27 de maio de 2017

Capítulo 7 - Réquiem

— Acorde, Knurlhiem! Você não pode dormir agora. Nós somos necessários no portão... eles não começarão sem nós.
Eragon se esforçou para abrir os olhos, ciente da dor de cabeça e do corpo dolorido. Ele estava deitado numa mesa fria de pedra.
— O quê? — Ele fez uma careta depois de sentir um gosto ruim na língua.
Orik puxou sua barba marrom.
— O cortejo de Ajihad. Temos que estar presentes!
— Não, do que você me chamou? — Eles ainda estavam no salão de festas, que estava vazio exceto por ele, Orik e Saphira, caída ao seu lado entre duas mesas. Ela se mexeu e levantou a cabeça, olhando em volta com olhos embaçados.
— Cabeça dura! Eu o chamei de cabeça dura porque estou tentando acordá-lo há quase uma hora.
Eragon se aprumou e deslizou para fora da mesa. Flashes de lembranças da noite passada passaram pela sua cabeça. Saphira, como está você?, perguntou ele, cambaleando em sua direção.
Ela girou a cabeça, passando sua língua escarlate por dentro e por fora dos dentes, como um gato que havia comido algo desagradável. Inteira... acho. Minha asa esquerda está um pouco estranha, acho que foi sobre ela que eu aterrissei. E minha cabeça está pesada, com mil flechas ardentes.
— Alguém se machucou quando ela caiu? — perguntou Eragon, preocupado.
Uma gargalhada sincera explodiu do peito volumoso do anão.
— Só aqueles que caíram de suas cadeiras de tanto rir. Um dragão bêbado e caindo por causa disso! Estou certo de que canções falarão sobre isso por décadas. — Saphira arrastou as asas e desviou o olhar afetadamente. — Achamos que seria melhor deixar você aqui, já que não conseguíamos movê-la, Saphira. Isso deixou o cozinheiro-chefe aflito... ele temia que você fosse beber mais do que os quatro barris que entornou de sua melhor safra.
E você chegou a me punir uma vez por ter bebido! Se eu consumisse quatro barris acabaria morto!
É por isso que você não é dragão.
Orik jogou uma trouxa de roupas nos braços de Eragon.
— Tome, vista essas. São mais apropriadas para um funeral do que o seu traje. Mas apresse-se, pois temos pouco tempo. — Eragon fez um grande esforço para vestir tudo: uma camisa branca franzida, com laços nas mangas, um colete vermelho ornado com fitas e bordados dourados, calças escuras, botas pretas brilhantes que estrepitavam ao pisar no chão, e uma capa rodada, amarrada logo abaixo da garganta com um broche cheio de enfeites. No lugar da tira de couro habitual, um cinto cheio de adornos em que Zar’roc estava amarrada.
Eragon salpicou o rosto de água e tentou arrumar o cabelo de forma a ficar com um aspecto asseado. Depois, Orik conduziu a ele e a Saphira para fora do salão, em direção ao portão sul de Tronjheim.
— Temos que começar de lá — explicou ele, movendo-se com uma velocidade surpreendente sobre suas pernas grossas — porque foi onde a procissão com o corpo de Ajihad parou há três dias. Sua jornada para o túmulo não pode ser interrompida, ou então seu espírito não terá descanso.
Um costume estranho, reparou Saphira.
Eragon concordou, notando uma leve inconstância no andar de Saphira. Em Carvahall, as pessoas eram normalmente enterradas em suas fazendas ou, se morassem no vilarejo, num pequeno cemitério. Os únicos rituais que faziam parte do procedimento eram versos de certas baladas recitados e um banquete fúnebre que era oferecido depois das exéquias para os parentes e amigos.
Você consegue aguentar o funeral inteiro?, perguntou Eragon ao ver Saphira cambalear novamente.
Ela fez uma breve careta. Isso e o compromisso com Nasuada, mas depois vou precisar dormir. Odeio hidromel!
Ao retomar sua conversa com Orik, Eragon perguntou:
— Onde Ajihad será enterrado?
Orik diminuiu o passo e olhou para Eragon com cautela.
— Isso foi motivo de briga entre os clãs. Quando um anão morre, acreditamos que sua sepultura deve ser vedada por pedra ou ele jamais irá se juntar aos seus ancestrais... Essa é uma questão complexa e não posso falar mais do que isso para um forasteiro... mas percorremos grandes distancias para assegurar que um enterro seja assim. A vergonha recai sobre uma família ou clã caso permitam que qualquer um dos seus descanse num elemento inferior.
Depois de uma pausa, prosseguiu:
— Debaixo de Farthen Dûr existe uma câmara que é o lar de todos os knurlan, de todos os anões que morreram aqui. É para lá que Ajihad será levado. Ele não pode ser sepultado conosco, já que é humano, mas uma alcova consagrada já lhe foi reservada. Lá os Varden poderão visitá-lo sem perturbar nossas grutas sagradas e Ajihad receberá o respeito que lhe é devido.
— Seu rei fez muito pelos Varden — comentou Eragon.
— Tem gente que pensa que fez demais.


Perante o enorme portão — içado por suas correntes escondidas para revelar uma tênue luz matinal que se movia para dentro de Farthen Dûr — eles encontraram uma fileira cuidadosamente disposta. Ajihad estava à frente, frio e pálido, num esquife de mármore branco carregado por seis homens trajando armaduras negras. Sobre a sua cabeça havia um elmo coberto de pedras preciosas. Suas mãos estavam uma em cima da outra, abaixo da clavícula, sobre o cabo de marfim de sua espada desembainhada, que se estendia por baixo do escudo que cobria seu peito e suas pernas. A cota de malha prateada, como anéis de raios lunares, pesava mais que seus membros e caía sobre o esquife.
Logo atrás do corpo estava Nasuada — com ar solene, coberta por uma capa negra e firme na sua posição, embora lágrimas ornassem o seu semblante. Ao seu lado, estava Hrothgar usando um manto escuro, depois Arya, o Conselho de Anciãos, todos com uma conveniente expressão compassiva, e finalmente uma torrente de enlutados que se estendia por mais de um quilômetro e meio além de Tronjheim.
Cada porta e arcada do salão de quatro andares que levava à câmara central de Tronjheim, a oitocentos metros de distância, estava aberta e cheia de humanos e anões. Entre as faixas de rostos desolados, as longas tapeçarias se agitaram ao serem atingidas por centenas de suspiros e sussurros quando Saphira e Eragon apareceram. Jörmundur acenou para que ambos se juntassem a ele. Tentando não estragar a formação, Eragon e Saphira foram se esgueirando pela fileira até ocuparem o espaço ao seu lado, recebendo um olhar de desaprovação de Sabrae. Orik se postou atrás de Hrothgar.
Juntos eles esperaram, embora Eragon não soubesse por quê. Todas as luzes das lanternas foram reduzidas até a metade para que o frio crepúsculo se espalhasse pelo ar, emprestando uma sensação etérea ao evento. Ninguém parecia se mover ou respirar: por um breve momento, Eragon imaginou que todos fossem estátuas congeladas para toda a eternidade. Um único rolo de fumaça de incenso brotava do esquife e era levado pelo vento em direção ao teto enevoado enquanto espalhava o aroma de cedro e zimbro. Era o único movimento no salão, uma linha com formato de chicote que ondulava sinuosamente de um lado para o outro.
Bem nas profundezas de Tronjheim, um tambor rufou. Bum. A nota grave e sonora ressoou pelos ossos dos presentes, fazendo a cidade-montanha vibrar e ecoar como se fosse um grande sino de pedra.
Eles deram um passo à frente.
Bum. Na segunda nota, outro passo, e um bumbo mais grave se fundiu ao primeiro, cada batida reverberando inexoravelmente pelo salão. A força do som os projetou numa marcha majestosa. Deu a cada passo um significado, um sentido e uma gravidade adequados à situação. Nenhum pensamento poderia existir no meio da pulsação que os cercava, apenas um crescendo de emoção que os tambores habilmente passavam, trazendo lágrimas e uma alegria agridoce ao mesmo tempo.
Bum.
Quando o túnel terminou, os homens que carregavam Ajihad fizeram uma pausa entre os pilares de ônix antes de adentrar a câmara central. Lá, Eragon viu os anões ficando ainda mais solenes na iminência de contemplar Isidar Mithrim.
Bum.
Eles andaram através de um cemitério de cristal. Um círculo de fragmentos enormes estava no centro da grande câmara, cercando o martelo e os pentagramas incrustados. Muitos pedaços eram maiores do que Saphira. Os raios da estrela safira ainda emitiam uma luz trêmula nos fragmentos e, em alguns deles, pétalas da rosa entalhada eram visíveis.
Bum.
Os carregadores continuaram em frente, passando entre os inúmeros fios de navalha. Depois, a procissão virou e começou a descer por degraus largos até chegar aos túneis inferiores. Marcharam através de muitas cavernas, passaram por cabanas de pedra, onde crianças anãs se agarravam a suas mães e fitavam os integrantes do séquito com olhos arregalados.
Bum.
E com aquele crescente final, eles pararam sob estalactites que, tal como costelas, se ramificava por sobre uma grande catacumba com alcovas alinhadas. Em cada alcova havia uma sepultura com um nome e o símbolo do clã gravados. Milhares — centenas de milhares — estavam enterrados ali. A única luz vinha de lanternas vermelhas dispostas de forma esparsa, pálidas no meio das sombras.
Depois de um instante, os carregadores andaram a passos largos até um pequeno salão anexo à câmara principal. No centro, numa plataforma elevada, havia uma grande cripta aberta à espera na escuridão. Em seu topo, estava gravado em letras rúnicas:

Que todos, Knurlan, Humanos e Elfos,
Lembrem-se
Deste homem.
Pois ele era Nobre, Forte e Sábio.
Gûntera Arûna

Assim que os enlutados se reuniram em volta, Ajihad foi baixado para dentro da cripta. Aqueles que o conheceram pessoalmente puderam se aproximar. Eragon e Saphira eram os quintos da fila, atrás de Arya. Enquanto subiam os degraus de mármore para ver o corpo, uma tristeza esmagadora se apoderou de Eragon, e sua angústia era ainda maior pelo fato de ele também estar considerando este funeral como se fosse o de Murtagh.
Ao parar ao lado da tumba, Eragon olhou para baixo em direção a Ajihad. Ele parecia muito mais calmo e tranquilo do que aparentava em vida, como se a morte houvesse reconhecido a sua grandeza e o honrado ao remover todos os traços das suas preocupações mundanas. Eragon só teve contato com Ajihad por um breve período, mas neste tempo ele viera a respeitá-lo tanto como pessoa quanto pelo que representava: liberdade contra a tirania. Além disso, Ajihad foi a primeira pessoa a conceder um porto seguro a Eragon e Saphira desde que ambos deixaram o vale Palancar.
Comovido, Eragon tentou pensar no melhor elogio que podia fazer. Por fim, sussurrou algo que atravessou o nó em sua garganta.
— Você será lembrado, Ajihad. Eu juro. Descanse em paz sabendo que Nasuada continuará o seu trabalho e que o Império será derrotado por causa daquilo que você realizou. — Sentindo o toque de Saphira em seu braço, Eragon saiu da plataforma em sua companhia, cedendo a vez a Jörmundur.
Quando, finalmente, todos prestaram suas condolências, Nasuada se curvou perante Ajihad e tocou a mão do seu pai, segurando-a com uma urgência delicada. Emitindo um gemido doloroso, ela começou a cantar numa linguagem estranha e chorosa, enchendo a caverna com suas lamentações.
Em seguida, vieram doze anões e deslizaram uma placa de mármore por sobre Ajihad. E ele se foi.

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Boa leitura :)