22 de maio de 2017

Capítulo 59 - O Sábio Pesaroso

Fragmentos das memórias do Espectro continuavam a lampejar na mente de Eragon. Um furacão de eventos sombrios e emoções tomou conta dele, tornando impossível pensar. Submerso naquele redemoinho, ele não sabia onde estava ou quem era. Encontrava-se cansado demais para se livrar da presença estranha que deixava sua mente nebulosa. Imagens violentas e cruéis do passado do Espectro explodiram atrás de seus olhos até que sua alma gritasse em desespero perante aquelas visões sangrentas.
Uma pilha de corpos se elevou perante ele... Inocentes trucidados pelas ordens do Espectro. Viu ainda mais corpos, vilarejos inteiros cheios deles, que perderam a vida depois de uma palavra ou de um gesto da mão daquele feiticeiro. Não havia escapatória da carnificina que o cercava. Ele vacilava como a chama de uma vela, incapaz de resistir àquela onda de maldade. Rezou para que alguém o tirasse daquele pesadelo, mas não havia ninguém para guiá-lo. Se pudesse, pelo menos, lembrar o que ele devia ser: rapaz ou homem, vilão ou herói, Espectro ou Cavaleiro, tudo estava embolado em um frenesi sem sentido. Ele estava perdido, completa e totalmente, naquela massa rolante.
De repente, uma aglomeração de suas próprias memórias irrompeu no meio da nuvem deplorável deixada pela mente malevolente do Espectro. Todos os eventos acontecidos desde que ele encontrou o ovo de Saphira surgiram para ele em uma luz fria de revelações. Suas realizações e suas falhas foram igualmente exibidas.
Perdeu muitas das coisas que eram queridas por ele, contudo o destino havia lhe dado dons raros e grandiosos. Pela primeira vez, sentia orgulho, simplesmente, de ser quem ele era. Como em uma reação à sua breve autoconfiança, a escuridão sufocante do Espectro investiu contra ele mais uma vez. A identidade dele vagou em direção ao vazio enquanto a incerteza e o medo consumiam seus sentidos. Quem ele era para achar que podia desafiar os poderes da Alagaësia e continuar vivo?
Lutou contra os pensamentos sinistros do Espectro, primeiramente de modo fraco, depois com mais força. Sussurrou as palavras da língua antiga e viu que elas deram a ele força suficiente para poder resistir à escuridão que embaçava sua mente. Embora suas defesas falhassem perigosamente, começou, lentamente, a dirigir sua consciência abalada para uma pequena concha brilhante em volta de seu âmago. Fora da mente, ele estava consciente de que havia uma dor tão grande que ameaçava acabar com sua própria vida, mas alguma coisa, ou alguém, parecia mantê-la sob controle.
Ele ainda estava fraco demais para clarear sua mente por completo, mas estava lúcido o bastante para avaliar suas experiências desde Carvahall. Aonde ele iria agora... E quem mostraria o caminho a ele?
Sem Brom, não havia ninguém que pudesse guiá-lo ou ensiná-lo.
— Venha até mim.
Ele recuou ao toque de outra consciência – tão vasta e poderosa que parecia uma montanha que se avultava sobre ele. E ele percebeu que era essa pessoa que estava bloqueando a dor. Como na mente de Arya, música fluía nesta também, acordes intensos, de tonalidade âmbar-dourado, ressoavam com uma melancolia imperiosa.
Finalmente, ele ousou perguntar:
— Quem... Quem é você?
— Aquele que pode ajudar. — Com um lampejo de um pensamento inconfesso, a influência do Espectro foi empurrada para o lado como uma teia de aranha indesejada. Livre daquele peso opressor, Eragon permitiu que sua mente se expandisse até que tocasse uma barreira da qual ele não podia passar. — Eu o protegi da melhor maneira que podia, mas você está tão distante que não posso fazer mais do que isolar a sua sanidade da dor.
Novamente:
— Quem é você para fazer isso?
Houve um estrondo grave.
— Eu sou Osthato Chetowä, o Sábio Pesaroso. E Togira Ikonoka, o Imperfeito Que É Perfeito. Venha até mim, Eragon, pois tenho respostas para suas perguntas. Você não estará seguro até me encontrar.
— Mas como posso encontrá-lo se não sei onde você está? — perguntou ele em desespero.
— Confie em Arya e vá com ela para Ellesméra, eu estarei lá. Tenho esperado por muitas estações, então não se demore ou poderá ser tarde demais... Você é maior do que imagina, Eragon. Pense no que fez e rejubile-se, pois você livrou a terra de um grande mal. Você realizou uma façanha que ninguém mais poderia ter realizado. Muitos têm uma dívida com você.
O estranho tinha razão: o que ele havia feito era digno de honra, de reconhecimento. Não importava o que as suas experiências futuras lhe trouxessem, ele não era mais apenas um peão no jogo do poder. Ele havia transcendido tudo isso e era algo diferente, algo mais. Ele havia se tornado o que Ajihad queria: uma autoridade independente de qualquer rei ou líder.
Ele sentiu aprovação quando chegou a essa conclusão.
 Você está aprendendo — disse o Sábio Pesaroso, aproximando-se. Uma visão passou dele para Eragon: uma explosão de cores brotou em sua mente, formando uma figura curvada, vestida de branco, em pé em um penhasco banhado pela luz do sol. — Chegou a hora de você descansar, Eragon. Quando você acordar, não fale sobre mim a ninguém — disse a figura gentilmente, com o rosto oculto por uma nuvem prateada. — Lembre-se: você precisa ir até os elfos. Agora, durma... — Ele ergueu uma de suas mãos, como em uma bênção, e a paz tomou conta de Eragon.
Seu último pensamento foi que Brom teria sentido orgulho dele.


— Acorde — ordenou uma voz. — Acorde, Eragon, pois você já está dormindo há muito tempo. — Ele se mexeu contra a sua vontade, avesso a ouvir qualquer coisa. O calor que o cercava era confortável demais para ser abandonado. A voz soou de novo. — Levante-se, Argetlam. Precisamos de você!
Ele, relutantemente, forçou a si mesmo a abrir os olhos e viu que estava em uma cama comprida, envolvido por cobertores macios. Angela estava sentada em uma cadeira ao lado dele, olhando para seu rosto atentamente.
— Como está se sentindo? — perguntou ela.
Desorientado e confuso, ele permitiu que seus olhos examinassem o pequeno quarto.
— Eu... Eu não sei — respondeu ele, sua boca estava seca e rachada.
— Então, não se mexa. Você precisa preservar suas forças — disse Angela, passando a mão em seus cabelos cacheados. Eragon viu que ela ainda usava sua armadura. Por que isso? Um acesso de tosse deixou-o tonto, zonzo e todo dolorido. Seus membros febris estavam pesados. Angela pegou no chão um chifre decorado com borda de ouro e o encostou nos lábios dele. — Tome. Beba.
Um hidromel gelado correu por sua garganta abaixo, refrescando-o. O calor floriu em seu estômago e subiu até o seu rosto. Ele tossiu de novo, o que piorou sua cabeça latejante. Como vim parar aqui? Houve uma batalha... Nós estávamos perdendo... Aí Durza e...
— Saphira! — exclamou ele, colocando-se sentado. Ele caiu para trás quando sua cabeça girou, fechando os olhos, sentindo-se enjoado. — O que houve com Saphira? Ela está bem? Os Urgals estavam vencendo... Ela estava caindo. E Arya!
— Elas sobreviveram — garantiu Angela. — E estão esperando você acordar. Você quer vê-las? — Ele concordou fracamente com a cabeça.
Angela levantou-se e abriu a porta. Arya e Murtagh entraram em fila.
Saphira serpenteou sua cabeça para dentro do quarto depois deles, o corpo dela era grande demais para passar pela porta. O peito dela vibrava enquanto ela murmurava baixinho, seus olhos brilhavam. Sorrindo, Eragon tocou os pensamentos dela com alívio e gratidão.
É bom ver que você está melhor, pequenino, ela disse com ternura.
É bom ver que você também está, mas como...
Os outros querem explicar, então deixarei.
Você cuspiu fogo! Eu vi!
Foi, disse ela com orgulho.
Ele deu um sorriso fraco, ainda confuso, e olhou para Arya e Murtagh. Os dois ostentavam ataduras: Arya no braço e Murtagh na cabeça. Murtagh deu um sorriso largo.
— Já era hora de você acordar. Estamos sentados no corredor há horas.
— O que... O que aconteceu? — perguntou Eragon.
Arya estava triste. Mas Murtagh gritou triunfante:
— Nós vencemos! Foi incrível! Quando os espíritos do Espectro, se podemos chamá-los assim, voaram por Farthen Dûr, os Urgals pararam de lutar para vê-los indo embora. Foi como se eles tivessem sido libertados de um encanto, pois os clãs deles, de repente, começaram a brigar uns com os outros. O exército inteiro deles foi desagregado em poucos minutos. Nós os afugentamos depois disso!
— E todos eles morreram? — perguntou Eragon.
Murtagh balançou a cabeça.
— Não, muitos deles escaparam fugindo para dentro dos túneis. Os Varden e os anões estão ocupados expulsando-os neste momento, mas isso vai demorar. Eu estava ajudando até que um Urgal me atingiu na cabeça e fui mandado para cá.
— Eles não vão prender você de novo?
A expressão no rosto dele ficou séria.
— Ninguém está ligando para isso agora. Muitos dos Varden e dos anões foram mortos. Os sobreviventes estão ocupados tentando se recuperar da batalha. Mas, pelo menos, você tem um motivo para ficar feliz. Você é um herói! Todos estão falando sobre como você matou Durza. Se não fosse por você, nós teríamos perdido.
Eragon ficou perturbado com as palavras dele, mas resolveu deixá-las de lado para refletir sobre elas depois.
— Onde estavam os gêmeos? Eles não estavam onde deviam estar... Não consegui fazer contato com eles. Eu precisei da ajuda deles.
Murtagh deu de ombros.
— Disseram-me que eles lutaram bravamente contra um grupo de Urgals que invadiram Tronjheim em outro ponto. Eles, provavelmente, deviam estar ocupados demais para falar com você.
Por alguma razão, isso parecia uma transgressão, mas Eragon não conseguia determinar por quê. Virou-se para Arya. Os olhos grandes e brilhantes dela ficaram fixos nele o tempo todo.
— Como vocês não bateram no chão? Você e Saphira estavam... — A voz dele fraquejou.
Ela disse lentamente:
— Quando você avisou Saphira sobre Durza, eu ainda estava tentando remover sua armadura danificada. Quando consegui retirá-la, era tarde demais para descer usando a Vol Turin, você teria sido capturado antes que eu chegasse lá embaixo. Além disso, Durza teria acabado com você antes de me deixar tentar salvá-lo. — O tom de pesar surgiu na voz dela. — Então, fiz a única coisa que poderia fazer para distraí-lo: quebrei a estrela de safira.
E eu a levei até lá embaixo, acrescentou Saphira.
Eragon fez força para assimilar aquilo quando outro acesso de vertigem o obrigou a fechar os olhos.
— Mas por que nenhum dos pedaços bateu em vocês ou em mim?
— Porque eu não deixei que isso acontecesse. Quando estávamos quase chegando ao chão, eu os segurei imóveis em pleno ar, depois, lentamente, baixei-os até o piso. Caso contrário, eles teriam se espatifado, produzindo milhares de cacos, matando você — declarou Arya com simplicidade. As palavras dela denunciavam o poder que havia dentro dela.
Angela acrescentou amargamente:
— É, e isso quase matou você também. Tive de usar todos os meus conhecimentos para manter vocês dois vivos.
Uma dor aguda repentina correu pelo corpo de Eragon, comparando-se em intensidade à sua cabeça latejante. Minhas costas... Mas ele sentiu que não havia nenhuma atadura nelas.
— Há quanto tempo estou aqui? — perguntou apreensivo.
— Há um dia e meio — respondeu Angela. — Você teve sorte de eu estar por perto, caso contrário levaria semanas para ficar curado, se tivesse sobrevivido. — Assustado, Eragon tirou os cobertores de cima do seu tronco e virou-se para tocar as costas. Angela segurou o pulso dele com sua pequena mão, o receio refletia-se nos olhos dela.
— Eragon... Você precisa entender que meu poder não é como o seu ou como o de Arya. Ele depende do uso de ervas e poções. Há limites para o que eu posso fazer, especialmente com algo tão grande quanto...
Com um puxão, ele libertou seu pulso da mão de Angela e tocou as costas, seus dedos tateavam. Sua pele estava suave e quente, perfeita. Músculos rígidos flexionavam-se embaixo das pontas de seus dedos conforme ele se mexia. Deslizou a mão em direção à nuca e, inesperadamente, sentiu uma saliência dura com mais de um centímetro de largura. Ele a acompanhou, descendo por suas costas, horrorizado. O golpe de Durza o deixou com uma enorme cicatriz nodosa que se esticava do ombro direito até a cintura oposta.
A compaixão tomou conta do rosto de Arya quando ela murmurou:
— Você pagou um preço terrível por sua façanha, Eragon Matador de Espectros.
Murtagh riu de modo estridente.
— É você agora é igual a mim.
O medo tomou conta de Eragon e ele fechou os olhos. Ele estava desfigurado. Depois, lembrou algo de quando estava inconsciente... Uma figura vestida de branco que o ajudou. Um imperfeito que era perfeito, Togira Ikonoka. Ele disse: Pense no que fez e rejubile-se, pois você livrou a terra de um grande mal. Você realizou uma façanha que ninguém mais poderia ter realizado. Muitos têm uma dívida com você...
Venha até mim, Eragon, pois tenho respostas para suas perguntas.
Um toque de paz e contentamento consolou Eragon.
Eu irei.

9 comentários:

  1. OLHA O QUE VOCÊ FEZ COMIGO, EU TÔ TREMENDO, KARINA.

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    1. Hauehaueahuea
      Vá direto pra Eldest agora!

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  2. Esse com certeza conta como o desafio do mês kkkkkk adorei o livro!!!!!

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  3. Eu irei. Eu iriei ler o próximo livro!

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  4. Gnt q pftoooooo <3 só n posso ler a continuação agora pq tenho outros livros pra ler na frente mas quando acabar.. Maravilhosoooo <3 Ameii

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  5. Eu tô indo agora mesmo ler a continuação! Muito bom o livro! Obrigada por postar, Karina-san :3

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Boa leitura :)