3 de maio de 2017

Capítulo três

VOLTO À ENFERMARIA ENQUANTO SEGUIMOS NA DIREÇÃO DE WEST VIRGINIA. OS médicos cortaram a maior parte do cano afundado no peito do Adorado Líder usando uma espécie de laser. Agora só restam uns dois centímetros para fora.
— Ele está vivo, mas muito mal — sussurra o nascido naturalmente encarregado dos cuidados quando o chamo de lado.
— Ele está ótimo — afirmo, estreitando os olhos. — Dizer algo diferente seria heresia. Lembre-se disso.
— É claro — responde ele de imediato. — Vou me certificar de que minha equipe também se lembre disso.
Pousamos no começo da manhã, ainda no escuro. Antes de pegarmos Setrákus Ra com a maca, instruo os médicos a colocarem um lençol sobre ele, apenas para o caso de haver soldados por perto. Não devem vê-lo assim.
Ninguém deveria vê-lo assim.
O Dr. Zakos está nos esperando do lado de fora junto com meia dúzia de outros cientistas nascidos naturalmente que integram sua equipe.
— Direto para os tonéis — ordena ele a dois de seus homens, que levam correndo o Adorado Líder; em seguida, Zakos se vira para os outros. — Os demais, retirem toda a energia lórica que a Anubis extraiu do Santuário. Sabem o que fazer.
Os homens emitem um grunhido em concordância e se apressam. Zakos então se volta para mim.
— Você fez bem, Phiri Dun-Ra. O Adorado Líder com certeza a recompensará.
— Por quanto tempo acredita que ele ficará inconsciente? — pergunto.
— É difícil afirmar com base nos relatórios médicos. Mas deve recuperar um pouco da consciência logo depois de ser colocado nos tonéis. A menos que os ferimentos sejam piores do que o previsto. — Zakos lança um olhar desconfiado para a nave atrás de mim. — Estou impressionado com a rapidez com que chegaram aqui.
— A tripulação da Anubis é a melhor — digo. — Sabe como levar a nave ao limite.
— Sim. — Ele coça o queixo. — Uma tripulação e tanto, de fato. Considerando o que testemunharam, talvez seja melhor permanecerem na nave e se certificarem de que tudo está funcionando perfeitamente. — Ele aponta para as marcas chamuscadas nas laterais do casco antes de continuar: — Imagino que haja muitos consertos e diagnósticos a serem feitos.
Entendo aonde ele quer chegar. Nosso líder ficará bem — despertará mais forte do que nunca, sem dúvida —, mas não há motivo para o restante da frota saber que nosso comandante está em tratamento nos tonéis. Quanto menos pessoas souberem o que aconteceu no Santuário, melhor. Quando o Adorado Líder estiver recuperado, não fará a menor diferença, de qualquer forma.
— Cuidarei disso — digo.
— Ótimo — responde Zakos, assentindo. — A maior parte de nossos oficiais de patentes mais altas está nas naves de guerra, no momento, mas os que ainda estão aqui sabem sobre seu retorno. Creio que suas velhas instalações lá dentro estão vagas, se desejar usá-las.
Eu assinto.
— E recomendo uma bolsa de gelo para o olho. Está horrível.
— Eu estava em uma batalha — retruco. — Não na segurança de um laboratório, fazendo experiências em pikens.
— Como discípulo mais confiável do Adorado Líder, o encarregado de supervisionar seus planos para o Progresso Mogadoriano, é do interesse da frota me manter seguro, não acha? — Ele se vira para a base e fala por cima do ombro. — Precisarei de algum tempo a sós com ele. Venha me procurar em algumas horas. Temos muito o que conversar. Creio que achará meu trabalho muito interessante.
Eu me pergunto o que isso quer dizer. Com Zakos, nunca dá para saber. Volto para a Anubis. Alguns integrantes da tripulação estão reunidos na ponta da rampa de embarque.
— Voltem a seus postos — ordeno a eles com um grito.
Acompanho-os a bordo e me conecto ao sistema de alto-falantes.
— Aqui é Phiri Dun-Ra, voz do Adorado Líder — anuncio. — Todos os membros da tripulação e soldados a bordo da Anubis devem permanecer na nave até segunda ordem. Além disso, nossas comunicações estão bloqueadas. Qualquer transmissão feita para fora da nave deve ser liberada pelo Adorado Líder.
Em seguida, saio da Anubis.
Fazia tanto tempo que eu não vinha à base que não estava preparada para o cheiro cáustico do lugar. Não parece ter mudado muito, exceto pelo fato de que os rios de líquido verde que fluíam pela câmara principal foram substituídos por uma gosma negra viscosa, similar à que Setrákus Ra usa para aumentar e melhorar nossas forças — deve ser fruto dos experimentos e novos acréscimos nos quais o Adorado Líder tem trabalhado desde que parti.
Ainda assim, minha mente é inundada pelas lembranças deste local, de treinar tropas e exigir o melhor de todos os mogadorianos nascidos artificialmente enviados a mim, estalando chicotes e hastes de choque em suas costas quando não atendiam às expectativas. Passo pelos currais dos pikens e krauls e pelas celas nas quais vi humanos, aliados lorienos e até mesmo algum Cêpan ou Garde se acovardarem de medo. Mesmo sem vê-las, sei que as câmaras de interrogatório ficam depois das celas, repletas de todo tipo de instrumentos e ferramentas criadas para extrair informações.
Não tinha percebido a saudade que sentia deste lugar.
Ignoro minhas instalações e sigo para a sala de comando central, o coração do Progresso Mogadoriano. Quero saber o andamento do restante das operações.
Diferentemente das paredes de pedra da câmara principal, a sala de comando é elegante, com todas as superfícies de metal cinza-escuro. As paredes estão cobertas por computadores e monitores. Uma mesa no centro da sala exibe um mapa digital com as naves de guerra espalhadas por todo o planeta. A maioria dos mogadorianos nascidos naturalmente lá dentro parece ser de jovens oficiais em treinamento.
— Phiri Dun-Ra — chama uma voz baixa e grossa.
Eu me viro e me deparo com o general Krah. De modo geral, é raro um mogadoriano morrer de velhice. Passamos tanto tempo de nossas vidas lutando que não costumamos expirar por “causas naturais”. Mas Krah poderá se provar uma exceção, e não é por evitar o campo de batalha. Seu rosto é uma teia de cicatrizes.
— General Krah — respondo, cumprimentando-o com a cabeça em sinal de respeito.
Ele atravessa a sala com passos pesados. Quando volta a falar, sua voz está mais baixa, para que a conversa seja particular. Eu me preparo. Quando fui expulsa da base na montanha, Krah foi um dos oficiais responsáveis por escolher minha realocação.
— Dr. Zakos me informou sobre sua situação.
Ele estreita seu único olho bom, examinando meu rosto. O outro olho é de um branco leitoso, inutilizado por um ferimento infligido muito tempo atrás.
— Agi como o Adorado Líder desejaria — declaro. — Mas infelizmente deixei a escória loriena escapar. Os Skimmers perderam o rastro da nave deles em algum ponto no Texas. — Olho para o chão e prossigo: — Compreendo que este fracasso é imperdoável. Se implica o fim de minha vida, ofereço de bom grado meu pescoço para sua espada.
Krah resmunga.
— Você sempre foi uma boa combatente, Dun-Ra. Mesmo quando fracassa, sua lealdade jamais se abala. Fez o certo ao trazer o Adorado Líder, que seu reinado seja longo! Caso morra por suas ações, será pelas mãos dele, não pelas minhas.
Concordo com a cabeça, sentindo uma pequena onda de alívio percorrer meu corpo.
— Senhor — diz um dos oficiais em treinamento ao ficar de pé, retirando os fones de ouvido. — Várias naves de guerra ainda estão perguntando sobre a nave lórica que a Anubis estava perseguindo. Acredito que vários dos capitães gostariam de enfrentá-la, se possível.
— Claro que sim — responde Krah, olhando de relance para mim. — Sei que você esperava destruir os cretinos, mas deixou nossa frota na América do Norte inquieta.
— Como responderemos? — pergunta o jovem nascido naturalmente.
— Que as naves devem permanecer à espera — afirma Krah. — Que o Adorado Líder anunciará quando tiver novas ordens.
Ele levanta um pouco o queixo.
— E que nossa invasão à Terra está ocorrendo exatamente como ele planejou.

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