27 de maio de 2017

Capítulo 70 - Herança

Murtagh sorriu. E depois disse, “Thrysta vindr”, e uma bola pesada de ar foi se fundindo entre os dois e atingiu Eragon no meio do peito, jogando-o seis metros para trás, em cima do platô.
Eragon ouviu Saphira rosnar enquanto caía de costas no chão. Sua visão piscou em tons vermelhos e brancos, depois ele se curvou e esperou que a dor cedesse. Qualquer alegria que poderia ter sentido com o reaparecimento de Murtagh foi esmagada pelas circunstancias macabras de seu encontro. Uma mistura instável de choque, confusão e raiva que fervia em seu interior.
Baixando sua espada, Murtagh apontou para Eragon com sua mão ainda envolta por aço, dobrando cada dedo, menos o indicador, formando um punho com uma ponta.
— Você jamais desistiria.
Um calafrio percorreu a espinha de Eragon, pois ele reconheceu a cena de sua premonição enquanto viajava de balsa pelo Az Ragni até Hedarth: Um homem estava caído na lama cheia de coágulos, tinha o elmo amassado e a cota de malha sangrenta — seu rosto escondido atrás de um braço jogado para cima. Uma mão com armadura entrou no campo de visão de Eragon e apontou na direção do homem caído com toda a autoridade do próprio destino. O passado e o futuro haviam se encontrado. Agora o destino de Eragon seria decidido.
Enquanto se levantava, ele tossiu e disse:
— Murtagh... como você pode estar vivo? Eu vi os Urgals arrastando-o para o subterrâneo. Tentei procurá-lo no cristal mas só vi escuridão.
Murtagh deu uma gargalhada melancólica.
— Você não viu nada, assim como eu também não vi nada nas vezes em que usei a cristalomancia para lhe encontrar durante os dias que passei em Urû’baen.
— Você morreu! — gritou Eragon, quase incoerente. — Você morreu sob Farthen Dûr. Arya encontrou as suas roupas cheias de sangue dentro dos túneis.
Uma sombra escureceu o rosto de Murtagh.
— Não, eu não morri. Foi coisa dos Gêmeos, Eragon. Eles tomaram o controle de um grupo de Urgals e armaram a emboscada para matar Ajihad e me capturar. Então eles me enfeitiçaram para que eu não pudesse escapar e sumiram comigo, levaram-me para Urû’baen.
Eragon balançou a cabeça, incapaz de compreender o que havia acontecido.
— Mas por que você concordou em servir a Galbatorix? Você me disse que o odiava. Você me disse...
— Concordei? — Murtagh riu novamente, e desta vez seu acesso continha uma ponta de loucura. — Eu não concordei. Primeiro Galbatorix me puniu por maldizer seus anos de proteção durante a minha criação em Urû’baen, por desafiar sua vontade e por fugir. Depois ele arrancou tudo que eu sabia sobre você, Saphira e os Varden.
— Você nos traiu! Eu estava de luto por sua causa e você nos traiu!
— Não tive escolha.
— Ajihad teve razão quando o prendeu. Ele devia tê-lo deixado apodrecer na cela, assim nada disso...
— Eu não tive escolha! — reagiu rispidamente Murtagh. — E depois que Thorn rompeu a casca do seu ovo, me escolhendo como seu Cavaleiro, Galbatorix forçou nós dois a lhe jurar lealdade na língua antiga. Não podemos desobedecê-lo agora.
Pena e desgosto brotaram dentro de Eragon.
— Você se tornou o seu pai.
Um lampejo estranho surgiu dos olhos de Murtagh.
— Não, o meu pai. Eu sou mais forte do que Morzan jamais foi. Galbatorix me ensinou coisas sobre magia com as quais você jamais sonhou... Feitiços tão poderosos que os elfos não ousam pronunciá-los, covardes que são. Palavras na língua antiga que estavam perdidas, até Galbatorix descobri-las. Maneiras de manipular energia... Segredos, segredos terríveis, que podem destruir os seus inimigos e realizar todos os seus desejos.
Eragon voltou atrás, lembrou-se de algumas lições de Oromis e retrucou:
— Coisas que deviam continuar secretas.
— Se você soubesse, não diria isso. Brom era um diletante, nada além disso. E os elfos, ora! Tudo que eles fazem é se esconder em sua floresta para serem conquistados. — Murtagh percorreu Eragon com os olhos. — Você parece um elfo agora. Foi Islanzadí que fez isso com você? — No que Eragon permaneceu em silêncio, Murtagh riu e encolheu os ombros. — Não importa. Logo eu descobrirei a verdade. — Ele parou, franziu a testa e olhou para o leste.
Acompanhando seu olhar, Eragon viu os Gêmeos em pé na frente do Império, arremessando bolas de energia no meio dos Varden e dos anões. As cortinas de fumaça dificultavam a visão, mas Eragon estava certo de que os mágicos estavam sorrindo e gargalhando enquanto massacravam homens a quem outrora prometiam uma amizade séria. O que os Gêmeos não notaram — e que estava claramente visível para Eragon e Murtagh da sua posição vantajosa — era que Roran estava rastejando em sua direção vindo pelo flanco.
O coração de Eragon pulou um batimento assim que reconheceu o primo. Seu tolo! Afaste-se deles! Você será morto.
Assim que ele abriu a boca para entoar um feitiço que iria transportar Roran para longe do perigo — não importava qual fosse o custo — Murtagh disse:
— Espere. Quero ver o que ele vai fazer.
— Por quê?
Um sorriso frio atravessou o rosto de Murtagh.
— Os Gêmeos gostavam de me atormentar quando eu era refém deles.
Eragon o encarou, desconfiado.
— Você não irá feri-lo? Não alertará os Gêmeos?
— Vel eïnradhin iet ai Shur’tugal. Dou minha palavra de Cavaleiro.
Juntos ele viram Roran se esconder atrás de um monte de corpos. Eragon se apertou quando os Gêmeos olharam para a pilha. Por um momento, parecia que eles o haviam avistado, mas então se viraram e Roran pulou. Ele virou seu martelo e bateu na cabeça de um dos Gêmeos, rachando seu crânio. O Gêmeo que sobrou caiu no chão, convulsivamente, e deu um grito agoniado até também encontrar seu fim sob o martelo de Roran. Então, Roran plantou os pés sobre os cadáveres de seus adversários, levantou seu martelo sobre a cabeça e berrou para anunciar sua vitória.
— E agora? — perguntou Eragon, dando as costas para o campo de batalha. — Você está aqui para me matar?
— É claro que não. Galbatorix o quer vivo.
— Para quê?
Os lábios de Murtagh se reviraram.
— Você não sabe? Ah! Bela piada. Não é por sua causa, é por causa dela. — Ele apontou o dedo para Saphira. — O dragão dentro do último ovo de Galbatorix, o último ovo de dragão do mundo, é macho. Saphira é a única fêmea que existe. Se ela procriar, será a mãe de toda uma raça. Está vendo agora? Galbatorix não quer erradicar os dragões. Ele quer usar Saphira para reconstruir os Cavaleiros. Ele não pode matá-lo, a vocês dois, se essa visão se tornar realidade... E que visão, Eragon. Você deveria ouvi-lo descrevendo-a, daí não teria um conceito tão ruim dele. Será maligno o fato de ele querer unir a Alagaësia sob uma única bandeira, eliminar a necessidade de guerra e restaurar os Cavaleiros?
— Foi ele que destruiu os Cavaleiros!
— E por um bom motivo — asseverou Murtagh. — Eram velhos, gordos e corruptos. Os elfos os controlaram e os usaram para subjugar os humanos. Eles tinham que ser removidos para que se pudesse começar da estaca zero.
Um olhar furioso distorceu as feições de Eragon. Ele andou de um lado para o outro sobre o platô, respirava pesadamente, depois gesticulou na direção do campo de batalha e indagou:
— Como vocês podem justificar o fato de terem causado tanto sofrimento só para atender aos desvarios de um louco? Galbatorix não fez nada a não ser queimar, assassinar e acumular poder. Ele mente. Ele mata. Ele manipula. Você sabe disso! Foi por isso que você se recusou a trabalhar para ele em primeiro lugar. — Eragon fez uma pausa e depois adotou um tom mais delicado. — Posso entender que você tenha sido compelido a agir contra a sua vontade e não seja responsável pela morte de Hrothgar. No entanto, você pode tentar escapar. Estou certo de que eu e Arya podemos inventar uma maneira de neutralizar os vínculos que Galbatorix estabeleceu com você... Junte-se a mim, Murtagh. Você pode fazer tanto pelos Varden. Conosco, seria exaltado e admirado, em vez de amaldiçoado, temido e odiado.
Por um instante, enquanto Murtagh olhava para baixo na direção de sua espada entalhada, Eragon esperou que ele fosse aceitar sua oferta. Até que então ele disse em voz baixa:
— Você não pode me ajudar, Eragon. Ninguém além de Galbatorix pode nos livrar de nossas pragas, e ele jamais fará isso... Ele conhece os nossos nomes verdadeiros, Eragon... Somos seus escravos para sempre.
Embora desejasse, Eragon não podia negar a solidariedade que sentia por Murtagh. E no tom mais solene possível, ele disse:
— Então deixe-nos matar vocês dois.
— Matar-nos! Por que permitiríamos isso?
Eragon escolheu suas palavras com cuidado:
— Isso o libertaria do controle de Galbatorix. E salvaria a vida de centenas, senão milhares de pessoas. Essa não seria uma causa nobre pela qual se sacrificar?
Murtagh balançou a cabeça.
— Talvez para você, mas para mim a vida ainda é doce demais para que eu desista dela tão facilmente. Não há vida de estranho que seja mais importante quanto a minha e a de Thorn.
Por mais que odiasse aquilo — odiava a situação inteira, de fato — Eragon soube então o que tinha que ser feito. Recomeçou seu ataque mental contra Murtagh, ele deu um salto para a frente, tirando os pés do chão enquanto dava um bote sobre Murtagh, na intenção de apunhalá-lo no coração.
— Letta! — vociferou Murtagh.
Eragon caiu de novo no chão enquanto faixas invisíveis envolviam seus braços e pernas, imobilizando-o. A sua direita, Saphira descarregou um jato de fogo ondulado e saltou sobre Murtagh como se fosse um gato pisando num rato.
— Rïsa! — ordenou Murtagh, estendendo uma mão cheia de garras em sua direção, como se quisesse pegá-la.
Saphira ganiu de surpresa quando o encanto de Murtagh a parou no meio do ar e a deteve flutuando a alguns metros do platô. Não importava o quanto se retorcia, ela não podia tocar o chão e nem voar mais alto.
Como ele ainda pode ser humano e ter força para fazer isso?, perguntou-se Eragon. Mesmo com as minhas novas habilidades, tal tarefa me deixaria ofegante e paralisado. Fiando-se na sua experiência de neutralizar os feitiços de Oromis, Eragon disse:
— Brakka du vanyalí sem huildar Saphira un eka!
Murtagh não fez nenhuma tentativa para detê-lo, apenas o fitou. como se achasse que a resistência de Eragon fosse apenas uma inconveniência sem sentido. Rangendo os dentes, Eragon redobrou os seus esforços. Suas mãos ficaram frias, seus ossos doíam e sua pulsação diminuiu enquanto a magia sugava a sua energia. Sem que lhe pedisse, Saphira juntou forças com o parceiro, dando-lhe acesso aos formidáveis recursos que haviam em seu corpo.
Cinco segundos se passaram...
Vinte segundos... Uma veia grossa pulsou no pescoço de Murtagh.
Um minuto...
Um minuto e meio... Tremores involuntários atormentaram Eragon. Seus quadríceps e tendões da perna palpitavam, e suas pernas desmoronariam se ele estivesse livre para se mover.
Dois minutos se passaram...
Finalmente Eragon foi forçado a largar a magia, caso contrário acabaria caindo inconsciente dentro do vácuo. Ele fraquejou, completamente esgotado.
Já sentia medo antes, mas só porque temia que pudesse falhar. Agora estava com medo porque não sabia do que Murtagh era capaz.
— Você não pode querer competir comigo — disse Murtagh. — Ninguém pode, exceto Galbatorix. — Enquanto seguia na direção de Eragon, ele espetou sua espada no pescoço de Eragon, picando sua pele. Eragon resistiu ao impulso de se retrair. — Seria fácil levar você de volta para Urû’baen.
Eragon o encarou bem profundamente.
— Não. Largue-me.
— Você acabou de tentar me matar.
— E você teria feito o mesmo na minha posição. — No que Murtagh permaneceu em silêncio e sem esboçar expressão alguma, Eragon disse: — Fomos amigos certa vez. Lutamos juntos. Galbatorix não pode tê-lo transformado tanto, em tão pouco tempo, a ponto de fazê-lo se esquecer... Se você fizer isso, Murtagh, ficará perdido para sempre.
Um longo minuto se passou onde o único som era o alarido e os gritos dos exércitos que se enfrentavam. O sangue escorria pelo pescoço de Eragon do ponto onde a espada o cortou. Saphira batia seu rabo com fúria, mas inutilmente.
Finalmente, Murtagh disse:
— Fui mandado para tentar capturar você e Saphira. — Ele fez uma pausa. — Eu tentei... Certifique-se de que não venhamos a cruzar nossos caminhos novamente. Galbatorix me fará jurar pragas adicionais na língua antiga, que evitarão que eu demonstre tanta piedade na próxima vez em que nos encontrarmos. — Ele baixou sua espada.
— Você está fazendo a coisa certa — disse Eragon. Ele tentou dar um passo atrás, mas ainda estava paralisado.
— Talvez. Mas antes de liberá-lo... — Estendendo-se, Murtagh arrancou Zar’roc das mãos de Eragon e desafivelou a bainha vermelha da espada do cinto de Beloth o Sábio. — Se eu me tornei meu pai, então terei a espada do meu pai. Thorn é o meu dragão, então ele será um espinho para todos os nossos inimigos. É certo, então, que eu também empunhe a espada Desgraça. Desgraça e Espinho, uma bela dupla. Além do mais, Zar’roc devia ter ido para o primogênito de Morzan, não para o filho mais jovem. Ela é minha por direito de nascença.
Um rombo se fez no estômago de Eragon. Não pode ser.
Um sorriso cruel apareceu no rosto de Murtagh.
— Nunca lhe disse qual era o nome da minha mãe, disse? E você nunca me falou o nome da sua. Vou lhe dizer agora: Selena. Selena era minha mãe e sua mãe. Morzan era o nosso pai. Os Gêmeos descobriram a conexão enquanto estavam vasculhando a sua mente. Galbatorix estava bastante interessado nesse fragmento de informação.
— Você está mentindo! — gritou Eragon. Ele não podia suportar o fato de ser filho de Morzan. Será que Brom sabia? Será que Oromis sabe?... Por que não me contaram? Ele se lembrou, então, de Angela ter previsto que alguém em sua família iria traí-lo. Ela tinha razão.
Murtagh simplesmente balançou a cabeça e repetiu suas palavras na língua antiga, para depois colocar os lábios no ouvido de Eragon e sussurrar:
— Você e eu somos iguais, Eragon. Um o espelho do outro. Você não pode negar isso.
— Você está errado — rosnou Eragon, lutando contra o feitiço. — Não temos nada em comum. Não tenho mais uma cicatriz nas minhas costas.
Murtagh recuou como se tivesse sido ferido, tinha o rosto duro e frio. Ele ergueu Zar’roc e a empunhou em frente ao peito.
— Então que seja. Tomo minha herança de você, irmão. Adeus.
Depois disso, ele pegou seu elmo do chão e pulou em cima de Thorn. Não olhou mais nenhuma vez para Eragon enquanto o dragão se agachava, levantava as asas, e voava do platô rumo ao norte. Só depois que Thorn sumiu no horizonte, foi que a teia de magia libertou Eragon e Saphira.
As garras de Saphira bateram na pedra assim que o dragão pousou. Ela se arrastou até Eragon e o tocou no braço com seu focinho.
Você está bem, pequenino?
Sim. Mas ele não estava e ela sabia disso.
Andando até a beira do platô, Eragon examinou a Campina Ardente e as consequências da batalha, que agora estava terminada. Com a morte dos Gêmeos, os Varden e os anões recuperaram o terreno perdido e conseguiram desbaratar as formações de soldados confuso, conduzindoos para dentro do rio ou perseguindo-os até o lugar de onde vieram.
Embora o bojo de suas tropas tivesse permanecido intacto, o Império havia dado o toque de recolher, sem dúvida para que se reagrupassem e se preparassem para uma segunda tentativa de invadir Surda. Em seu rastro deixaram pilhas de cadáveres dispostos de maneira confusa, de ambos os lados do conflito, homens e anões suficientes para povoar uma cidade inteira. Uma fumaça negra e espessa emanava dos corpos caídos nas fogueiras de turfa.
Agora que a luta havia cessado, os falcões e águias, os corvos e gralhas, desciam como uma mortalha sobre o campo. Eragon fechou os olhos, as lágrimas escorriam sob suas pálpebras.
Eles haviam vencido, mas ele perdera.

5 comentários:

  1. Gêmeos nojentos.

    Murtagh irmão de Eragon isso tá parecendo o programa do João Kleber Kkk

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  2. Eu nunca gostei desse tal de Murtagh. Ele não tem nenhuma dignidade e honra, se as tivesse teria preferido morrer a se entregar. Eu amaldiçoo sua descendencia

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  3. Caralho que reviravolta! Esta ficando muito emocionante kk já suspeitava que o cavaleiro misterioso seria murtagh, mas nunca suspeitaria que ele é eragon seriam irmãos..

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  4. Sabia que o Murtagh não tava morto!
    Como vcs podem odiar ele gente? Ele protegeu Eragon metade do livro passado, e se vcs não leram ele sofreu horrores na mão de Galbatorix e dos gêmeos.
    Espero que o Eragon mate Galbatorix e consiga livrar o Murtagh do juramento 😥

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Boa leitura :)