27 de maio de 2017

Capítulo 60 - A garganta do oceano

O mar obsidiano se erguia sob o Asa de Dragão, erguia bem alto o navio no meio do ar. Lá ele oscilava na crista íngreme e espumante de uma vaga, antes de se lançar à frente e descer pela face da onda até o cavado negro mais abaixo. Algumas nuvens de névoa gasosa lançavam-se através do ar frígido, enquanto o vento gemia e uivava como se fosse um espírito monstruoso.
Roran se agarrava ao cordame de boreste no poço do convés do navio e fazia esforço para vomitar pela amurada, mas nada saía a não ser bílis amarga. Ele se orgulhava do seu estômago não tê-lo perturbado enquanto estava nas chatas de Clóvis, mas a tempestade que enfrentavam agora era tão violenta que até mesmo os homens de Uthar — todos eles marujos experientes — tiveram dificuldade para reter o seu uísque.
Parecia haver um bloco enorme de gelo batendo entre as omoplatas de Roran quando uma onda atingia o barco, atravessando-o e inundando o convés antes de escoar pelos embornais para o oceano espumoso, sulcado e furioso de onde ela veio. Roran tirava a água salgada dos seus olhos com dedos tão grosseiros quanto pedaços de madeira congelada e olhava em direção à popa para o horizonte sombrio.
Talvez a tempestade os retire de nosso rastro. Três chalupas de velas negras os vinham perseguindo desde que passaram pelos despenhadeiros de Ferro e contornaram o que Jeod apelidou de Edur Carthungavë e Uthar identificava como pontal de Rathbar.
— É o rabo final da Espinha, é isso que é — disse Uthar, sorrindo. As chalupas eram mais rápidas do que o Asa de Dragão, pesado que estava pela multidão de aldeões que nele viajava, e haviam rapidamente se aproximado do navio mercante até estarem perto o bastante para trocar salvas de flechas.
O pior de tudo é que parecia que a chalupa da frente carregava um mágico, pois suas flechas eram incrivelmente precisas na pontaria, rasgava cabos, destruía balistas e obstruía roldanas. Baseado nos seus ataques, Roran deduziu que o Império não se importava mais em capturá-lo e só queria impedi-lo de chegar aos Varden. Ele havia acabado de preparar os aldeões para repelir a abordagem quando as nuvens acima assumiram um tom púrpura, pesadas de chuva, e uma tempestade voraz começou a soprar vindo do noroeste. Naquele instante, Uthar alinhou o Asa de Dragão transversalmente em relação ao vento, seguiu na direção das lhas do Sul, onde esperava que fosse se esquivar das chalupas em meio aos bancos de areia e angras da ilha de Beirland.
Um lençol de relâmpagos horizontais tremeluziu no meio de duas massas de nuvens bulbiformes, e o mundo se tornou um platô de mármore claro antes da escuridão se impor mais uma vez. Cada clarão ofuscante estampava uma cena inerte sobre os olhos de Roran, elas continuavam lá, gravadas, duravam até muito tempo depois de os raios brônzeos desaparecerem.
Então veio uma outra sequência de relâmpagos e Roran viu — como se fosse uma série de gravuras — o mastro da mezena se retorcer, rachar e cair no mar agitado, a meia-nau a bombordo. Agarrado a uma corda de segurança, Roran subiu até o tombadilho e, junto com Bonden, cortou os cabos que ainda ligavam o mastaréu ao Asa de Dragão e tragavam a popa para dentro d’água. Os cabos se debateram como cobras ao serem cortados.
Em seguida. Roran desceu para o convés. Seu braço direito o mantinha agarrado à amurada, enquanto o navio baixava seis... sete... oito... nove metros entre as ondas. Uma onda passou por cima de Roran e removeu o calor dos seus ossos. Calafrios atormentavam o seu corpo.
Não me deixe morrer aqui, implorou, embora não soubesse para quem estava se dirigindo. Não nestas ondas cruéis. Minha tarefa ainda não está terminada. Durante aquela noite longa, ele se ateve às suas lembranças de Katrina, usava-as para se consolar quando ficava esgotado e já estava perto de perder a esperança.
A tempestade durou dois dias inteiros e só parou nas primeiras horas da noite. A manhã seguinte trouxe consigo uma alvorada verde e pálida, um céu claro e três velas negras ilustravam o horizonte norte. Para o sudoeste, podia se ver o contorno da ilha de Beirland coroada por uma camada nuvens em torno da montanha escarpada que dominava a ilha. Roran, Jeod e Uthar se encontraram numa pequena cabine — já que o camarote do comandante havia sido cedido para os enfermos —, lá Uthar desenrolou cartas marítimas em cima da mesa e colocou a ponta do dedo em cima da ilha de Beirland.
— É aqui que estamos agora — disse ele. Apanhou um mapa maior do litoral da Alagaësia e apontou para a foz do rio Jiet. — E este aqui é o nosso destino, já que a comida que temos não irá durar até Reavstone. Como chegaremos lá, no entanto, sem sermos alcançados, ultrapassa minha compreensão. Sem nossa mezena, aquelas malditas chalupas nos alcançarão por volta do meio-dia de amanhã, ou à noite, caso manobremos bem as velas.
— Será que não poderíamos substituir o mastro? — perguntou Jeod. — Naus desse tamanho carregam mastros sobressalentes justamente para que possam ser feitos esses tipos de reparos.
Uthar encolheu os ombros.
— Poderíamos fazê-lo, caso tivéssemos um carpinteiro naval. Como não o temos, prefiro não deixar que mãos inexperientes montem uma verga, só para que ela caia no convés depois e acabe machucando alguém.
Roran disse:
— Se não fosse pelo mágico ou mágicos, deveríamos levantar e lutar, pois nosso número excede em muito aos das tripulações das chalupas. Do jeito que as coisas estão, sinto que devemos ter muito cuidado antes de entrar numa batalha. Parece improvável vencer, considerando o número de navios enviados para ajudar os Varden desaparecidos.
Resmungando, Uthar desenhou um círculo em volta de sua posição naquele instante.
— Esta aqui é a distância que conseguiremos percorrer até amanha à noite, se o vento continuar a favor. Poderíamos parar em alguma parte de Beirland ou Nía se quiséssemos, mas não sei como isso poderia nos ajudar. Ficaríamos encurralados. Os soldados naquelas chalupas, os Ra’zac ou até o próprio Galbatorix poderiam nos caçar quando quisessem.
Roran franzia a testa e considerava as suas opções, um embate contra as chalupas parecia inevitável.
Durante alguns minutos a cabine ficou silenciosa, exceto pelo bater das ondas contra o casco. Depois, Jeod colocou seu dedo no mapa, entre as ilhas de Beirland e Nía, olhou para Uthar e perguntou:
— Que tal o Olho do Javali?
Para surpresa de Roran, o marinheiro com a cicatriz ficou literalmente pálido.
— Eu não me arriscaria a fazer isso, mestre Jeod, pelo menos não nesta vida. Preferiria enfrentar as chalupas e morrer em mar aberto a ir para aquele lugar maldito. Ele já consumiu o dobro de naus que há na frota de Galbatorix.
— Lembro-me de ter lido — disse Jeod, recostando em sua cadeira, — que tal passagem é perfeitamente segura nas marés alta e baixa. Não é verdade?
Com grande e evidente relutância, Uthar admitiu:
— Sim. Mas o Olho é tão largo que requer o período mais preciso possível para ser atravessado, sem que o navio seja destruído. Seríamos apressados pelas chalupas no nosso encalço.
— Se pudéssemos, no entanto — insistiu Jeod —, se pudéssemos escolher o momento certo, as chalupas seriam destruídas ou, caso lhes falte paciência serão forçadas a contornar a ilha de Nía. Isso nos daria tempo para encontrar um esconderijo ao longo de Beirland.
— Se, se... Você nos mandaria para as profundezas, isso sim.
— Ora. Uthar, o seu medo não tem justificativa. O que eu proponho é perigoso, admito, mas não é nada pior do que foi a fuga de Teirm. Ou você duvida da sua capacidade de conduzir a nau pela fenda? Você não é homem o bastante para fazer isso?
Uthar cruzou seus braços expostos.
— Você nunca viu o Olho, não é, senhor?
— Não posso dizer que vi.
— Não é que eu não seja homem o bastante, mas o fato é que o Olho excede a força dos homens, envergonha nossos maiores navios, nossas torres mais altas, e qualquer coisa que você ousar citar. Provocá-lo seria como tentar apostar corrida com uma avalanche, você pode conseguir, mas também pode muito bem ser reduzido a pó.
— O que — perguntou Roran — é esse tal de Olho do Javali?
— A garganta do oceano que devora tudo — proclamou Uthar.
Num tom mais suave, Jeod disse:
— É um redemoinho d’água, Roran. O Olho se forma como resultado de fluxos marítimos que se chocam entre as ilhas de Beirland e Nía. Quando a maré aumenta, o Olho gira do norte para o oeste. Quando baixa, gira do norte para o leste.
— Isso não me parece tão perigoso.
Uthar balançou a cabeça, fazendo o rabicho bater nas laterais do seu pescoço cheio de dermatoses provocadas pelo vento, e riu.
— Ele diz que não é tão perigoso! Ah, ah!
— O que não se consegue compreender — prosseguiu Jeod — é o tamanho do vórtice. Em média, o centro do Olho possui uma légua de diâmetro, enquanto os braços da corrente devem se estender por algo era torno de quinze a vinte e cinco quilômetros. Barcos desafortunados o suficiente são tragados pelo Olho e levados para o fundo do mar e se chocam com as rochas pontiagudas que lá estão. Destroços de embarcações são constantemente encontrados nas praias das duas ilhas.
— Será que alguém espera que nós peguemos essa rota? — indagou Roran.
— Não, e por uma boa razão — resmungou Uthar.
Jeod sacudiu a cabeça ao mesmo tempo.
— E é possível para nós cruzar o Olho?
— Seria uma verdadeira idiotice.
Roran compreendeu.
— Sei que isso é um risco que você não quer correr, Uthar, mas nossas opções são limitadas. Não sou marujo, por isso tenho que confiar no seu julgamento: podemos cruzar o Olho?
O comandante hesitou.
— Talvez sim, talvez não. Você tem que ser um verdadeiro louco varrrido para ficar a oito quilômetros daquele monstro.
Sacando o seu martelo, Roran o bateu em cima da mesa. Deixando uma marca com um centímetro de profundidade.
— Então eu sou um louco varrido! — Ele reteve o olhar de Uthar até o marinheiro tremer de desconforto. — Será que preciso lembrá-lo de que só chegamos até aqui fazendo o que aqueles que se preocupam exageradamente diziam que não podia, ou não devia ser feito? Nós de Carvahall ousamos abandonar nossos lares e cruzar a Espinha. Jeod ousou imaginar que poderíamos roubar o Asa de Dragão. O que você vai ousar, Uthar? Se conseguirmos enfrentar o Olho e viver para contar a história, você será saudado como um dos maiores marinheiros da história. Agora me responda e com bastante sinceridade: podemos passar?
Uthar passou a mão no rosto. Quando falou, foi num tom de voz baixo, como se a explosão de Roran afastasse dele todo o escarcéu.
— Não sei, Martelo Forte... Se esperarmos o Olho acalmar, as chalupas poderão ficar tão próximas de nós que, se escaparmos, elas escaparão também. E se o vento ceder, ficaremos presos na corrente, incapazes de nos libertarmos.
— Como comandante, você está disposto a tentar? Nem Jeod nem eu podemos comandar o Asa de Dragão no seu lugar.
Uthar ficou olhando as cartas náuticas longamente, uma das mãos apertava a outra. Traçou uma ou duas linhas a partir da posição em que estavam e fez uma tabela de figuras que Roran não conseguiu entender. Finalmente ele se pronunciou:
— Temo que naveguemos para a morte, mas, sim, farei o melhor que puder para cruzar o Olho.
Satisfeito, Roran guardou o seu martelo.
— Então, que seja.

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Boa leitura :)