27 de maio de 2017

Capítulo 58 - Visões próximas e distantes

Chegou o dia em que Eragon foi à clareira do outro lado da cabana de Oromis, sentou-se na tora branca e polida no centro daquele vazio musgoso e — quando abriu a mente e observou as criaturas ao seu redor — sentiu não apenas os pássaros, as feras e os insetos, sentiu também as plantas da floresta.
As plantas possuíam uma consciência diferente da dos animais: lenta, deliberada e difusa, mas, à sua maneira, eram tão cientes do que estava no entorno quanto Eragon. O impulso leve de consciência das plantas banhava a galáxia de estrelas por trás dos seus olhos — cada faísca luminosa representava uma vida — tinha um brilho suave e onipresente. Até mesmo o solo mais improdutivo fervilhava de organismos, a própria terra estava viva e consciente.
A vida inteligente, concluiu ele, existe em toda parte.
Enquanto Eragon mergulhava nos pensamentos e sentimentos dos seres à sua volta, ele teve como alcançar um estado de paz interior tão profundo que durante aquele tempo, cessou de existir como indivíduo. Ele se permitia a fusão, era um vazio, era um receptáculo para as vozes do mundo. Nada escapava da sua atenção, pois esta não estava focada em nada. Ele era a floresta e seus habitantes.
É assim que um deus se sente?, questionou-se Eragon enquanto voltava a si.
Ele deixou a clareira, procurou Oromis em sua cabana e se ajoelhou na frente do elfo, dizendo:
— Mestre, eu fiz como você me pediu. Fiquei ouvindo até não ouvir mais nada.
Oromis fez uma pausa em sua escrita e, com uma expressão pensativa, olhou para Eragon.
— Conte-me. — Durante uma hora e meia, Eragon discorreu de forma eloquente sobre cada aspecto das plantas e dos animais que povoavam a clareira, até Oromis levantar a mão e se pronunciar. — Estou convencido, você ouviu tudo que há para se ouvir. Mas você entendeu tudo?
— Não, mestre.
— E assim que deve ser. A compreensão virá com a idade... Muito bem, Eragon-finiarel. Muito bem mesmo. Se você fosse meu aluno em Ilirea, antes de Galbatorix ascender ao poder, você teria acabado de se graduar no seu aprendizado, seria considerado um membro formado da nossa ordem e faria jus aos mesmos direitos e privilégios dos mais antigos Cavaleiros. — Oromis se levantou da cadeira onde estava sentado e permaneceu no lugar, oscilando. — Empreste-me o seu ombro, Eragon, e ajude-me a sair. Meus membros não obedecem à minha vontade.
Eragon correu para auxiliá-lo. Ao lado de seu mestre, Eragon sustentava o peso leve dele, enquanto Oromis mancava até o córrego que desaguava longe dos limites dos rochedos de Tel’naeír.
— Agora que você atingiu este estágio na sua educação, posso lhe ensinar um dos maiores segredos da magia, que nem mesmo Galbatorix deve saber. E a sua melhor esperança de poder equiparar o seu poder ao dele. — O olhar do elfo ficou mais penetrante. — Qual é o custo da magia, Eragon?
— Energia. Um encanto consome a mesma quantidade de energia que exigiria para completar a tarefa através de meios mundanos.
Oromis acenou positivamente.
— E de onde vem a energia?
— Do corpo de quem está invocando o feitiço.
— Sempre?
A mente de Eragon acelerou enquanto pensava nas implicações apavorantes da pergunta de Oromis.
— Você quer dizer que ela pode vir de outras fontes?
— Isso é exatamente o que acontece sempre que Saphira o ajuda num feitiço.
— Sim, mas ela e eu partilhamos de uma conexão única — protestou Eragon. — Nosso vínculo é a razão que explica por que posso requisitar a sua energia. Para fazer isso com outra pessoa eu teria que entrar... — Sua voz foi morrendo enquanto ele percebia o que Oromis estava insinuando.
— Você teria que entrar na consciência do ser, ou seres, que lhe forneceriam a energia — disse Oromis, completando o pensamento de Eragon. — Hoje você provou que pode fazer isso até mesmo com a menor forma de vida. Agora... — Ele parou, colocou a mão no peito enquanto tossia e depois prosseguiu. — Quero que você extraia uma esfera d’água do riacho, usando apenas a energia que puder recolher da floresta que está em torno de você.
— Sim, mestre.
Enquanto Eragon alcançava as plantas e os animais mais próximos, a mente de Oromis roçando na sua, o elfo observava e julgava o seu progresso. Franzindo a testa de tão concentrado, Eragon se esforçava a absorver a força necessária que havia no meio ambiente e retê-la dentro de si até que estivesse pronto para soltar a magia...
— Eragon! Não a tire de mim! Já estou fraco demais.
Assustado, Eragon percebeu que havia incluído Oromis em sua busca.
— Lamento, mestre — disse ele, sentindo-se repreendido. Ele retomou o processo, tomando cuidado para não sugar a vitalidade do elfo, e quando estava pronto, deu a ordem:
— Para cima!
Silenciosa como a noite, uma esfera d’água com uns trinta centímetros de diâmetro se ergueu do riacho, até flutuar no nível dos olhos de Eragon. E enquanto o jovem sentia a tensão normal resultante do esforço intenso, o encanto por si só não lhe causou fadiga alguma.
A esfera só estava no ar a um instante quando uma devastação mortal atingiu as criaturas menores com as quais Eragon estava em contato. Uma fileira de formigas virou para o lado e ficou imóvel. Um bebê rato ficou ofegante e morreu assim que perdeu as forças para manter o coração batendo. Inúmeras plantas murcharam, se desintegraram e ficaram inertes como poeira.
Eragon se retraiu, horrorizado com o que havia causado. Dado o seu novo respeito pela divindade da vida, ele achou o crime apavorante. O que o tornou pior era o fato de ele estar intimamente ligado a cada ser assim que este deixava de existir, era como se ele próprio estivesse morrendo repetidas vezes. Cortou o fluxo de magia — deixou a esfera d’água cair no chão — e depois se voltou para Oromis, furioso.
— Você sabia que isso ia acontecer!
Uma expressão de profunda tristeza tragou o velho Cavaleiro.
— Era necessário — respondeu ele.
— Era necessário que tantos tivessem que morrer?
— Era necessário que você entendesse o preço terrível de se usar este tipo de magia. Meras palavras não podem transmitir o que é a sensação participar da morte daqueles cujas mentes você partilha. Você tinha que vivenciar isso.
— Não farei isso novamente — jurou Eragon.
— Nem terá que fazê-lo. Se for disciplinado, poderá optar por extrair o poder só das plantas e animais que possam resistir. É impraticável no meio de uma batalha, mas você poderá fazê-lo em suas lições. — Oromis gesticulou em sua direção e, ainda atônito, Eragon permitiu que o elfo se apoiasse nele enquanto voltavam para a cabana. — Você vê por que essa técnica não foi ensinada para Cavaleiros mais jovens. Caso se tornasse conhecida e disponível a um feiticeiro do mal, ele ou ela poderiam causar grande destruição, especialmente porque seria difícil deter alguém que tivesse acesso a tanto poder. — Assim que os dois voltaram para dentro, o elfo suspirou, arriou em sua cadeira e apertou as pontas dos dedos. Eragon também se sentou.
— Já que é possível absorver energia da — ele fez um aceno com a mão — da vida, também é possível absorvê-la diretamente da luz, do fogo ou de qualquer uma das outras formas de energia?
— Ah, Eragon, se fosse assim, poderíamos destruir Galbatorix num instante. Podemos trocar energia com outros seres vivos, podemos usar tal energia para mover nossos corpos ou para capacitar um feitiço, e podemos até mesmo armazenar tal energia em certos objetos para um uso posterior, mas não podemos assimilar as forças fundamentais da natureza. A razão diz que isso pode ser feito, mas ninguém conseguiu inventar um encanto que permita isso.


Nove dias depois, Eragon se apresentou a Oromis e disse:
— Mestre, me ocorreu na noite passada que nem você nem as centenas de pergaminhos elfos que li mencionavam a sua religião. No que os elfos acreditam?
Um longo suspiro foi a primeira resposta de Oromis. Então:
— Acreditamos que o mundo se comporta de acordo com certas regras invioláveis e que, com um esforço persistente, podemos descobrir quais são tais regras e usá-las para prever eventos quando as circunstâncias se repetem.
Eragon piscou. Isso não lhe disse o que ele queria saber.
— Mas quem ou o que vocês cultuam?
— Nada.
— Vocês cultuam o conceito de nada?
— Não, Eragon. Não veneramos nada.
Tal pensamento era tão discrepante, que foram necessários alguns instantes para Eragon compreender o que Oromis quis dizer. Faltava aos aldeões de Carvahall uma única doutrina dominante, mas eles partilhavam de uma coleção de superstições e rituais, grande parte deles apenas afastava a má sorte. Ao longo do seu treinamento, ficou evidente para Eragon que muitos dos fenômenos que os aldeões atribuíam às fontes sobrenaturais eram, de fato, processos naturais, como quando ele aprendeu em suas meditações que as larvas eram incubadas a partir de ovos de em vez de surgirem espontaneamente da sujeira, como ele pensava antes. Também não fazia sentido desperdiçar uma oferenda de comida para impedir que os duendes fizessem o leite ficar estragado, quando ele sabia que o leite estragava por causa da proliferação de pequenos organismos no líquido.
Ainda assim, Eragon permanecia convencido de que forcas do outro mundo influenciavam o planeta de maneiras misteriosas, uma crença que sua exposição à religião dos anões encorajou. Ele disse:
— De onde você pensa que o mundo veio, então, se não foi criado pelos deuses?
— Que deuses, Eragon?
— Os seus deuses, os deuses dos anões, os nossos deuses... alguém deve tê-lo criado.
Oromis ergueu uma sobrancelha.
— Eu não concordaria necessariamente com você. Mas seja como for. eu não posso provar que os deuses não existem. Tampouco posso provar que o mundo e tudo que há nele independem de uma entidade ou de diversas entidades ancestrais. Mas posso lhe dizer que nos milênios em que nós elfos estudamos a natureza, jamais testemunhamos uma instância na qual as regras que governam o mundo foram quebradas. Quer dizer, nunca vimos um milagre. Muitos eventos desafiaram a nossa habilidade analítica, mas estamos convencidos de que falhamos porque ainda somos desgraçadamente ignorantes em relação ao universo e não porque uma divindade alterou as obras da natureza.
— Um deus não teria que alterar a natureza para realizar a sua vontade — garantiu Eragon. — Ele poderia fazer isso dentro do sistema que já existe... Poderia usar a magia para afetar os eventos.
Oromis sorriu.
— É bem verdade. Mas faça uma pergunta para si próprio, Eragon: Se os deuses existissem, seriam eles bons zeladores da Alagaësia? Morte, doença, pobreza, tirania e inúmeras outras desgraças se espalham pelo e isso e trabalho de seres divinos, então é necessário que nos os contra eles e os derrubemos, não podemos lhes prestar reverência, obediência e homenagens.
— Os anões acreditam...
— Exatamente! Os anões acreditam. Quando se trata de certos assuntos, eles se valem mais da fé do que da razão. Além de também serem conhecidos por ignorar evidências que contradizem o dogma deles.
— Como o quê? — perguntou Eragon.
— Sacerdotes anões usam os corais como prova de que as pedras são seres vivos e podem crescer, o que também corrobora sua história de que Helzvog formou a raça dos anões a partir do granito. Mas nós elfos descobrimos que os corais são de fato animais celenterados providos de exoesqueletos de calcário, que abrigam outros animais. Qualquer mágico pode sentir os animais se abrir a sua mente. Explicamos isso para os anões, mas eles se recusaram a escutar dizendo que a vida que sentíamos residia em todo tipo de pedra, embora seus sacerdotes sejam os únicos que, supostamente, tenham como detectar vida em pedras cercadas de terra.
Durante um bom tempo, Eragon ficou olhando pela janela, matutando sobre as palavras de Oromis.
— Você não acredita na vida após a morte, então.
— Pelo que Glaedr disse, você já sabia disso.
— E você não valoriza deuses.
— Acreditamos apenas naquilo que podemos provar que existe. Como não temos evidências de que deuses, milagres e outras coisas sobrenaturais são verdadeiras, não nos preocupamos com eles. Se isso mudasse, se Helzvog se revelasse para nós, então poderíamos aceitar a evidencia e rever a nossa posição.
— Parece-me que esse é um mundo muito frio sem algo... a mais.
— Pelo contrário — disse Oromis — é um mundo melhor. Um mundo onde somos responsáveis pelas nossas ações, onde podemos ser gentis com o próximo, porque queremos ou porque é correto, em vez de nos sentirmos ameaçados pelo castigo divino. Não vou lhe dizer no que acreditar. Eragon. É bem melhor ser ensinado a pensar de forma crítica e poder tomar suas próprias decisões, do que ter as noções de um outro alguém jogadas nas suas costas. Você nos perguntou sobre a nossa religião e eu lhe respondi a verdade. Faça com isso o que quiser.


A discussão dos dois — junto com suas preocupações anteriores — deixou Eragon tão perturbado que teve dificuldades para se concentrar nos seus estudos nos dias seguintes, mesmo quando Oromis começou a lhe mostrar como cantar para as plantas, coisa que Eragon estava ansioso para aprender.
Eragon reconheceu que suas próprias experiências já o tinham levado a adotar uma atitude mais cética, a princípio, ele concordou com grande parte do que Oromis havia dito. O problema com o qual lutava, no entanto, era que, se os elfos estivessem certos, isso significava que quase todos os humanos e anões estavam enganados, algo que Eragon achava difícil de aceitar. Todas essas pessoas não podem estar erradas, insistia consigo mesmo.
Quando perguntou a Saphira sobre isso, ela disse: Isso não me importa muito, Eragon. Dragões jamais acreditaram em forças superiores. Por que deveríamos pensar assim se os veados e outras presas nos consideram uma força superior? Ele riu muito daquilo. Só não ignore a realidade com o intuito de confortar a si própria, pois uma vez que você o fizer, permitirá aos outros iludi-lo.
Naquela noite, as incertezas de Eragon explodiram em seus devaneios, tanto que se enfureciam como um urso ferido em sua mente, arrancava imagens discrepantes de suas lembranças e misturava-as num tal clamor, que parecia que ele estava sendo transportado de volta para a confusão da batalha em Farthen Dûr. Ele viu Garrow caído e morto na casa de Horst, depois Brom morto na caverna de arenito abandonada, e depois o rosto de Angela, a herbolária, que sussurrava: “Cuidado, Argetlam, a traição está evidente. E virá de dentro da sua família. Cuidado, Matador de Espectros!” Então, o céu avermelhado se abriu e Eragon mais uma vez pôde ver os dois exércitos de sua premonição nas montanhas Beor. O formigueiro de guerreiros foi de encontro a um campo laranja e amarelo, acompanhado pelos gritos ásperos dos corvos de batalha e do zunido de flechas negras. A própria terra parecia queimar: chamas verdes saiam de buracos espalhados pelo chão, carbonizavam os cadáveres mutilados que ficaram para trás com o levante do exército. Ele ouviu o rugido de uma fera gigantesca que apareceu rapidamente...
Eragon levantou da cama num pulo e apalpou o colar dos anões, que queimava em sua garganta. Usando a túnica para proteger a mão, ele arrancou o martelo de prata da pele e depois se sentou e ficou esperando na escuridão, seu coração estrondeava, assustado. Ele sentia sua força diminuir enquanto o feitiço de Gannel frustrava quem quer que estivesse tentando se valer de cristalomancia para observar a ele e Saphira. Mais uma vez ele se questionou se era o próprio Galbatorix que estava por trás do encanto, ou se era um dos mágicos favoritos do rei.
Eragon franziu a testa e largou o martelo enquanto o metal ia esfriando novamente. Algo está errado. Eu venho percebendo isso há algum tempo, assim como Saphira. Estava inquieto demais para voltar ao transe que havia lhe substituído o sono, saiu do quarto em silêncio, sem acordar Saphira, e subiu a escada em espiral até a sala de estudos. Lá, ele abriu uma lanterna branca e leu um dos épicos de Analísia até o sol nascer, numa tentativa de se acalmar.
Assim que Eragon pôs o pergaminho de lado, Blagden voou através do portal aberto na parede oriental e, com um adejar de asas, aterrissou na beirada da escrivaninha entalhada. O corvo branco fixou seus olhos grandes e redondos em Eragon e grasnou:
— Wyrda!
Eragon inclinou a cabeça.
— E que as estrelas zelem por você, mestre Blagden.
O corvo foi se chegando para mais perto, aos pulos. Ele levantou a cabeça para o lado e soltou uma tosse que mais parecia um latido, como se estivesse pigarreando, para depois recitar com sua voz rouca:

Com o bico e a ossatura
Minha pedra escura
Vê qualquer mangue
Como um rio de sangue!

— O que isso quer dizer? — perguntou Eragon. Blagden encolheu os ombros e repetiu o verso. Enquanto Eragon ainda o pressionava em busca de uma explicação, o pássaro arrepiou suas penas, parecendo insatisfeito e riu como um cacarejo de galinha:
— Pai e filho iguais, ambos cegos como morcegos.
— Espere! — exclamou Eragon, erguendo-se aos solavancos. — Você conhece o meu pai? Quem é ele?
Blagden cacarejou novamente. Desta vez ele parecia estar às gargalhadas.

Ao passo que dois podem compartilhar dois
E um de dois é certamente um,
Um pode ser dois.

— Um nome, Blagden. Dê-me um nome! — No que o corvo permaneceu em silêncio, Eragon expandiu a mente, na intenção de arrancar a informação das lembranças da ave.
Blagden, no entanto, era muito esperto. Ele desviou a sondagem de Eragon com um pensamento. Gritando “Wyrda!”, ele se lançou para arrancou a tampa de vidro de um tinteiro, e saiu voando com o troféu preso em seu bico. Ele mergulhou no ar e desapareceu antes que pudesse fazer um feitiço para trazê-lo de volta. O estômago de Eragon deu um nó enquanto ele tentava decifrar os dois enigmas de Blagden. A última coisa que ele esperava era uma menção ao seu pai em Ellesméra. Finalmente, ele murmurou.
— É isso. Encontrarei Blagden mais tarde e irei lhe arrancar a verdade à força. Mas, no momento... eu teria que ser um débil mental para ignorar esses presságios.
Ele se levantou num só pulo e desceu correndo as escadas, despertou Saphira mentalmente e lhe contou o que transcorrera durante a noite. Depois que tirou do banheiro o espelho que usava para fazer a barba. Eragon se sentou entre as duas patas da parceira assim ela poderia olhar sobre sua cabeça e ver o que ele via.
Arya não vai gostar nada se invadirmos a sua privacidade, avisou Saphira.
Tenho que saber se ela está segura.
Saphira aceitou sem discutir. Como você a encontrará? Você disse que, depois do cativeiro, ela ergueu defesas que — assim como o seu colar  evitam que qualquer um a observe.
Se eu puder ver no cristal as pessoas com quem ela está andando, pode ser que consiga saber como Arya está. Concentrando-se na imagem de Nasuada, Eragon passou a mão sobre o espelho e murmurou a frase tradicional:
— Manifeste-se visão.
O espelho emitiu uma luz trêmula e ficou branco, exceto por nove pessoas reunidas em volta de uma mesa invisível. De todos eles, Eragon estava familiarizado com Nasuada e o Conselho de Anciãos. Mas, ele não conseguiu identificar uma garota estranha usando um capuz negro, que estava à espreita, atrás de Nasuada. Isso o deixou intrigado, pois um mágico só podia praticar a cristalomancia com coisas que ele já havia visto, e Eragon estava certo de que jamais havia posto os olhos na menina antes. No entanto, ele se esqueceu dela assim que notou que os homens, e até mesmo Nasuada, estavam armados para entrar em guerra.
Vamos ouvir o que eles dizem, sugeriu Saphira.
No instante em que Eragon fez a alteração necessária no encanto, a voz de Nasuada emanou do espelho:
— ... e a confusão irá nos destruir. Nossos guerreiros só podem ter um comandante durante esse conflito. Decida quem vai ser, Orrin, e seja rápido.
Eragon ouviu um suspiro desanimado.
— Como quiser, a função é sua.
— Mas, senhor, ela é inexperiente!
— Chega, Irwin — ordenou o rei. — Ela tem mais experiência com guerra do que qualquer um em Surda. E os Varden são a única força que já derrotou um dos exércitos de Galbatorix. Se Nasuada fosse um general surdo (o que seria de fato peculiar, admito), você não hesitaria em nomeá-la para o posto. Ficarei feliz ao lidar com questões de autoridade se elas vierem à tona depois, pois significarão que ainda poderei assumir a responsabilidade pelos meus atos e não estarei deitado num túmulo. Do jeito que as coisas vão, nossos números estão tão reduzidos que temo estarmos condenados, a não ser que Hrothgar consiga nos alcançar antes do final da semana. Agora, onde está aquele maldito pergaminho do vagão de mantimentos... Ah, obrigado, Arya. Mais três dias sem...
Depois disso a discussão passou a girar em torno da falta de cordas de arco. e Eragon não pôde recolher mais nada que fosse útil, por isso ele terminou o encanto. O espelho clareou e ele se viu olhando para o seu próprio rosto.
Ela vive, murmurou o rapaz. Seu alívio foi ofuscado, no entanto, pelo significado maior do que havia escutado.
Saphira o encarou. Somos necessários.
Sim. Por que Oromis não nos falou sobre isso? Ele deve saber do que está acontecendo.
Talvez quisesse evitar que nosso treinamento fosse interrompido.
Preocupado, Eragon se perguntava o que mais de importante estava acontecendo na Alagaësia, de que ele não estava a par. Roran. Com uma pontada de culpa, Eragon percebeu que já fazia semanas que não pensava no primo, e muito mais tempo desde que o viu pelo cristal, no caminho para Ellesméra.
Ao comando de Eragon, o espelho revelou duas figuras em pé contra um fundo branco e puro. Levou um tempo para Eragon reconhecer o homem à direita como Roran. Ele estava usando roupas de viagem, trazia um martelo enfiado debaixo do cinto, tinha uma barba espessa que escondia o rosto e trazia uma expressão apavorada que evidenciava o desespero. A esquerda estava Jeod. O homem andava para cima e para baixo, acompanhado pelo bater ensurdecedor das ondas, que abafava tudo que eles diziam. Depois de um tempo, Roran se virou e andou ao longo do que Eragon supôs se tratar do convés de um navio, deixando a mostra dezenas de outros aldeões.
Onde estão eles, e por que Jeod os está acompanhando?, perguntou Eragon, confuso.
Pela magia, ele viu, em rápida sucessão, Teirm — ficou chocado ao ver que o cais da cidade havia sido destruído — Therinsford, a velha fazenda de Garrow, e depois Carvahall, ao que Eragon deu um grito como se houvesse se ferido.
O vilarejo havia desaparecido.
Cada construção, incluindo a magnífica casa de Horst, havia sido incendiada. Carvahall não existia mais, a não ser por um borrão coberto de fuligem ao lado do rio Anora. Os únicos habitantes que restavam eram quatro lobos cinzentos que trotavam no meio dos destroços.
O espelho caiu da mão de Eragon e se estilhaçou no chão. Ele se inclinou sobre Saphira, com lágrimas ardendo nos olhos enquanto sofria mais uma vez por seu lar perdido. Saphira zumbia em seu peito e roçava no seu braço com a lateral de sua mandíbula, envolvendo-o num abraço quente de solidariedade. Console-se, pequenino. Pelo menos os seus amigos ainda estão vivos.
Ele estremeceu e sentiu um âmago de determinação crescendo no seu estômago. Já ficamos isolados do mundo por tempo demais. E chegada a hora de deixarmos Ellesméra e enfrentar nosso destino, seja ele qual for. Por enquanto, Roran terá que brigar sozinho, mas os Varden... os Varden nós podemos ajudar.
Chegou a hora de lutar, Eragon?, perguntou Saphira, com um leve tom de formalidade na voz.
Ele sabia o que ela queria dizer: Será que era hora de desafiar o Império de frente, hora de matar e promover o caos até o limite de suas notáveis habilidades, hora de  desencadear sua fúria até fazer Galbatorix cairmorto aos seus pés? Será que era hora de se comprometer com uma campanha que poderia durar décadas para chegar a um fim?
Sim, chegou a hora.

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