3 de maio de 2017

Capítulo dois

COM DIFICULDADE, LEVAMOS NOSSO ALTO COMANDANTE ATÉ O ELEVADOR MAIS próximo.
O corpo dele é pesado, quase além do que aguentamos carregar. Sua respiração irregular e gorgolejante toma conta de meus ouvidos. Se fosse qualquer outro, eu suporia que a morte está próxima, mas sei que diante de mim não está um mogadoriano normal. Ele é eterno, imortal. Os ferimentos são um revés momentâneo. Nem mesmo isso. Devem ser parte do plano dele, algo que previu.
No elevador, enquanto subimos pela Anubis, os outros soldados permanecem em silêncio, exceto por eventuais demonstrações de apoio.
— Viva nosso Adorado Líder!
— Que seu reinado seja longo!
— Louvado seja seu nome!
Quando as portas se abrem, há alguns membros da equipe de socorristas à espera. Por sorte, estamos na Anubis, uma vez que é difícil ver médicos em veículos mogadorianos, mesmo nas naves de guerra. Em geral, não vale a pena tentar curar ou tratar os soldados nascidos artificialmente quando é tão fácil criar outros. Quanto aos nascidos naturalmente, às vezes é melhor — ou mais honrado — morrer no campo de batalha do que retornar como uma decepção.
A princípio, os médicos têm medo até de tocar no Adorado Líder, mas grito com eles, e o comandante é colocado em uma maca. Gemendo, ele é levado sem demora à área médica.
Começo a segui-los, mas então me dou conta de algo: ainda estamos parados no Santuário. Nossos inimigos estão lá fora e nosso comandante está inconsciente. Quem irá nos liderar?
O que o Adorado Líder gostaria que fizéssemos? Suas últimas palavras me vêm à mente.
Acabe com eles.
É claro. Ele me deu uma ordem. Um objetivo. Uma ordem divina. Ele deixou ao meu encargo assumir o controle e garantir que seu desejo seja realizado.
Se eu conseguir, meu valor certamente será provado.
Então, em vez de continuar seguindo os médicos, eu me dirijo até a ponte.
Minhas tranças longas e negras se soltaram durante a batalha e agora chicoteiam o ar enquanto corro pelos corredores, o barulho de meus passos ecoando atrás de mim.
Adentro a ponte. Os oficiais estão correndo de um lado para o outro, gritando entre si. Ao que parece, a equipe médica já lhes apresentou um relatório.
Diversos tripulantes saíram para ficar ao lado do Adorado Líder, enquanto outros pairam ao redor dos terminais, nervosos, aguardando ordens.
— Onde estão os malditos lorienos? — grito, seguindo até a janela de observação na frente da ponte.
— Acabaram de partir — responde um dos oficiais. Com base nas informações de seu terminal, suponho que seja o navegador. — De alguma forma, eles têm uma nave lórica. Estamos esperando por...
— Siga-os — ordeno.
— Mas o Adorado Líder é o único que...
Aponto minha arma para a cabeça do oficial.
— Sou Phiri Dun-Ra, filha legítima do honrado Magoth Dun-Ra — declaro, devagar e com clareza. — E, neste momento, sou a voz do Adorado Líder. Ele me deu ordens para acabar com os Gardes. Se você não partir com essa nave nos próximos cinco segundos, eu mesma farei isso.
Ele hesita apenas por um instante antes de a Anubis decolar.
— Dispare assim que estiverem no campo visão — digo.
Abro uma linha de comunicação com o departamento médico, mas não há nenhuma atualização. Setrákus Ra continua inconsciente. Os médicos estão tentando descobrir a melhor maneira de extrair o cano. Entraram em contato com um tipo de especialista, seja lá o que isso signifique.
Isso me deixa no comando da nave. Na incumbência de executar a ordem do Adorado Líder.
De garantir o Progresso Mogadoriano.
Ando de um lado a outro na ponte, observando a nave dos lorienos na tela do radar. Estamos ganhando vantagem sobre ela, mas não voamos rápido o bastante.
— Chamem reforços — grito.
Os oficiais obedecem às minhas ordens. Sabem quem sou — alguns inclusive me reconhecem de quando liderei as tropas na base principal.
— Mapeiem a trajetória dos fugitivos e alertem as outras naves de guerra que estão neste continente de que existe uma nave lórica no ar. Não podemos deixá-la escapar. E precisamos de mais tropas no Santuário. Muitos lorienos foram feridos, talvez fatalmente. Capturem todos que tiverem ficado para trás.
— Transmissão recebida da base de West Virginia — anuncia um oficial.
— Transmita-a — ordeno, apontando para um dos muitos painéis eletrônicos na ponte.
— Sinto muito — responde ele, com a voz um pouco trêmula, como se não estivesse certo de como prosseguir. — Mas fui instruído a entregar esta mensagem em particular a quem estiver no comando da nave. — Ele franze as sobrancelhas. — O Adorado Líder é capaz de...
— Eu sou a voz os ouvidos dele neste momento — afirmo. — Leve-me a um lugar onde eu possa receber esta mensagem.
O oficial me leva até uma sala de reunião. Ele me deixa sozinha enquanto digito no painel de controle. Um mogadoriano nascido naturalmente aparece numa tela na parede oposta. Há uma cicatriz fina e irregular no topo de sua cabeça tatuada — que sei que é consequência do ataque do traidor Adamus a Ashwood Estates.
— Ah, Phiri Dun-Ra — diz ele, dando um sorrisinho. — Quando o chefe da equipe clínica me contatou, mencionou que a Anubis estava no ar. Eu deveria saber que você havia assumido o controle.
— Dr. Zakos — murmuro. — Tenho uma nave para destruir. Se tem uma mensagem para mim, fale agora.
Zakos e eu nunca nos demos bem. O Adorado Líder costumava convidá-lo para visitar a base em West Virginia quando eu ainda estava estacionada lá. Zakos supervisionava todo tipo de experimentos e programas de acréscimos sonhados por nosso líder. Certa vez, um de seus pikens superpoderosos se soltou nos túneis das instalações e comeu metade de meus homens, que tentavam recapturá-lo. O médico tratou as baixas como perdas necessárias. Enquanto isso, precisei treinar um novo esquadrão.
Quando os lorienos fugiram, alguns dias depois, foi aquele grupo de soldados novos que os perdeu nos túneis.
— É admirável que tenha assumido o lugar do Adorado Líder tão depressa — comenta Zakos. — Mas perseguir essa nave está fora de cogitação, a menos que esteja no caminho para a base de West Virginia.
— É claro que não está.
— Então receio que você terá que abandonar a perseguição. — Sua expressão fica séria. O sorriso satisfeito desaparece. — O Adorado Líder precisa de minha atenção. Agora. Seu ferimento é grave e piora a cada segundo. A Anubis não está equipada para tratar dos ferimentos.
— O Adorado Líder não será morto por um Garde patético — retruco, minha voz ficando mais alta. — Ele se erguerá outra vez para conquistar este mundo.
— É claro que sim — concorda Zakos. — Mas se erguerá muito mais rápido se eu o colocar nos tonéis de cura. Todo o tempo gasto perseguindo a nave lórica será um atraso no tratamento. Setrákus Ra precisará passar mais horas nos tonéis enquanto você ficará livre para... Fazer o quê, exatamente? Comandar a Anubis? Isso parece bastante com traição, Phiri. Por outro lado, uma mogadoriana nascida naturalmente e em desgraça com certeza será bem-vista pelo Adorado Líder quando ele despertar e souber que sua recuperação foi acelerada por ter chegado logo às minhas mãos.
Cerro os dentes, sem conseguir responder.
— Ele me deu a ordem de acabar com eles — digo, depois de um momento.
— Se ele usar isto contra você, assumirei a responsabilidade — propõe Zakos. — O tempo é fundamental, Phiri Dun-Ra. Alertei o general Krah de que o Adorado Líder está... incapacitado de fazer contato no momento. Ele acredita que se trata de uma questão sobre a qual ninguém fora da Anubis precisa saber. Entendido?
Concordo com a cabeça.
— Ótimo. Aguardarei sua chegada pessoalmente.
A transmissão é interrompida.
Fico imóvel por um instante, tentando descobrir o que fazer. Se deixarmos esses lorienos escaparem por entre os dedos, quem sabe quando será a próxima chance de matá-los? Será mais um fracasso para mim. E não há dúvida de que quero ver cada um daqueles infelizes implorar por misericórdia enquanto os torturo.
Mas Zakos tem razão. O Adorado Líder vem primeiro, sempre. Embora eu tenha recebido a ordem de destruir os lorienos, não posso ser a responsável por dificultar sua recuperação. Além disso, a melhor maneira de garantir a derrota da Garde é seguir as ordens de Setrákus Ra. Ele salvou nosso povo. Destruiu Lorien. A Terra será sua no momento em que ele desejar.
Se eu for condenada à morte por deixar os lorienos escaparem, que assim seja. Contanto que o Adorado Líder possa estar mais uma vez entre seus súditos, na plenitude de seus poderes.
Volto para a ponte.
— Atualize-me — ordeno.
— Vamos atravessar a fronteira dos Estados Unidos em dez minutos — diz o navegador. — Ganhamos um pouco de vantagem, mas os lorienos têm um piloto e tanto. Estamos com dificuldade para nos aproximar, e eles ainda estão fora do alcance de nossas armas.
Concordo com a cabeça.
— Envie o máximo de Skimmers de que pudermos abrir mão atrás daquela nave, mas a Anubis precisa interromper a perseguição — afirmo. — Estabeleça uma rota até a base de West Virginia.
— O Adorado Líder... — diz o navegador, sem saber como terminar a frase.
— Agora — grito.
Então sou obrigada a ver a nave lórica desaparecer da tela do radar.

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Boa leitura :)