3 de maio de 2017

Capítulo treze

O CAMINHO PARA AS CATARATAS DO NIÁGARA É UMA LINHA RETA. SEM OBSTÁCULOS, nenhuma base militar para desviar ou outras naves de guerra no caminho. Basta seguir adiante. Até uma criança seria capaz de definir o trajeto. Assim, quando concluo a programação da rota, fico perto do terminal, fingindo parecer ocupado. O capitão não está na ponte. Eu me pergunto como os outros líderes mogadorianos reagiram ao fato de estarmos deixando nosso posto.
Jax-Har está agindo por conta própria, contra uma ordem direta do Adorado Líder. Pela primeira vez desde que fui convocado para o exército mogadoriano, sinto que os outros podem estar questionando a hierarquia, ainda que de maneira discreta. É ao mesmo tempo emocionante e assustador. E, é claro, a ponte está em silêncio. O que será que os outros oficiais estão pensando?
Tantas questões frustrantes tomam conta da minha mente que não percebo a presença de Mirra até que ela esteja de pé ao meu lado.
— Siga-me — ordena, e começa a se afastar antes que eu tenha a chance de perguntar do que se trata.
Mas vou atrás. Preciso ir. Não apenas porque ela é uma oficial superior, mas porque talvez eu consiga algumas respostas se conversar com ela.
Conforme nos aproximamos da porta da ponte, Denbar entra. Ele parece surpreso ao nos ver.
— Aonde vocês estão indo? — pergunta ele.
Mirra o ignora, seguindo em frente. Denbar continua falando.
— O capitão deu uma ordem específica para que o oficial Saturnus defina o traj...
— Sua tarefa foi concluída, correto? — pergunta-me Mirra, virando-se e deixando Denbar entre nós dois.
Confirmo com a cabeça.
— Correto.
Ela inclina a cabeça para trás e olha para Denbar com o nariz em pé.
— Detectamos uma anomalia em nossos sistemas de geomapeamento há pouco. Não deve ser nada, mas pedi ao oficial Saturnus para conferir o hardware para garantir que tudo esteja funcionando antes de nossa missão. Se tiver algo contra isso, sugiro que leve a questão ao capitão. Ou posso deixar Saturnus aqui e se alguma coisa der errado mais tarde, você mesmo pode explicar ao capitão por que nossos sistemas falharam.
Nem sei se isso é verdade ou não. Tento lembrar tudo o que sei sobre geomapeamento, só para garantir.
Denbar parece surpreso por alguns segundos, mas a expressão logo se transforma. Ele estreita os olhos e exibe de relance os dentes pelos lábios entreabertos. Então olha para um monitor.
— Partiremos em breve.
— Estou ciente disso — responde ela, dando meia-volta e saindo.
O olhar furioso de Denbar recai sobre mim. Encolho os ombros, e ele se afasta bufando.
Encontro Mirra no corredor.
— Esse kraul narcisista — resmunga ela, baixinho, enquanto continua a caminhar, sem olhar para mim. — Não consegue lidar com o fato de que o alto comando me indicou como superior a ele.
Mirra caminha tão rápido que preciso dobrar meu ritmo normal para acompanhá-la. Em determinado momento ela se vira de repente para a direita e segue para um elevador que leva até as entranhas da nave, onde estão abrigados muitos de nossos sistemas vitais. Como oficial de alta patente na nave de guerra, ela é uma das poucas pessoas que têm acesso a esse local.
Assim que as portas se fecham, Mirra se volta para mim.
— Suas perguntas de ontem. De onde elas vieram?
— Como assim? — pergunto.
Ela aperta um pouco os lábios.
— Você não parece confiar na forma como as coisas estão sendo encaminhadas no momento. Estava se perguntando por que o capitão estava solicitando ordens. Questionando seu julgamento, talvez.
É uma acusação e tanto, mas ela não parece irritada, o que me faz pensar que pode ser uma tentativa de fazer piada.
— Só pareceu estranho.
— Concordo — diz Mirra. Ela hesita um pouco, abrindo a boca algumas vezes, mas sem falar, antes de continuar: — Vou fazer uma confidência, Rexicus. Porque acho que coisas grandes estão prestes a acontecer e, se for verdade, vou precisar de alguém como você para...
Ela procura pelas palavras certas.
— Ser seu amigo — sugiro.
Ela me chamou de Rexicus.
— Para direcionar a nave — esclarece ela.
Aos poucos chegaremos a “Rex”.
O elevador para e a porta se abre para um corredor impecável e vazio que leva ao núcleo dos sistemas. Mas Mirra não sai. Ela se apoia na entrada, impedindo a porta de fechar. Há algo diferente em seus olhos. Empolgação, confusão e um vestígio de medo.
— As coisas não andam bem ultimamente. Você ouviu o que o capitão disse.
— Ashwood.
Ela solta um pequeno suspiro, assentindo.
— Minha família continuou por lá depois do primeiro ataque do traidor Adamus. Não sei ao certo por quanto tempo ficaram. Não sei ao certo...
Ela para de falar, e fico pensando em como é estranho ouvir o nome de Adamus saindo de sua boca. Às vezes esqueço que os outros não o conhecem como eu. Ou como o conheci. Apesar de não saber ao certo o que eu devo pensar sobre ele. É um lembrete de que, embora Mirra esteja se abrindo para mim pela primeira vez, não é a mesma coisa que Adamus e eu conversando enquanto íamos de um trem para outro. São só negócios. Na verdade, é provável que ela e Adamus tentassem matar um ao outro se estivessem no mesmo ambiente.
— Houve mais derrotas e reveses — continua ela, ignorando quaisquer pensamentos sobre sua família. — E boatos. Dizem que o próprio Adorado Líder estava no ataque no México. Aquele em que foi preciso pedir reforços.
Fico boquiaberto. Se o Adorado Líder estava em batalha, os lorienos ou humanos ou qualquer um que o tenha enfrentado não deveria ter sido páreo. Pelo menos, não de acordo com o Grande Livro. Ele é a personificação da invencibilidade. Toda vez que é retirado de uma luta ou parece ter sido vencido — como na ONU —, é apenas fingimento, uma simulação para atrair nossos inimigos.
Ou é o que deveria acontecer. Foi o que nos disseram.
A centelha de dúvida no fundo da minha mente volta a se acender.
— E o que isso quer dizer? — pergunto, escolhendo as palavras com cuidado. Não sei ao certo aonde ela quer chegar.
— Quer dizer que, depois daquele ataque, não recebemos nenhuma ordem direta do Adorado Líder. Todo mundo precisa manter a posição, mas nossos inimigos estão se mexendo. Esses Gardes humanos estão aparecendo por toda parte. Suas forças estão crescendo.
— Então, você está de acordo com o plano do capitão?
— Oficial... — começa ela, mas balança a cabeça — Rexicus. Ontem à noite tivemos uma reunião com vários outros capitães de naves de guerra. Todos estão nervosos, irritados ou as duas coisas. Ninguém disse nada abertamente, mas... estão começando a imaginar o impensável. O capitão de Moscou chegou a perguntar quem seria o sucessor caso o Adorado Líder precisasse ser substituído “temporariamente”. Está uma loucura. E Denbar fica o tempo todo cochichando no ouvido de Jax-Har, contando todo tipo de mentira.
Minha cabeça está girando, tentando encontrar um sentido. Tentando entender por que ela está me dizendo tudo isso. Será que ela também está questionando o modelo mogadoriano?
E, se está, foi por isso que me procurou? Porque descobriu que eu também tenho minhas dúvidas? Se as coisas estão prestes a mudar, talvez nós pudéssemos ser essa mudança.
— Você... — começo. Certifico-me de que o corredor está vazio antes de baixar minha voz até o sussurro mais baixo possível. — Acha que o Adorado Líder pode estar morto ou coisa parecida?
A palma da mão dela encontra meu rosto tão rápido que levo alguns segundos para me dar conta de que levei um tapa. Então, a dor ardida começa a subir por minha bochecha.
— Que m...
— Não fale uma blasfêmia dessas! — braveja ela, os olhos arregalados e nervosos. — O Adorado Líder é imortal. Você sabe. Ele levará o Progresso Mogadoriano adiante muito depois de nossas mortes. Pensei que você fosse crédulo, Rexicus Saturnus, não um herege. Não um traidor.
Levanto as mãos na frente do peito. Posso não ter certeza do que está acontecendo, mas sei que a última coisa que quero é que Mirra fique irritada comigo.
— Não, não — falo, tentando evitar que minhas mãos tremam. — Só estava me certificando de que você não era uma traidora.
— Você não entende? — pergunta Mirra. — O Grande Livro nos diz que devemos seguir os planos do Adorado Líder sem questionar nem falhar. Se a última ordem dele foi que ficássemos acima de Toronto, deslocar esta nave para qualquer outro local é um ato de traição.
De repente, tudo se encaixa. Mirra não está me contando tudo isso porque desconfia que o Adorado Líder possa não ser tudo o que alega. Está me contando isso porque acredita mesmo que, ao nos afastar de Toronto, nosso capitão está traindo todo o exército.
— Devemos permanecer sobre a cidade, prontos para atacá-la a qualquer momento — afirma ela. — Prontos para incendiá-la pela glória do Progresso Mogadoriano. Você não percebe, Rexicus? É um teste! O Adorado Líder está tentando encontrar aqueles que são dignos de sua estima. Como eu. Como você também, se me seguir. Jax-Har perdeu a visão do caminho. Ele deve ser detido. Não podemos permitir que nos condene. Mostraremos ao Adorado Líder que somos seus guerreiros mais fortes, discípulos que o seguem sem hesitação, e então ele nos recompensará deixando que nos banhemos no sangue dos humanos e dos lorienos.
Ela respira fundo.
— Você está comigo? — pergunta.
Não sei o que dizer. Apesar de todas as dúvidas que tenho quanto ao Progresso Mogadoriano e à maneira como invadimos a Terra, atravessando todo um sistema solar para caçar alguns lorienos, nunca esperei estar em uma posição como esta. Por um lado, entendo Jax. Talvez o Adorado Líder esteja morto ou ferido. Ou foi capturado. Talvez não esteja em condições para dar ordens. E, se for o caso, o que isso significa para a frota mogadoriana?
Por outro lado, há Mirra. Sua visão de futuro é mesmo melhor do que a de Jax-Har? Ou de qualquer comandante de nosso exército?
Quero uma terceira opção. Ou quero saber o que fazer. Voltar ao tempo antes de conhecer Adamus, quando eu era como Mirra, tão inquestionavelmente devoto ao Adorado Líder que era cego a todo o resto.
Mas não posso falar nada disso. Não sei se Mirra me deixaria ir embora se eu dissesse “não”.
Então, concordo com a cabeça.
— O que propõe que façamos? — pergunto. — Você está falando em liderar um motim contra o capitão Jax-Har.
— Não teremos tempo de agir antes de ir para as Cataratas do Niágara — responde ela. — Mas devemos ser rápidos. Há outros oficiais ao meu lado. Crentes verdadeiros. Não estamos sozinhos.
— Quem? — pergunto.
É difícil compreender a ideia de que uma rebelião estava se formando debaixo de meu nariz. É ainda mais confusa a própria ideia de que outras pessoas na nave — nada menos do que oficiais — estão sequer cogitando a ideia de um golpe.
O que está havendo com meu povo?
— Vou tomar uma atitude durante a reunião dos oficiais desta noite — continua ela. — É provável que você não precise fazer nada, mas, se as coisas derem errado, esteja pronto para me dar suporte e eliminar quem quer que se oponha a nós. Quando tudo estiver encerrado, traga-nos de volta para Toronto o mais depressa possível.
Ela se inclina para a frente na minha direção.
— Estamos fazendo a coisa certa. Estamos fazendo isso pelo Adorado Líder. — Mirra chega a sorrir. — Ele vai ter muito orgulho de nós. Ganharemos estados inteiros para explorar.
Ela volta para o elevador e finalmente deixa a porta fechar.
— Tudo sairá de acordo com os planos dele, Rexicus. Você verá. Lembre-se: a força é sagrada.
É a segunda vez que escuto essa citação hoje, embora não saiba se está sendo usada para caçoar de Jax-Har ou para mostrar uma fé sincera no Grande Livro.
Deve ser uma mistura das duas coisas.
As palavras se repetem em minha cabeça. Não na voz dela, mas na de Adamus. Parece que faz muito tempo desde que ele me disse a mesma coisa. Foi quando eu estava machucado e destruído, mal conseguindo ficar de pé, enquanto nos afastávamos de Dulce, na direção do deserto. Na época, esse sentimento me motivou a seguir em frente, me lembrando que o Adorado Líder esperava meu melhor, que era meu dever lutar e ficar mais forte por meu povo.
Agora, vendo a expressão maníaca de Mirra, eu me pergunto se as palavras poderiam ter outro significado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)