3 de maio de 2017

Capítulo um

OS LORIENOS PODEM ATÉ CHAMÁ-LO DE “SANTUÁRIO”, MAS HOJE O LUGAR SERÁ UMA zona de guerra.
Seu povo morrerá aqui.
Matar os últimos Gardes sempre foi uma prioridade para os mogadorianos.
Eu, pelo menos, penso muito nisso. Não por vaidade ou senso de realização, mas porque sei que é a melhor maneira de servir ao Adorado Líder. De agradá-lo.
É tudo o que quero, tudo de que preciso na vida.
Houve um tempo em que eu estive perto de receber o favor de Setrákus Ra. Subi na hierarquia, mostrando a meus superiores quão pouca misericórdia teria com qualquer um que se opusesse a nós. A facilidade com que transformaria os mogadorianos nascidos artificialmente em esquadrões de assassinos bem treinados. Por fim, recebi o comando de um pelotão na base de West Virginia, onde poderia mostrar ao Adorado Líder de uma vez por todas que eu era sua comandante mais leal e capaz.
Porém, eu falhei. Alguns membros da escória Garde que estavam sob minha guarda fugiram. Caí em desgraça e tive que escolher entre ser morta por causa de meus fracassos ou realocada para o México, com a tarefa de encontrar a entrada de um local lórico impenetrável. A decisão pareceu fácil. Escolhi a segunda opção, com a esperança de reparar meus erros. Em vez disso, fracassei mais uma vez.
Só que tudo isso vai mudar. O Adorado Líder está aqui, e mostrarei que sou digna de ser sua discípula. Ele testemunhará minha performance no campo de batalha e verá que sou a encarnação do que ele prega no Grande Livro. Não terei misericórdia, não pouparei nenhum inimigo.
— Proteger o Adorado Líder! — grito, ao sair correndo do esconderijo na selva, liderando um pequeno grupo de soldados nascidos artificial e naturalmente que resgatei do cativeiro dos Gardes.
Enquanto atravessamos o campo de batalha, vejo a Número Seis. Um de meus olhos está fechado devido ao inchaço provocado pelo soco que a idiota da loriena me deu quando eu estava amarrada. Ela devia ter cortado meus dedos para me inutilizar — ou me matado, se fosse inteligente. Atiro nela. Ela cai. Mostro os dentes. Vou me certificar de que sua morte seja lenta e agonizante.
Darei orgulho ao Adorado Líder.
Seguimos adiante. À frente, nosso salvador está de pé sobre uma cratera, usando seus poderes extraordinários para manter a Garde chamada Marina erguida no ar. Ele a atira no chão várias vezes, até o corpo da garota ficar inerte.
Os lorienos e seus aliados podem ter destruído o canal que Setrákus Ra criou para extrair a loralite, mas eles estão sendo destruídos, forçados a reconhecer nossa superioridade.
Isto é guerra. Isto é glória. Isto é o Progresso Mogadoriano.
Continuamos a avançar em meio ao fogo cruzado. Quando alcanço o Adorado Líder, é tarde demais. Um dos aliados lorienos — um humano com a audácia de usar nossas armas contra nós — deu um tiro que por sorte queimou a orelha de nosso comandante infalível. Se eu tivesse sido apenas um pouco mais veloz, poderia ter me atirado na frente, feliz por morrer protegendo o Adorado Líder até mesmo da mais ínfima dor. Quando chego ao seu lado, ele já atirou o corpo alquebrado de Marina sobre o garoto, mandando ambos para longe.
De perto, vejo sangue pingando de feridas no corpo de nosso comandante. Ele se apoia em uma espada.
— Adorado Líder — diz um de meus companheiros mogadorianos, dando um passo à frente e segurando seu braço, para ajudá-lo a se levantar.
Setrákus Ra responde colocando a palma da mão na cabeça do subalterno. Por meio segundo, o soldado parece estar em êxtase, como se estivesse sendo abençoado. Então, a mão em sua cabeça se fecha em um punho, esmagando o crânio como um pedaço de fruta podre antes que se transforme em poeira.
Nosso Adorado Líder não precisa de ajuda. Esses ferimentos não são nada para ele.
— De volta à nave — rosna ele. — Nós os faremos sentir nosso poder.
— Ouviram nosso glorioso líder! — grito. — Com tudo para cima deles!
Disparos continuam preenchendo o ar, vindos de todos os lados, inclusive da própria Anubis. Ferimentos dolorosos se abrem em minhas mãos por ter me aproximado demais do campo de força ao redor do Santuário, mas não deixo que isso me abale. Continuo atirando. Sei que o Adorado Líder não precisa de ajuda, mas demonstro minha lealdade ficando na dianteira e ao centro para receber tudo de ruim que possa atingi-lo enquanto marchamos para fora da cratera. Os outros soldados também se alinham, formando um círculo ao redor do comandante à medida que nos movimentamos.
Nós o serviremos até não restar nada em nós além do pó.
— Destruirei qualquer sinal de vida em quilômetros — ruge o Adorado Líder quando começamos a subir a rampa da nave. — Tudo abaixo de nós queimará e, depois que destruirmos os lorienos e seus aliados, eu mesmo escavarei os restos do Santuário.
— Não restarão nem mesmo os ossos — digo.
Estamos quase no topo da rampa quando algo muda no ar.
Somos atingidos pelo vento, um vendaval que deve ser obra dos Gardes.
Escombros — pedras, areia, metal — nos atingem, e cubro o rosto com os braços enquanto dou alguns passos para trás, tentando me segurar.
Porém, o Adorado Líder se mantém firme. Ele se volta para encarar o vento e estende a mão aberta com a palma para a frente. A ventania que nos atinge diminui, mas sinto outra força no ar quando ele sorri. O comandante é muito poderoso, e sua força faz nossos inimigos recuarem. O campo de batalha do Santuário explode em estilhaços e pedras.
Essa é nossa vitória.
Ao meu lado, o Adorado Líder ri.
Vejo o projétil tarde demais — sempre reajo tarde demais. Houve pouco mais que um cintilar de metal no ar antes de atingi-lo. Um pedaço do cano destruído está enterrado no peito do Adorado Líder.
Sua risada se transforma em um arfar quando ele inclina o corpo para a frente, cambaleando.
— Não! — berro, apressando-me até ele.
Nesse instante, apesar dos disparos contínuos das armas, somos apenas eu e Setrákus Ra, juntos na entrada da Anubis, e o protejo com meu corpo. O resto do mundo — do universo — deixa de existir.
Ele olha para o metal em seu peito e depois para mim.
— Para dentro — resmunga, o sangue escuro escorrendo dos lábios.
Eu me movo o mais rápido que posso, gritando para os outros me ajudarem. Nós o puxamos para a nave. Mal entramos e já bato nos controles que fecham a porta de carga, nos protegendo.
O caos se espalha pela área de carregamento, e todos os soldados começam a berrar ao mesmo tempo. Um dos nascidos naturalmente de baixa patente se apresenta.
— Devemos arrancar o cano, certo? — pergunta, um pouco inseguro.
— Não toque nele — retruco.
— Se eu fosse ele, iria querer...
— Mas você não é ele.
Disparo um tiro bem na cabeça do sujeito. Seus acréscimos começam a se desintegrar antes que caia no chão. Os outros recuam. Sou uma comandante nascida naturalmente, e mesmo que meu histórico tenha sido maculado há pouco, é provável que eu seja a pessoa de patente mais alta no hangar.
Fora o Adorado Líder, que seu reinado seja longo.
A parte da frente de sua armadura está manchada com o sangue escuro que escorre do ferimento. Há algo estranho em seus olhos, tão inesperado da parte dele que levo um instante para reconhecer o choque.
Ele se esforça para levantar, empurrando os soldados que tentam oferecer ajuda. Seus olhos cruzam com os meus, e ele sussurra três palavras:
— Acabe com eles.
E, em seguida, cai no chão.

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