27 de maio de 2017

Capítulo 8 - Lealdade

Eragon bocejou enquanto as pessoas se ajeitavam dentro do anfiteatro subterrâneo. A arena espaçosa ecoava o balbuciar de vozes em discussão acerca do funeral encerrado há pouco. Eragon sentou-se na fileira mais baixa, no mesmo nível do pódio. Com ele estavam Orik, Arya, Hrothgar, Nasuada e o Conselho de Anciãos. Saphira situou-se na escada que passava no meio da arquibancada. Inclinando-se para a frente, Orik disse:
— Desde Korgan, cada um dos nossos reis foi escolhido aqui. Seria adequado que os Varden fizessem o mesmo.
Ainda há de ser visto, pensou Eragon, se esta transferência de poder continuará pacífica. Ele esfregou um olho, enxugando lágrimas recentes, o funeral havia lhe deixado abalado.
Cobrindo os resquícios de sua dor, a ansiedade agora retorcia suas entranhas. Ele estava preocupado com o seu papel nos eventos que estavam por vir. Mesmo se tudo corresse bem, ele e Saphira estavam prestes a fazer inimigos em potencial. Sua mão caiu sobre Zar’roc e apertou o copo da espada.
Alguns minutos depois o anfiteatro ficou cheio. Em seguida, Jörmundur subiu ao pódio.
— Povo dos Varden, estivemos aqui pela última vez quinze anos atrás, na ocasião da morte de Deynor. Seu sucessor, Ajihad, fez mais oposição ao Império e a Galbatorix do que qualquer antecessor. Venceu incontáveis batalhas contra forças muito superiores. Ele quase matou Durza, chegando a arranhar a espada do Espectro. E mais do que tudo isso, ele acolheu o cavaleiro Eragon e Saphira em Tronjheim. No entanto, um novo líder deve ser escolhido, aquele que trará ainda mais glórias.
Alguém mais no alto gritou:
— O Matador de Espectros!
Eragon tentou não reagir — ficou satisfeito ao ver que Jörmundur nem sequer piscou. Ele prosseguiu:
— Talvez nos anos que estão por vir, mas agora ele tem outros deveres e responsabilidades. Não, o Conselho de Anciãos pensou longamente sobre isso: precisamos de alguém que entenda as nossas necessidades e desejos, alguém que tenha vivido e sofrido ao nosso lado. Alguém que se recuse a fugir, mesmo quando a batalha for iminente.
Naquele momento, Eragon sentiu que a compreensão se precipitou inteiramente sobre os ouvintes. O nome veio como um sussurro de milhares de gargantas e foi proferido pelo próprio Jörmundur:
— Nasuada. — Com uma mesura, Jörmundur deu um passo para o lado.
A próxima a falar foi Arya. Ela examinou a plateia que esperava e depois disse:
— Os elfos reverenciam Ajihad hoje à noite... E, em nome da rainha Islanzadí, reconheço a ascensão de Nasuada e lhe ofereço o mesmo apoio e amizade que estendemos ao seu pai. Que as estrelas a guiem. Hrothgar subiu no pódio e afirmou asperamente:
— Eu também apóio Nasuada, assim como os clãs. — Ele chegou para o lado.
Depois foi a vez de Eragon. Perante a multidão, com todos os olhares voltados para si e Saphira, ele disse:
— Nós também apoiamos Nasuada. — Saphira rosnou demonstrando estar de acordo.
Compromissos firmados, os membros do Conselho de Anciãos ficaram lado a lado, de uma ponta a outra do pódio, com Jörmundur mais à frente. Portando-se altivamente, Nasuada se aproximou e se ajoelhou diante dele, seu vestido expandiu-se em largas ondas negras. Erguendo sua voz, Jörmundur afirmou:
— Pelo direito de herança e sucessão, escolhemos Nasuada. Pelo mérito dos feitos de seu pai e as bênçãos de seus pares, escolhemos Nasuada. E agora perguntamos a vocês: Será que escolhemos bem?
A vozearia foi esmagadora.
— Sim!
Jörmundur acenou com a cabeça.
— Então, pelo poder concedido a este Conselho, transmitimos os privilégios e as responsabilidades de Ajihad para a sua única descendente, Nasuada. — Ele colocou suavemente um círculo de prata na testa de Nasuada. Pegou a mão da moça e a fez levantar-se. Depois pronunciou: — Apresento a nossa nova líder!
Durante dez minutos, os Varden e os anões deram vivas, ressoando sua aprovação até o salão reverberar com o clamor. Assim que os apupos começaram a diminuir de intensidade, Sabrae foi até Eragon, sussurrando:
— Agora é hora de você cumprir a sua promessa.
Naquele momento, todo o barulho pareceu ter cessado para Eragon. Seu nervosismo desapareceu também, engolido no curso daquele instante. Depois de respirarem fundo para que ficassem insensíveis a tudo, ele e Saphira começaram a se aproximar de Jörmundur e Nasuada, cada passo uma eternidade. Enquanto andavam, ele olhou para Sabrae, Elessari, Umérth e Falberd — notando seus meio-sorrisos, sua presunção e, da parte de Sabrae, o mais completo desdém. Atrás dos membros do Conselho estava Arya. Ela acenou com a cabeça em sinal de apoio.
Estamos prestes a mudar a história, disse Saphira.
Estamos nos jogando de um penhasco sem saber qual é a profundidade da água lá embaixo.
Ah, mas que voo glorioso!
Com uma breve olhada para o rosto sereno de Nasuada, Eragon se curvou e ajoelhou. Tirando Zar’roc de sua bainha, colocou a espada nas palmas das mãos e depois a ergueu, como se a estivesse oferecendo para Jörmundur. Por um instante, a espada pairou entre Jörmundur e Nasuada, oscilando entre dois destinos diferentes. Eragon sentiu sua respiração ficar presa — uma simples escolha para estabilizar uma vida. E mais do que uma vida: um dragão, um rei, um Império!
Depois sua respiração acelerou, enchendo seus pulmões com regularidade novamente, e ele se virou para encarar Nasuada.
— Com o meu mais profundo respeito... e consideração pelas dificuldades que a esperam... eu, Eragon, primeiro Cavaleiro dos Varden, Matador de Espectros e Argetlam, lhe ofereço a minha espada e a minha lealdade, Nasuada.
Os Varden e os anões ficaram olhando, emudecidos. Naquele mesmo instante, o Conselho dos Anciãos passou da satisfação maligna e triunfante à impotência enfurecida. Seus olhares fixos arderam com a força e o veneno daqueles que foram traídos. Até mesmo Elessari deixou a afronta irromper de sua conduta amável. Apenas Jörmundur — depois de um breve choque por causa da surpresa — pareceu aceitar o anúncio com serenidade.
Nasuada sorriu e segurou Zar’roc, colocando a ponta da espada sobre a testa de Eragon, assim como antes.
— Fico honrada por você ter escolhido me servir, Cavaleiro Eragon. Eu aceito, assim como você aceita todas as responsabilidades que acompanham o posto. Erga-se como meu súdito e pegue a sua espada.
Eragon o fez e depois deu um passo atrás junto com Saphira. Com gritos de aprovação, a multidão se levantou, e os anões batiam ritmicamente com suas botas enquanto os guerreiros humanos golpeavam os escudos com as espadas.
Ao se virar para o pódio, Nasuada olhou para todas as pessoas que estavam no anfiteatro. Ela sorriu para eles, seu rosto refletia puro júbilo.
— Povo dos Varden!
Silêncio.
— Como meu pai fez antes de mim, dou minha vida a vocês e a nossa causa. Jamais desistirei de lutar até que os Urgals sejam derrotados, Galbatorix esteja morto e Alagaësia seja livre mais uma vez!
Mais gritos e aplausos.
— Portanto, digo a vocês que agora é hora de se preparar. Aqui em Farthen Dûr, depois de escaramuças intermináveis, vencemos nossa maior batalha. É nossa vez de atacar. Galbatorix está fraco depois de perder tantas forças, e jamais haverá uma oportunidade como essa novamente. Logo, repito, agora é chegada a hora de nos prepararmos para que novamente possamos nos proclamar vitoriosos!
Depois de mais alguns discursos de várias pessoas importantes — incluindo um ainda furioso Falberd — o anfiteatro começou a esvaziar. No que Eragon se levantou para partir, Orik agarrou o seu braço, detendo-o. O anão estava com os olhos arregalados.
— Eragon, você havia planejado tudo isso com antecedência?
Por um breve instante, Eragon pensou se seria inteligente de sua parte lhe contar, mas acabou acenando positivamente.
— Sim.
Orik soltou a respiração, balançando a cabeça.
— Foi um gesto de muita coragem da sua parte, se foi. Para começo de conversa, você colocou Nasuada numa posição muito forte. Foi perigoso, contudo, a se julgar pela reação do Conselho de Anciãos. Arya aprovou tudo isso?
— Ela concordou que era necessário.
O anão o estudou atenciosamente.
— Estou certo de que era. Você simplesmente alterou a balança do poder, Eragon. Por causa disso, ninguém mais irá subestimá-lo novamente... Cuidado com as pedras podres. Hoje você ganhou alguns inimigos poderosos. — Ele bateu nas costas de Eragon e seguiu em frente.
Saphira ficou vendo-o partir e depois disse: Devíamos nos preparar para deixar Farthen Dûr. O Conselho está sedento por vingança. Quanto mais cedo estivermos fora de seu alcance, melhor.

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