27 de maio de 2017

Capítulo 6 - A promessa de Saphira

Na manhã seguinte ao encontro com o Conselho de Anciãos, Eragon estava limpando e lubrificando a sela de Saphira — com cuidado para não ficar muito extenuado — quando Orik veio visitá-lo. O anão ficou esperando até Eragon terminar com uma correia e perguntou:
— Você está melhor hoje?
— Um pouco.
— Bom, nós todos precisamos de nossa força. Vim em parte para ver como estava a sua saúde e também porque Hrothgar quer falar com você, se estiver livre.
Eragon deu um sorriso atravessado para o anão.
— Para ele estou sempre livre. Ele deve saber disso.
Orik riu.
— Ah, mas é educado pedir com delicadeza. — Assim que Eragon largou a sela, Saphira se desenroscou de seu canto acolchoado e cumprimentou Orik com um grunhido amigável. — Bom-dia para você também — disse ele, curvando-se.
Orik os conduziu por um dos quatro corredores principais de Tronjheim em direção à câmara central e das duas escadarias que pareciam um reflexo da outra e desciam até a sala do trono do rei dos anões. Antes que chegassem à câmara, no entanto, ele desceu um pequeno lance de escada. Eragon levou um instante para perceber que Orik havia pegado uma passagem lateral, a fim de não ver os destroços de Isidar Mithrim.
Eles pararam em frente a portas de granito onde havia uma coroa de sete pontas gravada. Sete anões usando armaduras em cada lado da entrada batiam no chão simultaneamente com os cabos de suas picaretas. Com o eco da batida da madeira na pedra, as portas se abriram para dentro.
Eragon acenou para Orik, e depois entrou no salão opaco com Saphira. Os dois avançaram em direção ao trono distante, passando pelas estátuas rígidas, hírna, de antigos reis anões. Aos pés do trono negro, Eragon se curvou. O rei anão inclinou sua cabeça prateada em retribuição, e os rubis que ornavam seu elmo dourado brilhavam debilmente na luz, como se fossem pontinhos de ferro em brasa. Volund, o martelo de guerra, estava estendido sob suas pernas cobertas pela armadura. Hrothgar falou:
— Matador de Espectros, bem-vindo ao meu salão. Você fez muita coisa desde que nos encontramos pela última vez. E, pelo que parece, eu estava errado em relação à Zar’roc. A espada de Morzan será bem-vinda em Tronjheim enquanto você a estiver portando.
— Obrigado — disse Eragon enquanto se erguia.
— Além disso — disse o anão em voz grossa —, gostaríamos que você mantivesse a armadura que usou na batalha de Farthen Dûr. Neste exato momento, nossos melhores ferreiros a estão reparando. A armadura do dragão está sendo tratada da mesma forma e, quando estiver restaurada, Saphira poderá usá-la o tempo que quiser ou até quando não lhe couber mais. Isso é o mínimo que podemos fazer para expressar a nossa gratidão. Se não fosse pela guerra com Galbatorix, haveria banquetes e celebrações em sua honra... mas estas devem esperar por um momento mais apropriado.
Dando voz ao seu sentimento e ao de Saphira, Eragon disse:
— Você é generoso além de todas as expectativas. Iremos apreciar tais nobres presentes.
Claramente satisfeito, Hrothgar, contudo, franziu a testa, juntando suas sobrancelhas emaranhadas.
— Não podemos continuar trocando elogios. Estou sendo assediado pelos clãs com pedidos para que eu faça uma coisa ou outra em relação ao sucessor de Ajihad. Quando o Conselho de Anciãos proclamou ontem que iria apoiar Nasuada, acabou criando um rebuliço nunca visto desde que ascendi ao trono. Os chefes tinham que decidir se aceitavam Nasuada ou se seria necessário procurar outro candidato. A maior parte concluiu que Nasuada deveria liderar os Varden, mas gostaria de saber de que lado você está, Eragon, antes de eu me definir. A pior coisa para um rei é que ele pareça tolo.
Quanto podemos lhe dizer?, perguntou Eragon para Saphira, pensando rapidamente.
Ele sempre foi sincero para conosco, mas não podemos saber o que pode ter prometido para outras pessoas. E melhor que sejamos cautelosos até Nasuada tomar o poder de fato.
Muito bem.
— Saphira e eu concordamos em ajudá-la. Não iremos nos opor a sua ascensão. E — Eragon se perguntou se estava indo longe demais — rogo para que você faça o mesmo, os Varden não podem ficar lutando uns com os outros. Eles precisam de unidade.
— Oeí — disse Hrothgar, inclinando-se para trás —, você fala com uma nova autoridade. Sua sugestão é boa, mas irá lhe custar uma pergunta: Você acha que Nasuada será uma líder sábia, ou há outros motivos para que ela tenha sido escolhida?
É um teste, avisou Saphira. Ele quer saber por que resolvemos apoiá-la.
Eragon sentiu seus lábios se contraindo num meio sorriso.
— Acho que ela é sábia e tem uma perspicácia de alguém muito mais velho. Ela vai ser boa para os Varden.
— E é por isso que você a está apoiando?
— Sim.
Hrothgar acenou com a cabeça, levantando e abaixando sua barba longa e branca.
— Isso me deixa aliviado. Ultimamente tem havido pouquíssima preocupação em relação ao que é bom e correto, e muita sobre o que irá trazer poder individual. É difícil assistir a tanta idiotice e não ficar furioso.
Um silêncio desconfortável, sufocante se fez entre eles na longa sala do trono. Para quebrá-lo, Eragon perguntou:
— O que será feito do abrigo para dragões? Será que vão construir um novo andar?
Pela primeira vez, os olhos do rei ficaram tristes, realçando as linhas que os cercavam e os alargavam como raios numa roda de carroça. Era o mais próximo que Eragon vira de um anão prestes a chorar.
— Será necessário conversar muito antes de tal passo ser dado. O que Saphira e Arya fizeram foi uma coisa terrível. Talvez necessária, mas terrível. Ah, teria sido melhor se os Urgals tivessem nos assolado antes de Isidar Mithrim ser destruído. O coração de Tronjheim foi despedaçado, assim como o nosso. — Hrothgar colocou o punho no peito e depois abriu lentamente a mão e se abaixou para pegar o cabo de Volund, envolto por uma capa de couro.
Saphira tocou a mente de Eragon. Ele sentiu diversas emoções dentro dela, mas o que mais o surpreendeu foi o remorso e a culpa. Ela lamentava sinceramente o fim da Estrela Rosa, apesar de ter sido preciso arruiná-la. Pequenino, disse ela, me ajude. Preciso falar com Hrothgar. Pergunte a ele: Será que os anões têm a capacidade de reconstruir Isidar Mithrim a partir dos fragmentos?
Enquanto ele repetia as palavras, Hrothgar murmurou algo em sua própria língua, para depois dizer:
— A capacidade nós temos, mas e daí? Tal tarefa levaria meses ou anos para ser realizada e o resultado final seria um arremedo falido da beleza que outrora enfeitava Tronjheim! É uma abominação que jamais irei sancionar.
Saphira continuou a olhar para o rei sem piscar. Agora, diga a ele: Se os fragmentos de Isidar Mithrim fossem reunidos, sem uma única peça faltando, acredito que poderia fazer com que ficasse inteira mais uma vez.
Eragon ficou olhando-a pasmo, esquecendo-se de Hrothgar em seu espanto. Saphira! A energia que seria requerida! Você mesma me disse que não poderia usar a magia a seu bel-prazer, então o que lhe dá certeza de que pode fazer isso?
Posso fazê-lo se a necessidade for grande o bastante. Será o meu presente para os anões. Lembre-se do túmulo de Brom, deixe que essa recordação dissipe a sua dúvida. E feche a boca – não é de bom tom ficar assim, e o rei estão olhando.
Quando Eragon comunicou a oferta de Saphira, Hrothgar se levantou com uma exclamação:
— Isso é possível? Nem mesmo os elfos poderiam tentar realizar tal proeza.
— Ela confia em sua capacidade.
— Então iremos reconstruir Isidar Mithrim, não importa que levemos cem anos. Iremos construir uma estrutura para a joia e colocar cada pedaço no seu lugar de origem. Nenhuma lasca será esquecida. Mesmo se tivermos que quebrar os pedaços maiores para movê-los, isso será feito com toda a nossa habilidade lapidaria, para que não se perca nenhuma limalha ou partícula. Vocês virão depois, quando tivermos terminado, e restaurarão a Estrela Rosa.
— Viremos sim — concordou Eragon, inclinando-se.
Hrothgar sorriu, e foi como uma rachadura numa parede de granito.
— Que grande alegria você me deu, Saphira. Sinto mais uma vez que tenho uma razão para governar e viver. Se você fizer isso, anões de toda parte irão honrar seu nome por incontáveis gerações. Vão agora com a minha bênção enquanto eu espalho as novidades entre os clãs. E não se sintam presos para esperar o meu anúncio, pois tamanha notícia não deve ser negada a nenhum anão, levem-na para todos que encontrar. Que os salões ecoem com o júbilo de nossa raça.
Com mais um inclinar de cabeça, Eragon e Saphira partiram, deixando o rei dos anões sorrindo no trono. Do lado de fora do salão, Eragon contou a Orik o que havia transcorrido. O anão se curvou na mesma hora e beijou o chão diante de Saphira. Ergueu-se com um sorriso largo e agarrou o braço de Eragon, dizendo:
— De fato, uma maravilha. Você nos deu exatamente a esperança de que necessitávamos para resistirmos aos acontecimentos recentes. Haverá muita bebedeira hoje à noite, posso apostar!
— E amanhã será o funeral.
Orik aquietou-se por um instante.
— Amanhã, sim. Mas até lá não devemos deixar que pensamentos infelizes nos perturbem! Venha!
Pegando a mão de Eragon, o anão o arrastou por Tronjheim até um grande salão de festas onde muitos anões estavam sentados em mesas de pedra. Orik pulou para cima de uma delas, espalhando pratos e tigelas pelo chão e, em voz alta, proclamou as notícias sobre Isidar Mithrim. Eragon quase ficou surdo com os aplausos e os berros que se seguiram. Cada um dos anões insistiu em ir até Saphira para beijar o chão da mesma forma que Orik havia feito. Quando o ritual se encerrou, todos abandonaram os seus pratos e encheram suas canecas de pedra com cerveja e hidromel.
Eragon se juntou à festança com uma entrega que o surpreendeu. Aquilo ajudou a diminuir a melancolia acumulada em seu coração. No entanto, tentou resistir à devassidão completa, pois estava consciente dos deveres que o aguardavam no dia seguinte, e queria estar com a cabeça alerta.
Até mesmo Saphira tomou um gole de hidromel e, ao descobrir que ela tinha gostado, os anões lhe deram um barril inteiro com a bebida. Baixando delicadamente suas poderosas mandíbulas através da parte aberta do tonel, ela o esvaziou com três longos goles, para depois virar a cabeça em direção ao teto e soltar uma língua de fogo gigantesca. Levou alguns minutos para que Eragon convencesse os anões de que era seguro aproximar-se dela novamente, mas assim que conseguiu, eles trouxeram para ela um outro barril — ignorando os protestos do cozinheiro — e o Cavaleiro ficou vendo, estupefato, sua montaria esvaziá-lo também.
Enquanto Saphira ficava cada vez mais inebriada, suas emoções e pensamentos vinham para Eragon com muito mais força. Ficou difícil para ele contar com seus próprios sentidos: a visão dela começou a se sobrepor à dele, obscurecendo os movimentos e mudando as cores. Até mesmo os odores que ele sentia mudaram em alguns momentos, tornando-se mais agudos e pungentes.
Os anões começaram a cantar juntos. Acenando enquanto se levantava, Saphira cantava com os lábios fechados, pontuando cada frase com um rugido. Eragon abriu a boca para se juntar à cantoria e ficou chocado quando, em vez de palavras, percebeu que o rosnar estridente da voz de um dragão saía pela sua boca. Isso, pensou ele, balançando a cabeça, está indo longe demais... Ou será que estou apenas bêbado? Ele resolveu que aquilo não importava e continuou a cantar arrebatadamente, com voz de dragão ou não.
Anões continuavam a fluir para dentro do salão à medida que as notícias sobre Isidar Mithrim se espalhavam. Logo, centenas tomaram as mesas, formando um anel espesso em volta de Eragon e Saphira. Orik chamou músicos que se acomodaram num canto, onde tiraram as capas verdes de veludo de seus instrumentos. Imediatamente harpas, alaúdes e flautas prateadas fizeram suas ricas melodias pairarem sobre a multidão.
Muitas horas se passaram antes do barulho e da excitação começarem a diminuir. Quando isso se deu, Orik subiu novamente em cima da mesa. Ele ali ficou, com as pernas abertas para dar equilíbrio, a caneca na mão, o boné firme e virado de lado e gritou:
— Ouçam, ouçam! Finalmente celebramos da forma apropriada. Os Urgals se foram, o Espectro está morto e vencemos! — Os anões bateram todos em cima de suas mesas em sinal de aprovação. Foi um bom discurso, curto e direto. Mas Orik ainda não havia terminado. — Para Eragon e Saphira! — bradou, levantando a caneca. Isso também foi um gesto bem recebido.
Eragon se levantou e se curvou, o que gerou mais gritos. Ao seu lado, Saphira se erguia para colocar a pata dianteira sobre o peito, numa tentativa de copiar o movimento de seu Cavaleiro. Ela cambaleou e os anões, percebendo o perigo, se afastaram. Por um triz, não foram atingidos. Com um grito em voz alta, Saphira caiu para trás, aterrissando numa mesa para banquetes.
Uma dor percorreu as costas de Eragon e ele caiu sem sentidos ao lado da cauda do animal.

5 comentários:

  1. kkkkkkkkkkkkkkkkkk Saphira bêbada, um dragão bêbado é realmente uma coisa nova kkkkkkk

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    1. Kkkkk, só quero ver quando ela acordar no dia seguinte ahushaushushsua.

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  2. Gente cadê os comentários????

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  3. KKKKK como vai ser o dia seguinte? vai tomar chá? kakakaka

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  4. realmente, esses dois de fogaréu foi o máximo. Estou amando esse conto, maravilhoso! Obrigada Karina.

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Boa leitura :)