3 de maio de 2017

Capítulo oito

DEIXAMOS O PRISIONEIRO SEDADO NA NAVE DE GUERRA. NOSSO HOMEM FERIDO É substituído por um novo soldado. Ele xinga entredentes, insistindo que ainda consegue lutar, mas preciso que todos na minha equipe estejam operando plenamente. Então, seguimos em busca de nossos alvos seguintes. Mais dois adolescentes, desta vez em Wisconsin, onde não temos nenhuma nave de guerra.
A primeira parada é nos arredores de Milwaukee. Uma casa muito menor do que a que encontramos em Chicago. Esta levaria poucos minutos para arder inteira em chamas. Chegamos no meio da noite, mais uma vez pousando o Skimmer na rua. A vizinhança é tranquila. A porta está destrancada. Encontramos um adulto dormindo. Nem sequer nos ouve chegar. Mas o objeto de pesquisa, sim. Ele se acovarda encolhido no canto do quarto, com lágrimas escorrendo pelo rosto, enquanto grita que foi uma piada. Que estava “tirando sarro” dos amigos. E que achou que seria “legal” se alienígenas aparecessem para poder conhecê-los.
Pelo menos seu desejo foi atendido.
O único momento em que dá um sinal de coragem é quando estendo o braço para pegá-lo. Ele atira uma luminária em mim, quebrando-a em meu peito. Não me abalo. O garoto tenta passar correndo por mim, mas não dá mais do que alguns passos antes de eu o atingir na nuca com a coronha da arma, e desaba como uma marionete cujas cordas foram cortadas. Faço um sinal para um de meus subordinados, e o alvo é sedado e carregado.
Toda a ação demora no máximo cinco minutos. Nossos movimentos são precisos e impiedosos.
Um voo curto nos conduz até o último alvo da noite, em Madison. Eu mesmo piloto o Skimmer, aproveitando a sensação do controle nas mãos. Meus homens ficam em silêncio em seus lugares atrás de mim a maior parte do tempo. Em algum momento o novo membro do esquadrão pergunta:
— O que aconteceu com Görde?
Ele deve estar se referindo ao soldado que perdeu o braço.
— Espingarda — responde um dos outros. — O humano nos pegou de surpresa. Ele perdeu o braço. Mas deu o troco. Estraçalhou o cara como um piken faminto que acabou de ver um kraul suculento.
— O Adorado Líder ficaria orgulhoso.
— Talvez — digo. — Ou talvez condenaria o infeliz por deixar o humano feri-lo. Görde deveria estar prestando atenção. Cuidando de seu flanco. Nosso flanco.
Meus soldados se calam.
Nosso último alvo foi rastreado em um condomínio de apartamentos no que parece ser uma parte decadente da cidade. A garota é diferente dos outros que pegamos, mas só porque não foi pela própria burrice que entrou em nosso radar: alguém deu a dica para uma agência que nossos especialistas em computação estão monitorando. Pousamos em um pequeno parque do outro lado da rua. O pouco de grama que ainda resta é destruído por nossos pés quando marchamos pela noite.
— Fiquem atentos — murmuro a caminho do condomínio. — Muita gente espremida em moradias apertadas. Podemos esperar resistência.
Os soldados resmungam atrás de mim. Há alguns humanos reunidos no estacionamento. Quando nos veem, ficam paralisados. Levam alguns segundos para compreender quem somos. O que somos. Então, saem correndo. Levo o dedo ao gatilho, esperando que eles reapareçam com armas ou mais gente, tentando evitar que nos aproximemos mais de suas casas. Mas não voltam.
Típico. Humanos se escondem em vez de enfrentar a ameaça de frente.
O edifício é feito de corredores abertos, de modo que a porta da frente de cada unidade dá para a área externa. Encontramos a que estamos procurando no primeiro andar. A porta desaba com um chute. Meus homens invadem. Pelo canto do olho, vejo uma fresta da persiana do apartamento ao lado se abrir, mas quando viro nessa direção, já está fechada outra vez.
Ninguém aparece.
Não há nenhum adulto lá dentro, apenas a menina que viemos buscar. Ela salta do sofá, os longos cabelos pretos caindo sobre o rosto. Os olhos escuros estão arregalados de medo.
— O que vocês querem? — grita a garota. — Quem...
Mas ela não termina. Já deve ter entendido. Olho a foto e os dados no tablet. Combinação perfeita. Até que foi fácil.
— Levem-na — ordeno.
Meus homens dão um passo à frente.
É quando as coisas começam a se mexer.
Primeiro são apenas as tralhas espalhadas pela sala. Latas de refrigerante, livros, alguns pratos sujos. Tudo começa a flutuar do carpete manchado. A menina ergue os braços. Então, ouvimos um som grave seguido por uma onda de força invisível. Ainda estou na porta de entrada, e a onda me atinge como uma parede de tijolos, me jogando para trás, e caio no piso de concreto do lado de fora. A janela da frente do apartamento estoura, e o vidro se espalha ao meu redor. O esquadrão lá dentro enfrenta o impacto do ataque. Alguns deles parecem estar com o nariz quebrado. A desgastada mesa de centro e as porcarias que flutuavam estão todas empilhadas junto às paredes.
Eu me levanto do chão.
De pé, sem nada por perto, a menina parece mais indefesa do que antes. Os cabelos flutuam ao seu redor como se ela estivesse eletrificada. Aos poucos, começam a voltar para o lugar. Seus olhos se enchem de lágrimas. Ela lança as mãos para a frente de novo conforme meus homens começam a se levantar.
Mas, desta vez, nada acontece. Nenhuma onda de telecinesia. Nem mesmo uma brisa.
A garota parece desesperada. Seus olhos estão ainda mais arregalados, a boca aberta em um grito silencioso.
— Parece que seu poder deixou você na mão — comenta um soldado, com um sorriso.
Ela enrijece o maxilar e cerra os punhos. A garota é uma guerreira, preciso admitir. É mais digna de nosso tempo do que a maioria dos humanos.
— John Smith irá caçar vocês — grita ela. — Eu o vi na minha cabeça. Somos muitos. Centenas. Vocês nunca vão se safar, seus monstros de merda!
Reconheço o nome a que ela se apega. Conheço o rosto dele. Conheço o rosto de todos os Gardes que nos desafiaram, já que eles também saíram das sombras. Mas ela deposita sua fé em uma esperança falsa.
— John Smith não pode salvá-la — declaro. Entro no apartamento e me viro para os membros do esquadrão. — Eu disse para vocês a pegarem.
Ela morde e bate em meus homens. Até que seu corpo amolece. Uma seringa vazia se parte ao ser atirada de lado.
Na saída, vejo mais olhos nas janelas, espiando através de cortinas entreabertas e aberturas de persianas. As portas dos outros apartamentos continuam trancadas. Ninguém tenta nos impedir. Talvez seja a emoção da caçada ou o barato da destruição que provocamos nesta noite, mas saber que toda aquela gente acredita estar a salvo atrás das portas faz meu sangue ferver.
Tenho discos explosivos no cinto e, por um instante, penso em soltá-los. Destruir todo o condomínio.
Mas isso não faz parte da missão. Nossa violência deve ser mantida fora de vista. Pelo menos até o Adorado Líder decidir que os humanos não lhe têm mais serventia. Louvado seja seu nome!
Nenhum dos alvos se mexe no voo de volta. Alguns de meus homens examinam os ferimentos que a menina lhes infligiu.
— Maldita humana — resmunga um deles, o novato. — Deveríamos acordá-la e mostrar o que é dor de verdade. Cortá-la, mas não muito, para podermos dizer que aconteceu durante a ação.
— Se tocar naquela garota, eu mesmo transformo você em pó — ameaço. — O Adorado Líder quer esses objetos de pesquisa vivos. São propriedade dele. Você mutilaria alguma coisa que pertence a ele?
O soldado se cala.
— Glória ao Adorado Líder — diz outro.
Mais uma vez, o Skimmer fica em silêncio.
O sol ainda não nasceu quando chegamos à nave de guerra. Levo os alvos nos ombros até os laboratórios. Eles são leves. Frágeis.
Há vários mogadorianos nascidos naturalmente na ala, amontoados em torno de diversos espécimes humanos que foram capturados nesta noite. Como o adolescente do subúrbio de Chicago. Ele acordou. Está amordaçado. Os olhos estão arregalados de medo enquanto os doutores o examinam.
Um dos mogadorianos nascidos naturalmente se vira para mim quando entro. Ele está usando um jaleco comprido. Nunca o vi antes, mas isso não é surpresa. É raro estar com meus superiores nascidos naturalmente.
Seus olhos brilham quando ele vê os humanos pendurados em meus ombros.
— Uma nova entrega de espécimes. Que maravilha.
Ele aponta para algumas mesas de metal vazias. Coloco os objetos de pesquisa sobre elas.
— Esta menina com certeza tem telecinesia — conto. — Ela nos enfrentou quando a encurralamos. É bom mantê-la sedada.
Um sorriso atravessa o rosto do nascido naturalmente enquanto ele avalia a humana.
— Perfeito — diz ele. — Qual é seu nome, soldado?
— Vintaro Üshaba.
Ele assente.
— Você serviu bem ao Adorado Líder, Vintaro. Seu trabalho nos ajudará a dar início a uma nova era do Progresso Mogadoriano.
Outro nascido naturalmente para ao lado dele.
— A nave está pronta para o voo até West Virginia.
— Excelente — responde ele, seguindo na direção da porta. Ao sair, aponta para a menina. — Carregue-a para a nave. Parece que ela tem força para sobreviver aos procedimentos do Dr. Zakos.

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Boa leitura :)