22 de maio de 2017

Capítulo 8 - A futura Miller

O sol já havia se posto quando o jantar foi servido. Um vento forte uivava lá fora, estremecendo a casa. Eragon olhava para Roran atentamente, esperando o inevitável. Finalmente:
 Eu recebi uma oferta de emprego em um moinho em Therinsford... Que pretendo aceitar.
Garrow acabou de mastigar o conteúdo de sua boca cheia com uma lentidão proposital e pôs o garfo na mesa. Ele se recostou na cadeira, cruzou os dedos atrás da cabeça e pronunciou uma única pergunta seca:
 Por quê?
Roran explicava enquanto Eragon pegava a sua comida distraidamente.
 Entendo.  Foi o único comentário de Garrow. Ele ficou em silêncio e olhou para o teto. Ninguém se moveu enquanto esperavam a resposta.  Bem, quando você vai partir?
 O quê?  perguntou Roran.
Garrow inclinou-se para a frente com um brilho nos olhos.
 Você pensou que eu o impediria? Eu já esperava que você casasse logo. Será bom ver esta família crescendo novamente. Katrina será afortunada por ter você.  Uma expressão de grande surpresa tomou conta do rosto de Roran. Depois, ele deu um grande sorriso aliviado.
 Então, quando você vai partir?  perguntou Garrow.
Roran recuperou a voz.
 Quando Dempton voltar para pegar as peças para o moinho.
Garrow concordou com a cabeça.
 E isso será em...
 Duas semanas.
 Ótimo. Assim teremos tempo para nos preparar. Será diferente ter a casa só para nós. Mas se tudo der certo, não será assim por muito tempo.  Ele olhou por cima da mesa e perguntou:  Eragon, você sabia disso?
Eragon deu de ombros pesaroso.
— Até hoje, não... É uma loucura.
Garrow passou a mão em seu rosto.
— Esse é o curso natural da vida. — Ele se levantou da cadeira. — Tudo vai dar certo, o tempo acertará tudo. Mas, por enquanto, vamos lavar a louça. — Eragon e Roran ajudaram-no em silêncio.
Os dias seguintes foram difíceis. O humor de Eragon não foi dos melhores. Exceto pelas respostas curtas para perguntas diretas, ele não falava com ninguém. Havia pequenos lembretes da partida de Roran por toda parte. Garrow fazia uma mala para ele, havia coisas faltando nas paredes e um vazio estranho que tomava conta da casa. Fazia quase uma semana que ele havia percebido que a distância entre ele e Roran havia aumentado. Quando eles se falavam, as palavras não saíam facilmente. Sentiam-se pouco à vontade.
Saphira era um bálsamo para a frustração de Eragon. Ele podia conversar abertamente com ela.
Suas emoções estavam completamente abertas para a mente dela, e ela o entendia melhor do que ninguém. Durante as semanas antes da partida de Roran, ela passou por outro ímpeto de crescimento. Saphira ganhou trinta e um centímetros nos ombros, deixando-a mais alta do que Eragon. Ele descobriu que a pequena depressão entre o pescoço e os ombros dela era um lugar perfeito para se sentar. Ele, frequentemente, sentava ali à tarde, acariciando o pescoço dela enquanto explicava o significado de várias palavras. Logo, ela entendia tudo o que ele dizia e, com frequência, fazia comentários.
Para Eragon, essa parte da vida era muito boa. Saphira era tão real e tão complexa quanto qualquer pessoa. A personalidade dela era eclética e, às vezes, completamente diferente, entretanto os dois se entendiam em um nível bem profundo. As ações e os pensamentos dela constantemente revelavam novos aspectos de sua índole. Uma vez, pegou uma águia e, em vez de devorá-la, a soltou, dizendo: Nenhuma caçadora dos céus deve acabar como uma presa. É melhor morrer voando do que presa no chão.
Os planos de Eragon de deixar sua família ver Saphira foram dissipados pela decisão de Roran e pelos conselhos da própria Saphira para ter cautela. Ela estava relutante quanto a ser vista, e ele, em parte por egoísmo, concordou.
No momento em que a existência dela fosse divulgada, sabia que gritos, acusações e medo seriam direcionados a ele... Então, Eragon deixou isso para outra hora. Decidiu que esperaria um sinal que indicasse o momento certo.
Na noite anterior à partida de Roran, Eragon foi falar com ele. Aproximou-se lentamente pelo corredor até a porta aberta do quarto de Roran. Uma lamparina de óleo estava em cima da mesa-de-cabeceira, pintando as paredes com uma luz quente e oscilante. A cabeceira da cama projetava compridas sombras nas prateleiras vazias, chegando até o teto.
Roran, de olhos ocultos pelas sombras e com os músculos da nuca tensos, enrolava cobertores em volta de suas roupas e de seus pertences. Ele fez urna pausa e, depois, pegou uma coisa no travesseiro e ficou jogando-a para cima e para baixo com a mão. Era uma pedra polida que Eragon lhe dera há vários anos. Roran começou a colocá-la na mala, mas depois parou e colocou-a na prateleira. Um nó se formou na garganta de Eragon e ele saiu.

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Boa leitura :)