3 de maio de 2017

Capítulo quatorze

VOLTAMOS PARA A PONTE EM SILÊNCIO, MAS MINHA CABEÇA ESTÁ FERVILHANDO.
— Tudo conferido? — pergunta Denbar quando entramos, embora seu tom de voz me diga que não faz a menor diferença.
— Tudo — responde Mirra, lançando um último olhar para mim antes de seguir para sua estação, ao lado da cadeira do capitão.
O sol está alto no céu quando Jax-Har chega à ponte pisando forte. Ele está com a pele pálida, e a parte branca ao redor dos olhos pretos está avermelhada. Conhecendo a perspectiva de Mirra sobre o que está acontecendo, é fácil entender por que ela o vê como um louco, um blasfemo. Ele parece alguém à beira de um ataque de nervos, ainda mais do que uma hora atrás, durante a reunião. Tem total consciência do que está prestes a fazer.
— O curso está definido? — indaga ele.
— Sim, senhor — respondo.
— Nenhuma notícia de West Virginia? — pergunta a Denbar.
— Negativo, senhor.
Jax-Har permanece em silêncio por alguns instantes. Então, volta os olhos cansados para mim e ordena:
— Leve-nos para as Cataratas do Niágara.
Confirmo com a cabeça e toco no terminal à frente. A nave de guerra começa a se mover, pegando velocidade a um ritmo normal. Não há necessidade de pressa ou exibicionismo. Já estamos perto.
— Tempo de chegada previsto para quinze minutos, senhor — informo.
Mirra me encara. Ela abaixa a cabeça um pouco quando percebo seu olhar, então caminha até um de nossos oficiais de ciências e desaparece no corredor com ele, conversando sobre depósitos de loralite. Volto a atenção para o terminal e finjo me ocupar com alguns números e dados que já sei de cor.
No geral, o ambiente na ponte é silencioso, mas hoje essa característica parece artificial, pesada. Acho que todos sabemos o que isso significa, que estamos desobedecendo, mesmo que provavelmente estejamos fazendo o melhor para os mogadorianos — ou pelo menos o que faz sentido.
É estranho que algo que parece tão simples como se afastar uma curta distância da base possa ser visto como um ato de traição ou falta de fé. Mirra não é uma exceção por sua devoção fanática ao Adorado Líder. Essa é nossa mentalidade; desde o nascimento, é assim que somos criados para pensar. Só o ato de considerar a ideia de que o Adorado Líder possa falhar já é fundamentalmente antimogadoriano. Esse tipo de conflito não existe para nós — não pode existir, segundo o funcionamento de nossa sociedade.
No entanto, aqui estamos nós, sobrevoando o Lago Ontario.
Olho de novo para o capitão, que está fazendo o possível para parecer calmo, embora seus dedos estejam batucando nas laterais da cadeira. Não faz ideia dos planos de Mirra. Eu mesmo não sei direito. Mal consigo entender. Mas sinto algo cinético no ar. Uma mudança.
O que isso quer dizer para mim? Vou mesmo ajudar Mirra a destituir o capitão? Ou vou ficar sentado, assistindo ao desenrolar das coisas? Quem mais está do lado dela? As tropas a obedecerão? É provável, se ela as convencer de que Jax-Har é um traidor.
Eu poderia contar tudo ao capitão e impedir a pequena insurreição. Não sei se Mirra seria melhor do que Jax-Har. Talvez pior, em longo prazo. Ela quer se banhar no sangue dos inimigos, que são bilhões de humanos em um planeta do qual aprendi a gostar do jeito que é.
De que lado eu fico?
De que lado Adamus ficaria?
Não sei de onde vem essa pergunta, mas sei a resposta sem sombra de dúvida. Ele sairia desta maldita nave de guerra e encontraria os lorienos. Ajudaria a interromper o que quer que os mogadorianos tivessem preparado, sabendo que quaisquer que fossem nossos planos, o fim seria o mesmo: sangue correndo como rios por todo o planeta. O planeta em que crescemos. O único que conhecemos como lar.
Meu terminal emite um som.
— Estamos chegando ao destino — anuncio.
Atravessamos uma camada de nuvens, e então, de repente, lá está.
Não sei o que eu esperava — fogo, morte, luta —, mas tudo o que vejo são cataratas, um rio descendo o precipício, batendo lá embaixo e voltando a correr. Rompendo, continuando, sendo interrompido apenas por um instante.
Conforme nos aproximamos, também vejo os dois Skimmers que foram abatidos, mas as cataratas são tão espetaculares que é necessário procurar deliberadamente pelos destroços para encontrá-los.
Mirra volta para a ponte, acompanhada pelo oficial de ciência. Ele parece... imperturbado. Vejo Denbar fuzilando Mirra com o olhar. Só quando o capitão vai ao seu encontro ele para de encará-la.
— Mandem as frotas que reuni até lá para inspecionar a pedra — ordena Jax-Har. — Tentem conseguir uma amostra. E lancem as primeiras unidades de patrulha aérea. Fiquem de olho em qualquer sinal de movimento. Se os lorienos aparecerem, não seremos pegos de surpresa. Que eles nem sequer tenham tempo de perceber que estamos aqui. Atirem à vontade.
— Sim, senhor! — responde alguém.
— Oficial Saturnus, quero que mapeie os movimentos das frotas mogadorianas na América do Norte. Não apenas naves de guerra, mas Skimmers, aeronaves de patrulha... tudo e qualquer coisa. Houve... objeções quando anunciei nossos planos mais cedo.
Claro que houve. Não sei se ele receia que outras naves tenham vindo atrás de nós ou se só quer saber se seguirão nosso exemplo. Talvez ambos.
— O Adorado Líder ficará emocionado — afirma Mirra, com indiferença.
Jax-Har olha para ela com ar inexpressivo no rosto e responde:
— Sim. Que seu reinado seja longo!
O resto do dia se passa como um borrão. Nossas patrulhas não detectam nada de incomum. Não sei se a divisão de ciência foi capaz de coletar uma amostra da pedra. Jax-Har basicamente fica em silêncio em sua cadeira de capitão. Mirra volta e meia encontra desculpas para sair da ponte. Imagino o que está fazendo.
Rastrear os movimentos da frota me mantém ocupado, então me concentro no trabalho, tentando não pensar no futuro. Tudo muda quando faço o intervalo para jantar, levando minha refeição até o quarto. Nem sequer toco a comida. Só fico sentado no colchão fino e tento entender tudo o que está acontecendo.
Alguma coisa vai ocorrer na reunião dos oficiais esta noite. Quando terminar, ou Jax-Har ou Mirra vai liderar a nave.
Mirra disse que não preciso fazer nada. Que ela vai cuidar de tudo. Talvez eu devesse deixá-los matar um ao outro e esperar a poeira baixar antes de escolher um lado. Independentemente de quem estiver no comando, meu papel não vai mudar. Ainda ficarei parado diante do meu terminal, centenas de metros acima das cidades, assistindo à destruição da Terra. Com certeza esse será o destino final com ambos. Dominação completa. Em longo prazo, não importa quem está no controle. Estou em uma nave de guerra. Nós fomos feitos para destruir.
Meus pensamentos voltam para a questão do que Adamus faria. Abandonar nosso povo. Não seria muito difícil, para um oficial nascido naturalmente, pegar um Skimmer, desativar os sistemas de rastreamento e seguir para o céu aberto.
Talvez eu pudesse tentar encontrar Adamus e ver o que ele anda fazendo. Porém, se nem a frota mogadoriana inteira o encontrou, não sei se eu teria essa sorte. Eu poderia voar para algum lugar longe das naves de guerra, mantendo um capuz na cabeça para cobrir o rosto o suficiente para que pensem que sou só um humano pálido e tatuado. Poderia me virar sozinho de alguma maneira. Em algum lugar.
Mas mesmo se eu sumir, e daí? Este mundo foi cercado. Nós nos preparamos para uma invasão total. Nossa paz com os humanos é uma farsa. No fim das contas, mogadorianos estarão por toda a parte. Eu só teria um ano ou dois antes que meus ex-companheiros me encontrassem e me torturassem como traidor. Passaria a vida olhando por cima do ombro, imaginando se me encontrariam.
Uma lembrança me vem à mente. A última vez em que vi Adamus. Nós já havíamos libertado os Chimæra, e só precisávamos sair de lá antes que alguém o encontrasse. Eu estava ajudando. Matei vários mogadorianos nascidos artificialmente para garantir a segurança dele. Na época, disse a mim mesmo que era porque tinha uma dívida com Adamus depois que ele me tirou das ruínas em Dulce e salvou minha vida. Que era o único motivo pelo qual o ajudei.
Mas não era verdade. Acho que já sabia disso mesmo naquela época. Minha dívida estava paga. Eu o segurei em um trem em movimento quando ele quase caiu e impedi que fosse capturado quando os mogs vieram atrás de nós nos arredores de Manhattan. O próprio ato de libertá-lo na Ilha Plum e não o deixar apodrecer em uma cela, por si só, foi uma retribuição por ter recebido água no deserto. Não, eu o ajudei por outro motivo.
Eu gostava de Adamus. Adam. Queria que ele sobrevivesse.
Esse sentimento vai contra tudo o que sei e não faz mais sentido para mim, na nave de guerra. Mas, quando penso no que aconteceu na Ilha Plum, sei que cometi um erro imenso. Adamus me ofereceu a chance de ir com ele, e eu recusei. Falei que a guerra estava em meu sangue e que meu lugar era com os mogadorianos, que meu propósito era dominar e destruir. Falei que na próxima vez que eu o visse, seríamos inimigos.
Só que, no fundo, não tinha certeza de nada disso. E agora me dou conta de que devia ter me juntado a ele.
Deito de costas no colchão e encaro o teto. Amanhã, não importa o que aconteça, ainda serei mogadoriano. Adamus pode ter encontrado uma saída, um novo lugar no mundo, mas minha decisão foi tomada naquela noite. Além disso, sou só um. Um mog. Não é como se eu fosse fazer qualquer diferença. Não com tantas outras naves de guerra pairando sobre o planeta.
Eu me pergunto quantos outros Jax-Har existem no céu neste instante. Quantas Mirra.
E talvez, mais importante que isso, quantos mogadorianos como eu. Também estão por aí, em seus quartos e alojamentos, se sentindo perdidos?

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