidade de descansar por um momento precioso. O ataque à cidade tinha começado ao raiar do dia, e ele e Saphira estiveram na linha de frente todo o tempo. Depois que as flechas cessaram, Eragon transferiu Brisingr para a mão esquerda, pegou uma das lanças dos soldados e a arremessou contra os arqueiros. Era difícil arremessar lanças com precisão sem uma prática substancial. Por isso, não se surpreendeu quando não acertou o homem em quem fizera pontaria, mas ficou surpreso quando errou a fileira inteira de arqueiros na muralha. A lança planou sobre eles e se despedaçou contra o muro do castelo acima. Os arqueiros riram e zombaram, gesticulando.
Um movimento rápido na periferia do seu campo de visão chamou a atenção de Eragon. Ele se virou bem a tempo de ver Arya arremessar sua própria lança contra os arqueiros. Ela empalou dois que estavam postados próximos, então apontou para os homens com sua espada e disse: “Brisingr!”, e a lança irrompeu em fogo verde-esmeralda. Os arqueiros se afastaram dos corpos em chamas e, em um movimento simultâneo, fugiram das muralhas do castelo.
— Não é justo — disse Eragon. — Eu não posso usar esse encantamento, a não ser que queira minha espada acesa como uma fogueira.
Arya o contemplou com um leve ar de diversão. Eragon permitiu que os cinco homens à sua frente fugissem – sabia que não iriam longe. Depois de um rápido exame dos corpos que jaziam estendidos ao seu redor para confirmar que de fato estavam mortos, ele olhou para trás na extensão do pátio. Alguns dos Varden tinham aberto os portões na muralha externa do castelo e estavam carregando um aríete pela rua que levava à edificação. Outros se reuniam em fileiras desordenadas perto da porta da torre, prontos para entrar e confrontar os soldados no interior. Entre eles, o primo de Eragon, Roran, gesticulava com seu sempre presente martelo enquanto dava ordens ao destacamento sob seu comando. Na extremidade mais distante do pátio, Saphira se curvava sobre os corpos dos que matara, e a área ao redor dela era só destruição. Gotas de sangue salpicavam suas escamas reluzentes, manchas vermelhas em contraste vivo contra o azul de seu corpanzil. Ela moveu a cabeça espinhosa para trás e rugiu em triunfo, silenciando o clamor da cidade com a ferocidade de seu urro.
Então, do interior do castelo, Eragon ouviu o clangor de engrenagens e correntes, seguido pelo arranhar de pesadas traves de madeira sendo erguidas. Os sons atraíram o olhar de todos para as portas do edifício. Com um bum oco, as portas se afastaram e giraram nos gonzos. A espessa nuvem de fumaça das tochas no interior se espalhou em círculos para fora, fazendo com que os Varden mais próximos tossissem e cobrissem o rosto. De algum lugar nas profundezas da escuridão veio o bater de cascos contra o pavimento; então, cavalo e cavaleiro irromperam do centro da fumaça. Na mão esquerda, o cavaleiro empunhava o que Eragon de início pensou ser uma lança comum, mas logo viu que era feita de um estranho material verde e tinha uma lâmina farpada, forjada em um padrão desconhecido. Uma leve luminosidade cercava o topo da lança, traindo a presença de magia. O cavaleiro puxou as rédeas e virou seu cavalo na direção de Saphira, que começou a empinar nas patas traseiras, preparando-se para desferir um golpe terrível e mortal com a pata dianteira direita.
Uma inquietação se apoderou de Eragon. O cavaleiro estava muito seguro de si, a lança era diferente demais, assustadora. Embora as proteções de Saphira devessem garantir sua segurança, Eragon tinha certeza de que ela corria perigo mortal. Não conseguirei alcançá-la a tempo, ele se deu conta. Eragon tentou desvendar a mente do cavaleiro, mas o homem estava concentrado em sua tarefa e nem reparou em sua presença, e a concentração absoluta do inimigo impediu Eragon de adquirir mais que acesso superficial à sua consciência.
Recolhendo-se a seu íntimo, passou em revista meia dúzia de palavras da língua antiga e compôs um encantamento simples para deter o cavalo de batalha. Foi um ato desesperado – pois não sabia se o cavaleiro era um mago ou que precauções ele poderia ter tomado contra ser atacado com magia – mas Eragon não ficaria parado enquanto a vida de Saphira estava em risco.
Encheu os pulmões, lembrou-se da pronúncia certa de vários sons difíceis na língua antiga, abriu a boca e lançou o encanto. Por mais rápido que tivesse agido, os elfos foram mais ágeis. Antes que pudesse proferir uma palavra, um frenesi de cânticos sussurrados irrompeu atrás dele, as vozes consecutivas formando uma melodia perturbadora e dissonante.
— Mäe — ele conseguiu dizer, e a magia dos elfos fez efeito.
O mosaico diante do cavalo se moveu e se alterou, e as lascas de vidro fluíram como água. Uma longa cratera se abriu no chão, uma fenda enorme e de profundidade incerta. Com um grito agudo, o cavalo mergulhou no buraco e tombou, quebrando as patas dianteiras. Enquanto cavalo e cavaleiro caíam, o homem na sela impulsionou o braço e arremessou a lança brilhante na direção de Saphira.
Saphira não podia fugir. Não podia se desviar. Então, golpeou a lança com a pata, na esperança de desviá-la para o lado. Contudo, ela errou o golpe – por centímetros apenas – e Eragon observou com horror a lança penetrar noventa centímetros ou mais no peito do dragão, logo abaixo da clavícula.
Um véu pulsante de fúria obscureceu a visão de Eragon. Ele lançou mão de todas as reservas de energia que lhe restavam – seu corpo; a safira incrustada no punho de sua espada; os doze diamantes escondidos no cinto de Beloth, o Sábio, ao redor de sua cintura; e a reserva maciça guardada em Aren, o anel elfo que tinha na mão direita – enquanto se preparava para obliterar o cavaleiro, sem se preocupar com o risco. Eragon se deteve, contudo, quando viu Blödhgarm saltar por sobre a pata esquerda de Saphira. O elfo caiu em cima do cavaleiro como uma pantera atacando um cervo e derrubou o homem de lado. Com um movimento violento de cabeça, Blödhgarm estraçalhou a garganta do homem com seus longos dentes brancos.
Um uivo de desespero absoluto emanou de uma janela alta acima da entrada aberta da torre central. Seguiu-se uma explosão feroz que fez voarem pedras de dentro do prédio, blocos que aterrissaram em meio aos Varden reunidos esmagando membros e torsos como gravetos.
Eragon ignorou a chuva de pedras sobre o pátio e correu para Saphira, mal percebendo que Arya e seus guardas o acompanhavam. Os elfos mais próximos já se agrupavam ao redor dela, examinando a lança projetada de seu peito.
— Qual é a gravidade... ela está... — quis saber Eragon, perturbado demais para completar sua frase. Ansiava por alcançar a mente de Saphira, mas, enquanto feiticeiros inimigos pudessem estar nas redondezas, não ousaria expor sua consciência a ela, temendo que penetrassem em seus pensamentos ou assumissem o comando de seu corpo.
Após uma espera aparentemente interminável, Wyrden, um dos elfos, disse:
— Você pode agradecer ao destino, Matador de Espectros. A lança não acertou as principais veias e artérias do pescoço dela. Só acertou músculo, e músculo nós podemos tratar.
— Você pode remover a lança? Ela tem algum feitiço que impeça...
— Nós cuidaremos disso, Matador de Espectros.
Sérios como sacerdotes que se reúnem diante de um altar, todos os elfos, exceto Blödhgarm, puseram as palmas das mãos no peito de Saphira e, como o vento que sussurra ao passar sobre um grupo de salgueiros, eles cantaram. Cantaram o calor e o crescimento de músculos e tendões, e a pulsação do sangue, além de outros temas mais misteriosos. Com o que deve ter sido uma enorme força de vontade, Saphira se manteve imóvel durante o encantamento, embora ondas de tremores sacudissem seu corpo em intervalos de segundos. Um fio de sangue escorreu por seu peito no lugar onde a lança estava cravada.
Quando Blödhgarm se postou ao lado dele, Eragon lançou um olhar para o elfo. Sangue manchava o pelo em seu queixo, escurecendo seu tom do azul-escuro para um negro sólido.
— O que foi aquilo? — perguntou Eragon, indicando as chamas que ainda dançavam na janela alta acima do pátio.
Blödhgarm lambeu os lábios, arreganhando as presas de gato antes de responder.
— No momento antes de ele morrer, pude entrar na consciência do soldado e, por intermédio dela, na mente do mago que o estava dominando.
— Você matou um mago?
— De certa maneira. Eu o obriguei a se matar. Normalmente não recorreria a uma exibição teatral tão extravagante, mas estava... enfurecido.
Eragon deu um passo adiante, mas se deteve quando Saphira emitiu um gemido longo e baixo. Sem que ninguém a tocasse, a lança começava a deslizar para fora de seu peito. Suas pálpebras estremeceram, e ela arquejou enquanto os últimos quinze centímetros da lança emergiam de seu corpo. A lâmina farpada, com seu ligeiro limbo de luz esmeralda, caiu no chão e quicou contra as pedras, soando mais como cerâmica do que como metal. Quando os elfos pararam de cantar e levantaram as mãos do corpo de Saphira, Eragon correu para o lado dela e tocou-lhe o pescoço. Queria confortá-la, contar-lhe como tinha ficado assustado, unir sua consciência à dela. Em vez disso, contentou-se em olhar para um de seus olhos azuis brilhantes e perguntar:
— Você está bem? — As palavras pareciam tolas se comparadas à profundidade de sua emoção.
Saphira respondeu com uma única piscadela, baixou a cabeça e acariciou o rosto dele com o sopro delicado de ar morno de suas narinas. Eragon sorriu e se virou para os elfos.
— Eka elrun ono, älfaya, wiol förn thornessa — disse, agradecendo-lhes na língua antiga por sua ajuda.
Os elfos que tinham participado da cura, inclusive Arya, se inclinaram numa mesura e torceram a mão direita sobre o centro do peito no gesto de respeito característico de sua raça.
Eragon reparou que mais da metade dos elfos designados para lhes dar proteção estavam pálidos, fracos e meio bambos.
— Recuem e descansem — disse-lhes. — Vocês acabarão sendo mortos se ficarem. Andem, isso é uma ordem!
Embora detestassem a ideia de partir, os sete elfos responderam com as palavras “Como queira, Matador de Espectros” e se retiraram do pátio, passando por cima de cadáveres e escombros. Eles pareciam nobres e dignos, mesmo nos limites de sua resistência.
Eragon se juntou a Arya e a Blödhgarm, que examinavam a lança com uma expressão estranha, como se não tivessem certeza de como deveriam reagir. Agachou-se junto a eles, tomando cuidado para que nenhuma parte de seu corpo tocasse a arma.
Olhou fixamente para as linhas delicadas entalhadas ao redor da base da lâmina – linhas que não lhe eram estranhas, ainda que não tivesse certeza de onde as havia conhecido. Reparou na haste esverdeada, feita de um material diferente da madeira e do metal, e de novo olhou para o brilho suave que o fazia lembrar as lanternas sem chama que os elfos e os anões usavam para iluminar seus aposentos.
— Acham que é obra de Galbatorix? — perguntou Eragon. — Talvez ele tenha decidido que é preferível matar Saphira e eu em vez de nos capturar. Talvez finalmente acredite que somos uma ameaça para ele.
Blödhgarm deu um sorriso desagradável.
— Eu não enganaria a mim mesmo com tais fantasias, Matador de Espectros. Não somos mais que um pequeno aborrecimento para Galbatorix. Se algum dia ele realmente quisesse você ou algum de nós morto, precisaria apenas voar de Urû’baen e entrar em combate direto conosco, e cairíamos diante dele como folhas secas diante de uma tempestade de inverno. A força dos dragões está com ele, e ninguém pode resistir ao seu poderio. Ele pode ser louco, mas também é ardiloso e, sobretudo, determinado. Se desejar você como escravo, perseguirá esse objetivo ao ponto da obsessão, e nada, exceto o instinto de autopreservação, o deterá.
— De qualquer forma — interrompeu Arya —, não é obra de Galbatorix. É obra nossa.
Eragon franziu a testa.
— Nossa? Não foi feito pelos Varden.
— Não pelos Varden, mas por um elfo.
— Mas... — Ele se calou, tentando encontrar uma explicação racional. — Mas nenhum dos elfos concordaria em trabalhar para Galbatorix. Eles preferem morrer a...
— Galbatorix não tem nada a ver com isso, e mesmo que tivesse, dificilmente teria dado uma arma tão rara e poderosa para um homem que não fosse capaz de guardá-la melhor. De todos os instrumentos de guerra espalhados pela Alagaësia, este é o que Galbatorix menos desejaria que tivéssemos.
— Por quê?
Com a sugestão de um ronronado na voz, Blödhgarm respondeu:
— Porque, Eragon, Matador de Espectros, isto é uma Dauthdaert.
— E seu nome é Niernen, a Orquídea — completou Arya. Ela apontou para as linhas entalhadas na lâmina, e finalmente Eragon se deu conta de que eram na verdade hieróglifos no sistema de escrita singular dos elfos: formas curvas e interligadas que terminavam em pontas longas como espinhos.
— Uma Dauthdaert?
Quando Arya e Blödhgarm olharam para ele com incredulidade, Eragon deu de ombros, envergonhado por sua falta de instrução. Frustrava-o que seu tio, Garrow, sequer o tivesse ensinado a ler, considerando a educação sem importância, mesmo que normalmente, ao longo de seu crescimento, os elfos gozassem de décadas e décadas de estudos com os melhores acadêmicos de sua raça.
— Eu só pude ter algumas leituras limitadas em Ellesméra. O que é? Foi forjada durante a queda dos Cavaleiros, para ser usada contra Galbatorix e os Renegados?
Blödhgarm sacudiu a cabeça.
— Niernen é muito, muito mais antiga que isso.
— As Dauthdaertya — começou Arya — nasceram do temor e do ódio que marcaram os derradeiros anos de nossa guerra com os dragões. Nossos mais habilidosos ferreiros e feiticeiros as criaram com materiais que não conhecemos mais e as imbuíram com encantamentos cujas palavras não conseguimos mais lembrar. Nomearam todas as doze que foram criadas com os nomes das mais belas flores, uma combinação de fato perversa, pois as fizemos com um único propósito em mente: matar dragões.
A repulsa dominou Eragon enquanto ele olhava para a lança reluzente.
— E elas mataram?
— Aqueles que estavam presentes disseram que o sangue dos dragões choveu do céu como um temporal de verão.
Saphira sibilou em tom alto e penetrante. Eragon voltou-se para ela por um momento e viu de soslaio que os Varden ainda mantinham sua posição diante da torre central, esperando que ele e Saphira retomassem a liderança na ofensiva.
— Acreditava-se que todas as Dauthdaertya tinham sido destruídas ou perdidas para sempre — continuou Blödhgarm. — Evidentemente, estávamos enganados. Niernen deve ter chegado às mãos da família Waldgrave, e eles devem tê-la mantido escondida aqui em Belatona. Quando rompemos as defesas e penetramos as muralhas da cidade, é possível que a coragem de lorde Bradburn o tenha abandonado e ele tenha ordenado que Niernen fosse trazida de seu arsenal numa tentativa de deter você e Saphira. Sem dúvida Galbatorix ficaria louco de raiva se soubesse que Bradburn tentou matar você.
Embora tivesse consciência de que precisava se apressar, a curiosidade de Eragon não lhe permitiu abandonar o assunto.
— Dauthdaert ou não, você ainda não me explicou por que Galbatorix não gostaria que tivéssemos isso — ele gesticulou para a lança. — O que torna Niernen mais perigosa que aquela lança ali, ou mesmo Bris... — ele se calou antes de dizer o nome completo — ... minha espada?
Foi Arya quem respondeu.
— Ela não pode ser quebrada por nenhum meio normal, não pode ser danificada pelo fogo, e é quase imune à magia, como você mesmo já viu. As Dauthdaert foram concebidas para não serem afetadas por quaisquer feitiços que dragões pudessem fazer e para proteger quem as empunhasse da mesma maneira. Uma perspectiva assustadora, dadas a força, a complexidade e a inesperada natureza da magia de dragões. Galbatorix pode ter envolvido Shruikan e a si mesmo em mais proteções que qualquer outro na Alagaësia, mas é possível que Niernen possa penetrar suas defesas como se nem existissem.
Eragon compreendeu e foi dominado pela euforia.
— Nós temos que...
Um rangido o interrompeu. O som era penetrante, cortante e trêmulo como metal raspando contra pedra. Os dentes de Eragon vibraram, e ele cobriu as orelhas com as mãos, fazendo uma careta ao se virar, tentando identificar a origem do ruído. Saphira sacudiu a cabeça e, mesmo em meio ao barulho, ele a ouviu gemer de agonia.
Eragon voltou o olhar para o pátio e o examinou duas vezes, antes de reparar numa ligeira nuvem de poeira subindo a muralha da torre central por uma fenda de vinte centímetros de largura, que surgira abaixo da janela enegrecida e parcialmente destruída onde Blödhgarm matara o mago. O rangido aumentava em intensidade, e Eragon arriscou levantar uma das mãos e apontar para a fenda.
— Olhem! — gritou para Arya, que assentiu em concordância.
Ele tornou a cobrir os ouvidos com a mão. Sem aviso prévio, o som parou. Eragon esperou por um momento e levantou as mãos lentamente, desejando pela primeira vez que sua audição não fosse tão sensível. Nesse instante, a fenda se abriu – crescendo até ter alguns metros de largura – e desceu pela parede da torre. Como um raio, a rachadura explodiu e despedaçou a pedra angular acima das portas do prédio, lançando uma chuva de pedrinhas no chão. O castelo inteiro gemeu, e a fachada começou a se inclinar para a frente.
— Corram! — gritou Eragon para os Varden, mas os homens já estavam se espalhando para ambos os lados do pátio, desesperados para se afastar da parede precária.
O Cavaleiro de Dragão deu um único passo à frente, todos os músculos de seu corpo tensos enquanto buscava algum sinal de Roran nas fileiras de guerreiros. Preso atrás do último grupo de homens, junto à porta, Roran berrava loucamente com os soldados, suas palavras perdidas em meio à comoção. A muralha se moveu e baixou vários centímetros, distanciando-se ainda mais do restante do prédio e atingindo-o com pedras. Ele desequilibrou-se e foi forçado a cambalear para trás, sob o batente no vão da entrada. Quando se endireitou, levantando-se, seus olhos encontraram os de Eragon, que viu neles um lampejo de medo e impotência, logo seguido por resignação, como se Roran soubesse que, por mais depressa que corresse, não poderia alcançar a segurança a tempo.
Um sorriso enviesado surgiu em seus lábios.
E então a parede desabou.

2 comentários:

  1. coitado de Roran mesmo que ele ainda esteja vivo

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  2. Aí meu core. .. primeiro capítulo e já tá assim!

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Boa leitura :)