27 de maio de 2017

Capítulo 66 - Bebida das bruxas

A noite havia caído na Campina Ardente. A opacidade da fumaça cobria a lua e as estrelas, mergulhava a terra numa escuridão profunda que só foi quebrada pelo brilho sombrio das chamas esporádicas de turfa e das milhares de tochas que cada exército acendeu. Da posição de Eragon perto do pelotão dianteiro dos Varden, o Império parecia um denso ninho de luzes laranjas incertas tão grande quanto qualquer cidade.
Enquanto Eragon afivelava o último pedaço da armadura de Saphira a sua cauda, ele fechou os olhos para manter um melhor contato com os mágicos da Du Vrangr Gata. Tinha de aprender a localizá-los em um instante, sua vida poderia depender de uma comunicação rápida com eles. Por sua vez, os mágicos teriam de aprender a reconhecer o contato de sua mente, para não o bloquearem quando ele precisasse de ajuda. Eragon sorriu e disse:
— Olá, Orik. — Ele abriu os olhos para ver o anão escalando uma pedra baixa onde ele e Saphira estavam posicionados. Orik, que tinha o corpo completamente encoberto por uma armadura, carregava o seu arco de chifre de Urgal na mão esquerda.
Agachado ao lado de Eragon, Orik enxugou a testa e balançou a cabeça.
— Como você sabia que era eu? Eu estava me protegendo mentalmente.
Cada consciência tem suas especificidades, explicou Saphira. Assim como não há duas vozes que soem iguais.
— Ah.
— O que o traz aqui? — perguntou Eragon.
Orik balançou os ombros.
— Ocorreu-me que você poderia apreciar um pouco de companhia nesta noite soturna. Especialmente desde que Arya passou a ocupar uma posição diferente e você não tem Murtagh ao seu lado nesta batalha.
E eu gostaria de ter, pensou Eragon. Murtagh havia sido o único humano cuja perícia com a espada se equiparava a de Eragon, pelo menos antes do Agaetí Blödhren. Lutar com ele fora um dos poucos prazeres do Cavaleiro durante o tempo em que conviveram. Eu adoraria poder enfrentar você novamente, meu amigo.
Lembrar de como Murtagh havia sido morto — puxado para o subterrâneo por Urgals em Farthen Dûr — forçou Eragon a enfrentar uma verdade inabalável: não importa ser um grande guerreiro, geralmente o acaso é que decide quem vive e quem morre na guerra.
Orik deve ter percebido o ânimo do jovem, pois bateu no ombro de Eragon e disse:
— Você vai ficar bem. Imagine só como os soldados lá embaixo estão se sentindo, sabendo que terão de enfrentar você em breve!
A gratidão fez Eragon sorrir novamente.
— Fico feliz que você tenha vindo.
A ponta do nariz de Orik avermelhou-se e ele olhou para baixo, rolando seu arco entre as mãos ásperas.
— Ah, bem — murmurou ele. — Hrothgar não iria gostar muito se eu deixasse algo acontecer a você. Além do mais, somos irmãos de criação, não?
Através de Eragon, Saphira perguntou: E quanto aos outros anões? Eles não estão sob o seu comando?
Um vislumbre brotou nos olhos de Orik.
— Ora, sim, é claro que estão. E irão juntar-se a nós o quanto antes. Vendo Eragon como membro do dûrgrimst Ingeitum, é mais do que certo que devemos enfrentar o Império juntos. Dessa maneira, vocês dois estarão menos vulneráveis e poderão se concentrar em descobrir onde estão os mágicos de Galbatorix, em vez de ficarem se defendendo de ataques constantes.
— Boa ideia. Obrigado.
Orik grunhiu um agradecimento. Então Eragon perguntou:
— O que você acha de Nasuada e dos Urgals?
— Ela fez a escolha certa.
— Você concorda com ela!
— Concordo. Não gosto disso mais do que você, mas concordo.
O silencio os envolveu. Eragon se sentou, encostou-se em Saphira e passou a contemplar o Império, tentava evitar que sua crescente ansiedade o dominasse. Os minutos se arrastavam. Para ele, a espera interminável antes de uma batalha era tão estressante quanto a própria luta. Ele lubrificou a sela de Saphira, tirou poeira da sua couraça de malha e então voltou a se familiarizar com as mentes da Du Vrangr Gata, fazia qualquer coisa para passar o tempo.
Mais de uma hora depois, ele parou assim que sentiu dois seres se aproximando e vindo da terra de ninguém. Angela? Solembum? Confuso e sobressaltado, ele acordou Orik — que havia apagado — e lhe contou o que descobrira.
O anão franziu a testa e tirou seu machado de guerra do cinto.
— Só encontrei a herbolária poucas vezes, mas não parece o tipo de pessoa que iria nos trair. Ela tem sido bem-vinda entre os Varden há décadas.
— Ainda assim nós devíamos descobrir o que ela estava fazendo — disse Eragon.
Juntos seguiram pelo meio do acampamento para interceptar a dupla enquanto se aproximavam das fortificações. Angela logo começou a se apressar sob a luz, vinha com Solembum em seus calcanhares. A bruxa estava disfarçada com um manto que cobria o seu corpo inteiro e permitia que ela fosse confundida com o cenário sarapintado. Demonstrando uma soma surpreendente de vivacidade, força e flexibilidade, escalou as diversas barreiras que os anões haviam montado, balançou-se de estaca em estaca, pulou por cima de trincheiras, e finalmente desceu atabalhoadamente a face íngreme da última plataforma para parar, ofegante, perto de Saphira.
Jogando o capuz de seu manto para trás, Angela lhes dirigiu um sorriso cintilante:
— Um comitê de recepção! Como vocês são atenciosos. — Enquanto ela falava, o menino-gato tremia todo, com a pele enrugada. De repente, seu contorno começou a ficar borrado como se estivesse sendo visto através da água nebulosa, recompondo-se mais uma vez na forma da figura despida de um garoto coberto de pelos. Angela enfiou a mão numa bolsa de couro que havia em seu cinto e deu uma túnica de criança e um calção para Solembum, junto com a pequena adaga negra com a qual ele lutou.
— O que vocês estavam fazendo por lá? — perguntou Orik, analisando-os com um olhar suspeitoso.
— Oh, uma coisa e outra.
— Acho melhor você nos contar — disse Eragon.
O rosto dela endureceu.
— É mesmo? Vocês não confiam em mim e em Solembum? — O menino-gato mostrava seus dentes afiados.
— Não de verdade — admitiu Eragon, mas com um sorrisinho.
— Isso é bom — disse Angela. Ela passou a mão de leve no rosto dele. — Você vai viver mais tempo. Se quer saber, então, eu estava fazendo o melhor que eu podia para derrotar o Império, só que os meus métodos não envolvem gritar e ficar correndo por aí com uma espada na mão.
— E quais são exatamente os seus métodos? — resmungou Orik.
Angela fez uma pausa para enrolar o seu manto bem apertado, e em seguida o guardou em sua bolsa.
— Prefiro não dizer, quero que seja uma surpresa. Vocês não terão de esperar muito tempo para descobrir. Irá começar daqui a algumas horas.
Orik puxou sua barba.
— O que irá começar? Se você não puder nos dar uma resposta franca e direta, teremos que levá-la para Nasuada. Talvez ela consiga arrancar algum sentido do que você está dizendo.
— Não adianta vocês me arrastarem para onde Nasuada está — disse Angela. — Ela me deu permissão para atravessar a fronteira.
— Você é que está dizendo — desafiou Orik, ainda mais agressivo.
— Sou eu que estou dizendo — anunciou Nasuada, vindo detrás como Eragon sabia que ela faria. O jovem também sentiu que ela estava acompanhada de quatro Kull, um dos quais era Garzhvog. Franzindo a testa, ele se virou para encará-los, sem fazer nenhuma tentativa de esconder sua raiva com a presença dos Urgals.
— Minha lady — murmurou Eragon.
Orik não estava tão calmo: ele pulou para trás proferindo veementes imprecações e agarrando seu machado de guerra. Ele rapidamente percebeu que eles não estavam sob ataque e cumprimentou polidamente Nasuada. Mas sua mão não largava o cabo da sua arma e seus olhos não desviaram dos grandes e toscos Urgals. Angela parecia não ter esse tipo de dificuldade. Prestou a Nasuada as devidas referências e depois se dirigiu aos Urgals em sua língua primitiva, e eles responderam com um prazer evidente.
Nasuada arrastou Eragon para o lado a fim de que ambos tivessem um momento de privacidade.
— Preciso que você coloque os seus ressentimentos de lado por um instante e julgue o que estou prestes a lhe dizer com lógica e razão. Você pode fazer isso? — Ele acenou positivamente, com o rosto tenso. — Bom. Estou fazendo tudo que posso para garantir que não percamos amanhã. Não importa, no entanto, o quão bem lutemos, o quão bem eu venha a liderar os Varden, ou até mesmo se derrotarmos o Império se você — disse ela, batendo no peito de Eragon — for morto. Entende?
Ele acenou com a cabeça mais uma vez.
— Não há nada que eu possa fazer para protegê-lo se Galbatorix se revelar, se ele o fizer, você terá que enfrentá-lo sozinho. Du Vrangr Gata não representa mais do que uma ameaça para ele do que eles representam para você, e não farei com que eles sejam erradicados sem motivo.
— Eu sempre soube que iria encarar Galbatorix sozinho com Saphira — disse Eragon.
Um sorriso triste surgiu nos lábios de Nasuada. Ela parecia muito cansada sob as luzes bruxuleantes das tochas.
— Bem, não há motivo para inventar problemas quando eles não existem. É possível que Galbatorix nem esteja aqui. — No entanto, Nasuada não parecia acreditar em suas próprias palavras. — De qualquer maneira, posso ao menos impedir que vocês morram com um golpe de espada nas entranhas. Já soube o que os anões pretendem fazer e achei que poderia aperfeiçoar o conceito. Pedi a Garzhvog e três de seus aríetes que sejam os seus guardas, contanto que eles concordassem, o que o fizeram, em ter suas mentes vasculhadas por você em busca de algum indício de traição.
Eragon ficou rígido.
— Você não espera que eu vá lutar junto com esses monstros. Além do mais, já aceitei a oferta dos anões para defender a mim e a Saphira. Eles não receberiam bem a notícia de que os rejeitei em favor dos Urgals.
— Ambos podem defendê-lo — retrucou Nasuada. Ela examinou o rosto de Eragon durante um bom tempo, procurando por aquilo que ele não poderia dizer. — Oh, Eragon. Esperava que você pudesse enxergar além do seu ódio. O que mais você faria se estivesse na minha posição? — Ela suspirou quando viu que ele permaneceu em silêncio. — Se alguém tem motivo para guardar algum rancor contra os Urgals, sou eu. Eles mataram o meu pai. No entanto, não posso deixar que isso interfira na minha decisão do que é melhor para os Varden... Pelo menos peça a opinião de Saphira antes de dizer sim ou não. Posso ordená-lo a aceitar a proteção dos Urgals, mas preferia não ter de fazê-lo.
Você está sendo tolo, observou Saphira sem se mover.
Tolo por não querer os Kull nas minhas costas?
Não, tolo por recusar ajuda, não importando de onde ela venha, em nossa situação presente. Pense. Você sabe o que Oromis faria, e sabe o que ele diria. Você não confia em seu julgamento?
Ele não pode estar certo em relação a tudo, disse Eragon.
Isso não é argumento... Pense, Eragon, e diga-me se eu falo a verdade. Você sabe qual é o caminho correto. Ficaria desapontada se você não se permitisse compreender isso.
A indução de Saphira e Nasuada só deixara Eragon mais relutante em concordar. Contudo, ele sabia que não tinha escolha.
— Tudo bem, deixarei que me protejam, mas só se eu não achar nada suspeito em suas mentes. Vocês me prometem que, depois dessa batalha, não vão me fazer trabalhar com um Urgal novamente?
Nasuada balançou a cabeça.
— Não posso prometer-lhe, não se isso puder vir a afetar os Varden. — Ela fez uma pausa e disse: — Ah, mais uma coisa, Eragon.
— Sim, minha lady?
— Caso eu venha a morrer, escolhi você como meu sucessor. Se isso acontecer, sugiro que você se fie na opinião de Jörmundur, pois ele tem mais experiência do que os outros membros do Conselho de Anciãos. Espero que você coloque o bem-estar daqueles que estão abaixo de você acima de tudo o mais. Estou sendo clara, Eragon?
Seu anúncio o pegou de surpresa. Nada para ela significava mais do que os Varden. Oferecer sua sucessão para ele era o maior gesto de confiança que ela poderia fazer. Sua firmeza o tornou humilde e o tocou, ele fez uma reverência.
— Eu teria de me esforçar enormemente para ser um líder tão bom quanto você e Ajihad. Você me honra, Nasuada.
— Sim, eu o honro. — Dando-lhe as costas, ela se juntou novamente aos outros.
Ainda desarmado pela revelação de Nasuada, e descobrindo que sua raiva havia diminuído por causa disso, Eragon voltou lentamente até onde Saphira estava. Ele estudou Garzhvog e os outros Urgals, tentando julgar sua disposição, mas seus traços eram tão diferentes daqueles com os quais estava acostumado que ele não podia discernir nada além da mais tranca das emoções. Nem podia encontrar qualquer empatia dentro de si pelos Urgals. Para o jovem, eles não passavam de feras bestiais que iriam matá-lo logo que fosse possível e eram incapazes de manifestar amor, doçura ou até mesmo uma inteligência verdadeira. Em suma, eles eram seres inferiores.
Bem no fundo de sua mente, Saphira sussurrou: Tenho certeza de que Galbatorix partilha da mesma opinião.
E por um bom motivo, resmungou ele, na intenção de chocá-la. Suprimindo sua revolta, Eragon disse em voz alta:
— Nar Garzhvog, me disseram que vocês quatro concordaram em me deixar invadir suas mentes.
— É verdade, Espada de Fogo. Lady Caçadora Noturna nos alertou sobre as exigências. Estamos honrados por ter a chance de lutar ao lado de um guerreiro tão poderoso e que já fez tanto por nós.
— O que você quer dizer com isso? Já matei vários da sua espécie. — Espontaneamente, trechos de um dos pergaminhos de Oromis veio à mente de Eragon. Ele se lembrou de ter lido que Urgals, tanto machos quanto fêmeas, determinavam sua posição na sociedade através do combate, e que fora essa prática, acima de tudo, que levou a tantos conflitos entre os Urgals e as outras raças. Isso significava que, como ele percebeu, se admiravam seus feitos nos campos de batalha, então podiam ter lhe conferido o mesmo status de um dos seus comandantes.
— Ao matar Durza, você nos livrou do seu controle. Estamos em dívida com você, Espada de Fogo. Nenhum dos nossos aríetes irá desafiá-lo e, se um dia resolver visitar nosso lar, você e o dragão, Língua em Chamas, serão bem-vindos como nenhum outro estrangeiro.
De todas as respostas que Eragon esperava, gratidão era a última e era a que ele menos sentia-se preparado para lidar. Incapaz de pensar em outra coisa, ele disse:
— Não me esquecerei. — Ele voltou seu olhar para os outros Urgals e depois retornou para Garzhvog e seus olhos amarelos. — Você está pronto?
— Sim, Cavaleiro.
Enquanto Eragon penetrava na consciência de Garzhvog, lembrou-se como os Gêmeos invadiram a sua mente quando ele entrou em Farthen dûr. Tal observação foi varrida assim que ele mergulhou na identidade do Urgal. A verdadeira natureza da sua busca — procurar uma intenção malévola escondida talvez em algum lugar do passado de Garzhvog — significava que Eragon tinha de examinar anos de lembranças. Ao contrário dos Gêmeos, o Cavaleiro evitou provocar uma dor deliberada, mas não foi totalmente gentil. Ele podia sentir Garzhvog se encolhendo com pontadas ocasionais de desconforto.
Assim como anões e elfos, a mente de um Urgal possuía elementos diferentes de uma mente humana. Sua estrutura enfatizava a rigidez e a hierarquia — resultado das tribos nas quais os Urgals se organizavam —, mas parecia dura e crua, brutal e astuciosa: a mente de um animal selvagem.
Embora não fizesse nenhum esforço para aprender mais sobre Garzhvog como indivíduo, Eragon não pôde deixar de absorver pedaços da vida do Urgal. Garzhvog não resistiu. Na verdade, parecia ansioso para compartilhar suas experiências, para convencer Eragon de que os Urgals não eram inimigos de berço. Não podemos permitir que surja outro Cavaleiro queira nos destruir, disse Garzhvog. Veja bem, ó Espada de Fogo, e veja se somos realmente os monstros que você acredita que somos...
Foram tantas imagens e sensações que reverberaram entre os dois, Eragon quase se perdeu: a infância de Garzhvog com os outros membros da sua raça, num vilarejo rústico construído dentro do coração da Espinha, sua mãe escovava o seu cabelo com os chifres de um cervo e cantando uma suave canção, aprendia a caçar veados e outras presas com as próprias mãos, crescia cada vez mais até ficar aparente que o antigo sangue ainda fluía em suas veias e que ele ficaria com mais de dois metros e meio de altura, o que o tornaria um Kull, as dezenas de desafios que fez, aceitou e venceu, aventurou-se fora do vilarejo para ganhar renome, a fim de que pudesse acasalar e aos poucos aprender a odiar, desconfiar e temer — sim, temer — o mundo que havia condenado a sua raça, lutava em Farthen Dûr, descobria que eles haviam sido manipulados por Durza, e percebeu, enfim, que sua única esperança de uma vida melhor era colocar de lado as velhas diferenças, ser amigo dos Varden e ver Galbatorix derrotado. Não havia evidência em lugar nenhum de que Garzhvog havia mentido.
Eragon não podia entender o que acabava de ver. Saiu da mente de Garzhvog, depois mergulhou dentro de cada um dos três Urgals restantes. Suas memórias confirmaram os fatos apresentados por Garzhvog. Eles não fizeram nenhuma tentativa de esconder que tinham assassinado humanos, mas isso havia sido feito sob o comando do Espectro quando o feiticeiro os controlava, ou quando enfrentavam humanos por comida ou terra. Fizemos o que tinha de ser feito para cuidar de nossas famílias, disseram eles.
Quando terminou, Eragon ficou em pé adiante de Garzhovg e sabia que a linhagem do Urgal era tão régia quanto a de qualquer príncipe. Ele sabia que, embora inculto, Garzhvog era um comandante brilhante e se tratava de um pensador e filósofo tão bom quanto Oromis. Ele com certeza é mais brilhante do que eu, admitiu Eragon para Saphira. Pigarreando em sinal de respeito, ele disse em voz alta, “Nar Garzhvog”, e pela primeira vez compreendeu a origem grandiosa do título nar.
— Estou orgulhoso por ter você ao meu lado. Pode falar para as Herndall que, enquanto os Urgals mantiverem a sua palavra e não se voltarem contra os Varden, eu não irei opô-los. — Eragon duvidou que um dia fosse gostar de um Urgal, mas a convicção ferrenha de seu preconceito, há apenas uns poucos minutos, pareciam agora fruto de sua ignorância, e ele não podia retê-la em boa consciência.
Saphira bateu de leve no braço do parceiro com sua língua farpada, fazendo a malha retinir. É necessário coragem para admitir que você estava errado.
Só se você está com medo de parecer tolo, eu teria parecido muito mais tolo se persistisse numa crença errônea.
Ora, pequenino, você acabou de dizer algo inteligente. Apesar da sua provocação, ele podia sentir o grande orgulho que ela manifestava pelo que ele havia feito.
— Mais uma vez estamos em dívida para com você, Espada de Fogo — disse Garzhvog. Ele e os outros Urgals bateram com os punhos nas testas protuberantes.
Eragon podia imaginar que Nasuada queria saber os detalhes do que havia acabado de acontecer, mas isso ela guardou para si.
— Bom. Agora que tudo está resolvido, tenho de partir. Eragon, você receberá meu sinal por intermédio de Trianna quando chegar a hora. — Em seguida, ela se afastou no meio da escuridão.
Enquanto Eragon se acomodava ao lado de Saphira, Orik se aproximou silenciosamente.
— É uma sorte que nós anões estejamos por aqui, hein? Veremos os Kull como falcões, veremos sim. Não deixaremos que eles o peguem quando estiver de costas. No momento em que atacarem, cortaremos suas pernas na mesma hora.
— Achei que você concordasse com o fato de Nasuada ter aceitado a  oferta dos Urgals.
— Isso não quer dizer que eu confio neles ou que quero estar ao seu lado, não é? — Eragon sorriu e não se dignou a discutir, seria impossível convencer Orik de que os Urgals não eram assassinos vorazes, quando ele mesmo havia se recusado a considerar tal possibilidade, até partilhar das lembranças de um deles.
A noite caía pesada em torno deles, enquanto aguardavam o amanhecer. Orik tirou uma pedra de amolar do seu bolso e começou a afiar o fio de seu machado. Assim que chegaram, os outros seis anões fizeram o mesmo, e o raspar do metal na pedra encheu o ar de um ranger em uníssono. Os Kull se sentavam de costas um para o outro, entoaram canções de morte em voz baixa. Eragon passou o tempo erguendo defesas em torno de si mesmo, Saphira, Nasuada, Orik e até de Arya. Ele sabia que era perigoso proteger tanta gente, mas não conseguiria aguentar caso eles fossem feridos. Quando terminou, ele transferiu o poder que restou para os diamantes incrustados no cinto de Beloth, o Sábio.
Eragon ficou observando Angela com interesse, ao vê-la vestida com armadura verde e negra, e depois quando pegou uma caixa de madeira entalhada para montar sua espada, a partir de dois cabos diferentes que se encaixavam no meio e duas lâminas de aço enrascadas às extremidades da estaca resultante. Ela ficou girando a arma completa algumas vezes em volta da cabeça, antes de se certificar de que aguentaria o choque da batalha.
Os anões a olharam com um ar de desaprovação e Eragon ouviu um deles murmurar:
— ... blasfêmia que alguém além do Dûrgrimst Quan possa brandir a hûthvír.
Depois disso, o único som que se pôde ouvir foi a música dissonante dos anões amolando suas lâminas.
Estava quase amanhecendo quando os gritos começaram. Eragon e Saphira os notaram antes por causa de seus sentidos ampliados, mas os gritos agonizantes logo estavam altos o suficiente para que todos pudessem ouvi-los. Assim que se levantou, Orik olhou em direção ao Império, onde acacofonia se originou.
— Que espécie de criaturas eles estão torturando para arrancar uivos tão medonhos? Esse som faz o tutano dos meus ossos congelar, e como.
— Eu lhes disse que a espera não seria longa — disse Angela. Sua antiga alegria a havia abandonado, ela estava pálida, tensa e ostentava um rosto envelhecido, como se estivesse doente.
Do seu posto ao lado de Saphira, Eragon perguntou à herbolária:
— Você fez isso?
— Sim. Envenenei a carne ensopada, o pão, a bebida... tudo em que pude botar as mãos. Alguns morrerão agora, outros morrerão mais tarde quando as várias toxinas forem envenenando suas vítimas. Fiz os oficiais deles tomarem beladona e outros venenos, para que eles tenham alucinações durante a batalha. — Ela tentou sorrir, mas sem muito sucesso. — Não é uma maneira muito honrada de lutar, suponho, mas prefiro fazer isso a morrer.
— Só um covarde ou um ladrão usa veneno! — exclamou Orik. — Que glória há em derrotar um adversário doente? — Os gritos foram se intensificando enquanto ele falava.
Angela deu uma gargalhada desprezível.
— Glória? Se você quiser glória, há milhares de outras tropas que não envenenei. Estou certo de que você terá a sua cota de glória até o fim do dia.
— É por isso que você precisava do equipamento na tenda de Orrin? — perguntou Eragon.
Ele achou seu feito repugnante, mas não ousou definir se fora bom ou mau. Era necessário. Angela havia envenenado os soldados pelo mesmo motivo que Nasuada havia aceitado a oferta de amizade dos Urgals... porque poderia ser sua única chance de sobrevivência.
— Isso mesmo.
Os lamentos dos soldados aumentaram ao ponto de Eragon ansiar por tapar seus ouvidos e bloquear o som. Isso o fez estremecer e se inquietar, além de mexer com os seus nervos. Ele, no entanto, se forçou a escutar. Era o preço de resistir ao Império. Seria errado ignorar. Por isso ele manteve os punhos e os dentes dolorosamente cerrados, enquanto a Campina Ardente ecoava as vozes desencarnadas dos homens que iam morrendo.

Um comentário:

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Boa leitura :)