27 de maio de 2017

Capítulo 62 - Para Aberon

Embaixo de Saphira, a floresta virgem se estendia para cada horizonte esbranquiçado, coloria-se do verde mais profundo a um violeta nebuloso e desbotado. Martinetes, gralhas e outras aves selvagens esvoaçavam sobre os pinheiros nodosos, emitiam gritos de alarme quando avistavam Saphira. Ela voou baixo sobre o teto da floresta, no intuito de proteger seus dois passageiros do frio das alturas.
Exceto quando Saphira fugiu dos Ra’zac seguindo na direção da Espinha, esta era a primeira vez em que ela e Eragon tiveram a oportunidade de voar juntos uma grande distância sem terem que parar ou se deter para esperar companheiros que estavam no chão. Saphira sentia-se especialmente feliz com a viagem, e estava encantada por poder mostrar a Eragon como os ensinamentos de Glaedr haviam aumentado sua força e resistência.
Depois que seu desconforto inicial diminuiu, Orik disse para o Cavaleiro:
— Duvido que um dia eu consiga ficar à vontade no céu, mas posso entender por que você e Saphira gostam tanto disso. Voar faz vocês se sentirem livres e desimpedidos, como um falcão predador caçando a sua vítima! Isso faz com que o meu coração dispare, e como.
Para reduzir o tédio da viagem, Orik ficou brincando de charadas com Saphira. Eragon pediu licença da disputa já que não era particularmente perito em charadas, a manha necessária para decifrá-las parecia lhe escapar. Nisso, Saphira o superava de longe. Como a maior parte dos dragões, ela era fascinada por enigmas e os achava bem fáceis.
Orik disse:
— As únicas charadas que eu conheço são na língua dos anões. Farei o melhor possível para traduzi-las, mas os resultados podem ser toscos e canhestros. — E então perguntou:

Alta sou nova.
Baixa sou antiga.
Enquanto eu brilho com vida,
O bafo de Urûr é meu oponente.

Não é justo, rugiu Saphira. Conheço pouco dos seus deuses. Eragon não tinha nenhuma necessidade de repetir suas palavras, pois Orik havia dado permissão para que ela os projetasse direto em sua mente. Orik riu.
— Você desiste?
Jamais. Durante alguns minutos, o único som foi o do bater de suas asas, até ela perguntar: Seria uma vela?
— Você está certa.
Uma baforada de fumaça flutuou na direção dos rostos de Orik e Eragon enquanto ela bufava. Não me saio tão bem com esse tipo de charada. Nunca estive dentro de uma casa desde o dia em que eu saí do ovo, e acho que enigmas que lidam com temas domésticos são muito difíceis. Em seguida ela perguntou:

Que erva cura todas as pequenas doenças?

Isso provou ser uma pergunta terrível para Orik. Ele murmurou, suspirou e rangeu seus dentes, frustrado. Atrás dele, Eragon não conseguia conter o sorriso, pois podia ver a resposta claramente dentro da cabeça de Saphira. Enfim, Orik disse:
— Bem, qual é a resposta? Você levou a melhor com essa.

Não é da galinha o milho, mas pelo bem do meu filho, a resposta seria tomilho.

Agora era a vez de Orik gritar.
— Não é justo! Essa não é minha língua materna. Você não poderia esperar que eu fosse pegar esse jogo de palavras!
Justo é justo. Foi uma charada apropriada.
Eragon ficou vendo os músculos da nuca de Orik se agrupando e formando nós enquanto o anão projetava a cabeça para frente.
— Se você quer jogar assim, ó Dentes de Ferro, então quero que você resolva esta charada que toda criança anã conhece.

Sou chamado de Forja de Morgothal e
Ventre de Helzvog
Cubro a filha de Nordvig e trago uma morte cinza,
E crio o mundo mais uma vez com o sangue de Helzvog.
O que sou eu?

E assim eles prosseguiram trocando charadas de dificuldade crescente, enquanto Du Weldenvarden ia rapidamente ficando para trás. Vão nos galhos de colmo revelavam ocasionalmente manchas prateadas, trechos dos muitos rios que rasgavam a floresta. Em volta de Saphira as nuvens davam forma a uma arquitetura fantástica: havia estruturas arqueadas, cúpulas e colunas, trincheiras fortificadas, torres do tamanho de montanhas, espinhaços e vales cobertos de uma luz incandescente que fazia Eragon se sentir como se estivesse voando no meio de um sonho.
Tão rápida ia Saphira que, quando veio o anoitecer, eles já haviam deixado Du Weldenvarden para trás e entraram nos campos avermelhados que separavam a grande floresta do deserto Hadarac. Eles acamparam no meio na relva e se acocoraram em torno de uma pequena fogueira, completamente sozinhos sobre a face plana da terra. Estavam sérios e diziam pouca coisa, pois palavras só enfatizavam sua insignificância naquela terra vazia.
Eragon aproveitou a parada deles para armazenar parte da sua energia no rubi que adornava o botão do punho de Zar’roc. A joia absorvia todo o poder que ele lhe dava, assim como o de Saphira quando ela lhe emprestava sua força. Demoraria, concluiu Eragon, alguns dias antes que eles pudessem saturar tanto o rubi quanto os doze diamantes escondidos dentro do cinto de Beloth, o Sábio.
Cansado do exercício, ele se enrolou em cobertores, deitou ao lado de Saphira e entrou em seu sono desperto, onde seus fantasmas noturnos se exauriram contra o mar de estrelas acima.


Logo depois que retomaram a viagem na manhã seguinte, a relva ondulante deu lugar a arbustos de tanino, apareciam cada vez mais espaçadamente, até que, por sua vez, veio o solo ressecado pelo sol, despido de tudo exceto as plantas mais robustas. As dunas douradas e avermelhadas apareceram. Da sua posição privilegiada sobre Saphira, elas pareciam, para Eragon, fileiras de ondas que seguiam eternamente na direção de uma praia distante.
Assim que o sol começou a descer, ele notou um grupo de montanhas no leste distante e sabia que contemplava Du Fells Nángoröth, onde os dragões selvagens iam namorar, criar seus filhos e posteriormente morrer. Temos que ir lá algum dia, disse Saphira, acompanhando seu olhar.
Sim.
Naquela noite, Eragon sentiu a solidão deles de forma muito mais intensa do que antes, estavam acampados na região mais despovoada do deserto Hadarac, onde existia tão pouca umidade no ar que os lábios dele logo racharam, embora os cobrisse de nalgask de tantos em tantos minutos. Ele sentia pouca vida no solo, apenas um punhado de reles plantas e alguns poucos insetos e lagartos.
Como havia feito quando fugiram de Gil’ead atravessando o deserto, Eragon extraiu água do solo para reabastecer seus odres, e antes de permitir que a água se esvaísse, ele usou a magia para ver Nasuada refletida numa poça e verificar se os Varden já haviam sido atacados. Para o seu alívio, ainda não.


No terceiro dia desde que deixaram Ellesméra, o vento aumentou por trás deles e levou Saphira mais do que ela poderia voar por conta própria, carregando-os totalmente para fora do deserto Hadarac.
Perto do limite do deserto, eles passaram por um certo número de nômades a cavalo, usavam mantos esvoaçantes para se protegerem do calor. Os homens gritaram em suas línguas rudimentares e balançaram as espadas e lanças para Saphira, embora nenhum deles ousasse atirar uma flecha em sua direção.
Eragon, Saphira e Orik passaram a noite acampados na região mais para o sul da floresta de que ficava ao longo do lago Tüdosten e foi batizada assim porque era quase totalmente composta de faias, salgueiros e choupos tremedores. Em contraste com o crepúsculo vespertino interminável que caía em meio aos pinheiros misteriosos de Du Weldenvarden, Silverwood estava cheia de raios solares, cotovias e do farfalhar delicado das folhas verdes. As árvores pareciam jovens e felizes para Eragon. e ele estava contente por estar lá. E embora todos os sinais do deserto houvessem desaparecido, a temperatura permanecia muito mais quente do que aquela com que ele estava acostumado nessa época do ano. Parecia mais com o verão do que com a primavera.


De lá, voaram direto para Aberon, capital de Surda, foram guiados pelas direções que Eragon captou das lembranças dos pássaros que encontraram no caminho. Saphira não fez nenhuma tentativa de se esconder ao longo do caminho, e o trio ouvia constantemente gritos de espanto e alarme dos vilarejos que sobrevoava.
Já era fim de tarde quando chegaram a Aberon. A cidade era baixa e cercada por muralhas, foi estabelecida em volta de uma costa íngreme, tinha uma paisagem que, em contradição, era plana. O castelo Borroeo ocupava o topo da costa. A cidadela sinuosa era protegida por três camadas concêntricas de muros, inúmeras torres e, como Eragon notou, centenas de balistas feitas para derrubar dragões. A luz âmbar e suntuosa do sol poente fazia os prédios de Aberon sobressaírem e iluminavam uma de poeira que se erguia do portão oeste da cidade, onde uma fileira de soldados buscava autorização para entrar.
Saphira já descia na direção da ala interna do castelo e colocou Eragon em contato com o conjunto dos pensamentos das pessoas na capital.
O barulho a princípio o dominou — como poderia ouvir inimigos e ainda trabalhar? — até ele perceber que, como sempre, estava se concentrando muito em coisas especificas. Tudo que tinha a fazer era sentir as intenções gerais das pessoas. Ele estendeu o seu foco e as vozes individuais que clamavam pela sua atenção, incidiram na continuidade das emoções que o cercavam. Era como um lençol d’água que caía sobre a paisagem próxima, assim como uma onda de elevação e de queda dos sentimentos das pessoas e era rompida sempre que alguém era fustigado pelos extremos da paixão.
Deste modo, Eragon estava atento para a sensação de alarme que se apoderou das pessoas lá embaixo quando se espalharam os rumores de que Saphira estava se aproximando. Cuidado, disse ele. Não queremos que eles nos ataquem.
A poeira no ar aumentava a cada batida das asas poderosas de Saphira enquanto ela pousava no meio do pátio, cravando suas garras no campo aberto a fim de se firmar. Os cavalos que estavam amarrados na área relinchavam de medo, criavam tal rebuliço que Eragon precisou se inserir em suas mentes e os acalmou com as palavras da língua antiga.
Eragon desceu depois de Orik, olhava para os muitos soldados que se enfileiravam nas balaustradas e olhava as balistas estiradas que manejavam. Ele não estava com medo das armas e não tinha o menor desejo de travar uma batalha contra seus aliados.
Um grupo de doze homens, alguns soldados, saíram correndo da torre em direção à Saphira. Eram liderados por um homem alto que tinha a mesma pele escura de Nasuada, era apenas a terceira pessoa que Eragon via com tal compleição. Parando a uns dez passos de distância, o sujeito fez uma reverencia — assim como seus seguidores — e depois disse:
— Bem-vindo, Cavaleiro. Sou Dahwar, filho de Kedar. Sou o senescal do rei Orrin.
Eragon inclinou a cabeça.
— E eu, Eragon Matador de Espectros, filho de ninguém.
— E eu, Orik, filho de Thrifk.
E eu, Saphira, filha de Vervada, disse ela, usando Eragon como seu porta-voz.
Dahwar se curvou novamente.
— Peço desculpas por não haver ninguém presente com uma patente maior do que a minha para receber convidados tão nobres quanto vocês, mas o rei Orrin, lady Nasuada e todos os Varden já saíram há muito tempo para enfrentar o exército de Galbatorix. — Eragon acenou com a cabeça. Ele já esperava por isso. — Eles deixaram ordens dizendo que, caso você chegasse, que se juntasse a eles imediatamente, pois sua coragem será necessária se quisermos vencer.
— Você pode nos mostrar num mapa como faremos para encontrá-los? — perguntou Eragon.
— É claro, senhor. Enquanto vou buscá-lo, você não gostaria de sair do calor para fazer uma pequena refeição?
Eragon balançou a cabeça negativamente.
— Não temos tempo a perder. Além do mais, não sou eu que preciso ver o mapa e sim Saphira, e duvido que ela caiba nos seus salões.
Isso pareceu ter pego o senescal desprevenido. Ele piscou, passou os olhos por Saphira e depois disse:
— Tem razão, senhor. De qualquer maneira, nossa hospitalidade é sua. Se houver alguma coisa que você ou seus companheiros desejem, é só pedir.
Pela primeira vez, Eragon percebeu que poderia dar ordens e esperar que elas fossem cumpridas.
— Precisamos de provisões para uma semana. Para mim, apenas frutas, vegetais, farinha, queijo, pão, coisas assim. Também precisamos que encham nossos odres d’água. — Ele ficou impressionado por Dahwar não ter questionado o fato de ele não querer carne. Orik acrescentou ao seu pedido charque, toucinho e produtos semelhantes.
Estalando os dedos, Dahwar pediu para que dois empregados fossem correndo até a torre para trazer os suprimentos. Enquanto todos esperavam o retorno dos homens, ele perguntou:
— Será que eu poderia supor, pela sua presença aqui, Matador de Espectros, que você terminou o seu treinamento com os elfos?
— Meu treinamento jamais acabará enquanto eu estiver vivo.
— Entendo. — Então, depois de um instante, Dahwar disse: — Por favor, desculpe pela minha impertinência, senhor, pois sou ignorante em relação à vida dos Cavaleiros, mas você não é humano? Disseram-me que era.
— Mas ele é — resmungou Orik. — Ele foi... modificado. E você devia ficar feliz com isso, ou nossa situação estaria bem pior do que está. — Dahwar foi discreto o suficiente para não insistir no assunto, mas pelo Eragon pôde concluir dos seus pensamentos, o senescal pagaria qualquer preço por mais informações. Qualquer informação sobre Eragon ou Saphira era valiosa no governo de Orrin.
A comida, a água e o mapa logo foram trazidos por dois pajens de olhos arregalados. Ao comando de Eragon, eles largaram os itens ao lado de Saphira, pareciam terrivelmente apavorados, e depois voltaram para trás de Dahwar. Ajoelhado no chão, Dahwar desenrolou o mapa — que mostrava Surda e as terras vizinhas — e traçou uma linha a noroeste de Aberon até Cithrí. E disse:
— Na última vez que tive notícias, o rei Orrin e lady Nasuada pararam aqui para buscar provisões. No entanto, eles não pretendiam ficar, pois o Império está avançando pelo sul, ao longo do rio Jiet, e queriam estar no lugar certo para enfrentar o exército de Galbatorix quando chegasse. Os Varden podem estar em qualquer lugar entre Cithrí e o rio Jiet. Essa é apenas a minha humilde opinião, mas eu diria que o melhor lugar para procurá-los seria a Campina Ardente.
— A Campina Ardente?
Dahwar sorriu.
— Você deve então conhecê-la pelo seu antigo nome, o nome que os elfos usam: Du Völlar Eldrvarya.
— Ah, sim. — Agora Eragon se lembrava. Ele havia lido sobre o lugar em um dos pergaminhos de Oromis. A campina – que continha grandes depósitos de turfa – ficava ao longo da região oriental do rio Jiet, onde a fronteira de Surda o cruzava, e fora cenário de uma escaramuça entre os Cavaleiros e os Renegados. Durante a luta, os dragões, inadvertidamente, acenderam a turfa com as chamas de suas bocas, e o fogo ficou retido no subterrâneo, onde permaneceu em combustão desde então. O local ou ficando inabitável por causa dos gases nocivos que brotavam das aberturas incandescentes no solo chamuscado.
Um arrepio subiu pelo lado esquerdo do corpo de Eragon enquanto ele lembrava de sua premonição: legiões de guerreiros abalroavam umas as outras sobre um campo laranja e amarelo, acompanhados pelos ásperos dos urubus mais repugnantes e o zunido das flechas negras.
Ele estremeceu novamente. O destino está convergindo sobre nós, disse ele para Saphira. Então, gesticulando na direção do mapa, ele completou: Você já viu o bastante?
Sim.
Rapidamente, ele e Orik empacotaram as provisões, montaram novamente em Saphira e, do seu dorso agradeceram a Dahwar pelo serviço. Quando Saphira estava prestes a decolar novamente, Eragon franziu a testa: uma nota de discórdia havia entrado nas mentes que ele estava monitorando.
— Dahwar, dois cavalariços nos estábulos começaram uma briga e um deles. Tathal, pretende cometer um assassinato. Você poderá detê-lo, no entanto, se enviar homens imediatamente.
Dahwar arregalou os olhos com uma expressão de espanto e até mesmo Orik se voltou para encarar Eragon. O senescal perguntou:
— Como você sabe disso, Matador de Espectros?
Eragon disse simplesmente:
— Sei por que sou um Cavaleiro.
Então Saphira abriu suas asas, e todos que estavam no chão se afastaram correndo para trás a fim de evitar que fossem jogados pelo fluxo de ar, enquanto ela as batia para baixo e voava rumo ao céu. Quando o castelo Borromeo ficou para trás, Orik disse:
— Você consegue ouvir meus pensamentos, Eragon?
— Quer que eu tente? Ainda não o fiz, você sabe.
— Tente.
Franzindo a testa, Eragon concentrou sua atenção na consciência do anão e ficou surpreso ao ver que a mente de Orik estava bem protegida por trás de espessas barreiras mentais. Ele podia sentir a presença de Orik, mas não seus pensamentos e sentimentos.
— Nada.
Orik sorriu.
— Ótimo. Queria me certificar de que não havia esquecido das minhas velhas lições.


Num entendimento tácito, eles não pararam para dormir e em vez disso resolveram avançar gradualmente pelo céu enegrecido. Da lua e das estrelas eles não viram sinal, nenhum clarão ou brilho pálido surgiu para romper as trevas opressivas. As horas mortas foram inchando e se curvando e, como parecia para Eragon, se agarravam a cada segundo como se relutassem em se render ao passado.
Quando o sol finalmente voltou — trazendo junto com ele sua luz — Saphira pousou na beira de um pequeno lago para que Eragon e Orik pudessem esticar as pernas, e tomar o café da manhã sem movimento constante que havia em suas costas.
Haviam acabado de decolar novamente quando uma nuvem marrom, longa e baixa apareceu no horizonte, como uma mancha de tinta da cor da nogueira numa folha de papel branca. A nuvem foi crescendo à medida que Saphira dela se aproximava, até que, no final da manhã, ela ocultou toda a terra sob uma cortina de vapores turvos.
Eles alcançaram a Campina Ardente da Alagaësia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)