3 de maio de 2017

Capítulo doze

DEPOIS DE REUNIR TODOS OS DADOS QUE MIRRA PEDIU, CAIO NO SONO EM MEU quarto.
No final da manhã, um alarme dispara. Acordo meio zonzo, desorientado, tentando entender por que um sinal está jorrando dos alto-falantes no teto, quando alguém me chama pelo interfone avisando que devo me apresentar à sala do conselho. Eu me levanto o mais depressa possível, imaginando o que aconteceu — se finalmente vamos parar de fingir que estamos aqui para fazer qualquer outra coisa além de dominar tudo. Meu sangue pulsa mais rápido, e acabo escancarando os dentes.
Programação mogadoriana: a qualquer sinal de batalha, e os motores ficam a postos.
Mas a sensação tem uma contrapartida. Uma preocupação que eu não consigo definir. Na verdade, até consigo, mas não quero pensar nisso.
Se vamos começar uma guerra, quantas vidas inocentes isso custará? Quantos dos lugares pelos quais passei e quantas pessoas que conheci no meu caminho de Dulce à Ilha Plum serão aniquilados?
Jogo um pouco de água fria no rosto e tento afastar esses questionamentos. Como sou um nascido naturalmente, tenho minha própria suíte, embora não seja nada demais. Posso tocar quase todas as paredes quando fico de pé no meio do cômodo. Mas ainda é melhor do que os alojamentos coletivos onde os mogadorianos nascidos artificialmente vivem. Pelo menos tenho um pouco de privacidade aqui, algum tempo a sós com meus pensamentos. É uma bênção e uma maldição.
Visto o uniforme e disparo pelo corredor, as batidas das botas ecoando no piso de metal. Quando chego à sala do conselho, a maioria dos outros oficiais já está lá, sentada à grande mesa oval. Eu pego um lugar ao lado de Mirra.
— Bom dia — murmuro.
Ela não ergue o olhar do tablet em seu colo, mas mexe a cabeça e faz hum.
Não é exatamente um “Bom dia para você também”, mas quase dá para confundir com um cumprimento. Aceito isso.
Toco na mesa e a superfície preta brilhosa se abre, revelando um pequeno terminal de computador. Faço login, acessando nossa posição atual e o diagnóstico da nave. Mal nos movemos dois centímetros desde que fui dormir na noite anterior. Acho que não dá para se tornar a espécie mais temida do universo sem desenvolver uma engenharia excelente.
Por fim, quase uma dúzia de oficiais está à mesa. Quando o capitão Jax-Har entra, todos nos levantamos. Ele faz um gesto com a mão, e todos nos sentamos ao mesmo tempo, uma máquina bem azeitada. O capitão para do outro lado da sala, olhando fixamente para o tampo brilhoso da mesa, talvez para seu próprio reflexo. A área ao redor de seus olhos é sempre escura, mas parece que ele não dormiu nada a noite toda.
Com certeza alguma coisa está acontecendo. Por fim, Jax-Har começa a falar:
— Nesta manhã, bem cedo, um grupo de humanos que acreditamos estar entre aqueles com poderes lóricos recém-desenvolvidos postou um vídeo na internet. Exibia essa escória terrestre chegando a um local conhecido como Cataratas do Niágara, exatamente do outro lado do lago Ontário, sobre o qual estamos posicionados no momento. O vídeo também mostra uma pedra azul que acreditamos ser loralite, um mineral com propriedades impressionantes. É um recurso muito valioso para o Adorado Líder. De alguma maneira, é o que os lorienos estão usando para transportar seus novos soldados de um lugar para o outro no planeta.
Ao lado dele, Denbar concorda com a cabeça. É evidente que ele já sabia disso.
— Patrulheiros digitais da nave de guerra sobre Chicago foram os primeiros a acessar esse vídeo — conta Jax-Har, fazendo uma pausa longa o bastante para fuzilar com os olhos o oficial encarregado de nossos esforços de pesquisa e reconhecimento. — Eles enviaram três Skimmers para investigar.
Um burburinho corre pela mesa, com os oficiais reclamando que nossas tropas é que deveriam ter sido enviadas para interceptar os alvos. Desde os primeiros relatos dos chamados “Gardes humanos”, o Adorado Líder deixou claro que capturar essas anomalias é uma prioridade.
Tenho certeza de ter ouvido Mirra rangendo os dentes ao meu lado. Aposto que ela teria adorado capturar aqueles alvos.
O capitão continua:
— Os Skimmers fizeram contato logo antes de chegar às cataratas, mas não se soube mais deles desde então. Como o capitão da nave que está sobre Chicago insistiu em reclamar para si a descoberta, só ficamos sabendo da operação uma hora atrás. Enviei nossas próprias tropas para investigar. Foram encontrados destroços de naves, mas nenhum sobrevivente, mogadoriano ou humano. Havia evidências de que os soldados enviados de Chicago foram mortos.
Pelo que sei, esses humanos com poderes quase não receberam treinamento e são menos uma ameaça do que uma chateação a ser estudada. Vários espécimes foram recolhidos em todo o planeta com pouca ou nenhuma resistência. Parece que estão tão confusos pelo que aconteceu com eles quanto nós.
Então, quem abateu os Skimmers? A verdadeira Garde? Os aliados? Forças de resistência humanas?
— Aconteceram outros... contratempos — declara Jax-Har, começando a caminhar ao redor da mesa, batendo as botas pesadas no chão. — O que vou dizer é informação confidencial e não deve sair desta sala. Como vocês são mogadorianos nascidos naturalmente honrados, confio em seu silêncio. Saibam que quebrar esta confiança será um ato de traição, e se eu sequer suspeitar que deixaram escapar uma palavra sobre isso a mais alguém, ou mesmo entre vocês, enfiarei uma espada em seus corações. Entendido?
Ele olha ao redor da mesa. Todos concordamos com a cabeça. Mesmo sem o alerta, duvido que alguém mencionaria qualquer informação dita numa dessas reuniões a outra pessoa.
O capitão suspira.
— Sei que alguns ouviram, por conversas no rádio, que nossas tropas no México pediram reforços para rastrear uma nave lórica. Viram a escória loriena manchar a aparição de nosso Adorado Líder em Nova York. Pagaram caro por isso. E recentemente fomos informados de que um de nossos enclaves, nos arredores de Washington D.C., foi tirado de nós.
Mirra fica tensa, inspirando forte. Preciso admitir que também fiquei sem fôlego por um instante. Deve ser uma referência a Ashwood. Meu pai foi o único parente que conheci, e ele morreu anos atrás, antes do primeiro ataque ao local. Mas Mirra... Não sei se ela ainda tem algum familiar lá. Considerando sua reação, imagino que não fazia ideia de que isso havia acontecido.
— Nosso Adorado Líder sem dúvida está dedicando todas as suas energias para garantir o Progresso Mogadoriano. Dessa forma, esperamos na nave por suas diretrizes. Entretanto, é possível que haja do outro lado do lago uma pedra loralite, algo de incalculável valor estratégico para nossos inimigos.
Ele para na ponta da mesa, do outro lado de onde começou, ficando em posição de sentido.
— Assim, como capitão desta nave de guerra, tomei a decisão de deixar nosso posto. Tomaremos esse recurso inimigo e eliminaremos qualquer infeliz que ouse se aproximar dele. Se os lorienos estão mesmo usando a pedra como meio de transporte, nossos canhões farão evaporar qualquer um que apareça. Não tenho dúvidas de que, quando o Adorado Líder souber de nossa iniciativa e audácia, recompensará a rapidez de nosso raciocínio.
O capitão fica em silêncio, seu olhar vagando pelos subordinados. Não pergunta se concordamos. Mesmo se fosse o caso, não há espaço na nave para qualquer espécie de votação. Não é o que os humanos chamariam de democracia. Nós juramos obediência ao mogadoriano de mais alta patente e seguimos suas ordens sem questionar.
Ainda assim, sei o que todos os demais devem estar pensando. Jax-Har está indo contra o desejo de nosso Adorado Líder? O que isso significa? Se o Adorado Líder não concordar com essa ação, todos nós seremos traidores? E se ele está tomando a decisão sozinho, o que os outros capitães em todo o planeta estão fazendo? E onde Setrákus Ra se meteu?
Levo alguns instantes para repassar todas essas questões — para compreender a verdadeira amplitude do que Jax-Har está sugerindo.
— Oficial Saturnus — chama ele, apontando para mim.
Volto a prestar atenção em um instante.
— Senhor.
— Estabeleça uma rota para as Cataratas do Niágara. Enviei uma mensagem com minhas intenções à base de comando em West Virginia. Se não tiver uma resposta em uma hora, considerarei o silêncio como aprovação. — Ele se vira para Denbar. — Prepare a conexão para um canal aberto. Os outros capitães vão se perguntar o que estamos fazendo, e não quero dar motivos para acreditarem que fomos sequestrados ou coisa parecida.
— Esmagaremos os lorienos e qualquer um que os ajudar — anuncia Denbar, dando um soco na mesa.
Os outros ao meu redor repetem seu gesto até a sala ser tomada pelo barulho de trovão.
— A força é sagrada — declara Jax-Har, citando o Grande Livro. — Agora, ao trabalho.

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Boa leitura :)