3 de maio de 2017

Capítulo sete

ALGUMAS HORAS DEPOIS DA REUNIÃO COM O CAPITÃO, O DEPARTAMENTO DE reconhecimento envia uma lista de nomes e locais para o tablet de cada líder de esquadrão. Dividimos os alvos com base na localização. Reúno meus homens. Eles conversam em voz baixa uns com os outros. Não entro na conversa, nem me importo em saber quem é quem. Não importa como se chamam — saberei seus nomes no futuro, quando estiverem contando histórias sobre nossas vitórias. Quando tiverem provado seu valor. Tudo o que esses soldados precisam fazer é obedecer às minhas ordens. E o farão. Nascemos para obedecer, e assim conquistaremos o favor dele.
Viva nosso Adorado Líder! Que seu reinado seja longo!
Nosso primeiro alvo é um adolescente de um bairro rico ao norte de Chicago que andou se gabando, pela internet, por ter feito o computador flutuar pela sala. Há algumas fotos tiradas do perfil dele na rede que podem ser usadas para identificá-lo. Carregamos um Skimmer com armas, equipamentos de contenção e seringas cheias de um composto sedativo, só para o caso de esses humanos conseguirem usar seus poderes recém-descobertos. Seguimos para a casa do menino, de onde as mensagens foram enviadas, segundo o endereço de IP. Fica distante da cidade, de modo que deve acreditar que está a salvo. Que podemos ignorá-lo.
Humanos burros. Como se nosso alcance não abrangesse toda a galáxia.
A rua não fica exposta e é tranquila, cheia de casas imensas em terrenos amplos. A mansão para a qual estamos nos dirigindo fica no final de uma rua sem saída. Isolada. Ainda assim, derrubamos alguns postes antes de pousarmos, apagando a iluminação pública. Em combinação com a blindagem discreta, isso permite uma aproximação bastante silenciosa.
Avançamos em silêncio, os quatro soldados seguindo minhas orientações. Vemos luzes fracas pelas janelas da casa. O brilho alaranjado das velas e o branco intenso das lanternas e dos dispositivos eletrônicos operados por bateria. As pessoas lá dentro devem estar assustadas e confusas.
Exatamente como queremos que estejam.
A porta da frente é grande e feita de madeira espessa. Como a entrada é estreita demais para o esquadrão, faço um sinal para a esquerda, e eles me seguem pela lateral da casa, onde imensas portas de vidro dão para um salão. Há uma mulher de pé ali, acendendo velas em um candelabro sobre uma mesinha lateral. Ela está com as sobrancelhas franzidas, formando marcas de expressão profundas, conforme passa de um pavio a outro.
Ela nos vê logo antes de um de meus soldados atirar uma imensa floreira de concreto na porta de vidro, estilhaçando-a. A mulher mal solta um grito antes de as armas abrirem fogo. Ela cai na mesma hora, derrubando as velas, que incendeiam um pedaço de tecido jogado sobre a mesa, iluminando o ambiente com chamas quentes.
Meus lábios se abrem em um sorriso.
— Encontrem-no — resmungo, e meus homens partem.
A casa é grande demais, com muitos lugares onde se esconder. Por sorte, a maior parte das pessoas vem correndo em nossa direção. Tentando descobrir por que o vidro quebrou. Por que a mulher gritou. Há mais humanos do que eu tinha imaginado. Talvez sejam amigos ou familiares dos proprietários se escondendo na mansão — talvez tenham saído da cidade durante a evacuação e imaginaram que poderiam ficar a salvo mais distantes das naves de guerra. Desabam tão fácil quanto a primeira mulher, chocados demais para reagir ao ver nossos rostos. Nossas armas. Eu me pergunto se seus cérebros sequer processaram o que está acontecendo antes de caírem em silêncio.
Os humanos são parecidos com os lorienos em alguns aspectos. A anatomia, por exemplo. Seus corpos não se desintegram e nem desaparecem, unindo-se ao universo. Ao Adorado Líder. Em vez disso, ficam lá. Mortos. Sangrando. Um lembrete, a todos que os veem, de que não foram capazes de sobreviver.
Apodrecem quando expostos, em um ritmo muito mais lento do que os mogadorianos nascidos naturalmente — as melhores partes de nossos líderes desaparecem, como os nascidos artificialmente. O fim de um humano é uma desgraça. Não há honra em uma morte assim.
O cheiro acre dos disparos das armas enche o ar, misturando-se com a fumaça que se ergue das chamas que continuam a se espalhar pela mesa. Inspiro fundo. Pela primeira vez em muito tempo, sinto satisfação. Sinto como se estivesse fazendo o que nasci para fazer.
O garoto que estamos perseguindo faz uma breve aparição antes de dar meia-volta e fugir. Ele corre para subir uma escadaria. Covarde. Nós o perseguimos, saltando sobre os corpos. Batemos as botas no piso frio de cerâmica da entrada da casa. Antes de chegarmos aos primeiros degraus, ouvimos um tiro. Um humano com uma espingarda de cano duplo na mão começa a recarregá-la. Um de meus homens está caído. É sua própria culpa — era dever dele estar cuidando do flanco esquerdo.
O soldado não está morto, mas ferido. O braço esquerdo desapareceu, junto com a arma. Por sorte, ainda tem uma adaga. Ele saca a lâmina do cinto e dá um salto. Seus gritos são de pura raiva quando ele aterrissa sobre o humano, derrubando-o. Ao bater no piso de cerâmica, a cabeça do homem faz um barulho como o de algo que se quebra. Só isso deve tê-lo matado. Mas, por via das dúvidas, pode-se usar a lâmina. O sangue forma uma poça no piso. Deixo o soldado continuar seu trabalho e subo com os outros três membros do esquadrão.
Encontramos o alvo em um quarto no andar de cima, escondido sob uma mesa. Eu o arrasto para fora e o levanto no ar com uma das mãos, segurando o tablet do lado de sua cabeça com a outra. Encontrado.
— Pare, por favor — pede ele, implorando. — Farei qualquer coisa. Temos dinheiro. É o que vocês querem? Se me deixarem ir até o quarto dos meus pais, tem um...
Enfio a agulha de uma seringa no braço do garoto. Ele amolece. Deixo seu corpo cair no chão e faço um sinal para um de meus homens, que pega o menino e o apoia por cima do ombro.
— Para fora — ordeno.
No andar de baixo, o soldado sem um braço paira sobre um corpo estraçalhado. Ele parece ter usado o cano quente da arma para cauterizar o coto onde o braço ficava. Há sangue humano pingando do uniforme.
— Seu merda — diz ele, chutando o cadáver. — Aquela era minha mão boa.
Saímos por onde entramos, passando por cima dos corpos caídos. As chamas se espalharam para o tapete, mas ameaçam se extinguir. Vejo um armário grande cheio de garrafas. Álcool. Derrubo o móvel inteiro. Os vidros se quebram. O álcool se esparrama pelo chão. Quando passamos pelo espaço em que ficava a porta deslizante, o líquido incendeia atrás de nós.
Tecnicamente, o fogo dificultará o trabalho de quem for determinar o que aconteceu ali. Mas, para ser sincero, não era o que eu tinha em mente quando derrubei o armário. Só queria ver o lugar queimando de cima, assim que voltássemos para o Skimmer. Ver a noite ser iluminada pelas chamas.
E, bem como eu esperava, quando partimos, a visão é gloriosa.

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Boa leitura :)