3 de maio de 2017

Capítulo onze

PARADO NO CENTRO DA PONTE DE NOSSA NAVE DE GUERRA, BEM EM FRENTE À grande janela de vidro, tenho uma visão livre da invasão da Terra.
O silêncio é surpreendente, como se os humanos já tivessem aceitado seu destino, escolhendo a obediência em vez da luta. Isso é bom para nós. Significa que, quando sairmos das naves de guerra e tomarmos o planeta, não enfrentaremos muita resistência.
Ainda assim, apesar de saber disso, não consigo me livrar de uma sensação desconfortável no fundo da mente. Algo que quase parece culpa.
Acho que talvez eu esteja com pena dos humanos.
É claro que há resistência em lugares como Nova York e Pequim, onde meu povo está colocando em prática o que o Grande Livro afirma ser nosso propósito na vida. Nessas cidades, tropas terrestres estão em ação, apertando gatilhos, banhando-se no sangue dos que ficam em seu caminho, enquanto os pilotos fazem chover fogo, destruindo qualquer um que se oponha ao Progresso Mogadoriano. Dominação pelo combate. Ninguém pode ter esperança de nos impedir. A Garde — ou os humanos que acabaram ganhando poderes nos últimos dias — não tem qualquer chance diante da vastidão de nossos exércitos. Nem seus aliados. Sejam humanos, lorienos ou qualquer outra coisa. Por fim, não restará nada além de pó. Todos serão esquecidos.
Assim como o restante de nós. Exceto por Setrákus Ra, eu acho. Ele reinará sobre nosso povo para sempre, levando em conta o que diz o Grande Livro. Mas foi ele mesmo quem o escreveu, então seria uma questão de confiar em sua palavra. Para a sorte do nosso líder, crescemos lendo o manifesto, então jamais sequer cogitamos questionar se é verdade.
A maioria de nós.
Com todo o discurso sobre guerra e honra, o Grande Livro não aborda quantos momentos de espera pode haver em uma invasão. Em Toronto, onde estou alocado, as coisas estão relativamente tranquilas, exceto por algumas patrulhas fazendo rondas nas ruas. Não estou envolvido na ação. Acho que deveria me considerar sortudo por ter sido designado a um local tão calmo, ainda mais depois de tudo o que passei em Dulce e na Ilha Plum. Recebi uma pequena promoção depois de “capturar” o traidor Adamus. É óbvio que ninguém sabe que na verdade eu o ajudei a fugir, já que ainda estou vivo. Depois que ele fugiu e a instalação da Ilha Plum foi fechada, pude escolher aonde ir depois. Pedi para ser enviado a uma nave de guerra. Alguma coisa na ideia de estar na Terra começou a me deixar desconfortável. Ou talvez confortável demais. Gostando demais do lugar.
Precisava clarear as ideias e tentar encontrar um sentido em tudo o que havia acontecido.
Por sorte, como um mogadoriano nascido naturalmente, já recebi muitos treinamentos sobre o funcionamento de uma nave de guerra. Assim, depois de alguns cursos rápidos, acabei como navegador. Demorei algum tempo para me acostumar ao ar reaproveitado da nave, mas, de modo geral, poderia ser pior.
Pelo menos a vista é boa. Das janelas da frente da ponte, a paisagem é um imenso lago que parece não terminar nunca, desaparecendo no horizonte. É bonito. Inclusive girei a nave para poder apreciar melhor. Só um pouco, para que nenhum outro mogadoriano nascido naturalmente que esteja passando pela ponte perceba.
É provável que esteja mais caótico na cidade em si, onde as evacuações estão em andamento. Nós permitimos que as pessoas da Terra fugissem porque sabemos que no fim — inevitavelmente — elas se curvarão. Quanto menos vítimas fizermos, mais humanos teremos para usar como trabalhadores depois que os dominarmos. Eles coletarão recursos para nós, construirão santuários em nossa homenagem e palácios para nossos heróis de guerra. Ou morrerão. Esse é o jeito mogadoriano. Bom, é o jeito de nosso Adorado Líder e, portanto, o nosso.
Eu me pergunto aonde estão indo aqueles que correm, para onde pensam que podem fugir. Atravessei o país vizinho pedindo carona e saltando em trens. Vivi com os humanos. São uma espécie resiliente, ainda que lhes faltem avanços tecnológicos. Mas estão em profunda desvantagem em termos de armas. Devem ter percebido isso depois da destruição de Nova York, que, até onde sei, é — era — uma de suas cidades mais esplêndidas.
Quase quero ajudá-los.
Balanço a cabeça, tentando me livrar desses pensamentos. Encaro a água, deixando meus dedos ligarem os pontos das estrelas refletidas no lago abaixo. Tentando não pensar em nada.
Por fim, ouço um barulho de ar pressurizado atrás de mim, e uma das portas da ponte se abre.
— Quero atualizações de status de todos os departamentos — ruge uma voz, me trazendo de volta à realidade.
Reconheço o capitão Jax-Har na mesma hora e me viro, em posição de sentido. Medalhas decoram os dois lados do paletó de seu uniforme. Uma camada de suor faz as intrincadas tatuagens em seu crânio cintilarem sob a luz.
Dois outros nascidos naturalmente seguem atrás dele: nosso oficial de comunicações, Denbar, e Mirra, uma das poucas mogadorianas nascidas naturalmente em nossas forças militares. Seus rostos estão inexpressivos, mas parecem um pouco mais pálidos do que o normal. Fico curioso para saber de onde estão vindo e sobre o que conversavam.
Embora eu seja um oficial nascido naturalmente, ainda não tenho acesso às questões de segurança de nível mais alto. Muitas reuniões ocorrem sem minha presença. O fato de eu ser mantido na ignorância é uma decisão do capitão.
Compreendo a hesitação dele em me incluir, uma vez que faz pouco tempo que fui designado para sua tripulação. Ainda assim, não consigo ignorar a sensação de que, quando Jax-Har olha para mim, ele sabe a verdade, de algum jeito, de alguma forma. Que ajudei Adamus. Que matei um de nós. Que traí o Adorado Líder.
Lembro a mim mesmo pela milésima vez que se alguém realmente soubesse, eu seria executado sem hesitação. Mas a paranoia continua. Talvez porque eu mesmo tenha dificuldade em compreender minhas atitudes passadas e por que ajudei Adamus quando poderia muito bem tê-lo deixado preso na Ilha Plum. Por que traí meu povo para ajudar um inimigo (ainda que, às vezes, durante nosso tempo juntos, parecêssemos amigos).
Ou talvez os dias que passei com Adamus tenham despertado alguma coisa em mim. Uma série de perguntas que tento não fazer de forma consciente, um segredo que mantenho trancado na parte mais sombria de minha cabeça, mas que emerge todas as noites quando estou sozinho, meio adormecido, com a guarda baixa.
Por causa de Adamus, tenho dúvidas sobre a causa mogadoriana.
— Oficial Saturnus!
O capitão se aproxima de mim. Faço uma pequena reverência, e então ficamos um de frente para o outro diante da parte central da janela. Sou mais alto e mais forte do que a maioria dos soldados mogadorianos — inclusive muitos nascidos naturalmente —, mas Jax-Har é muito maior do que eu.
— Quanto tempo levaríamos para chegar à base de operações do Adorado Líder? — pergunta ele.
— Um instante, senhor — digo, indo até meu terminal, onde digito em um teclado para analisar diversos números na tela. — Poderíamos chegar à base de West Virginia em aproximadamente duas horas.
Jax-Har assente, mas não responde nada. Apenas fica ali parado, olhando por cima do meu ombro para o nada. Alguns segundos se passam em silêncio.
— Devo... estabelecer uma rota?
Ele faz cara feia para mim, e seus olhos voltam ao foco.
— Eu lhe dei essa ordem? — dispara ele.
— Não, senhor — murmuro.
Ele se vira de costas, voltando-se para Denbar, que está parado diante de um grande terminal de computador do outro lado da ponte, e grita:
— Abra um canal de transmissão para a Anubis e a base em West Virginia.
Denbar obedece. Quando Jax-Har volta a falar, sua voz ressoa, preenchendo o ambiente.
— Aqui é o capitão Jax-Har da nave de guerra Delta, posicionada acima da cidade canadense de Toronto. — Ele faz uma pausa, franzindo a testa por alguns segundos antes de prosseguir. — Aguardamos ordens e solicitamos a orientação do Adorado Líder para avançarmos e garantirmos o Progresso Mogadoriano. Por favor, respondam.
Há algo estranho. Ouço o chamado e tento compreender por que o capitão parece tão perturbado — quase nervoso. Ele vem agindo assim o dia inteiro, às vezes perguntando sobre o paradeiro de uma suposta nave lórica, outras vezes entrando em contato com a base de West Virginia apenas para “fazer contato”.
Então, eu me dou conta do porquê isso parece tão estranho: ele está pedindo ordens. Ou ficou entediado e está sucumbindo à sede de sangue, ou... Aconteceu alguma coisa à frota? Quando foi a última vez que recebemos alguma ordem de Setrákus Ra?
O que o Adorado Líder está fazendo?
O capitão faz um sinal para Denbar, que corta a transmissão.
— Alerte-me imediatamente se recebermos uma resposta — ordena Jax-Har. Ele dá alguns passos na direção da cadeira do capitão antes de parar e me olhar por cima do ombro. — E, oficial Saturnus, se eu encontrá-lo longe do terminal durante o turno outra vez, ordenarei que preguem seus pés no chão na frente dele. Não estamos aqui a passeio.
— Senhor — respondo.
— Capitão! — Denbar corre até ele com um tablet na mão. — Recebemos uma mensagem do pessoal na capital americana. Nível um de confidencialidade.
Com alguns passos longos, Jax-Har atravessa a ponte e toma o tablet da mão do subordinado. Seu rosto é tomado de preocupação por um instante.
— Venha comigo — comanda ele, acenando para o oficial.
Mirra, que estava ocupada lendo o diagnóstico da nave, dá um passo à frente.
— Capitão, devo... — começa ela.
— Fique aqui — interrompe Jax-Har. — Certifique-se de que o restante da tripulação esteja em ordem.
Denbar pisca para ela. Jax-Har volta a olhar para mim, então os dois saem pela porta.
O rosto de Mirra demonstra frustração. Há uma crueldade e uma astúcia em seus olhos que só vi nos mais temidos de nossos guerreiros, o que é um pouco apavorante, já que, de todos na nave, talvez ela seja a única pessoa com quem tenho um relacionamento amistoso. Nós dois crescemos em Ashwood Estates. Mas, como ela é muito mais velha do que eu, não tenho muitas lembranças de convivência. Agora ela é imediata na nave de Jax-Har. Ou pelo menos deveria ser. Tenho a sensação de que Denbar está tentando roubar a função dela, o que deve ser o motivo pelo qual os dois sempre estão em pé de guerra.
Começo a andar em sua direção, torcendo para que qualquer irritação que ela esteja sentindo a deixe mais disposta a contar o que fez o capitão ficar tão perturbado. Mas então me lembro da ameaça de Jax-Har e paro, ficando imóvel de um jeito esquisito no meio da ponte, antes de dar alguns passos para trás.
Mirra percebe e avança para cima de mim.
— Algum problema, Saturnus? — indaga ela.
— Sabe, pode me chamar de Rexicus. Na verdade, em casa e na base Dulce, a maioria das pessoas me chamava de Rex.
— Eu sei.
Talvez “amistoso” não seja a melhor palavra para descrever meu relacionamento com Mirra. Quem sabe seja mais correto dizer que às vezes tento puxar papo sobre o fato de termos crescido na Terra e até agora ela não enfiou uma espada na minha barriga.
Tento amenizar o clima.
— Viu a lua refletida na água? — pergunto. — Eu me lembrei daquele parque que fica um pouco ao sul de Ashwood. Já foi lá?
— Foi por isso que você estava prestes a desafiar a ordem do capitão e se afastar de sua estação? Para lembrar como um satélite era visto em um lago artificial? Você não é mais uma criança, Saturnus.
Ela sabe do lago.
— Então, você já foi ao parque.
Mirra me dá as costas e começa a se afastar.
— Espere — chamo, um pouco alto demais.
Olho ao redor, mas os outros poucos oficiais nascidos naturalmente estão cuidando de suas responsabilidades. Ou pelo menos fingindo.
Ela me encara de novo, erguendo uma sobrancelha sobre os olhos escuros com irritação.
— Está tudo... bem? — pergunto o mais baixo que consigo. — Tudo normal? Com a nave e o que anda acontecendo? Com a invasão? As coisas parecem... tensas.
— Como assim? — O rosto dela parece feito de pedra. Não exibe qualquer emoção. — Tudo está acontecendo exatamente como o Adorado Líder esperava que acontecesse. Sua palavra é profecia e verdade.
Este é um dos problemas dos mogadorianos. Ou pelo menos daqueles que não têm dúvidas quanto aos planos de Setrákus Ra.
Isto é, uns noventa e nove vírgula noventa e nove por cento do meu povo.
— Bem, é só que nunca vi um capitão solicitar ordens antes. Esperamos que nos digam o que fazer. É nossa função. E fiquei na ponte a maior parte do tempo nas últimas doze horas. Não recebemos nenhuma transmissão da Anubis ou de West Virginia.
— O alto comando sem dúvida está ocupado com coisas mais importantes neste momento.
— Quando foi a última vez que recebemos ordens?
Ela abre a boca, mas não fala nada. Apenas me observa por alguns segundos, examinando meu rosto.
— Seria necessário perguntar a Denbar.
Tento reformular a pergunta.
— O que você faria se fosse o capitão?
— Não perturbaria o Adorado Líder como uma insuportável... — responde ela, então para.
Estreita os olhos.
Sorrio. Eu a peguei.
— Oficial Saturnus — diz ela, alto o bastante para todos na ponte escutarem. — Seu turno deve terminar em breve, se está na ponte há doze horas. Tenho certeza de que está exausto. Antes de sair, porém, quero que estabeleça todos os prováveis padrões de voo para cada alvo de segundo nível na América do Norte. Confira os números. Duas vezes. Precisamos estar preparados para quando as próximas ordens vierem.
Ela sorri, depois se vira de costas e volta para os controles principais.
Ótimo.
Olho ao redor, mas ninguém faz contato visual comigo. A maioria das pessoas na ponte nasceu em Mogadore ou em naves. Têm uma brutalidade perceptível, uma economia no discurso. Falam apenas o necessário quando alguém lhes dirige a palavra. Não fingem ser amigáveis. E, acima de tudo, obedecem, sem questionar.
Mas eu cresci na Terra. Assim como Mirra. Mesmo que estivéssemos em lares mogadorianos, eram projetados para parecer comunidades humanas. Nós nos infiltramos em locais de entretenimento dos humanos e aprendemos como a espécie funciona para entendê-los melhor — para que fosse mais fácil conquistá-los.
Algo dessa cultura deve ter passado para nós. Não diria que foi difícil me habituar à vida em uma nave, cercado por um bando de mogs tensos. Mas é diferente. Ainda mais depois de ter passado tanto tempo na Terra. Às vezes sinto falta de coisas simples, como conversar. Ou de ter alguém com quem conversar.
Por baixo da fachada dura, talvez Mirra se sinta da mesma forma.
Uma coisa é certa: é evidente que alguma coisa assustou nosso capitão. Ainda assim, preciso tomar cuidado. Questionamentos podem ser perigosos aqui em cima. Se fizer a pergunta errada, você morre.
Ou é rotulado de traidor.
Começo a buscar as rotas que Mirra mencionou. Ainda há muitas cidades. Um mundo inteiro a ser conquistado. Mas não consigo me livrar da ideia de que, apesar do que diz o Grande Livro — que o progresso só pode ser obtido através de guerra, morte e derramamento de sangue —, pode haver outra maneira.
Depois de passar tanto tempo da minha vida entre os humanos, torço para que a Terra não se transforme em outra Lorien. Ou em outra Mogadore, um lugar onde eu nunca estive.
Gostaria que meu povo fosse um pouco mais parecido com os humanos. Uma cultura em que existe a guerra, mas que também respeita a paz e a tranquilidade. Existe derramamento de sangue, mas não é o que toma a maior parte de suas vidas. Há espaço para os inocentes e pacifistas sobreviverem. Nesse sentido, não acharia ruim se fôssemos mais parecidos com os lorienos.
Dou uma última espiada na água tranquila e parada do lado de fora. Tento imaginar o que Adamus está fazendo.
Será que ao menos está vivo?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)