27 de maio de 2017

Capítulo 67 - A tempestade irrompe

Os primeiros raios da alvorada já haviam riscado o solo, quando Trianna disse à Eragon: É hora. Uma onda forte de energia despertou Eragon. Levantando-se rapidamente, o jovem deu ordens para todos os que estavam à sua volta, ao mesmo tempo em que subia na sela de Saphira e retirava seu arco novo de dentro da aljava. Os Kull e os anões cercaram Saphira e correram, juntos, pela barreira de proteção até chegarem na abertura que havia sido desobstruída durante a noite.
Os Varden atravessaram a fenda, fazendo o máximo de silêncio possível. Os guerreiros foram passando, um a um, e suas armaduras e armas estavam envoltas por farrapos, para que nenhum som pudesse alertar o Império de sua aproximação. Saphira se juntou à procissão, quando Nasuada apareceu num cavalo ruão de batalha no meio dos homens, tinha Arya e Trianna ao seu lado. Os cinco trocaram rápidos olhares de reconhecimento, nada mais.
Durante a noite, os gases fétidos haviam se acumulado bem rente ao chão, e agora a luz pálida da manhã tingiu a névoa extensa, deixando-a opaca. Deste modo, os Varden conseguiram atravessar três quartos da terra de ninguém, antes que fossem vistos pelos sentinelas do Império. Assim que as cometas de alarme soaram à sua frente, Nasuada gritou:
— Agora, Eragon! Diga a Orrin para atacar. Comigo, homens dos Varden! Lutem para recuperar os nossos lares. Lutem para proteger suas esposas e filhos! Lutem para derrotar Galbatorix! Ataquem e banhem suas espadas com o sangue de nossos inimigos! Atacar! — Ela esporeou seu cavalo para que seguisse em frente e, após um grande grito de guerra, os homens a seguiram, balançando suas armas sobre suas cabeças.
Eragon levou a ordem de Nasuada para Barden, o encantador que veio com o rei Orrin. Pouco depois, ele ouviu o bater dos cascos, enquanto Orrin e sua cavalaria — acompanhado pelo resto dos Kull, que podiam correr tão rápido quanto cavalos — galopavam para o leste. Eles se dirigiram para o flanco do Império, na intenção de empurrar os soldados contra o rio Jiet e distraí-los tempo o suficiente para que os Varden atravessassem o resto da distância que os separava, sem oposição.
Os dois exércitos se enfrentaram provocando um estrondo ensurdecedor. Piques se chocavam com lanças, martelos com escudos, espadas com elmos e, acima deles, urubus famintos rodopiavam, com o seu crocitar desagradável, impulsionados por um frenesi causado pelo cheiro da carne fresca abaixo.
O coração de Eragon acelerou dentro do peito. Agora devo matar ou ser morto. Quase que imediatamente, ele sentiu suas defesas sugando suas forças sempre que desviava os ataques desferidos contra Arya, Orik, Nasuada e Saphira.
Saphira se manteve afastada da linha de frente de batalha, pois ambos ficariam muito expostos aos mágicos de Galbatorix, que estavam na dianteira. Respirando fundo, Eragon começou a buscar os mágicos com sua mente, atirava flechas o tempo todo.
A Du Vrangr Gata descobriu o primeiro feiticeiro inimigo. No instante em que foi alertado, Eragon alcançou a mulher que havia feito a descoberta, e, em seguida, chegou ao adversário. Usando toda a sua torça. Eragon demoliu a resistência do mágico, tomou controle de sua consciência — fez o melhor que podia para ignorar o pavor do sujeito —. determinou que tropas ele estava protegendo e o matou com uma das doze palavras de morte. Sem parar, Eragon localizou as mentes de cada um dos soldados agora desprotegidos e os matou. Os Varden se enchiam de alegria à medida que os homens começavam a claudicar.
A facilidade com a qual os matou surpreendeu Eragon. Os soldados não tiveram chance de escapar ou de se defender. Que diferença de Farthen Dûr, pensou. Embora estivesse maravilhado com a perfeição de suas habilidades, as mortes o deixaram enjoado. Mas, não havia tempo para refletir sobre isso.
Recuperado do ataque inicial dos Varden, o Império começou a acionar seus engenhos bélicos: catapultas lançavam projéteis redondos de cerâmica endurecidos, outras do estilo trebuchet armadas com barris de fogo líquido e balistas que bombardeavam os agressores com uma chuva de flechas de quase dois metros de comprimento. As balas de cerâmica e o fogo líquido causaram danos terríveis quando aterrissaram. Uma bala explodiu ao bater no chão, a menos de dez metros de Saphira. Enquanto Eragon se protegia atrás de seu escudo, um fragmento foi girando em direção à sua cabeça, até ser detido no ar por uma de suas defesas. Ele se surpreendeu com a súbita perda de energia.
As máquinas logo frearam o avanço dos Varden, semearam a confusão onde quer que mirassem. Elas precisam ser destruídas se quisermos vencer o Império, percebeu Eragon. Seria fácil para Saphira desmantelá-los, mas ela não ousou voar no meio dos soldados, com medo de um ataque por magia.
Ultrapassando as linhas dos Varden, oito soldados tentaram atacar Saphira, apontavam piques em sua direção. Antes que Eragon pudesse desembainhar Zar’roc, os anões e os Kull eliminaram o grupo inteiro.
— Bela luta! — rugiu Garzhvog.
— Bela luta! — concordou Orik com um sorriso sanguinário.
Eragon não usou encantos contra as máquinas. Devem estar protegidas contra qualquer feitiço concebível. A não ser... Estendendo-se, ele encontrou a mente de um soldado que tomava conta de uma das catapultas.
Embora tivesse certeza de que o soldado estava sendo defendido por algum mágico, Eragon conseguiu dominá-lo e guiá-lo à distância. Ele conduziu o homem até a arma, que estava sendo carregada, e o fez usar sua própria espada para cortar a corda entrelaçada que acionava o mecanismo. A corda era grossa demais para que fosse partida antes de o soldado ser arrastado dali pelos seus camaradas, mas o dano já estava feito. Com um grande estrondo, a corda parcialmente cortada se partiu de vez, fazendo o braço da catapulta voar para trás e ferir diversos homens. Os lábios de Eragon desenharam um sorriso impiedoso. Ele passou para a catapulta seguinte e, em pouco tempo, desabilitou o resto das máquinas.
Retornando a si, Eragon percebeu dezenas de Varden que caíam em volta de Saphira, um dos membros da Du Vrangr Gata havia sido subjugado. Ele, então, rogou uma maldição terrível e se lançou de volta na trilha de magia, enquanto buscava o homem que havia evocado o encanto fatal, confiando o bem-estar do seu corpo a Saphira e seus guardiões.
Durante mais de uma hora, Eragon caçou os mágicos de Galbatorix, mas teve pouco sucesso, pois eles eram espertos e habilidosos e não o atacavam diretamente. A relutância deles intrigou Eragon até o momento em que conseguiu arrancar da mente de um dos encantadores — pouco antes de ele cometer suicídio — o seguinte pensamento: ... ordenaram para não matar você ou o dragão... não matar você ou o dragão.
Isso responde a minha pergunta, disse ele para Saphira, mas por que Galbatorix ainda nos quer vivos? Já deixamos claro o nosso apoio aos Varden.
Antes que ela pudesse responder, Nasuada surgiu à sua frente, com o rosto manchado de sujeira e sangue seco, seu escudo coberto de mossas, e sangue escorrendo de sua perna esquerda devido a um ferimento em sua coxa.
— Eragon — disse ela, arfando —, preciso de vocês, de vocês dois, para lutar, para se mostrarem e encorajarem nossos homens... e amedrontarem os soldados.
Seu estado deixou Eragon chocado.
— Deixe-me curá-la primeiro — gritou, temendo que ela fosse desmaiar. Devia ter colocado mais defesas em tomo dela.
— Não! Eu posso esperar, mas estaremos perdidos se você não lutar contra a horda de soldados. — Seus olhos estavam vidrados e vazios, buracos inexpressivos em seu rosto. — Precisamos de... um Cavaleiro. — Ela se ajeitou em sua sela.
Eragon a saudou com Zar’roc.
— Você tem um, minha lady.
— Vá — disse ela —, e que os deuses estejam por lá para zelar por você.
Eragon estava numa posição muito alta, no dorso de Saphira, para atacar os inimigos lá embaixo, por isso desceu e se postou ao lado da pata direita de sua parceira. Para Orik e Garzhvog ele disse:
— Protejam o lado esquerdo de Saphira. E o que quer que façam, saiam do nosso caminho.
— Você terá cobertura, Espada de Fogo.
— Não — disse Eragon —, não terei. Agora assumam as suas posições! — Enquanto o faziam, o jovem encostou a mão na perna de Saphira e fitou um de seus límpidos olhos safira. Podemos dançar, amiga do meu coração?
Podemos sim, pequenino.
Então os dois se fundiram num grau jamais alcançado, superaram todas as diferenças, para se tornarem uma única entidade. Eles gritaram, pularam para a frente e criaram uma trilha até a linha de batalha. Uma vez lá, Eragon não sabia dizer de que boca emanou o jato de chama voraz que consumiu uma dezena de soldados, fritou suas cotas de malha, nem que braço traçou um arco com Zar’roc, partindo o elmo de um soldado ao meio.
O cheiro de sangue encheu o ar e cortinas de fumaça flutuaram sobre a Campina Ardente, escondendo e revelando alternadamente os grupos, fragmentos, fileiras e batalhões de corpos fustigados. Mais acima, as aves repugnantes esperavam a sua refeição e o sol escalava o firmamento rumo ao meio-dia.
Das mentes daqueles que estavam à sua volta, Eragon e Saphira captaram vislumbres de como eles apareceram. Saphira sempre era notada primeiro: uma enorme criatura voraz com garras e presas tingidas de vermelho, que matava todos em seu caminho com os golpes de suas patas, chicotadas de seu rabo e vagalhões de fogo que tragavam pelotões inteiros. Suas escamas brilhantes cintilavam como estrelas e quase cegavam seus adversários com o reflexo da luz. Em seguida, eles viam Eragon correndo ao lado de Saphira. Ele se movia com mais velocidade do que os soldados podiam reagir e, com sua força sobre-humana, estilhaçava escudos com um único golpe, despedaçava armaduras e partia as espadas daqueles que o enfrentavam. Tiros e dardos arremessados em sua direção caíam no solo pestilento, a três metros de onde ele estava, detidos por suas defesas.
Era mais difícil para Eragon — e, por extensão, para Saphira — lutar contra sua própria raça do que fora enfrentar os Urgals em Farthen Dûr. Toda vez que via um rosto amedrontado, ou analisava a mente de um soldado, ele pensava: Esse poderia ser eu. Mas ele e Saphira não podiam ter qualquer piedade, se havia um soldado à sua frente, ele tinha que morrer.
Por três vezes eles atacaram e por três vezes Eragon e Saphira mataram cada um dos homens que estavam nas primeiras fileiras do Império, antes de recuarem para o grosso da tropa dos Varden para impedir que fossem cercados. Lá pelo final de seu último ataque, Eragon teve de reduzir ou eliminar certas defesas em torno de Arya, Orik, Nasuada, Saphira e de si próprio, para que seus feitiços não o deixassem exausto tão rapidamente. Embora sua força fosse grande, o mesmo podia ser dito das demandas da batalha.
Pronta?, perguntou para Saphira após um breve intervalo. Ela rosnou afirmativamente.
Uma nuvem de flechas zuniu na direção de Eragon no instante em que mergulhou de novo no combate. Rápido como um elfo, ele se desviou da maior parte delas — já que sua magia não o estava mais protegendo de tais projéteis — bloqueou doze com seu escudo e cambaleou quando uma acertou sua barriga e outra a lateral de seu corpo. Nenhuma delas perfurou sua armadura, mas o deixaram tonto e com ferimentos do tamanho de maçãs.
Não pare! Você já lidou com dores piores, convencia-se.
Investindo contra um grupo de oito soldados, Eragon atacou um atrás do outro, jogou seus piques para o lado e fez de Zar’roc um punhal que mais parecia um raio mortal. No entanto, a luta havia enfraquecido seus reflexos e um soldado conseguiu atravessar a couraça de malhas de Eragon com seu pique e cortou seu tríceps esquerdo.
Os soldados se encolheram quando Saphira rugiu. Eragon aproveitou a distração para se fortalecer com a energia armazenada dentro do rubi no punho de Zar’roc e depois matou os três soldados restantes.
Estendendo seu rabo por cima dele, Saphira atingiu um grupo de homens, tirando-os do seu caminho. Na calmaria que se seguiu, Eragon olhou para o seu braço que pulsava e disse:
— Waíse heill!
Eragon curou os próprios ferimentos, confiando no rubi de Zar’roc, assim como nos diamantes do cinto de Beloth o Sábio. Então, os dois continuaram.
Eragon e Saphira obstruíram a Campina Ardente com montanhas dos seus inimigos e, mesmo assim, o Império jamais chegou a hesitar ou recuar. Para cada homem que matavam, outro dava um passo à frente e tomava o seu lugar. Uma sensação de desesperança engolfou Eragon, enquanto uma massa de soldados forçava aos poucos os Varden a recuarem para seu próprio acampamento. Ele viu seu desespero espelhado nos rostos de Nasuada, Arya, rei Orrin e até mesmo no de Angela, quando passou por eles durante a batalha.
Todo o nosso treinamento e ainda assim não conseguimos deter o Império, enfureceu-se Eragon. Há soldados demais! Não podemos continuar nisso para sempre. E Zar’roc e o cinto estão quase exauridos.
Você pode sugar energia de tudo que lhe cerca, se precisar.
Não o farei, a não ser que consiga matar outro dos mágicos de Galbatorix e possa sugá-la dos soldados. Caso contrário, também estarei ferindo o resto dos Varden, já que não há plantas ou animais aqui que possam nos nutrir.
Enquanto as longas horas se arrastavam. Eragon se feria e ia ficando cansado e — despido de muitas de suas defesas arcanas — acumulou dezenas de lesões menores. Seu braço esquerdo ficou dormente devido aos incontáveis golpes desferidos contra o seu escudo lacerado. Um corte em sua testa não parava de sangrar e, misturado ao suor que escorria, acabou deixando-o cego. Ele pressentiu que um dos seus dedos podia estar quebrado.
Saphira não ia muito melhor. As armaduras dos soldados haviam rasgado a sua boca por dentro, dezenas de espadas e flechas cortaram suas asas desprotegidas e um dardo perfurou uma das placas de sua própria armadura, ferindo-a no ombro. Eragon viu a lança se aproximando e tentou desviá-la com um encanto, mas foi muito lento. Sempre que Saphira se movia, ela marcava o solo com centenas de gotas de sangue. Ao seu lado, três dos guerreiros de Orik caíram e dois dos Kull.
E o sol começou a descer, e sem ele veio a noite. Enquanto Eragon e Saphira se preparavam para o seu sétimo e último ataque, uma trompa soou ao leste, alta e clara, e o rei Orrin gritou:
— Os anões estão aqui! Os anões estão aqui!
Anões? Eragon surpreendeu-se e olhou em volta, confuso. Não viu nada além de soldados. Então, uma fonte de entusiasmo o percorreu assim que compreendeu. Os anões! Ele montou no dorso de Saphira, que por sua vez decolou, pendendo por um instante com suas asas machucadas, enquanto investigava o campo de batalha.
Era verdade — uma grande horda marchava, vinda do leste, na direção da Campina Ardente. Na dianteira, vinha o rei Hrothgar, vestido com a malha dourada e com o elmo cheio de joias sobre a testa, trazia Volund, seu antigo martelo de guerra, segurava-o com um punho de ferro. O rei anão ergueu Volund em sinal de cumprimento quando viu Eragon e Saphira.
Eragon berrou com todo o ar que tinha nos pulmões e retribuiu o gesto, brandiu Zar’roc no ar. Uma onda de vigor renovado o fez se esquecer dos seus ferimentos e se sentiu impetuoso e determinado novamente.
Saphira acrescentou sua voz à dele e os Varden a olharam com esperança enquanto os soldados do Império hesitavam com medo.
— O que você viu? — gritou Orik, enquanto Saphira aterrissava novamente. — É Hrothgar? Quantos guerreiros ele trouxe?
Estático de alívio, Eragon se ergueu em seu estribo e gritou:
— Animem-se, o rei Hrothgar está aqui! E parece que todos os anões do mundo vêm atrás dele! Vamos esmagar o Império! — Depois que os homens pararam de aplaudir, ele acrescentou: — Agora peguem suas espadas e lembrem a esses covardes pulguentos por que devem nos temer. Atacar!
Assim que Saphira saltou na direção dos soldados, Eragon ouviu um segundo grito, desta vez vindo do oeste:
— Um navio! Um navio está vindo pelo rio Jiet!
— Maldição — rosnou Eragon. Não podemos deixar que um navio ancore caso esteja trazendo reforços para o Império. Assim que entrou em contato com Trianna, ele afirmou: Diga a Nasuada que Saphira e eu vamos tomar conta disso. Afundaremos o navio, se ele pertencer a Galbatorix.
Como quiser, Argetlam, respondeu a feiticeira.
Sem hesitar, Saphira levantou voo, circulou bem acima da planície maltratada e fumegante. Enquanto o inexorável clamor da batalha ia sumindo dos seus ouvidos, Eragon respirou fundo, sentindo sua mente clarear. Lá embaixo, ele ficou surpreso ao ver como ambos os exércitos tinham se dispersado. O Império e os Varden haviam se desintegrado serie de grupos menores, que combatiam um ao outro, ao longo de toda a extensão da Campina Ardente. Foi também nessa desordem e confusão que os anões se inseriram, atingindo o Império lateralmente — como Orrin havia feito antes com sua cavalaria.
Eragon perdeu a batalha de vista quando Saphira virou para a esquerda e pairou no meio das nuvens, na direção do rio Jiet. Uma rajada de vento soprou a fumaça da turfa para longe e desvelou um navio com três mastros seguindo pela água laranja, remando contra a corrente com duas fileiras de remadores. O navio estava cheio de escoriações e danificado e não exibia bandeira alguma que declarasse a sua submissão. Todavia, Eragon se preparou para destruir a embarcação. Enquanto Saphira mergulhava em direção ao navio, ele ergueu Zar’roc por sobre a cabeça e soltou seu grito selvagem de guerra.

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