27 de maio de 2017

Capítulo 71 - Reunião

Eragon e Saphira caminhavam no meio dos cadáveres espalhados pela Campina Ardente, moviam-se lentamente por conta de seus ferimentos e da exaustão. Encontraram outros sobreviventes cambaleando no meio do campo de batalha chamuscado, também havia homens de olhos profundos que fitavam a tudo sem enxergar de verdade, focados em algum lugar ao longe.
Agora que sua fúria havia diminuído, Eragon sentia apenas tristeza. A luta lhe pareceu inútil. Que tragédia o fato de tantas pessoas terem morrido para se opor a um único louco. Ele parou para desviar de um emaranhado de flechas plantadas na lama e notou o corte no rabo de Saphira, bem onde Thorn a havia mordido, assim como alguns outros ferimentos. Aqui, dê-me sua força, irei curá-la.
Cuide antes daqueles que estão em perigo mortal.
Você tem certeza?
Totalmente, pequenino.
Condescendente, ele se agachou e emendou o pescoço cortado de um soldado antes de se dirigir para um dos Varden. Ele não fazia distinção entre amigo ou inimigo, tratou de todos até o limite de suas capacidades.
Eragon estava tão preocupado com seus pensamentos que prestou pouca atenção ao trabalho. Gostaria de poder repudiar a afirmação de Murtagh, mas tudo que ele lhe disse sobre sua mãe — a mãe dos dois — coincidiu com as poucas coisas que Eragon sabia sobre ela: Selena havia deixado Carvahall há vinte e tantos anos, voltou uma vez para dar à luz a Eragon, e nunca mais foi vista. Lembrou de quando ele e Murtagh chegaram em Farthen Dúr pela primeira vez. Murtagh havia discutido sobre como a sua mãe havia desaparecido do castelo de Morzan enquanto este caçava Brom, Jeod e o ovo de Saphira. Depois que Morzan atirou Zar’roc em Murtagh e quase o matou, minha mãe deve ter escondido a sua gravidez e depois voltou para Carvahall afim de me proteger de Morzan e Galbatorix.
Eragon sentia-se encorajado por saber que Selena havia se importado tanto com ele. Também lhe afligia saber que ela estava morta e que jamais iriam se encontrar, pois ele nutria a esperança, por menor que fosse, de que seus pais ainda estivessem vivos. Ele esqueceu o desejo de conhecer seu pai, mas se ressentia amargamente de ele ter sido afastado de sua mãe.
Desde que crescera o suficiente para entender que era adotado, Eragon queria saber quem era o seu pai e por que sua mãe o deixara com o tio Garrow, e sua esposa, Marian. As respostas vieram, jogadas de uma fonte tão inesperada e de uma forma tão pouco propícia, que ultrapassavam o que ele podia dar conta no momento. Levaria meses, se não anos, para que ele conseguisse aceitar a revelação.
Eragon sempre supôs que ficaria feliz ao descobrir a identidade de seu pai. Agora que sabia, tal conhecimento o deixara revoltado. Quando era mais novo ele comumente se distraía imaginando que seu pai era alguém formidável e importante, embora Eragon soubesse que o contrário era bem mais provável. Contudo, nunca lhe ocorrera, mesmo nos seus devaneios mais extravagantes, que ele poderia ser filho de um Cavaleiro, muito menos um dos Renegados.
Isso transformou sua quimera num pesadelo.
Fui gerado por um monstro... Meu pai foi aquele que traiu os Cavaleiros a favor de Galbatorix. Aquilo deixou Eragon se sentindo maculado.
Mas não... Enquanto curava a espinha partida de um sujeito, lhe ocorreu uma nova maneira de enxergar a situação, ela restaurava a sua autoconfiança: Morzan pode ser meu genitor, mas não é o meu pai. Garrow foi meu pai. Ele me criou. Ensinou-me como viver bem e honestamente, viver com integridade. Sou o que sou por causa dele. Até Brom e Oromis são mais meus pais do que Morzan. E Roran é meu irmão, não Murtagh.
Eragon acenou com a cabeça, determinado a cultivar esta nova certeza. Até então, ele se recusara a aceitar completamente Garrow como seu pai. E muito embora Garrow estivesse morto, aceitá-lo deixou Eragon aliviado, deu-lhe uma sensação de que estava fechando um ciclo, e ajudou a diminuir sua aflição por causa de Morzan.
Você ficou mais sábio, observou Saphira.
Sábio? Ele balançou a cabeça. Não, apenas aprendi a pensar. Isso, pelo menos, foi Oromis que me deu. Eragon limpou uma camada de lama do rosto de um menino caído, era um porta-estandarte, certificando-se de que estava morto. Quando se reergueu, o corpo de Eragon estremeceu e seus músculos se contraíram em protesto. Você percebe, não, que Brom devia saber disso. Por que mais ele optaria por se esconder em Carvahall, na espera de que você saísse do ovo?... Ele queria ficar de olho atento no filho de seu inimigo. Ele ficou perturbado ao pensar que Brom poderia tê-lo considerado uma ameaça. E ele tinha razão também. Veja o que acabou acontecendo comigo!
Saphira agitou o cabelo de seu parceiro com uma rajada de bafo quente. Só se lembre que, fossem quais fossem as razões de Brom, ele sempre tentou nos proteger do perigo. Ele morreu salvando você dos Ra’zac.
Eu sei... Você acha que ele não me falou sobre isso porque tinha medo que eu pudesse imitar Morzan, como aconteceu com Murtagh?
É claro que não.
Ele a encarou, curioso. Como você pode estar tão certa?
Ela levantou a cabeça acima do parceiro e recusou-se a encará-lo ou a responder. Pense do jeito que quiser, então.
Ajoelhado ao lado de um dos homens do rei Orrin, com uma flecha lhe atravessando as tripas, Eragon lhes segurou os braços para que o ferido parasse de tremer.
— Calma, agora.
— Água — disse o sujeito, suspirando. — Pelo amor de Deus, água. Minha garganta está seca como areia. Por favor, Matador de Espectros. — O suor molhava seu rosto.
Eragon sorriu, tentando confortá-lo.
— Posso lhe dar alguma bebida agora, mas seria melhor se você esperasse até eu curá-lo. Você pode esperar? Se o fizer, prometo que terá toda a água que quiser.
— Você promete, Matador de Espectros?
— Prometo.
O homem visivelmente lutava contra outra onda de agonia antes de dizer:
— Se eu puder.
Com a ajuda da magia, Eragon arrancou a flecha, depois ele e Saphira trabalharam para reparar as vísceras do homem, usando parte da sua própria energia para desencadear o feitiço. Isso levou alguns minutos. Depois disso, o homem examinou sua barriga, apertou a pele curada e depois olhou para Eragon, tinha lágrimas nos seus olhos.
— Eu... Matador de Espectros, você...
Eragon lhe passou o odre cheio d’água.
— Tome, fique com isso. Você precisa mais do que eu.
A cem metros dali, Eragon e Saphira atravessaram uma muralha acre de fumaça. Lá eles alcançaram Orik e dez outros anões — algumas mulheres — perfilados em torno do corpo de Hrothgar, que estava deitado sobre quatro escudos, resplandecente com sua malha dourada. Os anões arrancavam os cabelos, batiam em seus peitos e se voltavam em prantos para o céu. Eragon abaixou a cabeça e murmurou:
— Stydja unin mor’ranr, Hrothgar Könungr.
Depois de um tempo, Orik os percebeu e se levantou, tinha o rosto vermelho de tanto chorar e a barba já estava sem a trança de costume. Cambaleou em direção a Eragon e, antes de se aproximar, perguntou:
— Você matou o covarde que foi responsável por isso?
— Ele fugiu. — Eragon não conseguiria explicar que o Cavaleiro era Murtagh.
Orik deu um soco na mão.
— Barzûln!
— Mas eu juro para você, por todas as pedras da Alagaësia, que, como membro do Dûrgrimst Ingeitum, farei tudo que puder para vingar a morte de Hrothgar.
— Sim, você é o único, além dos elfos, forte o suficiente para fazer justiça contra esse assassino impuro. E quando encontrá-lo... triture seus ossos até virarem poeira, Eragon. Puxe seus dentes e encha suas veias de chumbo derretido, faça-o sofrer por cada minuto da vida de Hrothgar que ele roubou.
— Não foi uma boa morte? Hrothgar não queria morrer no campo de batalha, com Volund nas mãos?
— No campo de batalha, sim, encarando um inimigo honesto que ousasse se levantar e lutar como um homem. Não queria morrer derrubado pelos truques de um mágico... — Balançando a cabeça, Orik olhou para trás, em direção a Hrothgar, depois cruzou os braços e encostou o queixo na clavícula. Respirou algumas vezes de forma desigual. — Quando meus pais morreram de peste, Hrothgar me deu novamente uma vida. Levou-me para o seu palácio. Fez de mim seu herdeiro. Perdê-lo... — Orik beliscou a parte superior do nariz com o polegar e o indicador, cobrindo o rosto. — Perdê-lo é como perder o meu pai novamente.
A tristeza em sua voz era tão evidente, que Eragon se sentia partilhando da dor do anão.
— Eu entendo você — disse ele.
— Eu sei. Eragon... eu sei. — Depois de um instante, Orik enxugou os olhos e gesticulou para os dez anões. — Antes que qualquer coisa seja feita, temos que levar Hrothgar de volta para Farthen Dûr para que ele possa ser enterrado junto com seus predecessores. O Dûrgrimst Ingeitum tem que escolher um novo grimstborith, e então os treze chefes de clã, incluindo esses que você vê aqui, selecionarão entre si o seu novo rei. O que acontecerá em seguida eu não sei. Essa tragédia encoraja alguns clãs e incita outros contra a nossa causa... — Ele balançou a cabeça novamente.
Eragon colocou a mão no ombro de Orik.
— Não se preocupe com isso agora. É só você pedir que meu braço e a minha vontade estarão ao seu serviço... Se você quiser, venha à minha tenda que poderemos dividir um tonel de mulso e brindar pela memória de Hrothgar.
— Gostaria de fazer isso. Mas ainda não. Não até terminarmos de rogar aos deuses para que garantam a Hrothgar uma passagem segura para o pós-morte. — Orik deixou Eragon, voltou para a roda de anões e acrescentou sua voz ao cântico fúnebre.
Continuando sua rota na Campina Ardente, Saphira disse:
Hrothgar foi um grande rei.
Sim, e uma grande pessoa, suspirou Eragon. Devíamos encontrar Arya e Nasuada. Não consigo mais curar um simples arranhão no momento, e elas precisam saber sobre Murtagh.
Concordo.
Eles se dirigiram para o sul, iam em direção ao acampamento dos Varden, mas antes que andassem mais alguns metros, Eragon viu Roran se aproximando, vinha do rio Jiet. Uma tremedeira se espalhou pelo seu corpo. Roran parou na frente dos dois, plantou os pés bem afastados um do outro e olhou para Eragon, mexendo o maxilar para cima e para baixo, como se quisesse falar, mas fosse incapaz de fazer as palavras ultrapassarem os seus dentes.
Depois acertou um direto no queixo de Eragon.
Teria sido fácil para Eragon evitar o golpe, mas permitiu que o atingisse, desviando apenas um pouco para que Roran não quebrasse os dedos da mão.
Ainda doía.
Abalado, Eragon encarou seu primo.
— Acho que eu merecia isso.
— Com certeza. Temos de conversar.
— Agora?
— Isso não pode esperar. Os Ra’zac capturaram Katrina, e preciso da sua ajuda para resgatá-la. Eles a mantêm em seu poder desde que deixamos Carvahall.
Então é isso. Num instante, Eragon percebeu porque Roran parecia tão horrível e obcecado, e porque havia trazido todo o vilarejo para Surda. Brom tinha razão, Galbatorix mandou os Ra’zac de volta para o vale Palancar. Eragon franziu a testa, dividido entre a sua responsabilidade com Roran e seu dever com Nasuada.
— Há algo que eu preciso fazer antes e depois poderemos conversar. Tudo bem? Você pode me acompanhar, se quiser...
— Eu irei.
Enquanto atravessavam a terra destruída, Eragon não parava de olhar Roran com o canto do olho. Finalmente, ele disse em tom de voz baixo:
— Senti a sua falta.
Roran hesitou e depois respondeu com um breve aceno. Alguns passos depois, ele perguntou:
— Essa é Saphira, não é? Jeod me disse que esse era o seu nome.
— Sim.
Saphira encarou Roran com um dos seus olhos resplandecentes. Ele permitiu seu escrutínio sem recuar, o que era mais do que a maior parte das pessoas podia fazer. Sempre quis conhecer o companheiro de ninho de Eragon.
— Ela fala! — exclamou Roran quando Eragon repetiu suas palavras.
Desta vez Saphira se dirigiu a ele diretamente: O quê? Você achava que eu era muda como um lagarto das montanhas?
Roran piscou.
— Desculpe. Não sabia que dragões eram tão inteligentes. — Um sorriso rígido torceu seus lábios. — Primeiro Ra’zac e os mágicos, agora anões, Cavaleiros e dragões falantes. Parece que o mundo inteiro enlouqueceu.
— Parece que sim.
— Vi-o enfrentando aquele outro Cavaleiro. Você o feriu? Foi por isso que ele fugiu?
— Espere. Você vai saber.
Quando os dois alcançaram o pavilhão que Eragon estava procurando, ele levantou a aba e adentrou o recinto, foi seguido por Roran e Saphira, mas ela apenas empurrou a cabeça e o pescoço atrás deles. No meio da tenda, Nasuada estava sentada na beira da mesa, e deixava que uma criada retirasse sua armadura retorcida, enquanto mantinha uma discussão acalorada com Arya. O corte em sua coxa havia sido curado.
Nasuada parou no meio da frase assim que avistou a chegada de novos visitantes. Correndo em sua direção, ela jogou os braços em volta de Eragon e gritou:
— Onde você estava? Achávamos que estava morto, ou coisa pior.
— Não exatamente.
— A vela ainda queima — murmurou Arya.
Dando um passo atrás, Nasuada disse:
— Não pudemos ver o que aconteceu com você e Saphira depois que aterrissaram no platô. Quando o dragão vermelho partiu e você não reapareceu, Arya tentou contatá-lo, mas não sentiu nada, por isso supomos que... — Sua voz foi diminuindo de intensidade. — Estávamos conversando sobre qual seria a melhor maneira de transportar a Du Vrangr Gata e toda uma companhia de guerreiros pelo rio.
— Desculpe, não quis deixá-las preocupadas. Estava tão cansado depois da luta, que me esqueci de baixar minhas defesas. — Então Eragon fez Roran se aproximar. — Nasuada, gostaria de lhe apresentar meu primo. Roran. Ajihad deve lhe ter falado sobre ele antes. Roran, essa é lady Nasuada, líder dos Varden e minha soberana. E esta é Arya Svit-kona, a embaixadora dos elfos. — Roran fez uma reverência para cada uma das duas.
— É uma honra conhecer o primo de Eragon — disse Nasuada.
— De fato — acrescentou Arya.
Depois que terminaram de trocar cumprimentos, Eragon explicou que todo o vilarejo de Carvahall havia chegado no Asa de Dragão, e que Roran fora o responsável pela morte dos Gêmeos.
Nasuada ergueu uma sobrancelha negra.
— Os Varden estão em dívida para com você, Roran, por ter acabado com a violência daqueles dois. Quem sabe quanto mal os Gêmeos poderiam semear antes que Eragon ou Arya conseguissem derrubá-los? Você nos ajudou a vencer esta batalha. Não me esquecerei disso. Nossos suprimentos são limitados, mas garantirei para que todos aqueles que estão no seu barco sejam alimentados e vestidos, e que os seus doentes sejam tratados.
Roran se curvou ainda mais.
— Obrigado, lady Nasuada.
— Se eu não estivesse extremamente ocupada, insistiria em saber como e por que você e seu vilarejo escaparam dos homens de Galbatorix, viajaram até Surda e nos encontraram. Mesmo os simples acontecimentos de sua viagem a tornam uma história extraordinária. Ainda gostaria de conhecer os detalhes – especialmente por suspeitar que dizem respeito a Eragon – mas preciso tratar de outros assuntos mais urgentes no momento.
— Com certeza, lady Nasuada.
— Você pode ir, então.
— Por favor — disse Eragon —, deixe-o ficar. Ele deve estar aqui para o que está por vir.
Nasuada lhe dirigiu um olhar irônico.
— Muito bem. Se você quer. Mas chega de demoras. Pule logo para o que é importante e nos fale do Cavaleiro.
Eragon começou com uma rápida história sobre os três ovos de dragões restantes — dois deles já haviam sido chocados. Falou também de Morzan e Murtagh, para que Roran pudesse entender o significado das notícias. Então seguiu descrevendo como foi a luta dele e de Saphira contra Thorn e o Cavaleiro misterioso, deu uma atenção especial aos seus poderes extraordinários.
— Assim que ele girou a sua espada, percebi que havíamos duelado antes, por isso me joguei sobre o seu corpo e arranquei seu elmo. — Eragon fez uma pausa.
— Era Murtagh, não era? — perguntou Nasuada calmamente.
— Como...?
Ela suspirou.
— Se os Gêmeos sobreviveram, fazia todo o sentido que Murtagh tivesse sobrevivido também. Ele lhe revelou o que realmente ocorreu naquele dia em Farthen Dûr? — Então Eragon contou novamente como os Gêmeos traíram os Varden, recrutaram os Urgals e raptaram Murtagh. Uma lágrima rolou pelo rosto de Nasuada. — É uma pena que isso tenha se abatido sobre Murtagh, quando ele já havia passado por tanto sofrimento. Eu gostava da sua companhia em Tronjheim e acreditava que ele era nosso aliado, apesar de sua criação. Acho difícil pensar nele como nosso inimigo. — Virando-se para Roran, ela afirmou: — Parece que estou particularmente em débito com você por ter matado os traidores que assassinaram o meu pai.
Pais, mães, irmãos, primos, pensou Eragon. Tudo começa e acaba na família. Criando coragem, ele completou seu relato com o roubo de Zar’roc e, no fim, com seu terrível segredo.
— Não pode ser — sussurrou Nasuada.
Eragon viu choque e revolta atravessando o rosto de Roran antes que ele pudesse esconder suas reações. Isso, mais do que qualquer coisa, deixou Eragon magoado.
— Murtagh não estava mentindo? — perguntou Arya.
— Não vejo como. Quando o indaguei, ele me disse a mesma coisa na língua antiga.
Um silêncio longo e desconfortável encheu o pavilhão. Então Arya falou:
— Ninguém mais pode saber disso. Os Varden estão bastante desmotivados com a presença de um novo Cavaleiro. E ficarão ainda mais desconcertados quando descobrirem que é Murtagh, ao lado do qual lutaram e vieram a confiar em Farthen Dûr. Caso se espalhasse que Eragon Matador de Espectros é filho de Morzan, os homens ficariam desiludidos e poucas pessoas ousariam se juntar à nossa causa. Nem mesmo o rei Orrin deve saber disso.
Nasuada esfregou as têmporas.
— Temo que você esteja certa. Um novo Cavaleiro... — Ela balançou a cabeça. — Sabia que era possível, mas jamais imaginei que ocorresse, já que havia passado muito tempo sem que os ovos restantes de Galbatorix se rompessem.
— Tem até uma certa lógica — disse Eragon.
— Nossa tarefa é duplamente difícil agora. Conseguimos resistir hoje, mas o Império ainda está em maior número e agora temos de encarar não só um como dois Cavaleiros, ambos mais poderosos do que você, Eragon. Você acha que poderia derrotar Murtagh com a ajuda dos encantadores dos elfos?
— Talvez. Mas duvido que ele seja tolo o bastante para enfrentar a mim e a eles juntos.
Durante alguns minutos, discutiram o efeito que Murtagh poderia ter em sua campanha e pensaram em estratégias para minimizar ou eliminar o perigo. Finalmente Nasuada afirmou:
— Chega. Não podemos decidir isso enquanto estivermos sangrando e cansados e nossas mentes estiverem anuviadas devido à luta. Vão, descansem, e poderemos voltar a esse assunto amanhã.
Enquanto Eragon se virava para sair, Arya se aproximou e olhou fundo nos olhos.
— Não permita que isso o perturbe demasiadamente, Eragon-elda. Você não é seu pai, nem seu irmão. A vergonha deles não é sua.
— Sim — concordou Nasuada. — Nem pense que isso possa ter diminuído o conceito que temos de você. — Ela se aproximou mais e segurou seu rosto com ambas as mãos. — Eu o conheço, Eragon. Você tem um bom coração. O nome do seu pai não pode mudar isso.
Um calor brotou dentro de Eragon. Ele olhou para uma mulher e depois para a outra, em seguida colocou rapidamente sua mão sobre o peito, arrebatado pela amizade das duas.
— Obrigado.
Assim que saíram da tenda, Eragon colocou as mãos nos quadris e respirou fundo o ar enfumaçado. Entardecia e o laranja intenso do meio-dia havia diminuído e dava lugar a uma luz dourada e sombria, que cobriu o acampamento e o campo de batalha, conferia-lhe uma estranha beleza.
— Agora você sabe — disse ele.
Roran encolheu os ombros.
— O sangue sempre fala.
— Não diga isso — resmungou Eragon. — Jamais diga isso.
Roran o estudou por alguns segundos.
— Você tem razão, foi um pensamento repulsivo. Não tive essa intenção. — Ele coçou a barba e olhou de soslaio para o sol que se punha no horizonte. — Nasuada não era quem eu esperava.
Aquilo forçou Eragon a sorrir esgotado.
— Quem você esperava era o pai dela, Ajihad. Ainda assim, ela é uma líder tão boa quanto ele, se não melhor.
— E a cor de sua pele, é tintura?
— Não, é desse jeito mesmo que ela é.
Naquele instante, Eragon sentiu Jeod, Horst e um grupo de outros homens de Carvahall correndo em sua direção. Os aldeões diminuíram o passo assim que deram a volta numa tenda e avistaram Saphira.
— Horst! — exclamou Eragon. Dando um passo à frente, ele agarrou o ferreiro e lhe deu um abraço apertado. — É bom vê-lo novamente!
Horst olhou boquiaberto para Eragon, até que um sorriso encantado se espalhou pelo seu rosto.
— É bom demais vê-lo também, Eragon. Você ficou mais forte desde que partiu.
— Você quer dizer desde que fugi.
Encontrar os aldeões foi uma experiência estranha para Eragon. O sofrimento havia alterado tanto alguns dos homens que ele mal os reconheceu. E eles o tratavam de uma forma diferente agora, havia uma mistura de medo e reverência. Isso o lembrava de um sonho, onde tudo que outrora era familiar ficara estranho. Ele ficou desconcertado com o quanto se sentia deslocado entre aqueles com os quais crescera.
Quando Eragon foi falar com Jeod, ele hesitou.
— Você sabe de Brom?
— Ajihad me mandou uma mensagem, mas eu gostaria de saber o que aconteceu contado por você.
Eragon acenou com a cabeça solenemente.
— Assim que eu tiver chance, nos sentaremos juntos e conversaremos por um bom tempo.
Então Jeod foi até Saphira e se curvou em sua direção.
— Esperei a minha vida inteira para ver um dragão e agora vi dois no mesmo dia. Sou de fato um homem de sorte. No entanto, você é o dragão que eu queria encontrar.
Curvando seu pescoço, Saphira tocou a testa de Jeod. Ele estremeceu ao contato. Dê-lhe meus agradecimentos por ter ajudado a me resgatar de Galbatorix. Caso contrário, eu ainda estaria definhando no tesouro do rei. Ele era amigo de Brom, e por isso é nosso amigo.
Depois que Eragon repetiu suas palavras, Jeod disse surpreendendo a todos com o seu conhecimento da língua antiga:
— Atra esterní ono thelduin, Saphira Bjartskular.
— Onde você foi? — perguntou Horst para Roran. — Procurávamos você desde que perseguiu aqueles dois mágicos.
— Não se importe com isso agora. Volte ao navio e faça com que todos desembarquem, os Varden nos darão comida e abrigo. Vamos poder dormir em terra firme hoje à noite!
Os homens se encheram de alegria. Eragon observou atentamente enquanto Roran dava as ordens. Quando finalmente Jeod e os aldeões partiram, Eragon disse:
— Eles confiam em você. Até mesmo Horst o obedece sem questionar. Você fala por toda Carvahall agora?
— Sim.
A escuridão pesada avançava sobre a Campina Ardente na hora em que eles encontraram a pequena tenda com espaço para dois. Montada pelos Varden para Eragon. Como Saphira não conseguia enfiar sua cabeça através da abertura, ela se enrolou no chão ao seu lado e se preparou para a vigília.
Assim que eu recuperar a minha força, vou cuidar dos seus ferimentos, prometeu Eragon.
Eu sei. Não fique conversando até muito tarde.
Dentro da tenda, Eragon encontrou um lampião de óleo que acendeu com uma pederneira. Ele conseguia enxergar perfeitamente bem sem ela, mas Roran precisava da luz.
Os dois se sentaram de frente um para o outro: Eragon sobre a roupa de cama num dos lados da tenda, Roran num assento dobrável que ele achou num canto. Eragon não sabia como começar, por isso permaneceu em silêncio e ficou olhando para a chama do lampião que dançava.
Nenhum dos dois se moveu.
Depois de minutos incontáveis, Roran disse:
— Diga-me como o meu pai morreu.
— Nosso pai. — Eragon continuou calmo enquanto a expressão de Roran ia endurecendo. Num tom de voz suave, ele disse: — Tenho tanto direito de chamá-lo assim quanto você. Olhe dentro de si mesmo, você sabe que isso é verdade.
— Tudo bem. Nosso pai, como ele morreu?
Eragon havia recontado essa história em diversas ocasiões. Mas desta vez ele não escondeu nada. Em vez de ficar apenas listando os eventos, descreveu o que havia pensado e sentido desde que encontrara o ovo de Saphira, tentando fazer Roran entender o por que de ele ter feito o que fez. Nunca havia ficado tão ansioso antes.
— Errei por ter escondido Saphira do resto da família — concluiu Eragon —, mas temia que você pudesse insistir em matá-la, e não percebi o tamanho do perigo no qual ela nos colocou. Se eu tivesse... Depois que Garrow morreu, decidi partir para tentar encontrar os Ra’zac, assim como para evitar colocar Carvahall em mais perigo. — Uma risada sem graça lhe escapou. — não deu certo, mas se eu tivesse ficado, os soldados teriam chegado antes. E então, quem sabe? O próprio Galbatorix poderia ter até visitado o vale Palancar. Eu posso ser a razão de Garrow, nosso pai, ter morrido, mas essa nunca foi a minha intenção, nem você nem o povo de Carvahall precisavam sofrer por causa das minhas escolhas... — Ele gesticulou, sem ação. — Fiz o melhor que pude, Roran.
— E quanto ao resto — Brom ser um Cavaleiro, o resgate de Arya em Gil’ead, e a morte de um Espectro na cidade dos anões. Tudo isso aconteceu?
— Sim. — O mais rápido que pôde, Eragon resumiu o que havia ocorrido desde que ele e Saphira partiram com Brom, incluindo sua estadia em Ellesméra e sua própria transformação durante o Agaetí Blödhren.
Inclinando-se para frente, Roran apoiou seus cotovelos nos joelhos, fechou as mãos e olhou para o chão entre elas. Era impossível para Eragon ler suas emoções sem chegar fundo em sua consciência, mas ele recusava a fazer, sabendo que seria um erro terrível invadir a privacidade de Roran.
Roran ficou em silêncio por tanto tempo que Eragon começou a se questionar se ele iria responder. Então:
— Você cometeu erros, mas eles não são maiores do que os meus. Garrow morreu porque você quis manter Saphira em segredo. Muitos mais morreram porque eu me recusei a me entregar para o Império... Somos igualmente culpados. — Ele levantou os olhos e depois estendeu lentamente a sua mão direita. — Irmão?
— Irmão — disse Eragon.
Ele segurou o antebraço de Roran e os dois deram um abraço um tanto bruto, lutando um contra o outro como faziam em casa. Quando se separaram, Eragon teve que enxugar os olhos com a palma da mão.
— Galbatorix devia se entregar agora que estamos juntos novamente — brincou ele. — Quem pode fazer frente a nós dois? — Ele se abaixou sobre a roupa de cama. — Agora me diga, como os Ra’zac capturaram Katrina?
Toda a felicidade sumiu do rosto de Roran. Ele começou a falar num tom baixo e monótono, e Eragon ficou escutando, cada vez mais estupefato, enquanto ele tecia um épico de ataques, cercos e traições, contava como eles deixaram Carvahall, cruzaram a Espinha, destruíram as docas de Teirm e se safaram de um monstruoso redemoinho.
Quando ele finalmente terminou, Eragon disse:
— Você é um homem mais grandioso do que eu, não poderia ter feito metade dessas coisas. Lutar sim, mas não poderia convencer todos a me seguir.
— Não tive escolha. Quando eles pegaram Katrina... — A voz de Roran definhou. — Eu tinha que desistir e morrer ou tentar escapar da armadilha de Galbatorix, não importava qual fosse o custo. — Ele fixou seus olhos ardentes em Eragon. — Menti, queimei e assassinei para estar aqui. Não tenho mais que proteger toda a população de Carvahall: os Varden garantirão isso. Agora eu só tenho uma meta na vida, encontrar e resgatar Katrina, se é que ela já não está morta. Você vai me ajudar, Eragon?
Estendendo-se, Eragon pegou seus alforjes que estavam no canto da tenda — onde os Varden os haviam colocado — e tirou de dentro uma tigela de madeira e o frasco de prata contendo faelnirv encantado que Oromis havia lhe dado. Ele tomou um pequeno gole do licor para se revitalizar e arfou enquanto o líquido descia pela sua garganta, o que fez os seus nervos formigarem num fogo gelado. Depois ele colocou faelnirv na tigela, até que a bebida formasse uma poça rasa do tamanho de sua mão.
— Veja. — Reunindo a energia com a qual havia acabado de se abastecer, Eragon disse: — Draumr kópa.
O licor estremeceu e ficou escuro. Depois de alguns segundos, uma fina rajada de luz apareceu no canto da tigela, revelando Katrina. Ela estava caída contra uma parede invisível, com as mãos penduradas por algemas invisíveis e seu cabelo cor de cobre voejava como se houvesse um abano atrás das suas costas.
— Ela está viva! — Roran se curvou sobre a tigela, segurando-a como achasse que podia mergulhar no faelnirv e se juntar a Katrina. Sua esperança e determinação se fundiram com um olhar tão terno e afetuoso que Eragon soube que só a morte poderia impedir Roran de tentar libertá-la.
Incapaz de sustentar o encanto por mais tempo, Eragon deixou a imagem se desvanecer. Ele se inclinou sobre a parede da tenda para buscar apoio.
— Sim — disse ele num tom fatigado —, ela está viva. E é bem provável que esteja aprisionada em Helgrind, na toca dos Ra’zac. — Eragon segurou Roran pelos ombros. — A resposta para a sua pergunta, irmão, é sim. Viajarei para Dras-Leona com você. Eu o ajudarei a resgatar Katrina. E então, juntos, mataremos os Ra’zac e vingaremos o nosso pai.

Um comentário:

  1. Fica tão estranho quando Eragon diz: *Nosso pai*

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Boa leitura :)