3 de maio de 2017

Capítulo seis

OS HUMANOS SÃO PEDAÇOS DE MERDA DE KRAUL.
Pelo menos os lorienos resistiram.
Eu era novo na guerra quando invadimos Lorien. Tinha acabado de sair dos tonéis. Fui criado e treinado para aniquilar toda uma civilização. Logo que meus dedos conseguiram pressionar o gatilho, minhas mãos ganharam uma arma. Eu fazia parte da mais jovem leva a juntar-se à missão. Tínhamos uma diretriz: viver conforme as palavras do Grande Livro. Conquistar, consumir, cauterizar. Deixar o Adorado Líder orgulhoso.
Viva nosso Adorado Líder!
Disseram-nos que os lorienos eram um povo que valorizava a paz acima de tudo. Mas eles não aceitaram seu destino sem brigar. Os chamados Gardes, os lorienos com poderes, lutaram muito. Perdi metade do meu esquadrão para uma menina que atirava lasers pelas mãos e um homem capaz de controlar chamas — e essas não foram sequer as coisas mais estranhas que eu vi naquele dia. Mas os Gardes não cumpriram seu propósito. Eles fracassaram em proteger seu planeta e seu povo. É claro. Não tinham chance contra nós. Contra mim. Mas tiveram uma morte honrada, lutando até o último segundo.
A maioria deles, quer dizer. Destruí prédios onde lorienos covardes se escondiam, rezando para seus líderes inúteis. Esperando que alguém os salvasse, ou que seguíssemos em frente e nos esquecêssemos deles.
Não sei ao certo quanto tempo levou para o planeta sucumbir. Tudo aconteceu em uma confusão de bombas, tiros e sangue. E então acabou. O que sei é que a luta acabou cedo demais. Quando saímos de Lorien, eu me sentia feroz, como se pudesse passar o resto da vida incendiando os campos daquele planeta, destruindo as cidades — ou, melhor ainda, arrancando os últimos sobreviventes dos esconderijos e cortando suas gargantas em nome do Adorado Líder.
Nossas naves acabaram com o planeta, destruindo qualquer sinal de vida que tivesse sobrevivido ao ataque. E Setrákus Ra ficou satisfeito.
Que seu reinado seja longo!
Depois, fui enviado para a Terra. De várias formas, o planeta parece uma combinação de Mogadore e Lorien, habitado por um povo que idolatra a paz e a guerra ao mesmo tempo. No começo, fiquei otimista. Pensei que tinha sorte por estar lotado aqui. Que os humanos dariam boas presas.
No geral, não é o que acontece. Eles se sujeitam. São fáceis de controlar. Não vi graça alguma em dominá-los, nenhuma emoção em vencê-los.
Aqui neste planeta azul e verde, venho trabalhando escondido há anos, muito antes de nossa presença ser reconhecida. Fui um dos muitos enviados para procurar os últimos Gardes, que se mostraram muito melhores em se esconder do que em lutar. Foi assim que aprendi tudo sobre os humanos. Foi necessário para me disfarçar e me misturar à população quando necessário. Eu os enfrentei de igual para igual enquanto perseguia os lorienos restantes, intimidei os poderosos para fazê-los se juntarem a nós e silenciei aqueles que viram demais.
Em todos esses anos, quase não tive dificuldades. Mesmo quando torturados para revelar informações — pessoas que abrigaram Gardes involuntariamente ou tentaram alertar os humanos quanto à nossa presença —, abriam o bico com muita facilidade. Eu nunca precisei forçar muito a barra com esses. Ou fiz isso só por diversão, depois de já ter descoberto tudo o que precisava saber. Imaginava que tudo mudaria quando nossas naves de guerra pairassem sobre suas cidades. Acho que alguma coisa aconteceu nos lugares onde os humanos e os Gardes nos enfrentaram de maneira ativa. Mas não em Chicago, onde estou lotado: aqui, liderei um esquadrão em um ataque a um esconderijo Garde há pouco tempo, capturando um dos alvos mais valorizados pelo Adorado Líder.
Permitimos a evacuação porque o Adorado Líder — Louvado seja seu nome! — tem planos para este planeta, talvez até mesmo para seu povo. Não é como Lorien. Não estamos aqui apenas para destruir. Não questiono o raciocínio. Sei que é infalível.
Assim, estive em patrulha, trucidando pequenos focos de resistência desde que revelamos ao humanos a verdadeira face de seus mestres. Meia dúzia de policiais aqui, um bando de estudantes irritados ali. Algumas pessoas tentando sair da cidade em desespero — que calharam de estar no lugar errado na hora errada —, só para manter o sangue pulsando.
O que eu não daria para estar em uma das cidades onde há luta de verdade. Sinto nos músculos e nos ossos. A necessidade de disparar minha arma e usar minhas lâminas. De agarrar os inimigos pelo pescoço e olhar em seus olhos antes de liquidá-los. Sinto muita saudade dos velhos tempos, antes de nos revelarmos. Sinto saudade da caçada. Sinto saudade do suor da batalha e de sentir a pulsação da pele de uma vítima em minhas mãos. Anseio por matança e derramamento de sangue. Qualquer coisa que não seja o tédio de lidar com humanos.
Foi por isso que, quando soube que meu capitão queria me ver na sala do conselho de nossa nave de guerra, alguns dias depois de pararmos sobre Chicago, não pude deixar de passar a língua pelos dentes e torcer para que ele me desse a oportunidade de fazer algum estrago de verdade. De voltar à luta, acabando com toda essa espera. Sem falar que apenas estar na presença do capitão da nave é uma honra. Sou líder de um esquadrão de soldados nascidos artificialmente — alguém que provou seu valor na batalha —, mas minhas ordens ainda vêm de oficiais nascidos naturalmente de níveis inferiores.
Pego um Skimmer até a nave de guerra e espero na sala do conselho com dois outros veteranos nascidos artificialmente. Têm cicatrizes no rosto, e um perdeu vários dentes. Eles estiveram na ativa. São bons soldados.
Ficamos enfileirados enquanto esperamos. Nenhum de nós faz especulações sobre por que fomos chamados. Pelo menos não em voz alta. Saberemos em breve, então cumpriremos as ordens. Rapidamente. Impiedosamente.
Orgulharemos nossos companheiros.
O capitão entra e nos avalia, assentindo, como que para aprovar a seleção feita. Ele anuncia nossos nomes. Damos um passo à frente quando chamados.
Sou o último.
— Vintaro Üshaba. — O capitão faz uma pequena pausa. — Por que escolheu esse nome?
Ele se refere ao meu primeiro nome. Como todos os nascidos artificialmente, meu sobrenome é retirado do local onde fui criado.
— “Vintaro”, na língua antiga, quer dizer “destruir”. É o que me motiva.
O capitão dá um sorrisinho. Parece gostar da resposta.
— Chamei vocês aqui para uma missão especial — diz ele, caminhando de um lado para outro à nossa frente. — Desde que chegou ao conhecimento do Adorado Líder que alguns humanos começaram a apresentar poderes semelhantes aos dos Gardes, seus esquadrões têm estado à procura desses espécimes em terra. Ele, em sua infinita sabedoria, gostaria de examinar alguns desses humanos marcados. De agora em diante, vamos assumir uma abordagem mais proativa na coleta desses prisioneiros. Soube que vocês três são os melhores soldados nascidos artificialmente desta nave.
Resmungo, concordando com a cabeça, mas mantendo o olhar voltado para o chão.
— A missão de vocês é simples. Cada um irá liderar esquadrões infiltrados e encontrar esses humanos com poderes lóricos. Nosso departamento de reconhecimento fornecerá pistas a vocês. Quaisquer recursos de que precisarem estarão disponíveis. No entanto, lembrem-se: devemos manter a “paz” que prometemos às cidades que não ofereceram resistência. — Ele exibe uma fileira de dentes cinzentos. — Não deixem rastros.
— Sim, senhor! — respondemos todos em uníssono.
Ele segue na direção da porta, avisando que receberemos mais informações em breve e que nossos esquadrões já foram escolhidos e estão esperando nossas ordens. O capitão está prestes a sair quando para.
— Uma última coisa — diz, voltando-se para nós. — É fundamental trazer os prisioneiros com vida. — Ele faz uma pausa por um instante, dando de ombros. — Mas qualquer um que ficar no caminho é eliminável. Agora, estão dispensados. Voltem para os alojamentos e comecem os preparativos. Quero que partam assim que a oficial de reconhecimento passar as informações.
Quando a porta se fecha atrás dele, sorrio. Não dá para evitar.
Humanos com poderes lóricos. Não sei como é possível, mas não faz diferença. Não preciso entender. Tudo o que sei é que tenho uma missão. Estou de volta à luta, e nenhuma presa vai me escapar.
É hora da caça.

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