3 de maio de 2017

Capítulo nove

DURMO PROFUNDAMENTE. ESTOU SATISFEITO.
Acordo faminto por mais.
Os alojamentos dos mogadorianos nascidos artificialmente ficam em um dos níveis mais baixos da nave de guerra, um salão gigante com paredes cheia de pequenas unidades de repouso, de tamanho suficiente apenas para nos sentarmos nelas. Ficam empilhadas umas sobre as outras, do chão ao teto. Em cada uma há um colchonete de espuma e um uniforme extra dobrado como travesseiro. É tudo de que precisamos. Durmo apenas por algumas horas até que um interfone perto da minha cabeça toca um som estridente. Uma voz saindo do alto-falante ordena que eu me apresente à sala do conselho outra vez.
Salto da minha unidade de repouso, passando pelas outras sete sobre as quais a minha está empilhada, e pouso, agachado. Então, começo a percorrer a nave o mais rápido que posso, subindo a escada que leva aos deques mais altos onde os mogadorianos nascidos naturalmente comem, dormem e trabalham.
Quantos alvos teremos hoje?
Meus dedos formigam de expectativa.
Graças ao Adorado Líder terei esta gloriosa oportunidade.
Sou o primeiro a chegar à sala do conselho, mas os outros dois líderes de esquadrão que estavam presentes no dia anterior chegam em seguida. Eles estão tão animados quanto eu para entrar em ação.
— Vocês trouxeram todos os seus humanos na noite passada? — perguntou o veterano sem dentes.
Confirmo com a cabeça.
— Nós perdemos um — responde o outro, apertando os lábios escuros. — Um humano estava tentando nos espantar e atirou em tudo o que se movia. Inclusive no nosso alvo.
— Fracotes idiotas — resmunga o do sorriso desdentado.
— Precisei punir um soldado por isso. Ele ficou brincando com o humano. Provocando. Perguntei: “O que o Adorado Líder pensaria se soubesse que provocou a morte da presa?”
— O que ele respondeu? — indago.
Ele dá de ombros.
— Acho que ainda tem um pouco das cinzas dele no meu uniforme. Pergunte você mesmo.
O outro líder dá uma gargalhada explosiva, batendo em nossas costas. Fico tenso, cerrando os dentes. É provável que eu também puniria meu esquadrão se tivesse feito algo tão idiota. Mas isso não é motivo de risadas. Estamos aqui para realizar uma missão, para seguir as ordens dele. Não para fazer piada. Uma falha prejudica a imagem de todos nós.
Mas não tenho chance de comentar o fato. As portas se abrem, e o capitão entra. De imediato, ficamos a postos. Desta vez, a oficial de reconhecimento vem atrás dele. A cabeça dela é tatuada com padrões semelhantes a teias e toda raspada, exceto por uma longa trança preta que sai da base de seu crânio.
— Dr. Zakos ficou entusiasmado com o resultado do trabalho de ontem à noite — conta o capitão. Suas mãos estão unidas atrás das costas. — Vocês podem não estar cientes, mas o doutor responde diretamente ao Adorado Líder. Vocês cobriram de honra seus nomes e esta nave. Parabéns.
Nós três rosnamos e baixamos a cabeça em sinal de agradecimento.
— Hoje temos uma tarefa... mais interessante para vocês — anuncia a oficial de reconhecimento.
Ela toca em um tablet e um vídeo é transmitido em uma das telas que cercam as paredes. Humanos em frente a uma espécie de cachoeira. Falando para a câmera. Apontando para uma pedra azul.
— Este vídeo foi publicado na internet há poucos minutos — continua a oficial. — É uma mensagem para os lorienos, mas veiculada para qualquer pessoa no mundo. É provável que sejamos os primeiros mogadorianos a vê-lo.
— Eles parecem ser mais quatro “Gardes humanos” — explica o capitão. — Enviarei seus esquadrões para pegá-los. Imagino que ainda estejam lá. Sua missão secundária é investigar a pedra azul que aparece no vídeo. Levem um cortador a laser. Tragam uma amostra. Se de alguma forma for loralite, o Adorado Líder sem dúvida ficará satisfeito. Daremos a vocês algum tempo de vantagem antes de compartilharmos a descoberta com outros capitães. Quero que esta seja nossa vitória.
— É uma grande oportunidade — comenta a oficial de reconhecimento. — Capturar os humanos e assumir o controle de um possível depósito de loralite trará glória a vocês e à nave.
— Como devem ter deduzido com base no contexto da mensagem, há chance de que os lorienos ou seus aliados estejam lá. Vocês deverão ter muita cautela. — A lateral dos lábios do capitão se curva um pouco quando ele acrescenta: — E brutalidade.
A notícia é melhor do que eu poderia esperar. Ainda assim, alguma coisa não se encaixa.
— Senhor — digo, dando um pequeno passo à frente.
Mantenho os olhos fixos no chão.
— Permissão para falar, Vintaro.
— Se é possível que a verdadeira Garde loriena esteja lá, não deveríamos...
Paro de falar, sem saber ao certo como continuar. Não cabe a mim questionar o julgamento ou as ordens de meus superiores.
— Você está se perguntando por que não mandamos metade da frota para detê-los — conclui o capitão.
Não respondo. Não importa. Ele continua falando.
— Nossas ordens são para proteger Chicago. Assim que vocês estiverem a caminho, enviarei uma solicitação de prioridade máxima para que eu possa enviar uma quantidade mais substancial de tropas para o local onde este vídeo foi feito: as Cataratas do Niágara. Mas... — Ele faz uma pausa de alguns segundos. — O alto comando está demorando para responder a solicitações nas últimas vinte e quatro horas. Como sabem, o Adorado Líder anda muito ocupado no momento.
Viva nosso Adorado Líder! Que seu reinado seja longo!
O capitão cruza os braços.
— Mas se acontecer de vocês cruzarem com os lorienos durante esta missão e eles tentarem interferir, claro que seria um dever eliminá-los. E, ao fazerem isso, obterão uma glória que os acompanhará pelo resto da vida.
Minha visão fica turva. Mal compreendo o resto do discurso dos oficiais. Tudo o que penso é em enfrentar os Gardes. Em eliminar o líder deles, John Smith. Em ver seu rosto arrogante quando minhas mãos agarrarem seu pescoço.
E, antes que me dê conta, o capitão e a oficial de reconhecimento já se foram.
Em meia hora, montamos e orientamos nossos esquadrões, preparamos os Skimmers e alçamos voo rumo às Cataratas do Niágara.
Designo um de meus homens para pilotar a aeronave enquanto confiro as armas e os suprimentos, repassando o que poderá acontecer. Depois de termos capturado os humanos, devemos adiar nosso retorno? Esperar pelos lorienos? Por quanto tempo? E se não formos os primeiros mogadorianos lá? Ao que tudo indica, qualquer um pode ter assistido àquela transmissão. Se esquadrões de outras naves de guerra aparecerem tentando reivindicar nossos alvos ou assumir os créditos pela morte dos Gardes...
Até onde devemos ir para garantir a vitória para nossa nave? Ou mesmo para meu esquadrão?
— Vintaro — chama um dos meus homens. É o membro mais novo. Eu o encaro. Seu nariz foi machucado e esmagado durante o confronto da noite passada. Hesitante, ele acrescenta: — Senhor.
— Fale — ordeno.
— Deixaremos o Adorado Líder orgulhoso. Traremos honra à nossa nave de guerra, e o capitão saberá que foi Vintaro Üshaba quem nos conduziu à vitória.
Ele bate no peito com o punho e rosna. Retribuo o gesto. Sinto o coração bater com intensidade sob os nós dos dedos. Por toda a minha vida, foi o que eu sempre quis. O que qualquer mogadoriano quer. Destacar-se e acelerar nosso progresso através dos planetas e das estrelas.
— Quatro alvos — aviso, lembrando a ele e aos outros. — Viram os rostos deles. Encontrem-nos, então rastreiem o possível depósito de loralite. Abram um buraco na cabeça de qualquer um que ouse nos enfrentar.
— Chegaremos em alguns minutos — informa o piloto. — Deveríamos... Merda!
— O que foi? — pergunto.
— Um outro Skimmer acabou de acionar o turbo.
Vejo nossos aliados dispararem à frente. Tentando ser os primeiros a chegar lá, com certeza. Para capturar os humanos.
— Vá atrás deles! — rosno, sentindo nas entranhas nosso Skimmer acelerar.
Abro uma linha de comunicação para falar com a nave de guerra.
— Aqui é Vintaro Üshaba. Ainda não estabelecemos contato visual com os alvos, mas estamos nos aproximando do...
— Olhe! — grita o piloto, exibindo uma imagem na tela.
O outro Skimmer está pairando ao lado do rio caudaloso. Soldados saltam. Há figuras humanoides diante deles, mas estamos longe demais para saber o que está acontecendo. Conforme nos aproximamos, porém, fica evidente que os humanos estão revidando. Os membros do outro esquadrão estão atirando neles.
— Malditos! — Dou um soco no espaldar de um dos assentos de nossa aeronave. — Vão matar nossos alvos! Leve-nos...
Um flash de energia vermelha atravessa o para-brisa da aeronave.
— Mas que... — começa o piloto, mas o som da explosão e do casco se rasgando interrompem suas palavras.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)