8 de maio de 2017

Capítulo 8

Pombinhos brigando
Problemas no Paraíso
Melhor lavar a louça

A ORDEM DE FICARMOS quietinhos me pareceu clara o bastante.
Mas Leo e Calipso decidiram que o mínimo que podíamos fazer era lavar a louça do almoço. (Veja meu comentário anterior referente à idiotice da produtividade.) Eu ensaboei. Calipso enxaguou. Leo secou, o que não foi nenhum problema para ele, porque ele só precisava fazer as mãos esquentarem um pouco.
— Então — disse Calipso —, que trono é esse que Emmie mencionou?
Fiz cara feia para minha pilha ensaboada de fôrmas de pão.
— O Trono da Memória. É uma cadeira entalhada pela própria deusa Mnemosine.
Por cima de uma travessa de salada fumegante, Leo olhou para mim com curiosidade.
— Você se esqueceu do Trono da Memória? Isso não é um pecado mortal, ou algo do tipo?
— O único pecado mortal seria deixar de incinerar você assim que eu voltar a ser deus.
— Você pode tentar — disse Leo. — Mas então como você faria para aprender as escalas secretas do Valdezinator?
Espirrei água no meu rosto sem querer.
— Que escalas secretas?
— Vocês dois, parem — ordenou Calipso. — Apolo, por que esse Trono da Memória é importante?
Sequei a água do rosto. Falar sobre o Trono da Memória me trouxe algumas lembranças desagradáveis.
— Antes de um requerente entrar na Caverna de Trofônio — expliquei —, a pessoa tinha que beber de duas fontes mágicas: Esquecimento e Memória.
Leo pegou outro prato. Vapor subiu da porcelana.
— As duas fontes não cancelariam uma à outra?
Balancei a cabeça, negando.
— Se aquela experiência não matasse você, ela prepararia sua mente para o oráculo. Você então desceria até a caverna e vivenciaria... horrores indescritíveis.
— Como o quê? — perguntou Calipso
— Eu acabei de falar que eram indescritíveis. Só sei que Trofônio encheria sua mente com trechos de versos horripilantes que, se organizados da maneira correta, se tornavam uma profecia. Quando você saísse da caverna, supondo que sobrevivesse e não enlouquecesse, os sacerdotes levavam você para se sentar no Trono da Memória. Os versos sairiam jorrando da sua boca. Um sacerdote os anotava e voilà! Sua profecia. Com sorte, sua mente voltaria ao normal.
Leo assobiou.
— Que oráculo bizarro. Sou mais as árvores que cantavam.
Tentei disfarçar um tremor. Leo não foi comigo para o Bosque de Dodona. Não sabia como aquela confusão de vozes balbuciantes era terrível. Mas ele tinha razão. Havia um motivo para poucas pessoas se lembrarem da Caverna de Trofônio. Não era um lugar que recebia críticas lá muito entusiasmadas nos artigos da edição anual de Melhores oráculos, melhores destinos.
Calipso pegou uma fôrma de pão e começou a enxaguá-la. Ela parecia saber o que estava fazendo, embora suas mãos fossem tão bonitas que eu não conseguia imaginar que ela lavasse os próprios pratos com muita frequência. Precisava descobrir que hidratante ela usava.
— E se o requerente não conseguisse usar o trono? — perguntou ela.
Leo riu.
— Usar o trono.
Calipso o repreendeu com o olhar.
— Desculpe.
Leo tentou ficar sério, o que para ele era sempre uma batalha perdida.
— Se o requerente não conseguisse usar o trono, não poderia extrair os versos da profecia da mente dele — falei. — Ele seria obrigado a carregar os horrores da caverna... para sempre.
Calipso enxaguou a fôrma.
— Georgina... pobre criança. O que você acha que aconteceu com ela?
Eu não queria pensar nisso. As possibilidades me deixavam angustiado.
— Ela deve ter conseguido chegar à caverna. Sobreviveu ao oráculo. Voltou para cá, mas... não estava cem por cento. — Eu relembrei os bonecos de palito de cara feia e com facas na mão na parede do quarto. — Meu palpite é que o imperador se apoderou do Trono da Memória. Sem isso, Georgina jamais conseguiria se recuperar totalmente. Talvez ela tenha partido de novo em busca dele... e tenha sido capturada.
Leo murmurou um xingamento em espanhol.
— Eu fico pensando no meu irmãozinho Harley, no acampamento. Se alguém tentasse fazer mal a ele... — Ele balançou a cabeça. — Quem é esse imperador, e quando vamos poder quebrar a cara dele?
Lavei o restante da louça. Pelo menos essa missão épica eu completei com sucesso. Fiquei olhando para as bolhas de sabão estourando nas minhas mãos.
— Tenho um bom palpite sobre a identidade do imperador — admiti. — Josephine começou a dizer o nome dele. Mas Emmie está certa, é melhor não falar isso em voz alta. O Novo Hércules... — Engoli em seco. No meu estômago, salada e pão pareciam estar fazendo uma luta livre na lama. — Ele não era uma pessoa legal.
Na verdade, se eu estivesse pensando no imperador certo, essa missão podia ser pessoalmente constrangedora. Eu torcia para estar errado. Talvez pudesse ficar na Estação Intermediária e comandar as operações dali enquanto Calipso e Leo lutavam de verdade. Parecia justo, já que eu tive que ensaboar a louça.
Leo guardou os pratos. Seu olhar foi de um lado a outro, como se resolvendo equações invisíveis.
— Esse projeto no qual Josephine está trabalhando... — comentou. — Ela está construindo uma espécie de rastreador. Eu não perguntei, mas... ela deve estar tentando encontrar Georgina.
— Claro. — A voz de Calipso ficou ríspida. — Você consegue imaginar como é perder uma filha?
As orelhas de Leo ficaram vermelhas.
— É. Mas eu estava pensando, se conseguirmos voltar até Festus, posso fazer uns cálculos, talvez reprogramar a esfera de Arquimedes dele...
Calipso jogou a toalha. Literalmente. O pano de prato caiu na pia com um barulho úmido.
— Leo, você não pode reduzir tudo a um programa.
Ele piscou.
— Eu não estou fazendo isso. Só...
— Você está tentando consertar — disse Calipso. — Como se todos os problemas fossem uma máquina. Jo e Emmie estão sofrendo de verdade. Emmie me contou que elas estão pensando em abandonar a Estação Intermediária e se entregar para o imperador, se isso for salvar a filha delas. Elas não precisam de engenhocas, nem de piadas, nem de consertos. Tente ouvir.
Leo estendeu as mãos. Pela primeira vez, ele parecia não saber o que fazer com elas.
— Olha, gata...
— Não me chame de gata — cortou ela. — Não...
— APOLO?
A voz de Josephine explodiu no saguão principal. Ela não pareceu exatamente em pânico, mas definitivamente tensa, como a atmosfera na cozinha.
Eu me afastei do casal feliz. A explosão de Calipso me pegou de surpresa, mas, quando pensei no assunto, relembrei várias outras discussões entre ela e Leo enquanto viajávamos para o Oeste. Só não dei muita bola para elas porque... bom, as brigas não eram comigo. Além do mais, em comparação às brigas de amor entre os deuses, as de Leo e Calipso não eram nada.
Eu apontei para um lugar aleatório.
— Acho que vou, hã...
Saí da cozinha.
No meio do saguão principal, Emmie e Josephine estavam paradas com as armas junto ao corpo. Não consegui ler muito bem suas expressões: estavam tensas, ansiosas, da mesma forma que o copeiro de Zeus, Ganimedes, ficava quando dava ao patrão um vinho novo para experimentar.
— Apolo. — Emmie apontou para um ponto acima da minha cabeça, onde havia ninhos de grifos alinhados na beirada do teto. — Você tem visita.
Para ver quem era a visita, tive que dar um passo à frente, até o tapete, e me virar. Pensando bem, eu não devia ter feito aquilo. Assim que coloquei o pé no tapete, pensei: Espere, esse tapete estava aqui antes?
Isso foi seguido do pensamento: Por que esse tapete parece uma rede?
Seguido de: É uma rede.
Seguido de: DROGA!
A rede me envolveu e me jogou no ar. Recuperei o poder de voar. Por um microssegundo, imaginei que estava sendo chamado de volta ao Olimpo, ascendendo em glória para me sentar ao lado direito do meu pai. (Bom, três tronos à direita do trono de Zeus, pelo menos.)
Mas a gravidade agiu. Quiquei como um ioiô. Em um momento eu estava na altura dos olhos de Leo e Calipso, que me observavam boquiabertos da porta da cozinha. No instante seguinte, estava na altura dos ninhos de grifos, encarando uma deusa que conhecia muito bem.
Você deve estar pensando: Era Ártemis. A armadilha de rede era só uma brincadeira entre irmãos. Nenhuma irmã amorosa deixaria o irmão sofrer tanto por tanto tempo. Ela finalmente tinha ido salvar nosso herói, Apolo!
Não. Não era Ártemis.
A jovem estava sentada no parapeito interno, balançando as pernas alegremente. Reconheci as sandálias amarradas de maneira elaborada, o vestido feito de camadas de rede formando uma camuflagem em tons de verde-folha. O cabelo castanho-avermelhado trançado formava um rabo de cavalo tão comprido que se enrolava no pescoço como um lenço ou a corda de uma forca. Os olhos escuros intensos me lembraram uma pantera observando a presa das sombras da vegetação rasteira, uma pantera com um senso de humor perverso.
Sim, era uma deusa. Mas não a que eu esperava.
— Você — rosnei.
Era difícil falar de forma ameaçadora enquanto eu quicava em uma rede.
— Oi, Apolo. — Britomártis, a deusa das redes, sorriu com timidez. — Eu soube que você é humano agora. Isso vai ser divertido.

11 comentários:

  1. Quando o requerente não consegue usar o trono, geralmente fica irritado. Mas é só tomar activia ou lactopurga que resolve.😂😂😂

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  2. quando vc pensa q conhece todos os deuses greco/romano, aparece mais outros

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  3. Acabei pensando em...ce sabe.

    -MrGoat

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  4. Carlos Daniel Souza10 de maio de 2017 11:07

    Britomártis
    Ela estava em Percy Jackson e os Deuses Gregos! Ajudou Ártemis à pegar as corças pra puxar a carruagem.

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  5. Chegamos a conclusão que o Oráculo mais legal e seguro é a Rachel. Mas gente, de onde sai tanto deus? Onde eu me inscrevo pra ser a deusa das maratonas de séries e livros?!

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    1. kkkkkkkk quero me inscrever pra ser a deusa do netflix

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    2. É por isso que eu amo esse Blog...
      Só comentário de qualidade 💜💜💜

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  6. Não esperava que fosse essa deusa kkkk 1001 nomes foram surgindo na minha cabeça enquanto eu lia a descrição dela e no final, era nenhuma das que eu havia pensado 😂

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  7. "— Você pode tentar — disse Leo. — Mas então como você faria para aprender as escalas secretas do Valdezinator?
    Espirrei água no meu rosto sem querer.
    — Que escalas secretas?" Como não ser morto by Leo Valdez!

    Uau, eu acabei de perceber que eu sou quase igual ao Leo. Para ele sempre tem algo que vai resolver coisas que não podem ser resolvidas, e sempre faz piadas em momentos sérios. O que me define, eu odeio quando estou em um lugar, todos estão sério, pode ter acontecido algo, mas eu tenho que fazer algo para alegrar!

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  8. Mas gente tem até deusa das redes kkkk

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Boa leitura :)