3 de maio de 2017

Capítulo quatro

KRAH ME PASSA OS DETALHES SOBRE A CAMPANHA. POR ORA, ESTAMOS EM SITUAÇÃO de espera. O voo inesperado da Anubis ao Santuário mudou nosso cronograma.
Quando o Adorado Líder despertar, seus planos serão retomados, mas, por enquanto, as naves de guerra aguardam em silêncio. A única anomalia foi que alguns humanos subitamente desenvolveram poderes como os dos Gardes. Mas, de acordo com Krah, no momento eles são mais uma curiosidade do que uma ameaça. Os humanos afetados mal parecem ter saído da infância, estão sem treinamento e são incapazes de usar suas habilidades recém-descobertas de forma que prejudique nossa causa. Na verdade, acredita-se que podem vir a ser úteis de outras maneiras.
Entendo isso um pouco melhor quando visito Zakos, à tarde.
Há cinco placas de metal que funcionam como camas ao longo das paredes do laboratório. Três estão vazias. Uma está coberta de sangue e de algo que parece com pedaços de carne humana. Em outra, está amarrada uma menina humana de cabelos curtos e ruivos, inconsciente. Zakos está debruçado sobre ela, espetando-a com um bastão conectado a um tablet nas mãos dele.
— Doutor — digo.
— Ah, Phiri. — Ele larga o tablet sobre a barriga da menina. Ela não reage. — Estava prestes a mandar chamar você.
— Quem é esta criança? — pergunto. — Pensei que já tivéssemos aprendido tudo sobre a anatomia humana.
Os olhos de Zakos brilham um pouco.
— Eu também. No entanto, esta menina exibiu sinais de poder lórico. Telecinesia, para ser mais específico. Há relatos de que humanos estão desenvolvendo outros tipos de Legados.
— E foi por isso que você a dopou, imagino.
— Exatamente — confirma ele.
— E aquele? — pergunto, apontando para a prancha em que o sangue está coagulando.
— Um erro estúpido de minha parte. Não voltará a acontecer. Tentei usar as mesmas técnicas de meu antecessor, o Dr. Anu, para isolar os Legados. Infelizmente, ao que parece, os métodos dele funcionavam apenas na fisiologia loriena. Fiz alguns ajustes. Como pode ver, este espécime ainda está vivo. E, se morrer, bem, várias das naves de guerra estão com equipes dedicadas a obter novas amostras para mim. Não creio que terei problema em encontrar mais objetos de pesquisa.
Eu me aproximo da menina adormecida e a observo melhor. Há sondas finas de metal saindo de seu peito e de seus braços. Os olhos se movem de um lado para o outro sob as pálpebras.
— Como eles conseguiram esses poderes? — indago.
Zakos ignora a pergunta com um aceno de mão enquanto se aproxima de um terminal de computador.
— Estou menos preocupado com como do que com o que podemos fazer com o recurso. O como, descobriremos mais tarde. Para que seja possível fazer engenharia reversa. Ou, o que é mais provável, o Adorado Líder saberá explicar.
— Como ele está? — pergunto.
— Veja você mesma.
Eu o acompanho por uma porta nos fundos do laboratório até uma imensa área aberta. O lugar cheira a enxofre, e há grandes retângulos pretos marcando o piso de metal, poços cheios da gosma escura que é bombeada para o corpo de soldados com acréscimos e que incuba os nascidos artificialmente.
São os tonéis de cura.
— Ele descansa abaixo de nós — conta Zakos. — Já começou a se recuperar. Não levará muito tempo até que volte a caminhar.
— Tão rápido?
— Sim — responde ele, parecendo um pouco irritado. — Ele projetou o sistema quando nos concedeu os mogadorianos nascidos artificialmente e O Grande Livro do Progresso Mogadoriano. Você precisa confiar no conhecimento dele, Phiri.
Cerro os dentes em resposta à insinuação de dúvida sobre minha confiança e me controlo para não estraçalhar a cara do doutor. Enquanto isso, ele mostra interesse pelos curativos em minhas mãos.
— Posso? — pergunta ele.
Estendo as mãos com relutância. Ele remove um dos curativos.
— Queimaduras — diz ele. — De energia, mas não das armas. Você deveria ter me falado sobre elas antes.
— São de uma espécie de campo de força que encontrei no Santuário dos lorienos. Não preciso que sejam curadas. São um bom lembrete do que acontece quando sou menos do que o Adorado Líder gostaria que eu fosse.
— Ele gostaria de ter você no auge de seu potencial. — Zakos solta minhas mãos e aponta para um dos retângulos escuros no chão. — Vou providenciar curativos limpos. Se você espalhar um pouco do líquido dos tonéis nas palmas das mãos, vão se curar em um instante.
Vou até a tina e encaro a escuridão pegajosa. Alguns segundos se passam antes que eu enfie dois dedos na gosma preta. A substância é viscosa e quente, mas começa a formigar, esfriando, quando a espalho sobre os ferimentos.
Expiro com força.
— Pois é — diz Zakos, aparecendo atrás de mim. — Pode ser bem desagradável.
Ele pega minhas mãos outra vez, limpando o excesso com uma toalha antes de refazer o curativo com gazes brancas e limpas. Está terminando a primeira mão quando fala:
— Você é uma soldado forte, Phiri Dun-Ra.
Não respondo.
— Preciso de soldados fortes.
— Para quê? — pergunto. — Obter mais cobaias para você? Não faço serviço de entrega.
— É claro que não — responde ele, dando um sorrisinho, e começa a mexer na minha outra mão. — Não fui muito claro. Ele precisa de você. Estou trabalhando em algo para o Adorado Líder... Um projeto no qual ele tem o maior interesse. Uma nova maneira de armar nossas tropas.
— Ele desenvolveu novos acréscimos?
— Algo assim. Porém, apenas os mais fortes serão capazes de utilizar as novas armas. Não basta ser um mogadoriano nascido naturalmente, é necessário ter força física e mental. Resistência. E lealdade.
Ele me olha nos olhos.
— Você tem tudo isso, Phiri — continua ele. — Antes de voar para o Santuário, o Adorado Líder me passou planos e metas bastante específicos a respeito do futuro do Progresso Mogadoriano, e sei que nada o deixaria mais feliz do que sair dos tonéis e se deparar com uma nova força para comandar. Você servirá ao nosso glorioso comandante e ascenderá ao nível que ele exige de você?
Eu sustento seu olhar, tentando processar o que estou ouvindo. Mas, no fim, sei que só há uma resposta para essa pergunta.
— Farei qualquer coisa que o Adorado Líder me pedir.
— Esperava por essa resposta — diz ele, enquanto termina de fazer o curativo em minha outra mão. — Começarei logo os preparativos. Mandarei buscá-la quando tudo estiver pronto. Vá descansar um pouco. — Ele sorri antes de acrescentar: — A evolução pode ser um processo doloroso.

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