27 de maio de 2017

Capítulo 64 - As nuvens da guerra

De lá, eles demoraram quase meia hora para localizar a tenda de Trianna, que aparentemente servia como quartel-general da Du Vrangr Gata.
Os dois tiveram dificuldade para encontrá-la porque poucas pessoas sabiam da sua existência, e um número ainda menor conseguia dizer onde ela estava, pois o pavilhão estava escondido atrás de um contraforte que servia para escondê-lo dos olhos dos mágicos inimigos no exército de Galbatorix.
Enquanto Eragon e Saphira se aproximavam da tenda negra, a entrada foi aberta e Trianna saiu, com os braços expostos até a altura do cotovelo, preparando-se para usar magia. Atrás dela, havia uma pequena aglomeração de feiticeiros determinados, apesar de amedrontados, muitos deles Eragon havia visto durante a batalha em Farthen Dûr, lutando ou curando os feridos.
Eragon notou quando Trianna e os outros reagiram com a já esperada surpresa por causa de sua aparência alterada. Baixando os braços, Trianna disse:
— Matador de Espectros, Saphira. Vocês deviam ter nos avisado logo que estavam aqui. Temos nos preparado para enfrentar e combater o que julgamos ser um adversário poderoso.
— Não quis contrariá-la — disse Eragon —, mas tivemos que nos apresentar a Nasuada e ao rei Orrin imediatamente, logo depois que pousamos.
— E por que está nos dando o ar da sua graça agora? Você nunca nos concedeu a honra de uma visita antes, nós que somos mais seus irmãos do que qualquer um entre os Varden.
— Eu tenho que assumir o comando da Du Vrangr Gata. — Os feiticeiros reunidos murmuraram surpresos com o seu anúncio e Trianna ficou parada onde estava. Eragon sentiu que vários mágicos sondaram sua consciência, numa tentativa de adivinhar suas verdadeiras intenções. Em vez de se proteger (o que o deixaria cego para ataques iminentes), Eragon retaliou atacando as mentes dos pretensos invasores, com força suficiente para que eles se sentissem obrigados recuar e reerguer suas próprias barreiras. Enquanto o fazia, Eragon teve a satisfação de ver dois homens e uma mulher se encolhendo e desviando seus olhares.
— Por ordem de quem? — perguntou Trianna.
— De Nasuada.
— Ah — disse a feiticeira com um sorriso triunfante —, mas Nasuada tem autoridade direta sobre nós. Nós ajudamos os Varden por pura e espontânea vontade.
Sua resistência deixou Eragon intrigado.
— Tenho certeza de que Nasuada ficaria surpresa ao ouvir isso, depois de tudo que ela e seu pai fizeram pela Du Vrangr Gata. Isso pode lhe dar impressão de que vocês não querem mais o apoio e a proteção dos Varden. — Ele deixou a ameaça suspensa no ar por um instante. — Além do mais, acho que me lembro de você estar disposta a me dar esse posto antes. Por que não agora?
Trianna levantou uma sobrancelha.
— Você recusou a minha oferta, Matador de Espectros... ou já se esqueceu? — Serena como ela estava, uma certa defensiva coloriu sua resposta, e Eragon suspeitou que ela sabia que sua posição era insustentável. A feiticeira lhe pareceu mais madura do que na última vez em que se encontraram, e ele teve que lembrar a si mesmo dos apuros que ela deve ter passado desde então: marchar da Alagaësia para Surda, supervisionar os mágicos da Du Vrangr Gata e se preparar para a guerra.
— Não pude aceitá-la na época. Era a hora errada.
Mudando abruptamente de tática, ela perguntou:
— Por que Nasuada acredita que você deve nos comandar de qualquer jeito? Você e Saphira, com certeza, seriam mais úteis em outro lugar.
— Nasuada quer que eu os lidere, da Du Vrangr Gata, na batalha que está por vir, e assim o farei. — Eragon achou por bem não mencionar que a ideia era sua.
Um olhar furioso e soturno deu a Trianna um ar ameaçador. Apontou para o grupo de feiticeiros atrás dela.
— Devotamos nossas vidas para o estudo da nossa arte. Você tem lançado encantos há menos de dois anos. O que o torna mais qualificado para essa tarefa do que qualquer um de nós?... Não importa. Diga-me: Qual é a sua estratégia? Como você planeja nos usar?
— Meu plano é simples — disse ele. — Vocês irão unir as suas mentes num todo e buscar feiticeiros inimigos. Quando encontrarem um, eu unirei minha força às suas, e juntos poderemos esmagar a resistência do sujeito. Depois poderemos arrasar as tropas que previamente estavam protegidas por suas defesas.
— E o que você ficará fazendo o resto do tempo?
— Lutarei ao lado de Saphira.
Depois de um silêncio embaraçoso, um dos homens atrás de Trianna se pronunciou:
— É um bom plano. — Ele tremeu quando Trianna lhe desferiu um olhar furioso.
Ela lentamente encarou Eragon novamente.
— Desde que os Gêmeos morreram, eu tenho liderado a Du Vrangr Gata. Sob a minha orientação, eles providenciaram os meios para financiar o esforço de guerra dos Varden, desmascararam a Mão Negra (a rede de espiões de Galbatorix que tentou assassinar Nasuada), assim como fizeram inúmeros outros serviços. Eu não estou me gabando quando digo que esses não são feitos simples. E tenho certeza de que posso continuar a produzir tais resultados... Por que, então, Nasuada quer me depor? Como eu posso tê-la desagradado?
Tudo ficou claro para Eragon, então. Ela foi se acostumando com o poder e não quer entregá-lo. Porém, mais do que isso, ela acha que o fato de eu a estar substituindo é uma crítica à sua liderança.
Você precisa solucionar essa questão, e rapidamente, disse Saphira. Nosso tempo é curto.
Eragon ficou quebrando a cabeça para descobrir uma maneira de estabelecer sua autoridade na Du Vrangr Gata sem se indispor mais com Trianna. Até que finalmente ele disse:
— Não vim até aqui para causar problemas. Vim pedir a sua ajuda. — Ele falou para toda a congregação, mas só olhou para a feiticeira. — Sou forte, sim. Saphira e eu provavelmente poderíamos derrotar qualquer número de mágicos favoritos de Galbatorix. Mas não podemos proteger todos entre os Varden. Não podemos estar em toda parte. E se os magos de guerra do Império juntarem suas forças contra nós, então até mesmo nós ficaremos sobrecarregados para sobreviver... Não podemos lutar essa batalha sozinhos. Você tem toda razão, Trianna... fez tudo certo com a Du Vrangr Gata e eu não estou aqui para usurpar a sua autoridade. Porém, como mágico, preciso trabalhar com a Du Vrangr Gata e, como Cavaleiro, posso também precisar lhes dar ordens, as quais precisarei ter certeza de que serão obedecidas sem nenhum questionamento. A cadeia de comando deve ser estabelecida. Assim, vocês conservarão a maior parte de sua autonomia. Na maioria das vezes, estarei ocupado demais para devotar minha atenção para a Du Vrangr Gata. Não pretendo ignorar seus conselhos, pois estou certo de que vocês têm muito mais experiência do que eu... Por isso peço novamente, vocês irão nos ajudar, pelo bem dos Varden?
Trianna fez uma pausa, depois se curvou.
— É claro, Matador de Espectros... pelo bem dos Varden. Será uma honra tê-lo como líder da Du Vrangr Gata.
— Então, vamos começar.
Nas horas seguintes, Eragon falou com cada um dos mágicos reunidos — embora um bom número deles estivesse ausente, ocupados com uma ou outra tarefa para auxiliar os Varden. Ele fez o melhor que pôde para se inteirar do conhecimento de magia que eles possuíam. Aprendeu que a maior parte dos homens e mulheres na Du Vrangr Gata havia sido introduzida na sua arte por um parente, e normalmente em profundo segredo para evitar atrair a atenção daqueles que temiam a magia — e, é claro, do próprio Galbatorix. Apenas um punhado deles havia recebido treinamento apropriado. Como resultado, a maior parte dos feiticeiros conhecia pouco da língua antiga — nenhum deles conseguia falá-la fluentemente — suas crenças em relação à magia eram normalmente distorcidas por superstições religiosas, e ignoravam a inúmeras aplicações da necromancia.
Não é de se surpreender que os Gêmeos estivessem tão desesperados para extrair o seu vocabulário da língua antiga quando o testaram em Farthen Dûr, observou Saphira. Com ele, poderiam ter facilmente conquistado esses mágicos menores.
No entanto, eles são tudo o que temos para trabalhar.
É verdade. Espero que você possa ver agora que eu estava certa em relação a Trianna. Ela coloca os seus próprios desejos acima do bem da maioria.
Você tinha razão, concordou ele. Mas eu não a condeno por isso. Trianna lida com o mundo da melhor maneira que pode, assim como todos nós. Entendo isso, mesmo que não aprove, e compreensão – como disse Oromis – gera solidariedade.
Pouco mais do que um terço dos feiticeiros se especializaram como curandeiros. Esses Eragon mandou que seguissem em frente, depois de lhes dar cinco novos feitiços para memorizar, encantos que permitiriam que eles tratassem de um sem número de ferimentos de guerra.
Com os encantadores que restaram, Eragon trabalhou no sentido de estabelecer uma série clara de comandos — ele designou Trianna como sua tenente e garantir que suas ordens seriam cumpridas — e de consolidar suas personalidades díspares numa unidade de combate. Tentar convencer os mágicos a cooperarem, como ele descobriu, era como tentar fazer com que uma matilha de cães dividisse um osso cheio de carne. Não ajudou nem um pouco o fato de eles estarem evidentemente respeitando-o, pois ele não conseguia encontrar nenhuma maneira de usar sua influência para facilitar as relações entre os mágicos invejosos.
Para ter uma melhor ideia de sua exata competência, Eragon os obrigou a fazer uma série de feitiços. Enquanto os observava se esforçando com encantos que agora considerava simples, Eragon ficou a par do quanto seus próprios poderes haviam evoluído. Para Saphira, mostrou seu espanto. E pensar que eu suava para erguer um seixo no ar.
E pensar, respondeu ela, que Galbatorix teve mais de um século para aprimorar o seu talento.
O sol estava baixo no oeste, intensificava a luz laranja enfumaçada até o acampamento dos Varden, o lívido rio Jiet e a totalidade da Campina Ardente brilhava num esplendor louco e marmóreo, como se fosse uma cena dos sonhos de um lunático. O sol não estava distante do horizonte a mais do que a largura de um dedo quando um mensageiro chegou na tenda. Ele disse a Eragon que Nasuada havia ordenado para que ele fosse encontrá-la imediatamente.
— E acho que é melhor você se apressar, Matador de Espectros, se é que não se importa que eu diga isso.
Depois de extrair da Du Vrangr Gata a promessa de que eles estariam prontos e dispostos quando ele os chamasse para lhes prestar alguma assessoria, Eragon saiu correndo ao lado de Saphira em meio às fileiras de tendas cinzentas no caminho até o pavilhão de Nasuada. Um irritante barulho acima dos dois fez Eragon levantar os olhos do solo traiçoeiro tempo suficiente para olhar para o céu. O que ele viu foi uma gigantesca revoada de aves girando entre os dois exércitos. Ele avistou águias, falcões, gaviões, junto com inúmeras gralhas vorazes e seus primos maiores de rapina, cujos bicos lembravam adagas e cujas penas traseiras eram azuis: os corvos. Cada pássaro gritava por sangue para que pudesse molhar sua garganta e por carne quente o suficiente para encher sua barriga e saciar sua fome. Por experiência e instinto, sabiam que, sempre que apareciam exércitos na Alagaësia. Podiam esperar um banquete com acres e mais acres de cadáveres.
As nuvens da guerra estão se formando, observou Eragon.

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Boa leitura :)