3 de maio de 2017

Capítulo quinze

MIRRA É A ÚNICA PESSOA PRESENTE NA SALA DO CONSELHO QUANDO CHEGO PARA A reunião da noite. Ela está debruçada sobre um tablet, analisando dados, como costuma fazer. Como se fosse uma noite perfeitamente normal.
Sento ao lado dela por hábito, percebendo tarde demais que foi sem dúvida uma péssima ideia.
— Boa noite — murmuro.
— Olá!
Ela me espia pelo canto do olho, depois me examina direito.
— Você parece incomodado — observa ela.
Em seu rosto vejo a indiferença e a severidade de uma pedra, mas estou acostumado com isso. Os olhos se estreitaram um pouco, como se ela pudesse ver todos os meus pensamentos.
— Só tentando deduzir o que o Adorado Líder deve achar de nossa mudança de posição — respondo, e tecnicamente não é uma mentira.
Ela parece satisfeita.
— Não se preocupe. Está tudo em ordem. Apenas fique sentado e testemunhe. — Ela toca em sua arma e diz: — Pelo Adorado Líder.
A porta atrás de nós se abre, e outros começam a entrar na sala.
Sou tomado pelo pavor, que forma uma bola em meu estômago. Olho para a dezena de oficiais à mesa, tentando descobrir quem são os outros aliados que Mirra mencionou. E quem vai se colocar contra ela. Talvez seja porque nunca conversei com muitos deles nem os conheço direito, mas não vejo nenhum daqueles mogadorianos nascidos naturalmente como revoltosos.
Espero, pelo bem de Mirra, estar errado. E, pelo bem de Jax-Har, espero não estar.
Acabo pedindo forças e orientação ao Adorado Líder, mas só me dou conta disso quando começo a murmurar baixinho versículos do Grande Livro.
Meus dedos roçam minha arma. Sinto o suor começar a escorrer pelo meu corpo, por isso fecho os olhos e tento me acalmar. Penso na água tranquila do Lago Ontario e nas cataratas correndo abaixo de nós. Tento deixar essas imagens abafarem todos os alarmes disparando em minha mente.
Jax-Har entra com Denbar. Pego apenas a última parte da conversa, mas ouço o suficiente para saber que vários outros capitães estão furiosos com nossa atitude. Isso deve ser um fardo para ele. Vejo isso em sua postura curvada, em seus traços inchados e escurecidos. Quase me sinto mal pelo sujeito.
— Vamos começar — anuncia ele, a voz rouca, como se tivesse passado a manhã gritando. — Oficial Saturnus, atualize-me sobre as localizações da frota.
— Não houve movimento entre as naves de guerra, senhor. Os padrões de Skimmers parecem estar normais — respondo.
— Nenhum seguindo em nossa direção?
— Negativo, senhor.
— O que os outros capitães disseram sobre sua decisão de abandonar o posto? — sibila Mirra.
— A maioria respeita minha ousadia e concorda quanto ao valor estratégico da pedra de loralite.
Ele não parece nem um pouco preocupado com o tom dela.
Antes que eu sequer me dê conta do quanto é estranho ele não ter dado uma resposta dura, colocando-a em seu lugar, Mirra continua:
— E os outros? Os que não concordam?
— Diria que eles não deveriam estar no comando de uma nave. — Ele a encara com firmeza e continua: — Diria que eles têm tanto medo de desobedecer ao Adorado Líder que não veem uma oportunidade quando se apresenta. Que esqueceram que os ensinamentos do Grande Livro pregam a honra não apenas pela lealdade, mas também pela ousadia e pelo uso de todos os recursos possíveis. — Seu lábio superior recua em meio a um breve rosnado. — Diria que eles são uma desgraça para o povo mogadoriano.
Mirra não responde, mas sinto o calor que emana dela.
— Se tem algo a dizer, minha pequena oficial executiva perdida, este é o momento — conclui Jax-Har, com um pequeno sorriso.
— Maldito! — grita Mirra ao se levantar e sacar a arma.
Outro oficial a algumas cadeiras dela também se levanta.
É quando se ouve o primeiro disparo.
O tiro atinge o alvo com precisão perfeita, abrindo um buraco que atravessa o bíceps direito de Mirra. A arma dela cai sobre a mesa. Em seguida, vem um segundo tiro, que desarma o outro oficial de pé.
Mirra arregala os olhos, incrédula, encarando o oficial do outro lado da mesa, o que disparou.
— Não, Balda, você... — começa ela.
— Sirvo ao Adorado Líder — interrompe o oficial. — E quem quer que ele considere adequado para o comando.
Mirra avalia a situação. Quase todas as armas estão apontadas em sua direção. Apenas alguns parecem confusos. O outro oficial que a apoiou olha para a porta.
É evidente pela expressão no rosto dela que vários dos que estão apontando armas são os que considerava como aliados. Em seu empenho para provar a própria lealdade, subestimou a de seus pares.
Mirra se vira para mim. O choque em sua expressão vira preocupação. Ela não diz nada, mas não precisa. Sei que está me condenando, condenando a todos nós.
Não consigo continuar assistindo à cena, então viro o rosto.
— Ele é um traidor — grita ela, apontando para o capitão. — Ele afastará vocês do Progresso Mogadoriano. Parem de segui-lo cegamente!
Jax-Har, pela primeira vez em dias, dá uma risada.
— Viva nosso Adorado Líder — anuncia Denbar.
— Que seu reinado seja longo! — acrescenta Jax-Har.
Então, todos disparam.
O corpo de Mirra cai para trás, derrubando a cadeira. O aliado dela também desaba. Mantenho os olhos na mesa à minha frente, sem querer ver os corpos, desejando que os mogadorianos nascidos naturalmente se desintegrassem como os nascidos artificialmente, ou que eu estivesse em qualquer outro lugar da galáxia.
Fui estúpido por não ter ido embora com Adamus.
O silêncio toma conta da sala. Levo alguns segundos para perceber que todos estão olhando para mim.
Denbar está com a arma apontada para meu rosto.
— Opa — digo. — Eu não... Quer dizer...
Não consigo construir uma frase. Levanto as mãos na altura do peito — algo atípico para um mogadoriano, uma oferta de rendição.
— Sabemos que ela tentou recrutar você — diz Jax-Har, em tom calmo, como se a segunda pessoa em comando não tivesse acabado de tentar dar um golpe. — Os outros me procuraram, um a um. Você, não. E sequer levou a mão à arma quando Mirra se levantou. Diga-me, navegador: a quem dedica sua lealdade?
Sinto minha pulsação na cabeça.
— Se questionasse sua liderança, não teria nos trazido para as Cataratas do Niágara — respondo devagar, pronunciando cada palavra. — Confio na sabedoria do Adorado Líder. Confio em seu comando.
Jax-Har me encara, mas acaba fazendo um gesto com a mão. Os outros abaixam as armas. Estou a salvo.
Pelo menos por ora. De repente, meu tempo nesta nave parece muito curto. Olho para trás, contra minha vontade, e vejo o corpo de Mirra se desintegrando. Então me dou conta de que preciso fazer alguma coisa. As dúvidas que vêm crescendo em minha cabeça são grandes demais para eu continuar aqui, seguindo ordens que sem dúvida culminarão no massacre de um planeta inteiro. Preciso sair desta nave ou serei assassinado. Ou vou enlouquecer.
Não sei o que é pior.
As portas se abrem outra vez e alguém entra correndo — um mogadoriano nascido naturalmente, um pouco mais jovem do que eu. É o oficial em treinamento que responde a Denbar e monitora as comunicações à noite e durante reuniões.
— Capitão Jax-Har!
Ele dá alguns passos antes de parar e se ambientar, os olhos arregalados, tentando digerir a situação, os corpos no chão.
— Esta é uma reunião fechada — dispara o capitão.
— Mas, senhor... — O garoto parece um pouco assustado. — O oficial Denbar solicitou que eu relatasse se qualquer coisa relevante acontecesse nas comunicações. Os capitães estão todos brigando...
— Eles passaram a manhã toda fazendo isso.
— Sim, mas, senhor, agora tem outra pessoa no meio. Phiri Dun-Ra, que estava no México. Ela tem notícias sobre o Adorado...
— Ligue os comunicadores! — ordena Jax-Har, virando-se para Denbar e apontando o dedo para ele.
Denbar toca em um terminal. Os gritos de Phiri Dun-Ra invadem a sala, a voz permeada de fúria. Ouvimos apenas algumas palavras. “Gardes.” “Legados.” Elas não significam nada fora de contexto e é difícil ignorar o som ao fundo — alguém, acho que um jovem humano, está gritando de dor, gritos tão primitivos e aterrorizados que preciso lutar contra o instinto de cobrir os ouvidos com as mãos.
É o que o futuro nos reserva. Não posso ficar parado, resignado a fazer o que capitães e comandantes me mandam fazer. Deve haver mais para os mogadorianos — para mim — do que guerra e brutalidade.
Não é tarde demais para mudar.
Então alguma coisa me atinge, fazendo meu sangue congelar. Outra pessoa começa a falar na linha.
No começo, nem sequer processo as palavras. Tudo o que faço é me concentrar na voz inconfundível de Adamus Sutekh e no que isso significa.
Adam está vivo.
E eu não consigo acreditar no que ele está dizendo.

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Boa leitura :)