3 de maio de 2017

Capítulo cinco

DEPOIS DE ME ENCONTRAR COM ZAKOS, SEGUI PARA MINHAS ANTIGAS INSTALAÇÕES na base. Não restou nenhum de meus pertences, exceto por alguns uniformes antigos e uma cópia toda marcada do Grande Livro. Ainda assim, sinto uma sensação boa por estar de volta depois de tantas noites estacionada no México, me perguntando como atravessaria o campo de força do Santuário. Na pequena cama do quarto, durmo o sono profundo e sem sonhos de quem se manteve apenas à base de adrenalina por dias.
Na manhã seguinte, Dr. Zakos manda me buscarem um pouco depois que acordei. Já passou bastante tempo desde o nascer do sol. Sei que meu corpo precisava de descanso, mas ainda assim me sinto preguiçosa, como se eu devesse ter acordado no alvorecer e feito alguma coisa, qualquer coisa, a fim de contribuir para o avanço da invasão.
Olho meu rosto no espelho antes ir para o laboratório. O olho não está mais tão inchado como antes, mas começou a ficar escuro, deixando a pele em uma mistura de roxo, amarelo e tons profundos de preto. Minha mente é invadida por flashes de quando fui amarrada no México, com Adamus e Seis batendo em mim.
Prometo a mim mesma que, se algum dia voltar a vê-los, vou me assegurar de fazê-los sangrar lentamente enquanto assistem, impotentes, à morte dos amigos, antes de eu sequer começar a considerar aliviá-los com a morte. Não pela desgraça que me causaram ao me tomarem como prisioneira, mas pelos ferimentos que infligiram ao Adorado Líder. Eles pagarão caro.
Alguém limpou o sangue do laboratório do Dr. Zakos, mas ele não está aqui. Fico esperando por alguns minutos, passando os olhos pelos diversos papéis empilhados em sua mesa de trabalho: projetos de novos monstros, atualizações potenciais de armamentos, rascunhos sobre os humanos que desenvolveram poderes lóricos.
Sou interrompida por um arfar rouco atrás de mim.
Eu me viro na ponta dos pés e saco a arma em um único movimento fluido. Na minha mira está a menina ruiva na prancha de metal. Sua aparência está diferente da que testemunhei no dia anterior. Parece mais pálida, as bochechas fundas. Ela mexe os lábios, mas não sai nenhuma palavra. Ao contrário de antes, seus olhos estão abertos — grandes, verdes e injetados, encarando o nada.
Vou até ela. Em torno da cama, há todo tipo de aparelhos, grandes peças de maquinário e equipamentos computadorizados com agulhas, tubos e eletrodos pendurados. Eu me agacho a seu lado.
— Humaninha de sorte — digo. — Não faz ideia da honra que é estar na sua posição. O que quer que o Adorado Líder e o Dr. Zakos tenham planejado para você, certamente tornará nossos exércitos mais fortes, acelerando o Progresso Mogadoriano e a invasão de seu planeta. Qualquer dor que suportar neste laboratório é para o bem maior de meu povo. Você devia se considerar sortuda: ao contrário da maioria dos humanos, sua morte terá importância.
Quando termino, seus olhos se viram de repente em minha direção, arregalados e cheios de horror. Sorrio, sabendo que ela me ouviu. Que ela entendeu.
Ela arfa com dificuldade mais uma vez, então suas pálpebras se fecham, e ela fica inconsciente de novo. É quando ouço uma voz vinda dos tonéis. Passo pela porta e logo sou atingida pelo mesmo cheiro de enxofre do dia anterior, mas ainda mais forte.
— Dr. Zakos — chamo, então percebo o que está acontecendo diante de mim.
Zakos está vestindo seu jaleco branco, de pé próximo a um dos poços escuros. Tem um tablet nas mãos. No tonel abaixo dele está o Adorado Líder, submerso até os ombros em gosma preta. Seu rosto está coberto por uma camada lisa do líquido denso.
— Adorado Líder! — exclamo, caindo de joelhos com tanta força que, por um instante, acho que quebrei os ossos. — Perdoe-me. Não tive a intenção de interromper.
— Levante-se, Phiri Dun-Ra — ordena ele, sua voz profunda enchendo o ambiente.
— Ah, aí está você — diz Zakos, erguendo o tablet. — Eu estava apenas atualizando nosso ilustre comandante sobre o estado de sua frota e sobre tudo o que aconteceu nas últimas horas. Incluindo seu voo do México.
— Você assumiu o controle da Anubis quando eu estava... — começa meu líder, então faz uma pausa. — Quando eu estava indisposto.
— Sim... — Hesito antes de prosseguir: — Agi como sua voz. Havia caos onde deveria haver ordem, e tentei corrigir isso e agir garantindo seus interesses. Sei que não tinha direito de fazer isso e ofereço minha vida como...
— Pois fez bem, Phiri — interrompe ele. — Na verdade, tenho planos para você. Pode chamá-los de recompensa. Por idealização minha, Dr. Zakos desenvolveu uma nova forma de acréscimo. Quero que seja a primeira a testar.
— Eu?
— Quem melhor do que aquela que demonstrou que não deixará nada impedi-la de provar sua lealdade? O processo será doloroso. Pode levá-la à beira da morte. Preciso de alguém com o desejo de sobreviver, de suportar... de servir como minha voz enquanto me recupero. Minha voz e meu braço. Vamos deixá-la mais forte, invencível, e, assim, você se tornará a mensageira do fim deste mundo. Sairá deste processo renovada, como minha arma mais poderosa.
Sinto o coração batendo forte no peito. Sou tomada por uma sensação de contentamento e alegria diferente de qualquer coisa que já senti.
— Tudo o que precisa fazer é sair viva do processo — diz ele.
Tento falar sem deixar a voz estremecer. Por um instante, eu me lembro do sangue e da carne na mesa do laboratório no dia anterior. Eu poderia acabar assim, a primeira a testar o novo acréscimo.
Mas é a vontade dele.
— Meu propósito é servi-lo, Adorado Líder. Agradeço por me honrar desta forma, apesar de meu fracasso na captura dos lorienos que fugiram do Santuário.
Ele solta uma risada curta.
— Não se preocupe com os lorienos por enquanto, Phiri Dun-Ra. O destino deles está selado. Eu previ o fim dos Gardes e de seus aliados. A derrocada deles virá de seu próprio grupo. — Os lábios dele se curvam em um sorriso, fazendo escorrer gosma preta pelos dentes afiados e cinzentos. — Não estava apenas me recuperando aqui na escuridão. Tive sonhos.
Antes que eu consiga qualquer explicação sobre o que isso quer dizer, o Adorado Líder começa a afundar no tonel.
— Acho que preciso de mais algumas horas — informa ele a Zakos antes que o líquido cubra seus lábios. — Então vou querer ver como ficou nossa nova soldada.
— É claro, Adorado Líder.
E submerge.
Quando ele desaparece, mal me contenho. Percebo que estava prendendo a respiração, e expirar faz minha visão ficar turva por um instante enquanto sou tomada por uma descarga de adrenalina.
Eu sou a voz do Adorado Líder. Sou o punho que esmagará os lorienos, e depois os humanos. Estou cumprindo meu propósito.
Quando ergo o olhar, Zakos está me encarando. Ele guardou o tablet no imenso bolso do jaleco e está segurando o que parece uma serra cirúrgica. Então aponta com o objeto para a porta do laboratório.
— Muito bem, muito bem. Você ouviu o Adorado Líder. Ele está satisfeito com seu trabalho e anseia saber como posso melhorar suas habilidades. Então... — Ele sorri. — Vamos começar?

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Boa leitura :)