27 de maio de 2017

Capítulo 63 - A Campina Ardente

Eragon tossiu enquanto Saphira descia através das camadas de fumaça, seguiram na direção do rio Jiet, escondido no meio da cerração. Ele piscava e enxugava as lágrimas. Os gases irritavam seus olhos. Mais perto do chão, o ar ficou mais claro, dava a Eragon uma visão desobstruída de seu destino. O véu ondulante de fumaça negra e vermelha filtrava os raios do sol de uma maneira tal, que tudo embaixo era banhado por um laranja lúrido. Fendas ocasionais no céu manchado permitiam a feixes pálidos de luz incidirem no chão, onde ficavam, como se fossem pilares de vidro translúcido, até serem truncados pelas nuvens agitadas.
O rio Jiet corria diante deles, largo e túrgido como uma cobra devoradora e sua superfície sombreada refletia as mesmas nuanças assustadoras que atravessavam a Campina Ardente. Mesmo quando uma mancha de luz direta acabava caindo no rio, a água parecia branca como calcário. Opaca e opalescente — quase como se fosse o leite de uma fera medonha — e parecia brilhar com uma luminescência lúgubre toda própria.
Dois exércitos estavam formados na margem oriental do rio lodoso. Ao sul estavam os Varden e os homens de Surda, entrincheirados atrás de múltiplas camadas de defesa, onde eles exibiam uma fina panóplia de estandartes trançados, fileiras de tendas suntuosas, e os animais da cavalaria do rei Orrin presos a estacas. Numerosos que eram, seu contingente diminuía em comparação com a força reunida no norte. O exército de Galbatorix era tão grande que o pelotão da vanguarda se estendia por quase cinco quilômetros, e era impossível dizer seu comprimento total, pois os homens, individualmente, se fundiam numa massa obscura à distância.
Entre os inimigos mortais havia um vão de, quem sabe, uns três quilômetros. Este terreno, e o território no qual os exércitos acampavam, estavam salpicados de incontáveis orifícios desiguais nos quais dançavam línguas verdes de fogo. Dessas tochas pálidas se erguiam as colunas de fumaça que turvavam o sol. Cada pedaço de vegetação daquele solo ressecado havia sido queimado, exceto os líquens negros, laranjas e verde amarelados que, do ar, davam à terra uma aparência feridenta e infecta.
Era a vista mais repugnante na qual Eragon já havia posto os seus olhos.
Saphira surgiu sobre aquela terra de ninguém que separava os dois exércitos e agora virava e mergulhava na direção dos Varden o mais rápido que podia pois, enquanto permanecessem expostos ao Império, estavam vulneráveis aos ataques dos mágicos inimigos. Eragon estendeu sua consciência o máximo que podia em todas as direções, caçando mentes hostis que pudessem sentir sua sondagem e reagir a ela — as mentes dos mágicos e daqueles que foram treinados para agir defensivamente em relação à magia.
O que ele sentiu, porém, foi o pânico súbito que subjugou os sentinelas dos Varden, muitos dos quais, como ele percebeu, nunca haviam visto Saphira anteriormente. O medo os fez ignorar seu bom senso e por isso dispararam uma revoada de flechas farpadas que traçaram arcos para interceptá-la.
Levantando sua mão direita, Eragon gritou:
 Letta orya thorna! — As flechas congelaram onde estavam. Com um movimento do pulso e a palavra “Gánga”, ele as redirecionou, enviando as setas na direção da terra de ninguém, onde podiam se enterrar no solo estéril sem causar danos. Ele só não conseguiu interceptar uma flecha, no entanto, que foi atirada alguns segundos depois da primeira salva.
Eragon se inclinou o máximo que podia para a direita e, mais rápido do que qualquer humano normal, apanhou a flecha no ar enquanto Saphira passava ao lado dela.
A apenas trinta metros do chão, Saphira abriu suas asas para reduzir sua velocidade de descida, antes de apear primeiro com as patas traseiras e depois com as da frente, enquanto freava em meio às tendas dos Varden.
— Werg — resmungou Orik, afrouxando as tiras de couro que mantinham suas pernas no lugar. — Prefiro lutar contra uma dúzia de Kull do que experimentar uma queda como essa novamente. — Ele esperou num dos lados da sela, depois escorregou pela perna dianteira de Saphira mais abaixo e, de lá, para o chão.
Mesmo quando Eragon desmontava do dragão, dezenas de guerreiros com expressões atemorizadas se reuniram em volta de Saphira. Da aglomeração saiu, a passos largos, um homem enorme que Eragon reconheceu: Fredric, o mestre de armas dos Varden em Farthen Dûr ainda usando sua armadura peluda de couro de boi.
— Vamos, seus palhaços de queixo mole! — bradou Fredric. — Não fiquem aqui olhando, voltem para os seus postos ou farei com que todos vocês fiquem mofando, farão vigília em períodos extras! — Ao seu comando, os homens começaram a se dispersar, murmurando alguns impropérios e olhando para trás. Então Fredric se aproximou e, Eragon pôde notar, ficou espantado com as mudanças no semblante dele. O homem barbado fez o melhor que pôde para dissimular sua reação tocando em sua testa e dizendo: — Bem-vindo, Matador de Espectros. Você chegou bem na hora... Não dá para lhe dizer o quanto fiquei envergonhado pelo fato de você ter sido atacado. A honra de cada homem aqui foi difamada por causa desse erro. Vocês três se machucaram?
— Não.
O alívio se espalhou pelo rosto de Fredric.
— Bem, isso é algo para agradecer. Fiz os homens responsáveis serem privados de suas obrigações. Cada um deles levará chibatadas e terá sua patente reduzida... Essa punição o deixará satisfeito, Cavaleiro?
— Quero vê-los — disse Eragon.
Uma súbita preocupação emanou de Fredric. Era óbvio que ele temia que Eragon quisesse dar alguma espécie de castigo terrível e abominável para os sentinelas. No entanto, Fredric não verbalizou sua preocupação, mas disse:
— Então siga-me, senhor.
Ele os guiou pelo acampamento até uma tenda de comando listrada, onde mais ou menos vinte homens com aparência infeliz estavam se livrando de suas armas e armaduras, sob o olhar vigilante de uma dúzia de guardas. Ao verem Eragon e Saphira, todos os prisioneiros se ajoelharam numa perna só e ficaram ali, olhando para o chão.
— Salve, Matador de Espectros! — gritaram.
Eragon não disse nada, mas andou ao longo da fila de homens enquanto estudava suas mentes. Suas botas afundavam em meio à crosta da terra ressecada, faziam um ruído agourento. Até que finalmente ele se pronunciou:
— Vocês deviam se orgulhar por terem reagido tão rapidamente a nossa aparição. Se Galbatorix atacar, isso é exatamente o que vocês devem fazer, embora duvide que flechas se provem mais eficientes contra ele do que foram contra mim e Saphira. — Os sentinelas o olharam com descrença, seus rostos virados para cima revelavam a cor de latão manchado por causa da luz multicor. — Só peço para que, no futuro, vocês parem um instante para identificar o seu alvo antes de atirar. Da próxima vez eu posso estar distraído para deter os projéteis. Entendido?
— Sim, Matador de Espectros! — gritaram.
Parando na frente do penúltimo homem na fila, Eragon estendeu a flecha que havia pego quando estava nas costas de Saphira.
— Acho que isso aqui é seu, Harwin.
Com uma expressão de espanto, Harwin aceitou a flecha de Eragon.
— Isso mesmo! Ela tem a faixa branca que eu sempre pinto nas minhas setas, para que possa encontrá-las depois. Obrigado, Matador de Espectros.
Eragon acenou com a cabeça e depois se dirigiu a Fredric para que todos pudessem ouvir:
— Estes são homens bons e sinceros, e não quero que nenhuma desgraça recaia sobre eles por causa desse ocorrido.
— Vou cuidar disso pessoalmente — disse Fredric, e sorriu.
— Agora, você pode nos levar até lady Nasuada?
— Sim, senhor.
Enquanto deixava os sentinelas, Eragon soube que sua bondade havia feito dele merecedor da eterna lealdade daqueles homens, e que notícias sobre seu feito se espalhariam entre os Varden.
O caminho que Fredric traçou no meio das tendas fez Eragon entrar em contato com mais mentes do que já havia tocado antes. Centenas de pensamentos, imagens e sensações assediaram a sua consciência. Apesar do esforço que fazia para mantê-las a uma certa distância, ele não conseguia deixar de absorver detalhes ao acaso das vidas das pessoas.
Algumas revelações ele achou chocantes, outras comuns, algumas tocantes, ou, inversamente, repulsivas e muitas embaraçosas. Algumas pessoas percebiam o mundo de forma tão diferente, que suas mentes lhe saltavam exatamente por causa dessa diferença.
Como é fácil ver esses homens como nada mais do que objetos que eu e alguns poucos podem manipular à vontade. Contudo cada um deles possui esperanças e sonhos, o potencial para o que eles podem vir a ser e as lembranças do que já realizaram. E todos eles sentem dor.
Algumas poucas mentes que ele tocou perceberam o contato e o rechaçaram, esconderam suas vidas interiores por trás de defesas de força variada. A princípio, Eragon ficou preocupado — imaginou que ele havia descoberto um grande número de inimigos infiltrados entre os Varden — mas então ele percebeu, num relance, que se tratavam de membros da Du Vrangr Gata.
Saphira disse: Eles devem ter ficado apavorados, achando que estavam prestes a serem atacados por algum mágico estranho.
Não posso convencê-los do contrário enquanto me bloquearem dessa maneira.
Você deve encontrá-los pessoalmente e logo, antes que decidam se unir e atacar.
Sim, embora não creia que eles nos representem uma ameaça... Du Vrangr Gata – seu próprio nome evidencia a sua ignorância. Mais propriamente, na língua antiga, devia ser Du Gata Vrangr.
Sua caminhada terminou perto da retaguarda dos Varden, numa ampla tenda vermelha em que tremulava uma flâmula, havia um escudo negro e duas espadas paralelas na parte inferior. Fredric puxou a aba para trás, permitindo que Eragon e Orik adentrassem o pavilhão. Atrás deles, Saphira enfiou sua cabeça pela abertura e ficou olhando por um dos ombros dos dois.
Uma mesa grande ocupava o centro da tenda mobilada. Nasuada estava em pé numa das pontas, curvada e apoiada numa das mãos, estudava uma grande quantidade de mapas e pergaminhos. O estômago de Eragon deu um nó assim que viu Arya na outra ponta. As duas mulheres estavam em suas armaduras como homens para a batalha.
Nasuada voltou seu rosto amendoado em sua direção.
— Eragon? — sussurrou.
Ele estava despreparado para o quão feliz ficaria ao vê-la. Com um sorriso largo, virou a mão por sobre o esterno, fez o gesto de lealdade dos elfos, e se curvou.
— Às suas ordens.
— Eragon! — Desta vez Nasuada parecia feliz e aliviada. Arya, também, aparentava estar contente. — Como você recebeu a nossa mensagem com tanta rapidez?
— Não recebi, soube do avanço do exército de Galbatorix através das minhas visões e deixei Ellesméra no mesmo dia. — Ele lhe sorriu novamente. — É bom estar de volta aos Varden.
Enquanto ele falava, Nasuada o estudou com uma expressão de espanto.
— O que aconteceu com você, Eragon?
Arya não deve ter lhe contado, disse Saphira.
Então Eragon fez um relato completo do que havia acontecido com ele e Saphira desde que deixaram Nasuada em Farthen Dûr há tanto tempo.
Dava para perceber que muito do que ele dizia ela já havia escutado, vindo dos anões ou de Arya, mas mesmo assim o deixou falar sem interrompê-lo. Eragon tinha de ser cauteloso em relação ao seu treinamento. Ele havia dado sua palavra de que não revelaria a existência de Oromis sem permissão, e muitas das suas lições não deveriam ser partilhada com estranhos, mas Eragon fez o melhor possível para dar a Nasuada uma boa ideia das suas habilidades e dos riscos resultantes. Sobre o Agaert Blödhren, ele simplesmente disse:
— ... e durante a celebração, os dragões promoveram em mim as mudanças que você está vendo, deram-me as habilidades físicas de um elfo e curaram as minhas costas.
— Sua cicatriz se foi, então? — perguntou Nasuada. Ele acenou positivamente. Algumas frases a mais serviram para terminar sua narrativa, mencionou brevemente o motivo que o levou a deixar Du Weldenvarden e depois resumiu sua viagem daí em seguida. Ela balançou a cabeça. — Que história. Você e Saphira devem ter passado por muitas experiências desde que deixaram Farthen Dûr.
— Assim como você. — Ele gesticulou na direção da tenda. — É incrível o que você conseguiu realizar. Deve ter sido necessário trabalhar muito para levar os Varden para Surda... O Conselho de Anciãos criou muitos problemas?
— Um pouco, mas nada de extraordinário. Eles parecem ter se resignado em relação à minha liderança. — Com sua cota retinindo, Nasuada se sentou numa cadeira larga, de encosto alto e se virou para Orik, que ainda tinha de falar. Ela o saudou e perguntou se ele tinha algo a acrescentar a história de Eragon. Orik encolheu os ombros e contou alguns poucos casos sobre sua estadia em Ellesméra, embora Eragon suspeitasse que o anão estava guardando suas verdadeiras impressões para o seu rei.
Quando ele terminou, Nasuada disse:
— Sinto-me encorajada ao saber que, se conseguirmos resistir a esse ataque, teremos os elfos ao nosso lado. Algum de vocês conseguiu ver os guerreiros de Hrothgar durante o voo que fizeram de Aberon? Estamos contando com o seu reforço.
Não, respondeu Saphira através de Eragon. Porém, estava escuro e eu normalmente passava por cima ou entre nuvens. Posso facilmente ter deixado de notar um acampamento nessas condições. De qualquer maneira, duvido que tenhamos cruzado nossos caminhos, pois voei direto de Aberon e me parece provável que os anões fossem optar por uma rota diferente — quem sabe seguiram por estradas já existentes — em vez de marchar pelo deserto.
— Qual é — perguntou Eragon — a situação por aqui?
Nasuada suspirou e depois falou sobre como ela e Orrin haviam descoberto o exército de Galbatorix e suas medidas desesperadas para chegar na campina ardente antes dos soldados do rei. Ela terminou afirmando:
— O Império chegou há três dias. Desde então, trocamos duas mensagens. Primeiro eles pediram para que nos entregássemos, o que nos recusamos a fazer, e agora estamos esperando sua resposta.
— Quantos deles há por aqui? — murmurou Orik. — Vendo do dorso de Saphira parecia um número infinito.
— Sim. Estimamos que Galbatorix tenha reunido algo em torno de cem mil soldados.
Eragon não conseguiu se conter:
— Cem mil! De onde eles vieram? Parecia impossível que ele fosse encontrar mais do que um punhado de gente disposta a servi-lo.
— Eles foram recrutados. Só podemos esperar que os homens que foram arrancados de seus lares não estejam ansiosos para lutar. Se os assustarmos o suficiente, eles poderão sair da formação e fugir. Nosso contingente é maior do que em Farthen Dûr, pois o rei Orrin juntou forças conosco e recebemos um verdadeiro enxame de voluntários desde que começamos a espalhar as notícias da sua adesão, Eragon, embora ainda estejamos bem mais fracos do que o Império.
Então Saphira fez uma pergunta terrível, que Eragon foi forçado a repetir.
— Quais você acha que são nossas chances de vitória?
— Isso — respondeu Nasuada, colocando ênfase na palavra — depende bastante de você e Eragon e do número de mágicos que estão espalhados pelas tropas deles. Se você puder encontrar e exterminar esses mágicos, então nossos inimigos acabarão ficando desprotegidos e você poderá matá-los à vontade. Uma vitória total, creio, é improvável a essa altura. Mas acredito que possamos mantê-los em xeque até que seus suprimentos diminuam ou que Islanzadí possa vir para nos ajudar. Quer dizer... isso se o próprio Galbatorix não entrar na batalha. Nesse caso, temo que a retirada seja a nossa única opção.
Naquele instante, Eragon sentiu uma mente estranha se aproximando, uma que sabia que ele estava observando a tudo e contudo não evitou o contato. Que parecia ser fria, dura e calculista. Alerta para o perigo. Eragon se virou na direção da parte de trás da tenda, onde viu a mesma garota de cabelos negros que havia aparecido quando observou Nasuada de Ellesméra. A menina o encarou com seus olhos violeta e disse:
— Bem-vindo, Matador de Espectros. Bem-vinda, Saphira.
Eragon estremeceu com o som de sua voz, a voz de um adulto. Ele molhou sua boca seca e perguntou:
— Quem é você?
Sem responder, a menina jogou para trás sua franja brilhante e expôs uma marca branca e prateada na testa, exatamente igual a gedwëy ignasia de Eragon. Ele soube então com quem estava talando. Ninguém se moveu enquanto Eragon ia na direção da garota, acompanhado por Saphira, que enfiou seu pescoço ainda mais para dentro da tenda. Agachando-se num dos joelhos, Eragon pegou a mão direita da menina e viu que sua pele queimava como se ela estivesse com febre. Ela não resistiu ao seu toque, mas simplesmente deixou sua mão mole.
Na língua antiga — e também com sua mente, para que ela pudesse entender. Eragon disse:
— Lamento muito. Você poderia me perdoar pelo que lhe fiz?
Os olhos da garota se acalmaram, ela se inclinou para frente e beijou Eragon na testa.
— Eu o perdoo — sussurrou a menina, pela primeira vez soando como uma menina. — Como não poderia? Você e Saphira criaram o que eu sou, e sei que vocês não tinham a intenção de me causar nenhum mal. Eu perdoo vocês, mas devo deixar que esse conhecimento torture a sua consciência. Você me condenou a sentir todo o sofrimento que está à minha volta. Mesmo agora, o seu feitiço faz com que eu me apresse para socorrer um homem que está a menos de três tendas daqui e acabou de cortar sua mão, para ajudar um jovem porta-bandeira que quebrou seu dedo indicador esquerdo no raio da roda de uma carroça, e para auxiliar inúmeras outras pessoas que se machucaram ou estão prestes a tal. Custa-me muito resistir a esses impulsos, e ainda mais se eu causo desconforto a alguém conscientemente, como estou fazendo ao dizer isso... Não consigo nem dormir durante a noite por causa da força da minha compulsão Esse é o seu legado, ó Cavaleiro. — No final, sua voz já havia recuperado sua aspereza amarga e zombeteira.
Saphira se interpôs entre os dois e, com seu focinho, tocou a garota no centro de sua marca. Paz, criança adulterada. Você tem muita raiva em seu coração.
— Você não tem que viver assim para sempre — disse Eragon. — Os elfos me ensinaram como fazer para anular um feitiço, e acredito que possa livrá-la dessa maldição. Não será fácil, mas pode ser feito.
Durante um instante, a garota pareceu ter perdido o seu formidável autocontrole. Um leve suspiro escapou dos seus lábios, sua mão tremia e Eragon, e seus olhos resplandeciam com uma névoa de lágrimas.
Então, rapidamente, escondeu suas verdadeiras emoções por trás de uma máscara de cínico deleite.
— Bem, vamos ver. De qualquer maneira, você não devia tentar fazer isso antes da batalha que está por vir.
— Poderia poupá-la de uma grande dor.
— Eu não o deixaria esgotado agora, pois a nossa sobrevivência pode depender dos seus talentos. Não me engano, você é mais importante do que eu. — Um sorriso malicioso brotou em seu rosto. — Além do mais, se você remover o seu encanto agora, eu não terei como ajudar nenhum dos Varden caso sejam ameaçados. Você não gostaria que Nasuada morresse por causa disso, gostaria?
— Não — admitiu Eragon. Ele fez uma longa pausa, enquanto pensava na questão, e depois disse: — Muito bem, vou esperar. Mas juro a você: se vencermos essa batalha, irei corrigir esse erro.
A menina inclinou a cabeça para o lado.
— Farei com que você mantenha a palavra, Cavaleiro.
Levantando-se de sua cadeira, Nasuada disse:
— Foi Elva que me salvou de um assassino em Aberon.
— Foi ela mesmo? Nesse caso, tenho uma dívida para com você... Elva... por proteger minha suserana.
— Venham agora — disse Nasuada. — Tenho que apresentar vocês três para Orrin e seus nobres. Você já esteve com o rei antes, Orik?
O anão balançou negativamente a cabeça.
— Nunca estive tão a oeste antes.
Enquanto deixavam o pavilhão — Nasuada ia na frente, com Elva do seu lado —. Eragon tentou se posicionar para que pudesse conversar com Arya. Mas. quando ele se aproximou, a elfa acelerou o passo para que pudesse andar lado a lado com Nasuada. Arya nem chegou a olhá-lo enquanto andava, seu desprezo que lhe causou mais angústia do que qualquer ferimento físico que houvesse sofrido. Elva olhou em sua direção e Eragon sabia que ela sentia sua aflição.
Logo chegaram a um outro largo pavilhão, esse era amarelo e branco — embora fosse difícil determinar a exata nuança das cores, dado o tom laranja berrante que cobria tudo na Campina Ardente. Assim que lhes foi concedida a entrada, Eragon ficou surpreso ao encontrar a tenda abarrotada com uma coleção excêntrica de provetas, alambiques, retortas e outros instrumentos de filosofia natural. Quem se importaria de trazer tudo isso para um campo de batalha?, perguntou ele, espantado.
— Eragon — disse Nasuada. — Gostaria que você conhecesse Orrin, filho de Larkin e monarca do reino de Surda.
Das profundezas das pilhas desordenadas de vidro, surgiu um homem relativamente alto e belo, tinha o cabelo na altura dos ombros, preso para trás por uma coroa de ouro assentada sobre a sua cabeça. Sua mente, como a de Nasuada, estava protegida por trás de muralhas de ferro: era óbvio que ele havia recebido um extensivo treinamento para habilidade. Orrin pareceu ser um sujeito bastante agradável na opinião de Eragon, tomando como base a conversa que ambos tiveram, hora um pouco imaturo e inexperiente no que tangia a comandar homens na guerra e com umas ideias um pouco esquisitas. No todo, Eragon confiava mais na liderança exercida por Nasuada.
Depois de responder defensivamente a uma série de perguntas que Orrin fez sobre o período que passou junto com os elfos, Eragon se pegou sorrindo e acenando educadamente a cabeça para cada conde que passava em fila, cada um dos quais insistindo em apertar a sua mão, dizendo-lhe da honra que era conhecer um Cavaleiro e convidando-o para as suas respectivas propriedades. Eragon, respeitosamente, memorizou seus muitos nomes e títulos — como sabia que Oromis esperaria — e fez o melhor que pôde para manter uma conduta calma, apesar de sua crescente frustração.
Estamos prestes a enfrentar um dos maiores exércitos da história e aqui estamos nós, empacados a trocar gracejos.
Tenha paciência, aconselhou Saphira. Não há muitos mais... Além disso, veja as coisas por outro lado: se vencermos, eles nos deverão um ano inteiro de jantares gratuitos, com todas as promessas que fizeram.
Ele conteve uma gargalhada. Acho que eles ficariam desanimados se souberem o quanto é neccessário para alimentá-la. Sem mencionar que você poderia esvaziar suas provisões de vinho e cerveja numa única noite.
Eu jamais o faria, disse Saphira, desdenhosa, para depois admitir. Talvez em duas noites.
Quando eles finalmente conseguiram sair da tenda de Orrin, Eragon perguntou a Nasuada:
— O que devo fazer agora? Como posso servi-la?
Nasuada o encarou com uma expressão curiosa.
— Como você acha que pode me servir melhor, Eragon? Você conhece as suas próprias habilidades melhor do que eu. — Até mesmo Arya o estava observando naquela altura, esperando para ouvir sua resposta.
Eragon levantou os olhos para o céu sangrento, enquanto refletia sobre a pergunta.
— Vou assumir o controle da Du Vrangr Gata, como já me pediram uma vez, e organizá-la sob a minha liderança, para que possa liderá-la no campo de batalha. Trabalhar juntos fará com que tenhamos mais chances de derrotar os mágicos de Galbatorix.
— Isso me parece uma excelente ideia.
Existe algum lugar onde Eragon possa deixar suas bagagens?, perguntou Saphira. Não quero mais carregá-las além do que já fiz.
Quando Eragon repetiu sua pergunta, Nasuada disse:
— É claro. Vocês podem deixá-las no meu pavilhão, mandarei providenciar uma tenda para você, Eragon, onde poderá deixá-las permanentemente. Sugiro, no entanto, que vistam suas armaduras antes de desfazerem suas bagagens. Vocês podem precisar delas a qualquer momento... Isso me lembra uma coisa: estamos com a sua armadura, Saphira. Farei com que ela seja trazida até você.
— E quanto a mim, lady? — perguntou Orik.
— Temos alguns knurlan conosco do Dûrgrimst Ingeitum que emprestaram a sua perícia para que pudéssemos construir nossas defesas terrestres. Você pode assumir o seu comando, se quiser.
Orik parecia animado com a perspectiva de ver companheiros anões, especialmente do seu próprio clã. Ele bateu com o seu punho na mesa e afirmou:
— Acho que aceitarei a oferta. Se vocês me dão licença, tratarei disso imediatamente. — Sem olhar para trás, saiu andando pelo acampamento. seguia para o norte na direção da barreira de pedras e areia.
Enquanto voltava para o seu pavilhão com os quatro que restaram, Nasuada disse para Eragon:
— Comunique-se comigo assim que chegar a um acordo com a Du Vrangr Gata. — Então ela empurrou a aba de entrada de seu pavilhão e desapareceu com Elva pela entrada escura.
Assim que Arya começou a segui-las, Eragon estendeu a mão em sua direção e disse na língua antiga:
— Espere. — A elfa parou e o encarou, impassível. Ele a reteve ali sem vacilar, olhando fundo em seus olhos, que refletiam a luz estranha que os circundava. — Arya, não pedirei desculpas pelo que sinto por você. No entanto, queria que você soubesse que lamento muito o modo como agi durante a Celebração de Juramento ao Sangue. Eu não era eu mesmo naquela noite, caso contrário não teria sido tão insolente e arrogante.
— E você não o fará novamente?
Ele suprimiu uma risada sem graça.
— Fazê-lo não me levaria a lugar nenhum, não é? — Como ela permaneceu em silêncio, o jovem prosseguiu: — Não tem problema, não quero incomodá-la, mesmo se você... — Ele abafou o resto da frase antes que fizesse uma afirmação da qual pudesse se arrepender depois.
A expressão de Arya ficou mais suave.
— Não estou tentando feri-lo, Eragon. Você tem que entender isso.
— Eu entendo — disse ele, mas sem convicção. Uma pausa embaraçosa se estendeu entre os dois.
— Foi tudo bem com o seu voo, espero?
— Tudo bem.
— Vocês não encontraram nenhuma dificuldade no deserto?
— Deveríamos?
— Não, só perguntei. — Então, num tom de voz ainda mais gentil, Arya perguntou: — E quanto a você, Eragon? Como foi tudo depois da Celebração? Ouvi o que você disse para Nasuada, mas você não mencionou nada além das suas costas.
— Eu... — Ele tentou mentir, não querendo que ela soubesse o quanto sentiu sua falta, mas a língua antiga fez as palavras ficarem presas em sua boca e o deixou mudo. Até que, finalmente, ele recorreu a uma técnica dos elfos: contar apenas parte da verdade para criar uma impressão aproximada da verdade como um todo. — Estou melhor do que antes — disse ele, referindo-se, em sua mente, às condições de suas costas.
Apesar desse subterfúgio, Arya não pareceu convencida. No entanto ela não o pressionou, mas disse:
— Estou feliz. — A voz de Nasuada emanou de dentro do pavilhão, e Arya se voltou em sua direção antes de encará-lo novamente. — Sou necessária em outro lugar, Eragon... Ambos somos necessários em outros lugares. Uma batalha está prestes a começar. — Levantando a aba de lona, ela deu meio passo para dentro da tenda escura, e depois hesitou e acrescentou: — Tome cuidado, Eragon Matador de Espectros.
E então ela sumiu.
O desalento deixou Eragon parado onde estava. Conseguiu o que queria, mas nada pareceu ter mudado entre ele e Arya. O jovem cerrou os punhos, curvou os ombros e olhou para o chão sem vê-lo, quase explodia de decepção.
Ele se espantou quando Saphira tocou com o nariz em seu ombro. Vamos, pequenino, disse ela gentilmente. Você não pode ficar aqui para sempre, e esta sela está começando a coçar.
Já ao seu lado, Eragon puxou a correia do seu pescoço, resmungando quando ela ficou presa na fivela. Ele quase desejou que o couro se partisse. Soltando o resto das correias, ele deixou a sela, e tudo o mais que a ela estava amarrado, cair no chão de uma vez só. É bom tirar tudo isso, disse Saphira, sacudindo seus enormes ombros.
Retirando sua armadura para fora dos alforjes, Eragon vestiu seu traje brilhante de guerra. Primeiro colocou a cota de malha sobre sua túnica elfa, depois amarrou as grevas entalhadas às pernas e os braçais embutidos aos antebraços. Em sua cabeça, colocou o capuz forrado de couro, seguido pelo barrete de aço, e depois pelo elmo dourado e prateado. No final, substituiu as luvas normais pelas manoplas com cota no fundo.
Zar’roc ficou pendurada no quadril esquerdo, no cinto de Beloth, o Sábio. Atravessando suas costas, ele colocou a aljava de penas brancas de cisne que Islanzadí lhe havia dado. A aljava, como ele ficou feliz em descobrir também podia conter o arco que a rainha elfa lhe havia dado. mesmo com a corda.
Depois de guardar os pertences dele e de Orik no pavilhão, Eragon e Saphira saíram para encontrar Trianna, a líder da Du Vrangr Gata no momento. Eles deram não mais do que alguns passos, quando Eragon sentiu uma mente próxima que conseguia se proteger de sua sondagem mental. Supondo se tratar de um dos mágicos dos Varden, os dois se viraram em sua direção.
A doze metros do ponto onde começaram a caminhada, eles passaram por uma tendinha verde com um burro amarrado a uma estaca na frente. A esquerda da tenda havia um caldeirão de ferro enegrecido pendurado num tripé de metal, colocado por sua vez sobre uma das chamas malcheirosas que vinham bem do fundo da terra. Havia cordas amarradas ao redor do caldeirão, nas quais estavam dispostos beladona, cicuta. rododendro, juníperos, casca de teixo e inúmeros tipos de cogumelos. Como o amanita e os de talo pintado, todos os quais foram reconhecidos por Eragon por causa das lições que teve sobre venenos. E em pé ao lado do caldeirão, manejando uma longa pá de madeira com a qual mexia o caldo, estava Angela, a herbolária. Aos seus pés estava Solembum.
O menino-gato miou pesaroso e Angela levantou os olhos, distraindo-se de sua tarefa, tinha o cabelo ondulado formando unia nuvem enorme e enevoada em torno de seu rosto resplandecente. Ela franziu a testa e sua expressão ficou positivamente demoníaca, pois era iluminada por baixo pela chama verde e bruxuleante.
— Então você voltou, hein?
— Voltamos — disse Eragon.
— Isso é tudo que você tem para dizer? Você já viu Elva? Já viu o que você fez com aquela pobre garota?
— Sim.
— SIM — gritou Angela. — Até que ponto uma pessoa pode ser inarticulada? Todo esse tempo em Ellesméra sendo instruído pelos elfos, e sim é a melhor resposta que você consegue dar? Deixe eu lhe dizer uma seu cabeça-dura: qualquer um que seja estúpido o suficiente para fazer o que você fez merece...
Eragon colocou as mãos nas costas e ficou esperando enquanto Angela o informava, com muitos termos explícitos, detalhados e altamente inventivos, como ele era exatamente um grande cabeça-dura, que tipo de ancestrais devia possuir para ser um cabeça-dura tão magnífico — ela chegou ao ponto de insinuar que um de seus avós havia acasalado com um Urgal — e as punições horrendas que merecia receber por sua idiotice. Se uma outra pessoa o tivesse insultado daquela maneira, Eragon o teria desafiado para um duelo, mas ele tolerou a raiva da feiticeira, pois sabia que não podia julgar o comportamento dela pelos mesmos padrões dos outros, e porque sabia que suas afrontas eram justificáveis, ele havia cometido um erro terrível.
Quando ela finalmente parou para respirar, Eragon disse:
— Você tem toda a razão. Vou tentar remover o encanto assim que a batalha estiver decidida.
Angela piscou três vezes, uma logo depois da outra, e sua boca permaneceu aberta por um instante num pequeno “O” antes de se fechar. Com um olhar de suspeita, ela perguntou:
— Você não está dizendo isso só para me acalmar, está?
— Jamais faria isso.
— E você realmente pretende anular a sua maldição? Achava que tais coisas eram irrevogáveis.
— Os elfos descobriram muitos usos da magia.
— Ah... Bem, então, está resolvido, não? — Ela lhe lançou um sorriso largo e depois passou por ele e bateu nas bochechas de Saphira. — É bom vê-la novamente, Saphira. Você cresceu.
Muito oportuno de fato, Angela.
Enquanto Angela voltava a mexer sua poção, Eragon disse:
— Essa foi uma tirada interessante.
— Muito obrigada. Trabalhei nela por diversas semanas. É uma pena que você não vai ouvir o final: é memorável. Posso terminá-la para você se quiser.
— Não, está tudo bem. Posso imaginar no que isso vai dar. — Fitando-a com o canto do olho, Eragon completou: — Você não pareceu ter ficado surpresa com a minha mudança.
A herbolária encolheu os ombros.
— Tenho minhas fontes. Na minha opinião é um aperfeiçoamento. Você estava um pouco... oh, como posso dizer?... inacabado antes.
— Isso é verdade. — Ele gesticulou para as plantas que estavam dependuradas. — O que você planeja fazer com isso?
— Oh, é apenas um pequeno projeto meu... uma experiência, se você quer saber.
— Hum. — Examinando o padrão das cores num cogumelo seco que estava pendurado à sua frente, Eragon perguntou: — Você já descobriu se sapos existem ou não?
— Por acaso já! Parece que todos os sapos são rãs, mas nem todas as rãs são sapos. Por isso, nesse sentido, sapos não existem, o que significa que eu estava certa o tempo todo. — Ela parou de filiar abruptamente. Inclinou-se para o lado, pegou uma caneca de um banco que estava ao seu lado e a ofereceu para Eragon. — Tome uma xícara de chá.
Eragon olhou para as plantas mortais que o cercavam e depois se voltou na direção do rosto franco de Angela antes de aceitar a caneca. Em voz baixa — para que a herbolária não pudesse ouvir — ele murmurou três feitiços para detectar veneno. Só depois que se certificou de que o chá estava livre de qualquer contaminação foi que ele ousou beber. O chá estava delicioso, embora o Cavaleiro não conseguisse identificar os ingredientes.
Naquele momento, Solembum andou até onde Saphira estava e começou a arquear suas costas e se esfregar em sua perna, como qualquer gato normal faria. Girando seu pescoço, Saphira se curvou para baixo e, com a ponta do nariz, roçou por toda a extensão da espinha do menino-gato. Ela disse: Conheci alguém em Ellesméra que conhece você. Solembum parou de se esfregar e levantou a cabeça.
Sério?
Sim. Seu nome era Pata Ligeira e a Dançarina Sonhadora e também Maud.
Os olhos dourados de Solembum se arregalaram. Um ronronar profundo e gutural soou em seu peito, e ele passou a se esfregar em Saphira com um vigor renovado.
— Então — disse Angela. — Suponho que você já tenha falado com Nasuada, Arya e o rei Orrin. — Ele acenou positivamente. — E o que você achou do velho e querido Orrin?
Eragon escolheu as palavras com cuidado, pois estava a par de que estavam falando sobre um rei.
— Bem... ele parece ter uma variedade de interesses.
— Sim, ele é tão doce quanto um tolo lunático na noite do solstício. Mas todo mundo o é, de uma maneira ou de outra.
Rindo de sua franqueza, Eragon disse:
— Ele deve ser maluco para ter trazido tanto vidro de Aberon para cá.
Angela levantou uma sobrancelha.
— O que é isso agora?
— Você não viu o interior de sua tenda?
— Ao contrário de algumas pessoas — disse ela, torcendo o nariz —, eu não estou procurando a amizade de todo monarca que conheço. — Então ele lhe descreveu grande parte dos instrumentos que Orrin havia trazido para a Campina Ardente. Angela parou de mexer o caldo enquanto ele talava e ouviu tudo com muito interesse. No instante em que Eragon terminou, ela começou um alvoroço em volta do caldeirão, recolhendo rapidamente as plantas que estavam penduradas nos cordões (usando pinças para fazê-lo) e disse: — Acho que seria melhor eu fazer uma visita a Orrin. Vocês dois vão ter que me falar da sua viagem a Ellesméra mais tarde... Bem, caiam fora, vocês dois. Fora!
Eragon balançou a cabeça enquanto a pequena mulher o tocava e Saphira para tora da tenda, e ele ainda segurava a xícara de chá. Falar com ela é sempre...
Diferente?, sugeriu Saphira.
Exatamente.

2 comentários:

  1. LuaMara dragão Opala17 de junho de 2017 20:48

    HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA MEU DEUS ESSA É UMA DAS MELHORES CONVERSAS DA ÂNGELA EU AMO ELA MEU KKKKKKKKK

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  2. Com a Angela os capitulos são sempre mais divertidos e descontraidos.
    Adoro essa mulher

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Boa leitura :)