22 de maio de 2017

Capítulo 9 - Estranhos em Carvahall

O café estava frio, mas o chá estava quente. O gelo por dentro das janelas havia se derretido com o fogo da manhã, molhando o piso de madeira, marcando-o com poças escuras. Eragon olhou para Garrow e Roran ao lado do fogão e lembrou que essa seria a última vez que ele veria todos juntos durante vários meses.
Roran estava sentado em uma cadeira, amarrando as botas. Sua bolsa cheia estava no chão, perto dele. Garrow estava em pé entre eles, com as mãos enfiadas bem fundo nos bolsos. A camisa dele pendia bem solta, sua pele demonstrava que estava tenso. Apesar da insistência do jovem, ele se recusou a ir com eles. Quando foi pressionado a dizer o porquê, apenas explicou que seria melhor assim.
— Você já pegou tudo? — perguntou Garrow a Roran.
— Já.
Ele concordou com a cabeça e pegou uma bolsinha de dentro do bolso. As moedas fizeram barulho quando deu a bolsa a Roran.
— Vim economizando isto para você. Não é muito, mas se quiser comprar alguma besteira, será o suficiente.
— Obrigado, mas não pretendo gastar meu dinheiro com besteiras — disse Roran.
— Faça o que quiser, o dinheiro é seu — afirmou Garrow. — Não tenho mais nada para dar a você, a não ser a minha bênção de pai. Você pode aceitá-la ou não, mas ela pode valer alguma coisa.
A voz de Roran estava embargada por causa da emoção.
— Eu ficaria honrado de recebê-la.
— Então, receba-a e vá em paz — disse Garrow e beijou-o na testa. Ele se virou e acrescentou com uma voz mais alta: — Não pense que esqueci de você, Eragon. Tenho algumas palavras para dizer a vocês dois. Chegou a hora de dizê-las, pois vocês precisarão enfrentar o mundo. Prestem atenção, e elas serão muito úteis.
Garrow olhou com severidade para os dois.
Primeiro: nunca deixem ninguém dominar seu corpo ou sua mente. Tenham cuidado especial para que seus pensamentos permaneçam livres. Um indivíduo pode ser livre, contudo pode estar mais preso do que um escravo. Deem seus ouvidos às pessoas, mas nunca o coração. Demonstrem respeito por aqueles que estão no poder, mas nunca os sigam cegamente. Julguem com lógica e razão, mas nunca façam comentários.
“Nunca considerem alguém como superior a vocês, não importa que posto ou situação eles tenham na vida. Tratem todos com justiça, ou poderão querer se vingar. Tenham cautela com o dinheiro. Atenham-se às suas crenças, e os outros ouvirão. — Garrow continuou em um ritmo mais lento. — Quanto aos assuntos do amor... O meu único conselho é que vocês sejam sinceros. É a ferramenta mais poderosa para abrir um coração ou ganhar um perdão. É tudo o que eu tinha a dizer”.
Ele parecia estar um pouco constrangido com seu discurso. Pegou a bolsa de Roran do chão.
— Agora, você deve ir. O alvorecer se aproxima, e Dempton estará esperando.
Roran colocou a bolsa no ombro e abraçou Garrow.
— Voltarei assim que puder — disse.
— Que bom! — respondeu Garrow. — Mas, agora, vá e não se preocupe conosco.
Eles se separaram relutantes. Eragon e Roran saíram, se viraram e acenaram. Garrow ergueu sua mão magra, seus olhos estavam tristes, ficou observando enquanto eles caminhavam com dificuldade até a estrada. Depois de um longo momento, fechou a porta. Quando o som desse ato correu pelo ar da manhã, Roran parou.
Eragon olhou para trás e examinou o campo. Seus olhos pararam nas construções solitárias pequenas. Pareciam frágeis. Um fio fino de fumaça subia e ele era a única prova de que aquela fazenda tomada pela neve estava habitada.
— Esse é o nosso mundo — acrescentou Roran melancolicamente.
Eragon tremeu impaciente e resmungou:
— E é muito bom também.
Roran concordou com a cabeça, esticou os ombros e seguiu em direção a seu novo futuro. A casa saiu de vista quando eles desceram a colina.


Ainda era muito cedo quando chegaram a Carvahall, mas já encontraram as portas da ferraria abertas. O ar lá dentro estava prazerosamente quente. Baldor trabalhava lentamente em duas peças metálicas que estavam do lado de uma fornalha repleta de carvões em brasa. Na frente da fornalha, havia uma bigorna preta e um barril cheio de água com sal. Em uma fileira de estacas enfiadas na parede, na altura do pescoço, pendiam vários itens: tenazes gigantes, alicates, martelos de todas as formas e tamanhos, talhadeiras, esquadros, cinzéis, limas, lixas, tornos, barras de ferro e de aço esperando para serem moldadas, tomilhos, tesouras, picaretas e pás. Horst e Dempton estavam perto de uma mesa comprida.
Dempton se aproximou com um sorriso embaixo do seu exuberante bigode ruivo.
— Roran! Que bom que você veio! Terei muito trabalho, mais do que poderei dar conta, com as minhas novas mós. Você está pronto para ir?
Roran mostrou o peso da sua bolsa.
— Estou. Vamos demorar para partir?
— Tenho de tratar de alguns detalhes, mas partiremos em menos de uma hora. — Eragon virou-se de lado quando Dempton dirigiu-se a ele, puxando a ponta do bigode. — Você deve ser Eragon. Eu também ofereceria um emprego a você, mas Roran preencheu a única vaga disponível. Quem sabe, daqui a um ano ou dois, não é?
Eragon sorriu sem jeito e apertou a mão dele. O homem era amigável. Sob outras circunstâncias, Eragon até gostaria dele, mas agora ele desejava amargamente que o moleiro nunca tivesse aparecido em Carvahall. Dempton bufou.
— Bom, muito bom. — Ele voltou a atenção para Roran e começou a explicar como um moinho funcionava.
— As peças já estão prontas — interrompeu Horst, apontando para a mesa onde estavam vários pacotes. — Pode levá-las quando quiser. — Eles apertaram as mãos, e Horst deixou a ferraria, chamando Eragon com um aceno.
Interessado, Eragon seguiu-o. Ele viu o ferreiro em pé, na rua, de braços cruzados. Eragon apontou com o polegar para trás, em direção ao moleiro, e perguntou:
— O que você acha dele?
Horst falou com a sua voz grossa:
— É um bom homem. Ele vai se dar bem com Roran. — Distraidamente, ele espanou algumas limalhas que estavam em seu avental e depois pousou a sua enorme mão no ombro de Eragon. ­ Rapaz, você se lembra da briga que teve com Sloan?
Se está se referindo ao pagamento da carne, eu não esqueci.
Não, acredito em você, rapaz. Mas eu queria saber se você ainda tem aquela pedra azul.
O coração de Eragon disparou. Por que ele quer saber? Talvez alguém tenha visto Saphira!
Fazendo esforço para não entrar em pânico, respondeu:
Tenho, mas por que você pergunta?
— Assim que você voltar para casa, livre-se dela. — Horst ignorou a surpresa de Eragon. — Dois homens chegaram aqui ontem. Camaradas estranhos, vestidos de preto e carregando espadas. Senti arrepios de medo só de olhar para eles. Na noite passada, começaram a perguntar às pessoas se uma pedra como a sua foi achada. Eles voltaram a perguntar ao povo hoje. — Eragon ficou pálido. — Ninguém com juízo bastante disse nada. Eles reconhecem encrenca quando a veem, mas sei que algumas pessoas podem falar demais.
O temor encheu o coração de Eragon. Seja lá quem tenha enviado a pedra para a Espinha, finalmente, achou o rastro dela. Ou, talvez, o Império tivesse descoberto tudo sobre Saphira. Ele não sabia distinguir o que era pior. Pense! Pense! O ovo se foi. Será impossível eles o acharem agora. Mas se eles souberem o que era na verdade, o que aconteceu será algo lógico... Saphira pode estar em perigo. Ele usou todo o seu auto-controle para não ficar ofegante.
— Obrigado por ter me contado. Você sabe onde eles estão? — Ele estava orgulhoso, pois mal se notava o medo em sua voz.
Eu não falei sobre eles para que você vá encontrá-los! Saia de Carvahall! Vá para casa!
Tudo bem disse Eragon para acalmar o ferreiro. Se é o que pensa, assim farei.
Isso mesmo. A expressão no rosto de Horst se suavizou. Eu posso estar exagerando, mas aqueles estranhos me passaram um mau pressentimento. Será melhor que você fique em casa até eles partirem. Tentarei mantê-los longe da sua fazenda, embora isso talvez não adiante muito.
Eragon olhou para ele com gratidão. Ele desejava poder contar tudo sobre Saphira.
— Irei agora — disse e correu de volta até Roran. Eragon agarrou o braço do primo e despediu-se dele.
— Você não vai ficar mais um pouco? — perguntou Roran surpreso.
Eragon quase riu. Por algum motivo, aquela pergunta pareceu engraçada para ele.
— Eu não tenho nada para fazer aqui e não quero ficar à toa até você partir.
— Bem — disse Roran desconfiado, — acho que esta é a última vez que nos vemos até daqui alguns meses.
— Tenho certeza de que o tempo vai passar rápido — disse Eragon apressadamente. — Cuide-se e volte logo. — Ele abraçou Roran e saiu.
Horst ainda estava na rua. Consciente de que o ferreiro estava olhando, Eragon seguiu em direção às cercanias de Carvahall. Mas, assim que o ferreiro ficou fora do alcance da vista, ele se escondeu atrás de uma casa e voltou sorrateiramente para o vilarejo.
Eragon escondia-se nas sombras enquanto examinava cada rua, tendo cuidado com o menor ruído. Os pensamentos dele se voltaram para seu quarto, onde seu arco pendia. Eragon queria estar com ele nas mãos. Rondou por Carvahall, evitando todas as pessoas até ouvir uma voz sibilante atrás de uma casa. Embora a audição dele fosse muito boa, ele teve de se esforçar para ouvir o que estava sendo dito.
— Quando isso aconteceu? — As palavras eram suaves, como um vidro untado, e pareciam serpentear pelo ar. Sob a fala, havia um assovio estranho que arrepiou seus cabelos.
— Há uns três meses — respondeu outra pessoa. Eragon identificou a voz de Sloan.
Sangue de Espectro! Ele está contando tudo... Decidiu que daria um soco em Sloan na próxima vez em que o encontrasse.
Uma terceira pessoa falou. A voz era grave e pesada. Fazia lembrar imagens de putrefação assustadora, de mofo e de outras coisas nas quais não se deve tocar.
— Tem certeza? Odiaríamos pensar que você cometeu um engano. Se isso acontecesse, seria muito... Desagradável. — Eragon podia imaginar perfeitamente o que eles poderiam fazer. Alguém, exceto membros do Império, ousaria ameaçar as pessoas assim? Talvez não, mas quem enviou o ovo devia ter poder bastante para usar a força impunemente.
— Tenho certeza. Estava com ele. Não estou mentindo. Muita gente sabe disso. Pode perguntar. — Sloan parecia estar abalado. Ele falou algo mais que Eragon não conseguiu ouvir.
— As pessoas foram... pouco cooperativas. — As palavras tinham um tom sarcástico. Houve uma pausa. — A sua informação foi útil. Não esqueceremos de você. — Eragon acreditou nele.
Sloan balbuciou algo, e depois Eragon ouviu alguém se afastando com pressa. Espiou pela esquina para ver o que estava acontecendo. Dois homens altos estavam em pé na rua. Ambos vestiam longos mantos pretos, levantados por bainhas de espadas que passavam pelas pernas deles. Nas camisas havia uma insígnia ricamente ornamentada com um fio prateado. Capuzes escondiam seus rostos, e suas mãos estavam enluvadas. Suas costas eram estranhamente curvadas, como se as roupas tivessem enchimento.
Eragon virou-se levemente para obter uma visão melhor. Um dos estranhos parou e sussurrou de modo peculiar para o amigo. Os dois se viraram de repente e se agacharam. Eragon ficou sem respiração.
Um medo mortal tomou conta dele. Seus olhos se fixaram nos rostos escondidos, e uma força imobilizante dominou sua mente, mantendo-o parado no lugar. Lutou contra aquilo e gritou para si mesmo: Mova-se! Suas pernas tremeram, mas isso de nada adiantou. Os estranhos aproximaram-se silenciosamente dele com um modo de andar suave e sutil. Sabia que podiam ver o seu rosto agora. Estavam quase na esquina, suas mãos seguravam espadas...
— Eragon! — Ele fez um movimento abrupto quando chamaram seu nome. Os estranhos pararam de repente e chiaram como cobras. Brom correu na direção dele, vindo pelo lado, com a cabeça descoberta e o cajado na mão. Os estranhos estavam fora do alcance da visão do velho.
Eragon tentou avisá-lo, mas sua língua e seus braços ainda não podiam se mexer.
— Eragon! — gritou Brom de novo. Os estranhos deram uma última olhada para Eragon e desapareceram entre as casas.
Eragon caiu no chão, tremendo. Havia gotas de suor em sua testa, e as palmas das mãos também estavam molhadas. O velho estendeu a mão para Eragon e puxou-o para cima com um braço forte.
— Você parece doente. Está tudo bem?
Eragon engoliu em seco e concordou com a cabeça sem falar nada. Seus olhos piscaram, olhando em volta, procurando algo incomum.
— Fiquei tonto de repente... Mas já passou. Foi muito estranho. Não sei por que isso aconteceu.
— Você vai se recuperar — vaticinou Brom. — Mas acho que seria melhor se você fosse para casa.
Isso. Tenho de ir para casa! Preciso chegar lá antes deles.
— Acho que o senhor tem razão. Talvez, eu esteja ficando doente.
— Então, a sua casa é o melhor lugar para você ficar agora. É uma longa caminhada, mas tenho certeza de que você estará melhor quando chegar. Deixe-me acompanhá-lo até a estrada. — Eragon não protestou quando Brom pegou seu braço e levou-o para longe em um passo apressado.
O cajado de Brom afundava na neve conforme passavam pelas casas.
— Por que o senhor estava me procurando?
Brom deu de ombros.
— Por pura curiosidade. Soube que você estava na cidade e achei que poderia ter lembrado o nome daquele mercador.
Mercador? Do que ele está falando? Eragon olhou-o de modo inexpressivo. A perturbação dele chamou a atenção dos olhos investigativos de Brom.
— Não — disse ele e depois tentou se redimir. — Temo que ainda não lembre.
Brom suspirou de forma rude, como se algo tivesse sido confirmado, e esfregou seu nariz curvado.
— Bem, então... Se você lembrar, vá me contar. Estou muito interessado nesse mercador que diz saber tanto sobre dragões. — Eragon concordou com a cabeça, com um ar distraído.
Caminharam em silêncio até a estrada, e Brom disse:
— Vá depressa para casa. Não acho uma boa ideia demorar-se no caminho. — Ele esticou uma das mãos retorcidas.
Eragon apertou-a, mas quando ele ia soltando-a, algo na mão de Brom prendeu na luva dele, puxando-a. A luva caiu no chão. O velho pegou-a.
— Fui desajeitado — desculpou-se e entregou-a ao rapaz. Quando Eragon pegou a luva, os fortes dedos de Brom agarraram seu pulso e viraram-no rapidamente. A palma da mão do rapaz ficou voltada para cima por alguns instantes, revelando a marca prateada. Os olhos de Brom brilharam, mas ele permitiu que Eragon puxasse a mão para trás e que a enfiasse na luva.
— Até logo — disse Eragon forçadamente, perturbado, e saiu depressa pela estrada. Atrás dele, ouviu Brom assoviando uma música alegre.

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