27 de maio de 2017

Capítulo 9 - Uma feiticeira, uma cobra e um pergaminho

Naquela noite, ao retornar a seus aposentos após banhar-se, Eragon ficou surpreso ao ver uma mulher alta esperando-o no saguão. Ela tinha o cabelo escuro, olhos azuis magníficos e uma boca maliciosa. Em volta do seu pulso havia um bracelete dourado com a forma de uma cobra sibilante. Eragon esperava que ela não estivesse lá para pedir conselhos, como tantos Varden faziam.
— Argetlam. — Ela lhe fez reverência graciosamente. Em troca, ele inclinou a cabeça.
— Posso ajudá-la?
— Espero que sim. Sou Trianna, feiticeira de Du Vrangr Gata.
— Sério? Uma feiticeira? — perguntou ele, intrigado.
— Bruxa que faz feitiços durante batalhas, espiã e qualquer coisa que os Varden julgarem necessário. Não há praticantes de magia suficientes, por isso cada um de nós acaba recebendo uma dúzia de tarefas. — Ela sorriu, mostrando dentes brancos e bem nivelados. — Foi por isso que vim aqui hoje. Ficaríamos honrados se você pudesse liderar o nosso grupo. Você é o único que pode substituir os Gêmeos.
Quase sem perceber, ele sorriu de volta. Ela era tão amável e charmosa que ele detestaria dizer não.
— Temo que não possa aceitar tal encargo, Saphira e eu estamos prestes a deixar Tronjheim. Além do mais, eu precisaria consultar Nasuada antes, de qualquer maneira. E eu não quero mais me envolver com essa história de política... especialmente onde os Gêmeos costumavam ser líderes.
Trianna mordeu o lábio.
— Lamento ouvir isso. — Ela se aproximou. — Talvez possamos passar algum tempo juntos antes de você partir. Poderia lhe mostrar como convocar e controlar espíritos... Seria educativo para nós dois.
Eragon sentiu um rubor esquentar o seu rosto.
— Agradeço pela oferta, mas no momento estou muito ocupado.
Uma centelha de raiva fez os olhos de Trianna cintilarem e depois sumiu tão rapidamente que Eragon se perguntou se a havia visto no fim das contas. Ela suspirou delicadamente.
— Eu entendo.
Ela parecia tão decepcionada — e tão desconsolada — que Eragon se sentiu culpado por repeli-la. Não vai doer conversar com ela durante alguns minutos, disse a si mesmo.
— Estou curioso, como você aprendeu a fazer magia?
Trianna ficou radiante.
— Minha mãe era curandeira em Surda. Ela possuía algum poder e teve como me instruir dos antigos costumes. É claro, não estou nem perto de ser tão poderosa quanto um Cavaleiro. Ninguém de Du Vrangr Gata poderia ter derrotado Durza sozinho, como você fez. Isso foi um feito heróico.
Acanhado, Eragon bateu com suas botas no chão.
— Não teria sobrevivido se não fosse por Arya.
— Você é muito modesto, Argetlam — lembrou ela. — Foi você que deu o golpe final. Devia estar orgulhoso do seu feito. É algo digno do próprio Vrael. — Ela se inclinou em sua direção. O coração do moço acelerou enquanto sentia o perfume de Trianna, que era puro e almiscarado, e sugeria um tempero exótico. — Você já ouviu as músicas escritas sobre você? Os Varden as cantam todas as noites em volta de suas fogueiras. Elas dizem que você veio tomar o trono de Galbatorix!
— Não — disse Eragon, rápida e impetuosamente. Ele não iria tolerar esse tipo de rumor. — Eles podem até dizer isso, mas eu não o farei. Seja qual for o meu destino, não aspiro liderança alguma.
— E é inteligente da sua parte que não o faça. O que é um rei, afinal de contas, além de um homem aprisionado pelos seus deveres? Essa seria uma recompensa de fato ruim para o último Cavaleiro livre e seu dragão. Não, para você só mesmo a liberdade de ir e vir, fazer o que deseja e, por extensão, moldar o futuro da Alagaësia. — Ela fez uma pausa. — Você ainda tem algum familiar no Império?
O quê?
— Só um primo.
— Então você não está noivo?
A pergunta o pegou desprevenido. Nunca ninguém havia lhe feito tal questionamento.
— Não, não estou noivo.
— Com certeza deve haver alguém de quem você gosta. — Ela se aproximou um pouco mais e sua manga cheia de fitas roçou no braço do Cavaleiro.
— Nunca fui íntimo de ninguém em Carvahall — hesitou ele — e venho viajando desde então.
Trianna recuou um pouco e depois levantou o pulso para que o bracelete de serpente ficasse na altura dos olhos.
— Você gosta dele? — indagou ela. Eragon piscou e acenou com a cabeça, embora fosse de fato um pouco desconcertante. — Eu o chamo de Lorga. Ele é meu amigo íntimo e protetor. — Inclinando-se para a frente, ela soprou o bracelete, para depois murmurar: — Sé orúm thornessa hávr sharjalví lífs.
Com um farfalhar seco, a cobra começou a se mexer e ganhar vida. Eragon ficou observando, fascinado, enquanto a criatura se contorcia em volta do braço pálido de Trianna para depois se erguer e fixar seus olhos de rubi sobre ele, com a língua de arame saindo e voltando para a boca. Seus olhos pareceram se expandir até ficarem tão largos quanto o punho de Eragon. Ele sentia como se estivesse tombando para dentro de suas profundezas ardentes, não conseguia desviar o olhar por mais que tentasse.
Então, depois de um breve comando, a serpente endureceu e reassumiu sua posição original. Com um suspiro cansado, Trianna se recostou na parede.
— Não é muita gente que entende o que nós, que nos valemos da magia, fazemos. Mas queria que soubesse que há outros parecidos com você, e nós o ajudaremos se pudermos.
Impulsivamente, Eragon colocou sua mão sobre a dela. Ele nunca havia tentado se aproximar de uma mulher dessa maneira antes, mas o instinto o obrigou a avançar, dando-lhe coragem para aproveitar a chance. Era assustador, divertido.
— Se você quiser, podemos sair para comer. Há uma cantina não muito distante daqui.
Ela colocou sua outra mão sobre a dele, dedos frios e macios, tão diferente dos apertos brutais aos quais Eragon estava acostumado.
— Gostaria sim. Será que podemos... — Trianna deu um passo em falso assim que a porta se abriu violentamente a suas costas. A feiticeira se virou e gritou ao se ver cara a cara com Saphira.
A fera permaneceu imóvel, exceto por um lábio que se levantava lentamente para revelar uma linha de dentes recortados. E depois rosnou. Foi um rosnado sensacional — coberto de desdém e ameaça — que se ergueu e se espalhou pelo salão durante mais de um minuto. Ouvi-lo era como suportar um discurso longo, extremamente áspero e dilacerante. Eragon ficou olhando-a o tempo todo.
Quando acabou, Trianna estava apertando sua saia com ambas as mãos, torcendo o tecido. Seu rosto estava branco e assustado. Ela rapidamente fez uma reverência para Saphira e, depois, num gesto que mal se esforçou para refrear, se virou e fugiu. Agindo como se nada tivesse acontecido, Saphira levantou uma das pernas e lambeu uma das garras. Foi quase impossível abrir a porta, torceu o nariz.
Eragon não conseguiu mais se conter. Por que você fez isso?, explodiu. Você não tinha razão para interferir!
Você precisava da minha ajuda, continuou ela, inabalável.
Se eu precisasse da sua ajuda, teria chamado!
Não grite comigo, vociferou, apertando a sua mandíbula. Ele podia sentir as emoções dela fervendo em seu interior com a mesma agitação das dele. Não vou deixar você andar por aí com uma mulher relaxada, suja e desleixada que se importa mais com Eragon como Cavaleiro do que como pessoa.
Ela não era uma mulher relaxada, urrou Eragon. Ele socou a parede, frustrado. Sou um homem agora, Saphira, não um ermitão. Você não pode esperar que eu vá ignorar... ignorar as mulheres só porque sou o que sou. E essa decisão com certeza não é sua. No mínimo, eu poderia ter uma boa conversa com ela, e falar sobre outras coisas além das tragédias com as quais temos lidado ultimamente. Você está na minha cabeça há tempo suficiente para saber como eu me sinto. Por que não podia me deixar sozinho? Onde estava o perigo?
Você não entende. Ela se recusava a encará-lo.
Não entendo! Você vai evitar para sempre que eu tenha mulher e filhos? E quanto a uma família?
Eragon. Ela finalmente fixou um dos seus grandes olhos nele. Estamos intimamente ligados.
Obviamente!
E se você for atrás de um relacionamento, com ou sem a minha bênção, e ficar... afeiçoado... a alguém, meus sentimentos também ficarão comprometidos. Você devia saber disso. Portanto – e só vou lhe avisar uma vez – seja cuidadoso com suas escolhas, pois irá envolver a nós dois.
Ele considerou rapidamente as palavras de Saphira. No entanto, nosso vinculo funciona de ambas as maneiras. Se você odiar alguém, eu serei influenciado do mesmo jeito... entendo a sua preocupação. Então você não estava simplesmente com ciúmes?
Ela lambeu a garra mais uma vez. Talvez um pouco.
Foi Eragon que rugiu desta vez. Ele passou por Saphira, roçando em seu corpo ao entrar no quarto, pegou Zar’roc, e depois se afastou a passos largos e pomposos, enquanto embainhava a espada.
Ele vagou por Tronjheim por horas, evitando fazer contato com quem quer que fosse. O que ocorrera o havia magoado, embora não pudesse negar a verdade nas palavras de Saphira. De todas as questões que ambos discutiram, esta era a mais delicada e com a qual menos concordavam. Naquela noite — pela primeira vez desde que foi capturado em Gil’ead —, Eragon dormiu longe de sua parceira, em uma das casernas dos anões.


Eragon voltou aos seus aposentos na manhã seguinte. Num acordo tácito, ele e Saphira evitaram falar sobre o que havia transcorrido, discutir mais era inútil quando nenhum dos lados estava disposto a ceder. Além do mais, ambos estavam tão aliviados por estarem juntos outra vez que não queriam correr o risco de colocar sua amizade em perigo novamente.
Os dois estavam almoçando — Saphira dilacerava uma coxa sangrenta — quando Jarsha chegou apressado. Como antes, encarou Saphira com os olhos arregalados, acompanhando seus movimentos enquanto ela mordiscava a ponta do osso.
— Sim? — perguntou Eragon enquanto limpava o queixo e se perguntava se o Conselho de Anciãos havia mandado chamá-lo. Ele não ouvira nenhuma notícia sobre eles desde o funeral.
Jarsha deu as costas para Saphira tempo suficiente para dizer:
— Nasuada gostaria de vê-lo, senhor. Ela está esperando na biblioteca de seu pai.
Senhor! Eragon quase deu uma gargalhada. Há pouquíssimo tempo, ele é que chamava as pessoas de “senhor”, não o contrário. Ele olhou para Saphira.
— Você já terminou ou devemos esperar mais alguns minutos?
Revirando os olhos, ela colocou o resto da carne em sua boca e partiu o osso com um estalo. Acabei.
— Tudo bem — disse Eragon, de pé —, pode ir, Jarsha. Nós sabemos o caminho.
Levou quase meia hora para que os dois chegassem à biblioteca, por causa do tamanho da cidade-montanha. Da mesma forma que na época em que Ajihad governava, a porta estava guardada, mas, em vez de dois homens, um esquadrão inteiro de guerreiros, endurecidos por inúmeras batalhas, estavam em pé a sua frente, alertas para o menor sinal de perigo. Iriam, com certeza, se sacrificar para proteger sua nova líder de ataques e emboscadas. Embora os homens não pudessem deixar de reconhecer Eragon e Saphira, eles foram barrados até Nasuada ser avisada da presença de seus visitantes. Só então foi permitida a entrada.
Eragon notou na mesma hora uma mudança: um vaso de flores na biblioteca. A pequena floração lilás era discreta, mas enchia o ar com uma fragrância morna que — para Eragon — evocava verões de framboesas colhidas do pé e campos ceifados bronzeados sob o sol. Ele inspirou, sensível à sabedoria com a qual Nasuada afirmava sua individualidade sem suprimir a memória de Ajihad.
Ela estava sentada atrás da ampla mesa, ainda vestida com a capa negra de luto. Enquanto Eragon se sentava, com Saphira ao seu lado, ela disse:
— Eragon. — Era uma declaração simples, nem amigável nem hostil. Ela se virou de lado por um breve instante e depois o encarou com o olhar firme e atento. — Passei os últimos dias examinando os negócios dos Varden, assim como são. Foi um exercício desanimador. Estamos pobres, gastamos muito, nossos suprimentos estão escassos e temos poucos recrutas do Império se alistando. Pretendo mudar isso.
Ela fez uma pausa e prosseguiu:
— Os anões não podem mais nos sustentar, já que foi um ano pobre para o cultivo e eles sofreram suas próprias perdas. Pensando nisso, decidi mudar os Varden para Surda. É uma proposta difícil, mas aquela que acredito ser necessária para nos mantermos seguros. Uma vez em Surda, estaremos finalmente perto o bastante para atacar o Império diretamente.
Até mesmo Saphira se agitou, surpresa. Olha o trabalho que vai ser necessário!, disse Eragon. Pode levar meses para transportar os pertences de cada um para Surda, sem mencionar o traslado de todas as pessoas. E elas provavelmente seriam atacadas ao longo do caminho.
— Pensei que o Rei Orrin não ousaria se opor abertamente a Galbatorix — protestou ele.
Nasuada sorriu indiferente.
— A postura dele mudou desde que derrotamos os Urgals. Ele nos protegerá, nos alimentará e lutará ao nosso lado. Muitos Varden já estão em Surda, principalmente mulheres e crianças que não podiam ou não iriam lutar. Elas também nos apoiarão, caso contrário eu as privarei de usarem o nosso nome.
— Como — perguntou Eragon — você se comunicou com o Rei Orrin tão rapidamente?
— Os anões usam um sistema de espelhos e lanternas para retransmitir mensagens através de seus túneis. Eles podem enviá-las daqui para o lado oeste das montanhas Beor em menos de um dia. Mensageiros depois as transportam para Aberon, capital da Surda. Por mais rápido que seja, tal método ainda é muito lento visto que Galbatorix pode nos surpreender com um exército Urgal e nos dar um aviso prévio de menos de um dia. Pretendo planejar algo ainda mais conveniente em conjunto com Du Vrangr Gata e os mágicos de Hrothgar antes de partirmos.
Ao abrir a gaveta da mesa, Nasuada retirou um enorme pergaminho.
— Os Varden deixarão Farthen Dûr daqui a um mês. Hrothgar concordou em nos assegurar uma travessia segura pelos túneis. Além disso, ele mandou uma tropa para Orthíad a fim de remover os últimos vestígios de Urgals e selar os túneis para que ninguém possa invadir novamente a morada dos anões usando tal rota. Como isso pode ser insuficiente para garantir a sobrevivência dos Varden, tenho um favor para lhe pedir.
Eragon acenou com a cabeça. Ele esperava um pedido ou uma ordem. Esse foi o único motivo para ela tê-los convocado.
— Estou pronto a obedecer as suas ordens.
— Talvez. — Seus olhos se voltaram por um segundo para Saphira. — De qualquer maneira, isso não é uma ordem, e quero que vocês pensem cuidadosamente antes de responder. Para ajudar a reunir apoio para os Varden, gostaria de espalhar por todo o Império que um novo Cavaleiro, chamado Eragon Matador de Espectros, e seu dragão, Saphira, se juntaram à nossa causa. No entanto, gostaria de ter a sua permissão antes de fazê-lo.
É perigoso demais, opôs-se Saphira.
As notícias de nossa presença aqui irão chegar ao Império de qualquer maneira, assinalou Eragon. Os Varden irão querer se gabar de sua vitória e da morte do Espectro. Como isso irá acontecer com ou sem a nossa aprovação, devemos concordar em ajudar.
Ela bufou suavemente. Estou preocupada com Galbatorix. Até agora não tornamos público o lado que estamos apoiando.
Nossas atitudes já foram claras o bastante.
Sim, mas mesmo quando Durza lutou contra você em Tronjheim, ele não estava tentando matá-lo. Se nossa oposição ao Império se tornar franca, Galbatorix não será tão tolerante mais uma vez. Quem sabe que forças ou planos ele pode ter deixado em suspenso enquanto tentava se apoderar de nós? Enquanto nos mantivermos ambíguos, ele não saberá o que fazer.
O momento de sermos ambíguos já passou, asseverou Eragon. Lutamos contra os Urgals, matamos o Espectro e eu jurei lealdade à líder dos Varden. Não existe ambiguidade. Não, com a sua permissão, eu concordarei com sua proposta.
Ela ficou em silêncio por um bom tempo até que abaixou a cabeça por um instante. Como você desejar.
Ele colocou a mão sobre seu flanco antes de voltar sua atenção para Nasuada e dizer:
— Faça o que for mais adequado. Se essa for a melhor maneira de ajudar os Varden, que seja assim.
— Obrigada. Sei que isso é pedir demais. Agora, de acordo com o que discutimos antes do funeral, espero que vocês viajem para Ellesméra e completem o seu treinamento.
— Com Arya?
— É claro. Os elfos recusaram fazer contato tanto com humanos quanto com anões desde que ela foi capturada. Arya é o único ser que pode convencê-los a sair da reclusão.
— Será que ela não poderia usar magia para lhes falar de seu resgate?
— Infelizmente não. Quando os elfos se refugiaram em Du Weldenvarden depois da queda dos Cavaleiros, eles posicionaram vigias em volta da floresta para evitar que qualquer pensamento, coisa ou ser a adentrassem usando meios arcanos, embora não haja nada contra eles saírem dessa forma, se bem entendi a explicação de Arya. Desse modo, Arya deve visitar fisicamente Du Weldenvarden antes que a rainha Islanzadí saiba que ela está viva, que você e Saphira existem e tome conhecimento dos inúmeros eventos que sobrevieram aos Varden nesses últimos meses. — Nasuada lhe passou o pergaminho. Estava com um selo de cera. — Isso aqui é uma missiva para a rainha Islanzadí, falando sobre a situação dos Varden e dos meus próprios planos. Guarde-a com sua vida, em mãos erradas ela causará um grande perigo. Espero que depois de tudo que aconteceu, Islanzadí sinta-se solidária a nós a fim de restabelecer os laços diplomáticos. Sua ajuda poderia significar a diferença entre vitória e derrota. Arya sabe disso e concordou em fazer pressão para ela se aliar a nossa causa, mas queria que você estivesse a par da situação também, para poder tirar partido de quaisquer oportunidades que possam surgir.
Eragon enfiou o pergaminho dentro do seu colete.
— Quando partiremos?
— Amanhã de manhã... a não ser que você já tenha algo planejado.
— Não.
— Bom. — Ela fechou as mãos. — Você deve saber, uma outra pessoa viajará com você. — Ele a encarou, curioso. — O rei Hrothgar insistiu para que, em nome da justiça, houvesse um representante dos anões presente ao seu treinamento, já que ele também afeta a sua raça. Por isso está mandando Orik.
A primeira reação de Eragon foi de irritação. Saphira poderia levar ele e Arya para Du Weldenvarden, eliminando com isso semanas de viagens desnecessárias. Três passageiros, no entanto, era muito para se acomodar no dorso de Saphira. A presença de Orik os confinaria ao chão. Depois de refletir um pouco mais, Eragon reconheceu a sabedoria do pedido de Hrothgar. Era importante para Eragon e Saphira manter uma imagem de igualdade no trato com as diferentes raças. Ele sorriu:
— Ah, bem, isso irá nos retardar, mas suponho que tenhamos que atender Hrothgar. Para falar a verdade, fico feliz que Orik esteja vindo. Cruzar a Alagaësia só com Arya seria uma perspectiva um tanto atemorizante. Ela...
Nasuada sorriu também.
— Ela é diferente.
— É. — Ele começou a ficar sério novamente. — Você realmente tem a intenção de atacar o Império? Você mesma disse que os Varden são fracos. Não me parece ser a conduta mais inteligente. Se esperarmos...
— Se esperarmos — disse ela com firmeza —, Galbatorix só ficará mais forte. Esta é a primeira vez, desde que Morzan foi assassinado, que temos a mínima oportunidade de pegá-lo desprevenido. Ele não tinha razões para suspeitar que pudéssemos derrotar os Urgals, o que fizemos graças a você, de modo que não terá preparado o Império para a invasão.
Invasão!, exclamou Saphira. E como ela planeja matar Galbatorix quando ele perder as estribeiras e resolver destruir seus exércitos com magia?
Nasuada balançou a cabeça quando Eragon expôs a seu modo a contestação de Saphira.
— Pelo que sabemos, ele não irá lutar até que a própria Urû’baen esteja ameaçada. Não importa para Galbatorix se destruirmos metade do Império, desde que o enfrentemos frente a frente, não ao contrário. Por que ele ligaria para isso? Se conseguirmos alcançá-lo, nossas tropas estarão exauridas e esvaziadas, fazendo com que seja mais fácil para ele destruir-nos.
— Você ainda não respondeu à Saphira — protestou Eragon.
— É porque ainda não posso. Essa será uma longa campanha. Lá pelo seu fim, vocês poderão ter forças suficientes para derrotar Galbatorix, ou os elfos terão se juntado a nós... e seus lançadores de encantos são os mais poderosos em toda a Alagaësia. Não importa o que vier a acontecer, não podemos mais esperar. Agora é hora de arriscar e ousar fazer o que ninguém acha que podemos realizar. Os Varden já viveram nas sombras durante muito tempo... temos que desafiar Galbatorix ou ceder e morrer.
A dimensão do que Nasuada estava sugerindo perturbou Eragon. Havia muitos riscos e perigos desconhecidos envolvidos, era quase absurdo considerar tal aventura. No entanto, não era seu papel tomar a decisão e por isso ele aceitou o que foi proposto. Nem iria discutir posteriormente. Neste momento, temos que confiar em seu discernimento.
— E quanto a você, Nasuada? Você estará segura enquanto estivermos longe? Tenho de pensar no meu juramento. Passou a ser de minha responsabilidade que você não tenha um funeral tão cedo.
Seus maxilares se apertaram enquanto ela gesticulou em direção à porta e dos guerreiros que estavam do outro lado.
— Vocês não precisam ter medo, estou bem protegida. — Ela olhou para baixo. — Eu vou admitir... um dos motivos para ir para Surda é que Orrin me conhece há muito tempo e irá oferecer a sua proteção. Não posso permanecer aqui com você e Arya ausentes e o Conselho de Anciãos ainda com poder. Eles não me aceitarão como sua líder até que eu prove que, indubitavelmente, os Varden estão sob o meu controle, não sob o deles.
Depois disso, ela pareceu estar se valendo de alguma força interior ao endireitar os ombros e levantar o queixo, de modo que parecesse distante e indiferente.
— Vá agora, Eragon. Prepare o seu cavalo, junte suprimentos e esteja no portão norte ao amanhecer.
Ele se curvou, respeitando seu retorno à formalidade, em seguida partiu com Saphira.
Depois do jantar, Eragon e Saphira voaram juntos. Planaram bem acima de Tronjheim, onde pingentes de gelo crenulados estavam dependurados nos flancos de Farthen Dûr, formando uma longa faixa branca a sua volta. Embora ainda faltassem horas para o anoitecer, já estava quase escuro no interior da montanha.
Eragon jogou a cabeça para trás, saboreando o ar em seu rosto. Ele sentia falta do vento — vento que iria soprar em meio ao pasto e mover as nuvens até tudo ficar viçoso e em desordem. Vento que iria trazer chuva, tempestades e bater contra as árvores até elas inclinarem. Eu também sinto falta das árvores, pensou ele. Farthen Dûr é um lugar incrível, mas está tão vazio de plantas e animais quanto o túmulo de Ajihad.
Saphira concordou. Os anões parecem pensar que pedras preciosas substituem as flores. Ela ficou em silêncio enquanto as luzes continuavam a diminuir. Quando ficou escuro demais para que Eragon pudesse enxergar confortavelmente, ela disse: Está tarde. Temos que retornar.
Tudo bem.
Ela se deixou levar pela corrente de ar em direção ao chão em grandes e preguiçosas espirais, aproximando-se cada vez mais de Tronjheim — que brilhava como um farol no centro de Farthen Dûr. Eles ainda estavam bem distantes da cidade-montanha quando ela virou a cabeça e disse: Veja.
Ele acompanhou seu olhar, mas tudo que conseguiu ver foi a planície cinzenta e sem traços característicos mais abaixo. O quê?
Em vez de responder, ela inclinou as asas e planou para a esquerda, descendo até uma das estradas que saíam de Tronjheim ao longo dos pontos cardeais. Enquanto aterrissavam, ele notou um trecho branco num pequeno monte nas redondezas. O trecho oscilava estranhamente à boca da noite, como se fosse uma vela flutuante, e depois se reduziu a Angela, que estava usando uma túnica branca de lã.
A feiticeira carregava uma cesta de vime de quase um metro e vinte de altura, cheia de cogumelos silvestres, muitos dos quais Eragon não reconheceu. Enquanto ela se aproximava, o Cavaleiro gesticulou e perguntou:
— Você esteve colhendo banquinhos de sapo, os tais cogumelos venenosos?
— Olá — riu Angela, colocando sua carga no chão. — Oh, não, banquinhos de sapo é um termo muito geral. E, de qualquer maneira, estes deveriam realmente ser chamados de banquinhos de rã. — Ela os espalhou na mão. — Este aqui é um tufo de enxofre, já este é um chapéu de tinta, aqui está o chapéu de umbigo, sem contar com o escudo de anão, o talo duro vermelho, o anel de sangue, e aquele é um impostor pintado. São encantadores, não? — Ela apontou para um de cada vez, terminando num cogumelo com tons de rosa, alfazema e amarelo salpicados como se fossem regatos no seu chapéu.
— E aquele ali? — perguntou Eragon, indicando um cogumelo com o talo azul-claro, nervuras de um laranja fundido e um chapéu preto e brilhante com duas tiras.
Ela o olhou afetuosamente.
— Fricai Andlát, como diriam os elfos. O talo provoca morte instantânea enquanto o chapéu pode ser antídoto da maior parte dos venenos. É dele que o Néctar de Túnivor é extraído. Fricai Andlát só cresce nas cavernas de Du Weldenvarden e de Farthen Dûr, e iria começar a morrer por aqui se os anões levassem seus excrementos para outro lugar.
Eragon olhou novamente para o monte e percebeu que era exatamente o que parecia, um monte de esterco.
— Olá, Saphira — disse Angela, passando por ele para acariciar o nariz do dragão. Saphira piscou e parecia satisfeita, puxando a cauda. Ao mesmo tempo, Solembum apareceu, abocanhando com firmeza um rato debilitado. Sem fazer muita coisa a não ser mover o bigode, o menino-gato se acomodou no chão e começou a mordiscar o roedor, ignorando deliberadamente os três.
— E então — disse Angela, jogando para trás um cacho do seu cabelo enorme —, estão indo para Ellesméra? — Eragon acenou positivamente. Ele não se deu ao trabalho de perguntar como ela havia descoberto, a feiticeira sempre parecia saber o que estava acontecendo. Como ele permaneceu em silêncio, ela franziu a testa. — Bem, não precisa ficar tão mal-humorado. Não me parece que será a sua execução!
— Eu sei.
— Então sorria, porque se não é a sua execução, você deveria estar feliz! Você está tão lânguido quanto o rato de Solembum. Lânguido. Que palavra maravilhosa, você não acha?
Aquilo lhe arrancou um sorriso, e Saphira riu à socapa guturalmente.
— Não estou certo de que seja tão maravilhoso quando você pensa, mas, sim, entendo aonde você quer chegar.
— Fico feliz que você entenda. Entender é bom. — Com as sobrancelhas curvadas, ela enfiou a unha por baixo de um cogumelo e o virou para examinar a lamela, enquanto dizia: — É uma casualidade o fato de termos nos encontrado, já que você está prestes a partir e eu... eu irei acompanhar os Varden até Surda. Como já lhe disse antes, gosto de estar onde as coisas estão acontecendo, e aquele é o lugar.
Eragon sorriu ainda mais.
— Muito bem, isso deve significar que teremos uma jornada segura, caso contrário você estaria conosco.
Angela encolheu os ombros e depois falou sério:
— Tenha cuidado em Du Weldenvarden. Só porque os elfos não demonstram suas emoções não quer dizer que eles não estejam sujeitos a sentir fúria e paixão como o resto de nós mortais. No entanto, o que pode torná-los austeros é o fato de conseguirem dissimular tais sentimentos, às vezes por anos.
— Você já esteve lá?
— Uma vez.
Depois de uma pausa, ele perguntou:
— O que você acha dos planos de Nasuada?
— Hum... ela está arruinada! Vocês estão arruinados! Estão todos arruinados! — Ela começou a gargalhar, a dobrar-se de rir, até que ficou séria subitamente. — Note que eu não especifiquei que tipo de ruína, por isso não importa o que venha a acontecer, eu previ tudo. Que sabedoria da minha parte. — Ela levantou a cesta novamente, apoiando-a sobre um dos seus quadris. — Suponho que eu não vá vê-los por um tempo, por isso adeus, tenham toda a sorte do mundo, evitem repolho assado, não comam cera de ouvido, e vejam o lado luminoso da vida! — E, com uma piscadela de quem estava animada, ela se foi, deixando Eragon piscando, inseguro.
Depois de uma pausa apropriada, Solembum pegou o seu jantar e a seguiu, com a mesma dignidade.

Um comentário:

  1. Mano, a Angela da um ar de levasa pra tudo. Adoro essa mulher do fundo do coração <3

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Boa leitura :)