27 de maio de 2017

Capítulo 61 - Cruzando o Olho do Javali

As chalupas continuaram a se aproximar do Asa de Dragão ao longo do dia. Roran observava seu progresso sempre que podia, preocupado com a aproximação suficiente para um ataque ao Asa de Dragão antes de chegar ao Olho. Ainda assim, Uthar parecia capaz de escapar da investida das embarcações inimigas, pelo menos por mais algum tempo.
As ordens de Uthar, Roran e os outros aldeões trabalharam para arrumar o navio depois da tempestade e se preparar para a provação seguinte. O trabalho terminou ao cair da noite, quando apagaram todas as luzes a bordo numa tentativa de confundir seus perseguidores em relação à direção que o Asa de Dragão estava seguindo. O ardil funcionou em parte pois, quando o sol nasceu, Roran viu que as chalupas haviam se desviado um quilômetro e meio para noroeste, embora logo recuperassem a distância perdida.
Mais tarde, naquela manhã, Roran subiu no mastro principal até o cesto de vigia, uns quarenta metros acima do convés, tão alto que os homens lá embaixo não pareciam maiores do que seu dedo mínimo. A água e o céu pareciam sacolejar perigosamente a sua volta enquanto o Asa de Dragão oscilava de um bordo para o outro.
Pela luneta que havia trazido, Roran podia ver as chalupas claramente a menos de seis quilômetros da popa e se aproximando mais rápido do que ele gostaria. Eles devem ter percebido o que pretendemos fazer, pensou. Varrendo os arredores com a luneta, vasculhou o oceano em busca de algum sinal do Olho do Javali. Roran parou assim que avistou um enorme disco de espuma do tamanho de uma ilha, girando do norte para o leste. Chegamos tarde, pensou, sentindo uma pontada na boca do estômago.
A maré alta já havia passado e o Olho do Javali ganhava velocidade e força a medida que o oceano se afastava da terra. Roran colocou a luneta sobre a beirada do cesto e viu que a corda cheia de nós que Uthar havia amarrado a boreste da popa — para detectar quando entrassem na área de tração do redemoinho — agora flutuava ao lado do Asa de Dragão em vez de ser arrastada para trás, como seria de costume. O único fator positivo era que eles estavam navegando a favor da corrente do Olho e não contra. Se fosse o contrário, precisariam esperar até a maré virar.
Lá embaixo, Roran ouviu Uthar gritar para os aldeões guarnecerem os remos. Um instante depois, brotaram duas fileiras de varas dos dois bordos do Asa de Dragão, elas faziam a embarcação parecer com um gigantesco desbravador aquático. Na batida de um tambor feito com couro de boi, acompanhada pelo canto ritmado de Bonden enquanto ele marcava o tempo, os remos formavam arcos para frente, mergulhavam no mar verde e brotavam de volta pela superfície do mar, deixavam um rastro de espuma. O Asa de Dragão acelerava rapidamente, agora seguia mais rápido do que as chalupas, que ainda estavam longe da influência do Olho.
Roran observava a tudo que se desenrolava ao redor horrorizado e fascinado ao mesmo tempo. O elemento principal da trama, o ponto crucial do qual dependia o resultado de tudo, era o tempo. Embora estivessem atrasados, será que o Asa de Dragão, com seus remos e velas combinados, era rápido o suficiente para atravessar o Olho? E será que as chalupas — que haviam preparado seus remos naquele instante — conseguiriam diminuir a distância que as separava do Asa de Dragão para garantir sua própria sobrevivência? Ele não podia dizer. O tambor marcava os segundos: Roran estava intensamente ciente de cada momento enquanto este ia passando.
Ele se sobressaltou quando um braço alcançou a beira do cesto e o rosto de Baldor apareceu, levantando os olhos em sua direção.
— Dá para você me dar uma ajuda aqui? Sinto-me como se estivesse prestes a cair.
Segurando-se, Roran ajudou Baldor a entrar no cesto. Este último deu um biscoito e uma maçã para o amigo e disse:
— Achei que você fosse querer almoçar. — Com um aceno de gratidão, Roran aceitou o biscoito e voltou a olhar pela luneta. Quando Baldor perguntou “Você pode ver o Olho?”, Roran lhe passou o monóculo e se concentrou em comer.
Durante a meia hora seguinte, o disco de espuma aumentou a velocidade de suas revoluções até girar como um pião. A água em volta da espuma inchava e começava a subir, e a própria espuma afundava e sumia a, sugada ao fundo de um poço gigante que não parava de se aprofundar e alargar. O ar sobre o vórtice se encheu com um ciclone de névoa, e da garganta marfim do abismo brotou um uivo atormentado como se fosse o de um lobo ferido.
A velocidade com a qual o Olho do Javali se formava deixou Roran estupefato.
— É melhor você ir falar com Uthar — disse ele. Baldor saiu de dentro do cesto. — Amarre-se ao mastro para que você não seja jogado para longe.
— Vou fazer isso.
Roran deixou os seus braços livres quando se prendeu, certificando-se de que, se necessário, ele poderia alcançar a faca do cinto para se soltar. A ansiedade o invadia enquanto avaliava a situação. O Asa de Dragão estava a menos de um quilômetro do centro do Olho, as chalupas estavam a menos de três quilômetros de distância, e o próprio Olho estava crescendo e atingia a sua fúria máxima rapidamente. Pior, provocado pelo redemoinho, o vento cuspia e arfava, soprando primeiro de uma direção e depois da outra. As velas inchavam por um instante, depois murchavam, e depois inchavam novamente e o turbilhão girava em torno do barco.
Talvez Uthar estivesse certo, pensou Roran. Talvez eu tenha ido longe demais e tinha me colocado contra um oponente que não pode ser superado com a pura determinação. Talvez eu esteja enviando os aldeões para suas mortes. As forças da natureza eram imunes à intimidação.
O buraco do Olho do Javali estava agora com quase quinze quilômetros de circunferência, e ninguém saberia dizer quantas braças tinha de profundidade, exceto aqueles que dentro dele ficaram aprisionados. As faces do Olho se emborcavam num ângulo de quarenta e cinco graus: elas eram riscadas com sulcos rasos, como argila molhada moldada num torno de oleiro. O uivo grave ia ficando cada vez mais alto, até Roran se sentir como se o mundo inteiro tivesse que se desintegrar em pedaços devido à intensidade das vibrações. Um arco-íris magnífico emergiu da névoa que pairava sobre a fenda rodopiante.
A corrente se movia mais rápido do que nunca, fazia o Asa de Dragão navegar numa velocidade arriscada em volta da beira do redemoinho. diminuía em muito a probabilidade do barco sair ileso da extremidade sul do Olho. Sua velocidade era tão prodigiosa que o Asa de Dragão pendeu radicalmente para boreste, deixando Roran suspenso sobre a água que corria impetuosa.
Apesar do avanço do Asa de Dragão, as chalupas continuavam a se aproximar. Os navios inimigos navegavam no mesmo ritmo e já estavam menos de um quilômetro atrás do Asa, seus remos se moviam em perfeita coordenação, dois bigodes se formavam em cada proa enquanto singravam o oceano. Roran não conseguia deixar de admirar a visão.
Ele enfiou a luneta dentro da camisa, não precisava mais dela agora. As chalupas já estavam visíveis a olho nu, o redemoinho ficava cada vez mais turvo em meio a nuvens de vapor brancas que eram lançadas das bordas do funil. À medida que era puxado para as profundezas, o vapor formava uma lente espiral sobre o golfo que imitava a aparência do redemoinho.
Então, o Asa de Dragão guinou para bombordo, desviava da corrente enquanto Uthar tentava ganhar o mar aberto. A quilha trepidava na água encrespada, e a velocidade do navio caía pela metade conforme o Asa de Dragão lutava para fugir do abraço mortal do Olho do Javali. Um estremecimento subiu pelo mastro, fez ranger os dentes de Roran, e o cesto balançou na nova direção, deixando-o tonto.
O medo se apoderou de Roran quando eles continuavam a perder velocidade. Ele cortou as cordas que o prendiam e — descuidando completamente de sua própria segurança — ficou balançando por sobre a beira do cesto, segurou as cordas que estavam na parte de baixo, e desceu tão rapidamente pelo cordame, que chegou a perder contato e caiu alguns centímetros antes que pudesse se segurar novamente. Aterrissou no convés, correu para a escotilha da proa e desceu até a primeira carreira de remos, onde se juntou a Baldor e Albriech num deles.
Eles não disseram uma só palavra, mas trabalharam ao som de suas próprias respirações desesperadas, a batida frenética do tambor, os berros roucos de Bonden e o rugido do Olho do Javali. Roran podia sentir o poderoso redemoinho resistindo a cada remada.
E contudo seus esforços não conseguiam impedir que o Asa de Dragão estancasse.
Não vamos conseguir, pensou Roran. Suas costas e suas pernas ardiam por causa do esforço. Seus pulmões doíam como se estivessem recebendo punhaladas. No meio das batidas de tambor, ele ouvia Uthar ordenando às mãos que estavam sobre o convés para ajustarem as velas a fim de tirarem toda a vantagem possível do vento inconstante. Dois lugares à frente de Roran, Darmmen e Hamund entregaram seu remo para Thane e Ridley, depois deitaram no meio do corredor, seus membros tremendo. Menos de um minuto depois, mais alguém desabou na passagem e foi imediatamente substituído por Birgit e outra mulher.
Se sobrevivermos, pensou Roran, será apenas porque temos gente suficiente para sustentar este ritmo o tempo que for necessário.
Parecia que ele vinha remando há uma eternidade naquele ambiente escuro e esfumaçado, primeiro empurrava, depois puxava, fazia o máximo possível para ignorar a dor que ia aumentando em seu corpo. Seu pescoço doía de tanto tempo que passou curvado sob o teto baixo. A madeira escura da vara estava suja de sangue, onde sua pele havia se rompido em bolhas. Ele rasgou a camisa — deixando a luneta cair —, enrolou o pano em volta do remo e continuou a remar.
Até que, enfim, Roran não conseguia fazer mais nada. Suas pernas cederam e ele caiu para o lado, escorregando pelo corredor porque estava muito suado. Orval ocupou o seu lugar. Roran ficou deitado até sua respiração normalizar, depois se ergueu sobre suas mãos e joelhos e se arrastou até a escotilha.
Como um bêbado enlouquecido, ele se arrastou escada acima, balançava junto com o movimento do navio e frequentemente caía contra a parede para descansar. Quando saiu para o convés, aproveitou um breve instante para desfrutar do ar fresco, depois cambaleou na direção da popa. perto do leme, enquanto suas pernas ameaçavam ter câimbras a cada passo.
— Como é que está? — perguntou ofegante para Uthar, que manobrava a roda do leme.
Uthar balançou a cabeça.
Olhando por cima da amurada, Roran avistou ao longe as três chalupas a talvez uns oitocentos metros de distância e um pouco mais para o oeste, mais perto do centro do Olho. As naus pareciam imóveis em relação ao Asa de Dragão.
A princípio, enquanto Roran observava, as posições dos quatro navios pareciam inalteradas. Depois sentiu uma mudança na velocidade do Asa de Dragão, como se o navio tivesse atravessado um ponto crucial e as forças que o prendiam houvessem diminuído. Era uma diferença sutil e não chegava a pouco mais do que alguns centímetros adicionais por minuto — mas já era o suficiente para que a distância entre o Asa de Dragão e as chalupas começasse a aumentar. A cada remada, o navio ganhava força.
As chalupas, no entanto, não conseguiram superar a força espantosa do redemoinho. Suas remadas foram aos poucos diminuindo de intensidade até que, um a um, os navios ficaram para trás e foram tragados pela cortina de névoa, além da qual esperavam as muralhas giratórias de água marfim e as pedras que rangiam no fundo do oceano.
Eles não podem continuar a remar, percebeu Roran. Suas tripulações são muito pequenas e eles estão muito cansados. Ele não podia evitar de sentir uma pontada de angústia pelo destino dos homens nas chalupas. Naquele preciso instante, uma flecha voou da chalupa mais próxima dia em chamas verdes enquanto vinha na direção do Asa de Dragão. Ela devia estar sendo sustentada por magia para ter voado por tanto tempo. Ela atingiu a mezena e explodiu em glóbulos de fogo líquido que grudavam em tudo que tocavam. Em segundos, vinte pequenas fogueiras queimaram ao longo do mastro da mezena, da própria vela e do convés abaixo.
— Não podemos apagá-las — gritou um dos marinheiros com uma expressão de pânico.
— Cortem o que estiver queimando e joguem no mar! — berrou Uthar em resposta.
Tirando a faca do cinto, Roran começou a trabalhar para extirpar uma massa de fogo verde das pranchas aos seus pés. Alguns minutos tensos se passaram antes das chamas artificiais serem removidas, e ficou claro que o incêndio não iria se espalhar para o resto do navio.
Assim que o grito de “Tudo em ordem!” soou, Uthar diminuiu a pressão que fazia na roda do leme.
— Se isso é o melhor que o mágico deles pode fazer, então diria que não há nada mais a temer.
— Vamos conseguir sair do Olho, não? — perguntou Roran, ansioso para confirmar sua esperança.
Uthar ajeitou os ombros e lançou um rápido sorriso ao mesmo tempo orgulhoso e descrente.
— Não exatamente neste ciclo, mas talvez. Não faremos progresso de verdade no sentido de deixar para trás aquele monstro escancarado até que a maré diminua de intensidade. Vá dizer a Bonden para que diminua um pouco o ritmo, não quero que eles desmaiem nos remos desnecessariamente.
E assim foi. Roran remou por mais um turno e, na hora que voltou para o convés. o redemoinho estava se apaziguando. O uivo medonho do vórtice sumia no meio do ruído normal que o vento fazia, a água assumia uma condição calma e plana que não dava nenhuma pista da violência daquele local, e o nevoeiro que se erguera sobre o abismo se dissipava sob os raios quentes do sol, deixava o ar tão claro quanto vidro untado de óleo. Do próprio Olho do Javali — como Roran viu quando recuperou a luneta — nada restava além do mesmo disco de espuma amarela que girava sobre a água.
E, no centro da espuma, ele achou que podia discernir, mais ou menos, três mastros quebrados e uma vela negra flutuando, girando, girando e girando sem parar num círculo interminável. Mas devia ter sido sua imaginação.
Pelo menos foi isso que ele quis acreditar.
Elain se aproximou de Roran, com uma mão pousada em sua barriga inchada. Com a voz baixa, ela disse:
— Tivemos sorte, Roran, mais sorte do que tínhamos motivo para esperar.
— Sim — concordou ele.

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