27 de maio de 2017

Capítulo 68 - Convergência

Roran estava em pé na proa do Asa de Dragão e ouviu os remos sibilando dentro d’água. Ele havia acabado de passar um turno remando e uma dor fria e cortante permeava o seu ombro direito. Será que terei sempre que lidar com essa lembrança dos Ra’zac? Limpou o suor do rosto e ignorou o desconforto, concentrando-se no rio à frente, que estava turvo por conta de uma barreira de nuvens cobertas de fuligem.
Elain se juntou a ele na amurada. Ela apoiou a mão em sua barriga inchada.
— A água parece nociva — disse ela. — Talvez devêssemos ter permanecido em Dauth, em vez de ficarmos nos arrastando em busca de mais problemas.
Ele temia que Elain estivesse falando a verdade. Depois de o Olho do Javali. Eles haviam navegado a leste das ilhas do Sul, voltaram para a costa, e, depois, subiram pela foz do rio Jiet até a cidade portuária de Dauth, em Surda. Na hora em que chegaram à terra firme, seus suprimentos já estavam esgotados e os aldeões doentes.
Roran tinha toda a intenção de ficar em Dauth, especialmente depois que foram recebidos com entusiasmo pela sua governante, lady Alarice. Mas isso foi antes de saber sobre o exército de Galbatorix. Se os Varden fossem derrotados, ele jamais veria Katrina novamente. Por isso, com a ajuda de Jeod, convenceu Horst e muitos dos outros aldeões que, se eles quisessem viver em Surda, protegidos do Império, teriam de remar pelo rio Jiet e ajudar os Varden. Era uma tarefa difícil, mas, no fim das contas, a vontade de Roran prevaleceu. E, assim que falaram sobre sua jornada para lady Alarice, ela lhes deu todos os suprimentos que necessitavam. Daí em diante, Roran começou a se questionar se havia feito a escolha certa.
Naquele momento, todos já detestavam o fato de morar no Asa de Dragão. As pessoas estavam tensas e irascíveis, a situação só se agravava pela noção de que navegavam rumo a uma batalha. Seria muito egoísmo de minha parte?, perguntou-se Roran. Será que tudo isso era pelo bem dos aldeões, ou só porque iria me fazer dar mais um passo rumo a Katrina?
— Talvez devêssemos mesmo — disse ele para Elain.
Juntos eles ficaram observando uma camada espessa de fumaça se acumulando adiante, ela escurecia o céu, tapava o sol e filtrava as luzes restantes, para que tudo abaixo assumisse uma enjoativa coloração laranja.
Tal fenômeno produziu um crepúsculo sinistro de um jeito que Roran nunca havia imaginado. Os marinheiros no convés olharam em volta receosos e murmuraram encantos de proteção, tiravam seus amuletos de pedra para se precaverem contra o olho maligno.
— Ouça — disse Elain. Ela balançou a cabeça. — O que é isso?
Roran se concentrou para ouvir e captou o leve som de metal se chocando com metal.
— Esse — afirmou — é o som do nosso destino. — Virando-se, ele gritou: — Comandante, há uma batalha transcorrendo mais à frente!
— Guarnecer as balistas! — berrou Uthar. — Dobrem essas remadas, Bonden. E é bom que cada homem saudável entre vocês esteja preparado, ou vão acabar usando as suas tripas como travesseiros!
Roran permaneceu onde estava, enquanto o Asa de Dragão fervilhava. Apesar do aumento no barulho, ainda podia ouvir espadas e escudos ressoando ao longe. Os gritos dos homens eram audíveis agora, assim como os rugidos de uma fera gigante.
Ele levantou os olhos para Jeod, juntando-se a ele na proa. O rosto do comerciante ficou pálido.
— Você já esteve antes numa batalha? — perguntou Roran.
O nó na garganta de Jeod apertou enquanto ele engolia em seco e balançava a cabeça.
— Já entrei em inúmeras batalhas junto com Brom, mas nada nessa escala.
— É uma primeira vez para nós dois, então.
A nuvem de fumaça começou a se diluir à direita, dando-lhes um vislumbre da terra escura que vomitava fogo e um vapor laranja pútrido, e estava coberta de tropas de homens se debatendo. Era impossível dizer quem era do Império e quem era dos Varden, mas era claro para Roran que a batalha poderia virar para qualquer lado, se fosse dada a cutucada certa.
Podemos dar essa cutucada.
Então uma voz ecoou sobre a água enquanto um homem gritava:
— Um navio! Um navio está vindo pelo rio Jiet!
— Você devia descer para os conveses inferiores — disse Roran para Elain. — Aqui em cima não será seguro. — Ela acenou positivamente e correu para a escotilha dianteira, onde desceu as escadas e fechou a abertura atrás dela. Um instante depois, Horst saltou para a proa e deu um dos escudos de Fisk para Roran.
— Achei que você poderia precisar disso — disse Horst.
— Obrigado. Eu...
Roran parou enquanto o ar em torno deles vibrava, como se tivesse sofrido um poderoso abalo. Bum. Seus dentes rangeram. Bum. Seus ouvidos doeram por causa da pressão. Logo que se recuperaram do segundo impacto, veio um terceiro — bum — e com ele um berro áspero que Roran reconheceu, pois já o havia escutado muitas vezes na infância. Ele levantou os olhos e viu um gigantesco dragão safira saindo de dentro das nuvens. E, no dorso do dragão, na junta entre o pescoço e os ombros, estava sentado o seu primo, Eragon.
Não era o Eragon do qual ele se lembrava, mas era como se um artista tivesse pego as feições básicas de seu primo e as realçasse, as aperfeiçoasse, deixando-as, ao mesmo tempo, mais nobres e felinas. Este Eragon estava vestido como um príncipe, usava um traje e uma armadura de boa qualidade — embora manchados pela fuligem da guerra — e em sua mão direita brandia uma espada vermelha iridescente. Este Eragon, como Roran sabia, poderia matar sem hesitar. Este Eragon era poderoso e implacável... Este Eragon poderia matar os Ra’zac e ajudá-lo a resgatar Katrina.
Abrindo suas asas translúcidas, o dragão se ergueu repentinamente e pairou diante do navio. Foi então que os olhos de Eragon e Roran se encontraram.
Até aquele momento, Roran não havia acreditado completamente na história de Jeod sobre Eragon e Brom. Agora, enquanto olhava para o primo, uma onda de emoções confusas lhe varreu. Eragon é um Cavaleiro! Parecia inconcebível que o garoto fraco, mal-humorado e demasiadamente curioso, com o qual ele cresceu, havia se transformado naquele guerreiro assustador. Vê-lo vivo novamente encheu Roran de uma inesperada alegria.
Contudo, ao mesmo tempo, uma raiva terrível e familiar brotou de seu interior por causa do papel de Eragon na morte de Garrow e no cerco de Carvahall. Naqueles poucos segundos, Roran não sabia se amava ou odiava Eragon.
Ele endureceu, alarmado, quando um ser enorme e estranho tocou mente. Dessa consciência emanou a voz de Eragon: Roran?
— Sim.
Pense suas respostas que as ouvirei. Todos de Carvahall estão com você?
Quase todos.
Como você conseguiu... Não, não podemos falar sobre isso agora, não há tempo. Fique onde está até a batalha ser decidida. Melhor ainda, volte mais um pouco com o navio, onde o Império não pode atacá-lo.
Temos que conversar, Eragon. Você tem que me dar muitas respostas.
Eragon hesitou com uma expressão preocupada, e depois disse: Eu sei. Mas agora não, mais tarde. Sem nenhum sinal, o dragão se afastou do navio e voou para o leste, sumiu na neblina que cobria a Campina Ardente.
Num tom de voz amedrontado, Horst disse:
— Um Cavaleiro! Um verdadeiro Cavaleiro! Nunca pensei que fosse ver um, muito menos que seria Eragon. — Ele balançou a cabeça. — Acho que você nos disse a verdade, hein, Pernalonga? — Jeod sorriu em resposta, parecendo uma criança encantada.
Suas palavras soaram abafadas para Roran enquanto ele olhava para o convés, sentia-se como se estivesse prestes a explodir com a tensão.
Um bando de dúvidas o assaltaram. Ele se forçou a ignorá-las. Não posso pensar em Eragon agora. Temos que lutar. Os Varden precisam derrotar o Império.
Uma onda crescente de fúria o consumia. Ele já havia experimentado isso antes, era um furor frenético que o permitia superar quase qualquer obstáculo, mover objetos que não poderia deslocar normalmente, enfrentar um inimigo em combate e não sentir medo algum. Tal sensação havia se apoderado dele naquele instante. Uma febre em suas veias acelerava a sua respiração e fazia seu coração bater mais rápido. Ele se levantou apoiando-se na amurada, correu por toda a extensão do navio até o tombadilho, onde Uthar estava no leme, e disse:
— Pare o navio.
— O quê?
— Pare o navio, estou dizendo! Fique aqui com o resto dos soldados e use as balistas para atacar o que quiser, só impeça que o Asa de Dragão seja invadido e proteja nossas famílias com suas vidas. Entendido?
Uthar o encarou com um olhar enfastiado e Roran temeu que ele não fosse acatar as ordens. Então, o marinheiro cheio de cicatrizes resmungou e disse:
— Sim, sim, Martelo Forte.
Os passos pesados de Horst precederam a sua chegada no tombadilho.
— O que você pretende fazer, Roran?
— Fazer? — Roran riu e girou no sentido anti-horário para ficar frente a frente com o ferreiro. — Fazer? Ora, pretendo alterar o destino da Alagaësia!

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