27 de maio de 2017

Capítulo 65 - Nar Garzhvog

Eragon entrou no pavilhão, Saphira enfiou a cabeça em seu interior, seguindo-o. Ele foi recebido com o som estridente do aço, quando Jörmundur e meia dúzia de oficiais de Nasuada desembainharam suas espadas na direção dos intrusos. Os homens baixaram suas armas quando Nasuada disse:
— Venha aqui, Eragon.
— Qual é a sua ordem? — perguntou o Cavaleiro.
— Nossos batedores relataram que um grupo de aproximadamente cem Kull estão se aproximando, vindo do noroeste.
Eragon franziu a testa. Ele não esperava que fosse encontrar Urgals nessa batalha, já que Durza não mais os controlava e tantos haviam sido mortos em Farthen Dûr. Mas se eles vieram, vieram. O jovem sentiu sua sede de sangue aumentar e se permitiu um sorriso brutal enquanto contemplava a possibilidade de destruir Urgals com o seu novo poder.
Batendo com a mão no cabo de Zar’roc, ele disse:
— Será um prazer eliminá-los. Saphira e eu podemos lidar com isso sozinhos se vocês quiserem.
Nasuada olhou cuidadosamente para o seu rosto e disse:
— Não podemos fazer isso, Eragon. Eles estão hasteando uma bandeira branca, e pediram para falar comigo.
Eragon ficou boquiaberto.
— Com certeza você não pretende conceder-lhes uma audiência?
— Oferecerei a eles as mesmas cortesias que daria para qualquer adversário que chegue hasteando a bandeira da trégua.
— Mas eles são bárbaros. Monstros! É uma insensatez deixar que eles adentrem o acampamento... Nasuada, eu vi as atrocidades que os Urgals cometem. Eles têm prazer em causar dor e sofrimento e não merecem mais piedade do que um cão enraivecido. Não há necessidade de você perder tempo com uma armadilha tão óbvia. É só dar a sua palavra que eu e cada um dos seus guerreiros estaremos mais do que dispostos a matar essas criaturas asquerosas para você.
— Nisso — disse Jörmundur —, eu concordo com Eragon. Se você não nos ouve, Nasuada, pelo menos ouça a ele.
Primeiro, Nasuada se dirigiu a Eragon num murmurar tão baixo que ninguém mais pôde ouvir:
— De fato, o seu treinamento ainda está inacabado, visto que você está tão cego. — Depois, ela ergueu a voz e nela o Cavaleiro ouviu o mesmo tom de comando inflexível que seu pai possuíra: — Vocês se esquecem de que lutei em Farthen Dûr, do mesmo jeito que todos aqui, e que vi a selvageria dos Urgals... No entanto, também vi que nossos homens cometem atos igualmente abomináveis. Não posso subestimar o que passamos nas mãos dos Urgals, mas também não posso ignorar aliados em potencial quando estamos em número bem menor do que o Império.
— Minha lady, é perigoso demais para você ir ao encontro de um Kull.
— Perigoso demais? — Nasuada ergueu uma sobrancelha. — Enquanto eu estiver protegida por Eragon, Saphira, Elva e todos os guerreiros em torno de mim? Acho que não.
Eragon rangeu os dentes em frustração. Diga algo, Saphira. Você pode convencê-la a desistir desse plano impulsivo.
Eu não. A sua mente está nebulosa acerca desse problema.
Você não pode concordar com ela!, exclamou Eragon, espantado. Você estava lá em Yazuac comigo, sabe o que os Urgals fizeram com os aldeões. E o que dizer de quando deixamos Teirm, minha captura em Gil’ead e Farthen Dûr? Todas as vezes em que encontramos Urgals, eles tentaram nos matar ou coisa pior. Eles não passam de animais cruéis.
Os elfos acreditavam na mesma coisa em relação aos dragões durante a Du Fyrn Skulblaka.
Ao comando de Nasuada, seus guardas desataram os painéis frontais e laterais do pavilhão, deixando-o aberto para que todos vissem o seu interior e permitiram que Saphira se agachasse ao lado de Eragon.
Então, Nasuada se sentou em sua cadeira de encosto alto, enquanto Jörmundur e os outros oficiais se organizavam em duas fileiras paralelas para que qualquer um que houvesse solicitado uma audiência com ela tivesse que andar no meio deles. Eragon ficou à sua direita, e Elva à esquerda.
Menos de cinco minutos depois, um grande berro de raiva estourou do lado leste do acampamento. O ataque de zombarias e insultos foi ficando cada vez mais forte até o momento em que um só Kull entrou no campo de visão deles, andava na direção de Nasuada, enquanto urna horda dos Varden o bombardeava com provocações. O Urgal — ou aríete, como Eragon bem se lembrava que eles eram chamados — ergueu sua cabeça e deixou à mostra suas presas amareladas, mas não reagiu ao tratatratamento áspero que estava recebendo. Tratava-se de um espécime magnífico, tinha dois metros e meio de altura, feições fortes e imponentes — apesar de grotescas —, chifres grossos que se erguiam em espiral e uma musculatura fantástica que dava a impressão de que ele poderia matar um urso com um único golpe.
Suas roupas se resumiam a uma amarrada, algumas placas de ferro bruto presas com pedaços de malha e um disco de metal curvo aninhado entre os dois chifres para proteger o topo da cabeça. Seu cabelo longo e negro estava amarrado num rabo.
Eragon sentiu seus lábios se apertarem numa expressão de ódio, ele tinha que se conter para não sacar Zar’roc e atacar. Contudo, apesar do que estava sentindo por dentro, ele não pôde deixar de admirar a coragem do Urgal em confrontar um exército inteiro de inimigos sozinho e desarmado.
Para a sua surpresa, notou que a mente do Kull estava fortemente protegida. Quando o Urgal parou em frente às abas do pavilhão, não ousava se aproximar mais, Nasuada ordenou que seus guardas gritassem para acalmar a multidão. Todos olharam para o Urgal, perguntavam-se o que ele faria depois. O Urgal levantou seus braços salientes para o céu, inspirou profundamente, depois abriu a boca e berrou para Nasuada. Num instante, um festival de flechas foi apontado para o Kull, mas ele não prestou atenção e prosseguiu no seu lamento até seus pulmões se esvaziarem. Depois, olhou para Nasuada, ignorando as centenas de pessoas que, como era óbvio, ansiavam por matá-lo, e resmungou num sotaque denso e gutural:
— Que traição é essa, lady Caçadora Noturna? Você prometeu que a minha passagem seria segura. Será que os humanos quebram a sua palavra tão facilmente?
Inclinando-se em sua direção, um dos oficiais de Nasuada disse:
— Deixe-nos puni-lo, senhora, por sua insolência. Assim que lhe ensinarmos o que quer dizer respeito, você então poderá ouvir sua mensagem, seja lá o que for.
Eragon queria permanecer em silêncio, mas sabia do seu dever para Nasuada e os Varden, por isso se agachou e disse no ouvido da soberana:
— Não tome como ofensa. É assim que eles cumprimentam seus chefes de guerra. A reação apropriada seria bater cabeças, mas não creio que você queira experimentar isso.
— Os elfos ensinaram isso? — murmurou ela, sem tirar os olhos do Kull que a esperava.
— Sim.
— O que mais lhe ensinaram sobre os Urgals?
— Bastante coisa — admitiu relutante.
Então Nasuada se dirigiu ao Kull e também para os seus homens que estavam mais afastados.
— Os Varden não são mentirosos como Galbatorix e o Império. Diga o que tem em mente, você não precisa temer nada enquanto estivermos reunidos e em trégua.
O Urgal resmungou e levantou seu queixo ossudo, expondo a garganta: Eragon reconheceu isso como um gesto de amizade. Baixar a cabeça era um sinal de ameaça em sua raça, pois significava que um Urgal queria cravar seus chifres no inimigo.
— Sou Nar Garzhvog da tribo Bolvek. Falo pelo meu povo. — Parecia que ele mastigava cada palavra antes de cuspi-la. — Os Urgals são mais odiados do que qualquer outra raça. Elfos, anões, humanos, todos nos caçam, nos queimam e nos expulsam de nossas moradas.
— Não sem um bom motivo — salientou Nasuada.
Garzhvog assentiu.
— Não sem um bom motivo. Nosso povo ama guerrear. Entretanto, com que frequência somos atacados apenas porque vocês nos acham tão feios quanto nós os achamos? Nós temos prosperado desde a queda dos Cavaleiros. Agora nossas tribos são tão grandes que a terra árida em que vivemos não pode mais nos alimentar.
— Então. vocês fizeram um acordo com Galbatorix.
— Sim, lady Caçadora Noturna. Ele nos prometeu uma boa terra caso matássemos seus inimigos. No entanto, nos enganou. Seu xamã de cabelos de fogo, Durza, virou as cabeças dos nossos comandantes e forçou nossas tribos a trabalharem juntas, como não é do nosso feitio. Quando descobrimos isso na montanha oca dos anões, as Herndall, as fêmeas que nos governam, mandaram minha procriadora para conversar com Galbatorix e perguntar por que ele havia nos usado. — Garzhvog balançou sua pesada cabeça. — Ela não retornou. Nossas melhores fêmeas foram mortas por Galbatorix e depois ele nos abandonou como se fossemos uma espada partida. Ele é uma drajl, possui uma língua traiçoeira e é um traidor sem chifres. Lady Caçadora Noturna, estamos em menor número agora, mas lutaremos ao seu lado se você permitir.
— Qual é o preço? — perguntou Nasuada. — Suas Herndall vão querer algo em troca.
— Sangue. O sangue de Galbatorix. E se o Império cair, pediremos para que você nos dê terras, terras para procriar e plantar, terras para evitar mais batalhas no futuro.
Eragon adivinhou a decisão de Nasuada pelas feições de seu rosto, mesmo antes de ela se pronunciar. Aparentemente, Jörmundur também, pois se inclinou em sua direção e disse em voz baixa:
— Nasuada, você não pode fazer isso. Vai contra a natureza.
— A natureza não pode nos ajudar a derrotar o Império. Precisamos de aliados.
— Os homens desertarão antes de começarmos a lutar ao lado dos Urgals.
— Isso pode ser resolvido. Eragon, você acha que eles manterão sua palavra?
— Só enquanto partilharmos de um inimigo em comum.
Com um aceno de cabeça pronunciado, Nasuada mais uma vez levantou a voz:
— Muito bem, Nar Garzhvog. Você e os seus guerreiros podem acampar ao longo do flanco leste do nosso exército, afastados da nossa formação principal, e discutiremos os termos do nosso pacto.
— Ahgrat uknar — rugiu o Kull, batendo com os punhos na testa. — Você é uma Herndall sábia, lady Caçadora Noturna.
— Por que você me chama assim?
— Herndall?
— Não, Caçadora Noturna.
Garzhvog soltou um pigarro pela garganta, que Eragon interpretou como uma gargalhada.
— Caçador Noturno é o nome que dávamos ao seu pai por causa do jeito que ele nos caçava nos túneis escuros sob a montanha dos anões e por causa da cor de sua pele. Como sua filha, você é merecedora do mesmo nome. — Com isso ele se virou abruptamente e saiu a passos largos do acampamento.
Levantando, Nasuada proclamou:
— Qualquer um que atacar os Urgals deverá ser punido como se tivesse atacado um companheiro humano. Quero que essa mensagem seja afixada em todas as subdivisões do nosso regimento.
Pouco depois que ela terminou, Eragon notou o rei Orrin se aproximando a passos rápidos, com a capa esvoaçante às suas costas. Quando se aproximou o bastante, gritou:
— Nasuada! É verdade que você se encontrou com um Urgal? O que você quis com isso e por que eu não fui alertado antes? Eu não...
Ele foi interrompido quando um sentinela emergiu das fileiras de tendas cinzentas, gritando:
— Um cavaleiro vindo do Império se aproxima!
Num instante, o rei Orrin se esqueceu da reclamação e se juntou a Nasuada enquanto ela corria na direção do pelotão dianteiro do seu exército, seguida por pelo menos cem pessoas. Em vez de ficar no meio da multidão, Eragon pulou em cima de Saphira e deixou que ela o carregasse até seu destino.
Quando Saphira parou nas plataformas, trincheiras e fileiras de estacas pontiagudas que protegiam a dianteira dos Varden, Eragon viu um soldado solitário rasgando furiosamente a desolada terra de ninguém. Acima dele, as aves de rapina arremeteram para ver se a primeira leva do seu banquete havia chegado.
O soldado puxou as rédeas de seu garanhão negro a uns trinta metros da barreira de proteção, ficando o mais distante possível dos Varden.
E gritou:
— Ao recusarem os termos generosos de rendição do rei Galbatorix, vocês optaram pela morte como seu destino, não negociaremos mais. A mão da amizade se transformou no punho da guerra! Se algum de vocês ainda tiver alguma consideração para com o seu legítimo soberano, aquele que tudo sabe, o todo-poderoso rei Galbatorix, então fuja! Ninguém deve estar em nosso caminho assim que partirmos para limpar a Alagaësia de todos os infames, traidores e subversivos. E embora doa muito em nosso senhor, pois ele sabe que a maior parte desses atos rebeldes foi instigada por líderes amargos e mal orientados, teremos que punir com dignidade o território ilegítimo conhecido como Surda e devolvê-lo para o comando benevolente do rei Galbatorix, ele que se sacrifica dia e noite pelo bem de sua gente. Por isso fujam, volto a afirmar, ou sofram o mesmo destino do seu arauto.
Com isso, o soldado abriu um saco de lona e mostrou uma cabeça mutilada. Ele a jogou no ar e a viu caindo no meio dos Varden, para depois dar meia-volta com seu garanhão, que abriu caminho com suas esporas e galopou de volta na direção da multidão sombria que formava o exército de Galbatorix.
— Devo matá-lo? — perguntou Eragon. Nasuada balançou negativamente a cabeça.
— Logo teremos a nossa oportunidade. Não violarei as regras dos enviados, mesmo que o Império viole.
— Como você... — Ele gritou de surpresa e apertou o pescoço de Saphira para que não caísse, enquanto ela se empinava na plataforma, apoiando as patas dianteiras sobre o aterro verde e amarelo. Abrindo sua mandíbula, Saphira deu um rugido longo e profundo, bem parecido com o de Garzhvog, só que o seu desafiava e provocava seus inimigos, um aviso da ira que eles haviam instigado, e uma espécie de toque de trombeta para todos que odiavam Galbatorix.
O som de sua voz de clarim assustou tanto o garanhão, que este se esquivou para a direita, escorregou no terreno aquecido e caiu de lado. O soldado foi jogado do cavalo e caiu numa poça de fogo que entrava em erupção naquele mesmo instante. O sujeito deu um só grito que, de tão horripilante, fez o couro cabeludo de Eragon se arrepiar, e depois ficou num silêncio que duraria para todo o sempre.
Os pássaros começaram a descer.
Os Varden aplaudiram o feito de Saphira. Até mesmo Nasuada se permitiu dar um pequeno sorriso. Depois ela bateu palmas e disse:
— Eles atacarão ao alvorecer, creio. Eragon, reúna a Du Vrangr Gata e prepare-se para agir. Terei ordens para vocês daqui a uma hora.
Levando Orrin pelo ombro, ela o guiou de volta na direção do complexo, dizendo:
— Majestade, há decisões que precisamos tomar, tenho um certo plano, mas ele exigirá...
Deixe que eles venham, disse Saphira. A ponta da sua cauda se contraía como a de um felino à espreita de um coelho. Todos eles irão arder.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)