3 de maio de 2017

Capítulo dez

SOU JOGADO ATÉ OS FUNDOS DA NAVE PELA EXPLOSÃO. SOU CERCADO POR RAJADAS de vento, fogo e cinzas.
O piloto está morto. Assim como o soldado que estava sentado no lugar do copiloto. É difícil verificar o que aconteceu, com a fumaça espessa e escura tomando conta da cabine, mas é evidente que os dois morreram.
E que estamos caindo.
Eu me lanço para a frente e aperto alguns botões, executando protocolos de emergência. O Skimmer cai girando, mas consigo nivelá-lo o bastante para que, quando atingirmos o solo, em uma região cheia de árvores perto das cataratas, pousemos do lado certo.
Só depois que paramos de derrapar e a fumaça começa a se dissipar, posso avaliar os danos.
Ficando de pé, percebo que meu pulso esquerdo está quebrado. Um contratempo, mas posso contorná-lo. Só preciso de uma mão para disparar a arma. Eu poderia matar com qualquer um dos braços, se precisasse.
— Apresentar-se! — grito, porque o som das cataratas quase afoga minha voz.
— Senhor — responde alguém.
Da parte de trás do Skimmer, surge o novato, tossindo. Apesar de ter um corte na testa, ele parece bem.
— Só sobrou você?
Ele confirma com a cabeça.
Olho para o painel de controle. Os sistemas de comunicação foram atingidos. Em algum lugar perto de nós, ouço o barulho de disparos.
Aponto para o buraco na cabine, então escalamos e saímos do Skimmer.
— Qual o seu nome, soldado? — pergunto ao único membro restante do esquadrão.
— Drak Üshaba.
Isso me pega desprevenido.
— Somos do mesmo tonel — constato.
Ele assente, os olhos vasculhando as árvores enquanto nos situamos. Um bom soldado.
— Mas acredito que nasci algumas gerações depois, senhor — comenta ele.
Nosso Skimmer não caiu muito longe das cataratas. Vejo duas pilhas de cinzas ao lado de barras de metal que evitam que pessoas caiam na água. Os dois Skimmers restantes circulam acima de nós, atirando em alvos que a princípio não vejo. Alguns outros soldados, agachados e escondidos atrás de pedras imensas, estão atirando.
— Drak Üshaba — chamo, pegando minha arma com a mão boa. — Temos uma missão a cumprir. Vamos deixar nosso tonel, nossa nave de guerra e nosso Adorado Líder orgulhosos.
Ele rosna em resposta. Corremos para a luta.
Vejo dois alvos: uma moça de cabelos louros se escondendo entre as árvores a cem metros de nós e um rapaz grandalhão de cabelos castanhos fazendo o possível para não escorregar das pedras e cair na água, balançando os braços. Provavelmente usando poderes lóricos.
Drak também os vê.
— Pegue a menina — ordeno, e ele desaparece entre as árvores. — Tiros não letais. Voltaremos em um dos outros Skimmers. Haverá espaço para nós.
Corro até o corrimão próximo ao menino de cabelos castanhos e miro com cuidado. Os humanos estão lutando bem. Muito melhor do que eu esperava. Mas isso logo vai acabar. Ainda podemos capturá-los. Ainda posso sair vitorioso. Disparo. Minha mira é boa. Atinjo o garoto duas vezes no traseiro. Basta para derrubá-lo sem matá-lo. Ele cai, gritando. Pelo menos é o que eu deduzo. O barulho da água é alto demais.
Provavelmente é por isso que não percebo outra pessoa se aproximando de mim até ser tarde demais.
— Ei!
Eu me viro. Há um garoto humano parado a dez metros de mim. Os cabelos têm uma cor estranha. Não são naturais. Quase brancos e espetados no topo da cabeça.
Viro a arma para ele. Ele sorri e mexe o dedo repetidas vezes. Alguma coisa passa por cima de sua cabeça. Um raio de energia vermelha e pulsante. O menino fecha a mão em um punho e o abaixa em um giro. Deve estar usando telecinesia. Antes que eu salte para desviar, a coisa vermelha atinge o chão atrás de mim, do outro lado do guarda-corpo. Explode, me fazendo voar pelo ar junto com uma nuvem de fumaça, pedras e destroços.
Atinjo o chão rolando, até que paro ao bater com as costas em alguma coisa dura. Minha cabeça dá uma pancada nessa coisa, turvando minha visão. Sinto uma dor repentina no peito.
— Valeu — grita o garoto por cima do ombro para as árvores.
Tudo o que vejo é um vulto de cabelos escuros, pequeno demais para ser mogadoriano, desaparecendo por entre as árvores.
O menino volta sua atenção para mim.
— Cara, preciso melhorar a mira. Quase acertei o coitado do Bertrand. A bomba de Ran era para atingir você. Mesmo assim, aposto que está doendo, não está?
Olho para baixo. Há uma haste de metal espetada na lateral do meu peito. É um pedaço do corrimão que estava ao meu lado. Um dos meus pulmões com certeza foi destruído. Mas devo estar em choque, porque não sinto muita coisa além de um formigamento gelado nos dedos.
Olho ao redor. Onde está Drak? Onde estão os outros soldados?
— Malditos humanos... — cuspo. — Fracotes...
O garoto sorri de um jeito que faz meu sangue ferver.
— Parece que esses “fracotes” estão acabando com todos os seus homens. Você devia ter trazido reforços. — Ele solta um suspiro exagerado. — Era de se imaginar que captariam nossa mensagem, seus cretinos feiosos. Talvez os lorienos não estejam muito longe. — O rosto dele se ilumina. — Espere, isto é um teste ou coisa parecida? Porque acho que estamos tirando nota máxima, cara.
Minha arma está no chão, entre nós dois. O menino abre a palma da mão, atraindo-a para si. Por cima do ombro dele, vejo um dos Skimmers caindo. Está meio difuso. Como se estivesse coberto por algum tipo de nuvem ou enxame. A nave cai na água.
Tento me levantar. É quando me dou conta de que a haste de metal atravessou meu corpo. O outro lado está enfiado em uma árvore. Contorço o corpo na tentativa de soltá-la. É quando a dor vem.
Grito. O garoto mira meu rosto. Pelo ângulo, acho que vai errar. Mas, se eu ficar ali, ele acabará acertando mais cedo ou mais tarde.
Não vou deixar essa criança acabar comigo. Só tenho uma opção. Talvez até sobreviva. Talvez os ferimentos não sejam tão ruins assim.
Com toda a força que tenho no corpo, eu me atiro para a frente. Ouço um som molhado e de revirar o estômago quando o metal sai do corpo. Sinto uma rajada quente passar pela minha orelha, queimando o ar. O garoto errou.
Mas ele não é minha maior preocupação.
— Putz — zomba o menino. — Parece que você já morreu.
Rastejo para a frente de joelhos. Um líquido escuro esguicha do buraco em meu peito, cobrindo meu corpo. Cobrindo as folhas. Olho para minhas mãos. Elas estão ficando cinzentas. Uma bateria de exclamações explode em minha cabeça.
Você fracassou! Mate-os! Está doendo! Não deixe esse humano vencer!
Então, vem a bomba mais alta de todas, e meus dedos começam a se despedaçar. A se desintegrar.
Viva nosso Adorado Líder! Que seu reinado seja...

2 comentários:

  1. como o Pittacus consegue fzer a gnt torcer pra um mog dps d tantos livros torcendo pra garde?
    estou confuso

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    1. eu não tava torcendo pra o mog, cuidado pra vc n ser feito 5 hahaha

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Boa leitura :)