22 de maio de 2017

Capítulo 58 - Batalha sob Farthen Dûr

— Começou — disse Arya com uma expressão triste no rosto. As tropas no acampamento estavam em pé, alertas, com armas em punho. Orik girou seu machado para se certificar de que tinha espaço bastante.
Arya preparou uma flecha e a segurou pronta para o disparo.
— Um batedor saiu correndo de um túnel há alguns minutos — disse Murtagh a Eragon. — Os Urgals estão chegando.
Juntos, observavam a boca escura do túnel em meio às fileiras de soldados e toras de madeira afiadas. Um minuto passou se arrastando, depois, mais outro... E mais outro. Sem tirar os olhos do túnel, Eragon içou a si mesmo para cima da sela de Saphira, com Zar’roc na mão, um peso confortador. Murtagh montou em Tornac ao lado dele. Depois, um homem gritou:
— Estou ouvindo-os!
Os guerreiros ficaram imóveis, suas mãos seguraram suas armas com mais firmeza. Ninguém se mexia... Ninguém respirava. Em algum lugar, um cavalo relinchou.
Gritos roucos dos Urgals rasgaram o ar quando formas escuras começaram a surgir aos montes na boca do túnel. Respondendo a um comando, os caldeirões de piche fervente foram inclinados, derramando o líquido escaldante na garganta faminta do túnel. Os monstros urravam de dor, seus braços debatiam-se. Uma tocha foi jogada no piche borbulhante, um pilar alaranjado de chamas oleosas rugiu na abertura, envolvendo os Urgals em um inferno de fogo. Sentindo repugnância, Eragon olhou para o outro lado de Farthen Dûr, para os outros dois batalhões, e viu chamas idênticas àquelas em cada um deles. Embainhou Zar’roc e preparou seu arco.
Logo, mais Urgals apagaram o fogo do piche e saíram com dificuldade dos túneis, passando por cima de seus irmãos queimados. Agruparam-se, formando uma parede sólida contra os homens e anões. Atrás da paliçada que Orik ajudou a construir, a primeira fileira de arqueiros preparou suas armas e disparou. Eragon e Arya somaram suas flechas àquele enxame fatal e viram as setas devorarem as fileiras de Urgals.
A barreira dos Urgals cedeu, ameaçando ser rompida, mas eles se cobriram com seus escudos e repeliram o ataque. Novamente, os arqueiros dispararam, mas os Urgals continuaram a fluir em direção à superfície em um ritmo selvagem.
Eragon ficou apavorado com o número de bestas. Será que eles teriam de matar todas aquelas feras? Parecia uma tarefa que só um louco aceitaria. A única coisa que lhe deu coragem foi o fato de não ver nenhum dos soldados de Galbatorix com os Urgals. Pelo menos, até aquele momento.
O exército rival formou uma massa sólida de corpos que parecia se estender infinitamente. Estandartes sombrios e rasgados foram erguidos no meio dos monstros. Notas sinistras ecoaram por Farthen Dûr quando as trombetas de guerra soaram. O grupo inteiro de Urgals atacou com gritos selvagens. Foram de encontro às fileiras de estacas, cobrindo-as com sangue e cadáveres, conforme os soldados de vanguarda eram trucidados nos obstáculos. Uma nuvem de flechas negras voou sobre a barreira, indo para cima dos defensores agachados. Eragon protegeu-se atrás de seu escudo, e Saphira cobriu a cabeça. As flechas ricochetearam inofensivamente na armadura dela.
Momentaneamente frustrada pelas estacas, a horda dos Urgals correu de um lado para o outro, desorientada. Os Varden juntaram-se, esperando o próximo ataque. Depois de uma pausa, os gritos de guerra foram ouvidos novamente quando os Urgals avançaram. O ataque foi feroz. Seu ímpeto fez os Urgals passarem pelas barreiras de estacas, onde uma fileira de lanceiros atacava freneticamente os monstros, tentando repeli-los. Os lanceiros tiveram um sucesso breve, mas a onda deplorável dos Urgals não podia ser detida, e eles foram superados.
As primeiras linhas de defesa foram rompidas, os corpos principais dos dois exércitos colidiram-se pela primeira vez. Um rugido ensurdecedor foi emitido pelo grupo de homens e anões que corriam para a batalha. Saphira bramiu e pulou em direção ao combate, mergulhando em um turbilhão de ruídos e de ações indistintas.
Com suas mandíbulas e suas garras, Saphira rasgou um Urgal. Seus dentes eram tão letais quanto uma espada, sua cauda funcionava como uma maça gigantesca. De cima de suas costas, Eragon aparou um golpe de martelo de um dos chefes dos Urgals, protegendo suas asas vulneráveis. A lâmina avermelhada de Zar’roc parecia brilhar com prazer quando o sangue corria por sua extensão.
De relance, Eragon viu Orik decepando pescoços dos Urgals com golpes poderosos do seu machado. Ao lado do anão estava Murtagh, montado em Tornac, com o rosto desfigurado por um rosnado feroz, enquanto golpeava com sua espada raivosamente, cortando todas as defesas. Saphira virou-se, e Eragon viu Arya saltar o corpo sem vida de um oponente.
Um Urgal rolou por cima de um anão ferido e golpeou com a espada a perna de Saphira. A lâmina bateu violentamente na armadura, produzindo uma explosão de fagulhas. Eragon golpeou-o na cabeça, mas Zar’roc ficou presa nos chifres do monstro e foi arrancada da sua mão.
Xingando, pulou de cima de Saphira e atacou o Urgal, batendo no rosto dele com o escudo. Arrancou Zar’roc dos chifres com um puxão e se abaixou correndo, quando outro Urgal veio para cima dele.
Saphira preciso de você! Gritou ele, mas a confusão da batalha os separou. De repente, um Kull pulou em sua direção, com a clava erguida para desferir o golpe. Sem poder erguer o escudo a tempo, Eragon proferiu:
— Jierda! — A cabeça do Kull caiu para trás, dando um alto estalo quando seu pescoço foi quebrado. Mais quatro Urgals sucumbiram às mordidas famintas de Zar’roc, depois Murtagh cavalgou para o lado de Eragon, fazendo a onda de Urgals recuar.
— Vamos! — gritou ele, esticando a mão de cima de Tornac, puxando Eragon para cima do cavalo.
Correram em direção a Saphira, que estava envolvida em um embate com vários inimigos. Doze Urgals que empunhavam lanças cercaram-na, espetando-a com suas lanças. Eles já haviam conseguido perfurar as duas asas. Seu sangue manchou o chão. Sempre que avançava para cima de um deles, eles se juntavam e miravam nos olhos dela, forçando-a a recuar. Ela tentou quebrar as lanças com suas garras, mas os Urgals pulavam para trás, evitando-a.
A visão do sangue de Saphira enfureceu Eragon. Ele desceu de Tornac com um pulo, dando um grito selvagem e atingiu o Urgal mais próximo, atravessando-o no peito com Zar’roc, não hesitando um segundo sequer em sua tentativa frenética para libertar Saphira. O ataque dele gerou a distração de que ela precisava para se livrar dos atacantes. Com um coice, ela jogou um Urgal para o alto, indo, logo depois, na direção de Eragon em alta velocidade. Eragon agarrou um dos espinhos do dorso dela e voltou a sentar na sela. Murtagh ergueu a mão, depois foi correndo para cima de outro grupo de Urgals.
Sem precisarem falar nada, Saphira decolou e subiu acima dos exércitos de combatentes, buscando um alívio daquela loucura. A respiração de Eragon estava acelerada. Seus músculos estavam tensos, prontos para repelir o próximo ataque. Todas as fibras do seu ser estavam carregadas de energia, fazendo-o se sentir mais vivo do que nunca.
Saphira circulou durante bastante tempo para eles recuperarem as forças, depois desceu em direção aos Urgals, voando rasteiro para evitar que fossem vistos. Ela aproximou-se dos monstros por trás, onde seus arqueiros estavam reunidos.
Antes que os Urgals percebessem o que estava acontecendo, Eragon decepou a cabeça de dois arqueiros, e Saphira trucidou outros três. Ela decolou de novo quando deram o alarme, subindo alto, rapidamente ficando fora do alcance das flechas.
Repetiram a tática em flancos diferentes do exército. O ataque surpresa e a velocidade de Saphira, somados à luz fraca, tornavam quase impossível para os Urgals prever onde ela atacaria em seguida. Eragon usava seu arco sempre que Saphira estava no ar, mas ele ficou rapidamente sem flechas. Logo, a única coisa que restava em seu arsenal era a magia, que ele queria deixar reservada até o momento em que fosse desesperadamente necessária.
Os voos de Saphira sobre os combatentes deram a Eragon um entendimento singular de como a batalha progredia. Havia três lutas separadas sendo travadas dentro de Farthen Dûr, cada uma perto da boca de um túnel. Os Urgals estavam em desvantagem devido à dispersão de seus soldados e à incapacidade de seu exército inteiro sair dos túneis de uma vez só. Mesmo assim, os Varden e os anões não podiam evitar que os monstros avançassem e, lentamente, eram forçados a recuar em direção a Tronjheim. Os defensores pareciam insignificantes contra a massa de Urgals, cujos números continuavam a aumentar conforme saíam aos montes dos túneis.
Os Urgals organizaram-se em volta de vários estandartes, cada um representando um clã, mas não estava claro quem comandava todos eles. Os clãs não prestavam atenção uns nos outros, como se estivessem recebendo ordens de outro lugar. Eragon desejou saber quem estava no comando para que ele e Saphira pudessem eliminá-lo.
Lembrando as ordens de Ajihad, começou a passar informações para os gêmeos. Eles ficaram interessados pelo que ele disse sobre a falta aparente de um líder entre os Urgals e o questionaram rigorosamente. A troca de informações era sutil, breve. Os gêmeos disseram a ele:
Você recebeu ordens de ir ajudar Hrothgar, o combate está ruim para ele.
Entendido, respondeu Eragon.
Saphira voou rapidamente até os anões sitiados, descendo em direção a Hrothgar. Trajando uma armadura dourada, o rei dos anões estava à frente de um pequeno grupo de seus consanguíneos, brandindo Volund, o martelo de seus ancestrais. Sua barba branca refletiu a luz dos lampiões quando ele olhou para cima, em direção a Saphira. A admiração brilhou nos olhos dele.
Saphira pousou ao lado dos anões e enfrentou os Urgals que avançavam. Até o Kull mais violento acovardou-se perante a ferocidade dela, permitindo que os anões avançassem. Eragon tentava manter Saphira em segurança. O flanco esquerdo dela estava protegido pelos anões, mas à frente e à direita um mar de inimigos rugia. Ele não demonstrou piedade e tirou vantagem de tudo que podia, usando magia sempre que Zar’roc não podia servi-lo. Uma lança ricocheteou em seu escudo, amassando-o e deixando-o com o ombro dolorido. Sacudindo-se para espantar a dor, ele abriu o crânio de um Urgal, misturando miolos com metal e osso.
Ele estava admirado com Hrothgar, que, embora fosse idoso tanto para os padrões dos humanos quanto para os dos anões, ainda lutava com toda a plenitude no campo de batalha. Nenhum Urgal, ou não, podia postar-se perante o rei dos anões e seus guardas e sobreviver. Todas as vezes que Volund atacava, o gongo da morte soava para um inimigo.
Depois que uma lança derrubou um de seus guardas, o próprio Hrothgar pegou a lança e, com uma força surpreendente, abateu o monstro que a lançou, atravessando-o ao meio a dezoito metros de distância.
Tal heroísmo encorajou Eragon a correr riscos ainda maiores, procurando demostrar tanta coragem como o poderoso rei.
Eragon jogou-se para a frente, em direção a um Kull gigante que estava quase fora do alcance dele e por pouco não caiu da sela de Saphira.
Mas antes que ele pudesse se recompor, o Kull passou correndo pelas defesas de Saphira e girou sua espada. O impacto do golpe pegou em cheio o lado do capacete de Eragon, jogando-o para trás, fazendo sua visão falhar e seus ouvidos zumbirem tempestuosamente.
Aturdido, tentou pôr-se ereto, mas o Kull já estava preparando outro golpe. Conforme o braço do monstro descia, uma fina lâmina de aço brotou de repente do peito dele. Uivando, o monstrengo desabou para o lado. Em seu lugar, estava Angela.
A bruxa usava uma comprida capa vermelha por cima de uma armadura bizarra esmaltada de preto e verde. Ela carregava uma estranha arma que era usada com as duas mãos, um longo cabo de madeira com uma lâmina presa em cada ponta. Angela piscou para Eragon de forma travessa e afastou-se depressa, girando seu bastão-espada freneticamente. Logo atrás dela estava Solembum na forma de um rapaz de cabelos rebeldes. Ele empunhava uma pequena adaga preta, seus dentes afiados eram exibidos em rosnados ferozes.
Ainda atordoado por causa da pancada que levou, Eragon conseguiu ajeitar-se na sela. Saphira pulou para cima, levantando voo, e ficou circundando no alto, deixando que o cavaleiro se recuperasse. Ele examinou a planície de Farthen Dûr e viu, para seu espanto, que todas as três frentes de batalha não iam bem. Nem Ajihad, nem Jörmundur, nem Hrothgar conseguiam deter os Urgals, que tinham, simplesmente, um número muito superior de guerreiros.
Eragon pensou em quantos Urgals ele conseguiria matar de uma vez só com a magia. Ele conhecia seus limites muito mal. Se ele quisesse eliminar um número significativo ao ponto de fazer alguma diferença... Seria suicídio. Esse seria o preço da vitória.
A luta continuou durante horas intermináveis, uma após a outra.
Os Varden e os anões estavam exaustos, mas os Urgals continuavam a avançar com vigor, devido aos reforços que recebiam.
Aquilo foi um pesadelo para Eragon. Embora ele e Saphira lutassem com todo o empenho, sempre havia outro Urgal para tomar o lugar daquele que eles tinham acabado de matar. O corpo dele inteiro doía, especialmente a cabeça. Sempre que ele usava magia, perdia um pouco mais de energia. Saphira estava em melhores condições, embora suas asas estivessem pontilhadas de pequenos ferimentos.
Enquanto Eragon desviava um golpe, os gêmeos fizeram contato urgente com ele.
Há fortes estrondos embaixo de Tronjheim. Parece que os Urgals estão tentando abrir um túnel no meio da cidade. Precisamos de você e de Arya para derrubar os túneis que eles estão escavando.
Eragon se livrou de seu oponente com um golpe de espada. Já vamos para lá. Procurou Arya e a viu engajada em um combate com um grupo de Urgals. Saphira abriu rapidamente o caminho para a elfa, deixando uma pilha de corpos feridos em seu rastro. Eragon esticou a mão e disse:
— Monte!
Arya pulou para cima do dorso de Saphira sem hesitação. Ela passou seu braço direito em volta da cintura de Eragon, empunhando sua espada manchada de sangue com a outra. Quando Saphira se agachou para levantar voo, um Urgal foi correndo em sua direção, uivando, e ergueu um machado e acertou em cheio o seu peito.
Saphira rugiu de dor e se jogou para a frente e seus pés levantaram do chão. Ela abriu as asas de repente, lutando para evitar que caíssem enquanto dava uma forte guinada para o lado, a ponta de sua asa direita chegou a raspar no chão. Embaixo deles, o Urgal jogou o braço para trás para arremessar o machado. Mas Arya ergueu a palma da mão, gritando, e uma bola de energia da cor de uma esmeralda saiu do meio da mão dela, matando o Urgal. Com um golpe colossal dos ombros, Saphira alinhou-se, mal conseguindo passar ilesa sobre as cabeças dos guerreiros. Ela distanciou-se do campo de batalha com fortes batidas de asas e com dificuldade para respirar.
Você está bem?, perguntou Eragon preocupado. Ele não viu onde ela havia sido atingida.
Vou sobreviver, disse ela zangada. Mas a frente da minha armadura foi amassada. Está machucando meu peito, e estou tendo dificuldade para me mexer.
Pode nos levar até o abrigo para dragões?
... Vamos ver.
Eragon expôs para Arya a condição de Saphira.
— Ficarei e ajudarei Saphira quando pousarmos — ofereceu ela. — Assim que ela estiver livre da armadura, vou me juntar a você.
— Obrigado — disse ele.
O voo foi laborioso para Saphira. Ela planava sempre que podia. Quando chegaram ao abrigo para dragões, pousou pesadamente em cima da Isidar Mithrim, onde os gêmeos, supostamente, deviam estar assistindo à batalha, mas não havia ninguém. Eragon pulou para o chão e recuou quando viu o dano que o Urgal fez. Quatro placas de metal no peito de Saphira foram amassadas juntas, tolhendo a capacidade de ela se curvar e respirar direito.
— Tome cuidado — disse ele colocando a mão no lado do corpo dela, e saiu correndo pela passagem arqueada.
Parou e xingou. Estava no topo de Vol Turin, a Escadaria Sem Fim. Devido à sua preocupação com Saphira, ele não havia pensado em como chegaria até a base de Tronjheim, onde os Urgals estavam invadindo. Não havia tempo para descer as escadas. Olhou para a estreita canaleta à direita da escadaria, pegou uma das almofadas de couro e se atirou para cima dela.
O escorrega de pedra era liso como madeira laqueada. Com o couro embaixo dele, Eragon acelerou quase que imediatamente para uma velocidade assustadora, as paredes passavam como borrões por ele, e o ângulo curvo do escorrega o empurrava com força em direção à parede. Eragon ficou completamente deitado para que pudesse ir mais rápido. O ar passava forte por seu capacete, fazendo-o vibrar como um catavento no meio de uma ventania. A canaleta era estreita demais para ele, e Eragon estava perigosamente muito próximo de ser cuspido longe, mas enquanto mantivesse seus braços e pernas imóveis, estaria bem.
Foi uma descida rápida, mas ele ainda precisou de quase dez minutos para chegar lá embaixo. O escorrega nivelou-se no final e o fez deslizar um bom pedaço em cima do grande piso de cornalina.
Quando finalmente parou, estava tonto demais para caminhar. Sua primeira tentativa para ficar em pé o deixou enjoado. Agachou-se, segurou a cabeça com as mãos e esperou as coisas pararem de girar.
Quando se sentiu melhor, pôs-se de pé e olhou cuidadosamente em volta.
A grande câmara estava completamente deserta, o silêncio era perturbador. Uma luz rosada descia, filtrada pela Isidar Mithrim. Ele titubeou... Aonde ele devia ir? E tentou fazer contato mental com os gêmeos. Nada. Ficou paralisado quando um grande estrondo ecoou por Tronjheim.
Uma explosão rasgou o ar. Uma grande placa do piso da câmara cedeu e foi jogada a uns dez metros para o alto. Pedaços pontiagudos de pedra voaram para todos os lados quando ela se espatifou no chão. Eragon deu um passo atrás, impressionado, tateando em busca de Zar’roc. As formas horrendas dos Urgals escalavam para fora do buraco no chão.
Eragon hesitou. Será que deveria fugir? Ou será que deveria ficar e tentar fechar o túnel? Mesmo que tentasse fechá-lo antes que os Urgals o atacassem, será que Tronjheim já teria sido invadida em outro lugar? Ele não poderia achar todos os lugares a tempo para evitar que a cidade-montanha fosse capturada.
Mas se eu correr até um dos portões de Tronjheim e abri-lo com uma explosão, os Varden poderiam retomar a cidade sem ter de cercá-la. Antes que pudesse se decidir, um homem alto, trajando uma armadura negra, emergiu do túnel e olhou direto para ele.
Era Durza.
O Espectro empunhava sua espada branca marcada com a rachadura de Ajihad. Um escudo redondo, negro, com uma insígnia rubra repousava em seu braço. Seu capacete escuro era ricamente decorado, como o de um general, e um comprido manto feito de pele de cobra se ondulava em volta dele. A loucura ardia em seus olhos castanho-avermelhados, a loucura típica de quem ama o poder e que se encontra na posição de usá-lo.
Eragon sabia que não era rápido ou forte o bastante para fugir do inimigo que estava diante dele. Imediatamente, alertou Saphira, embora soubesse que seria impossível para ela salvá-lo a tempo. Ele acocorou-se e rapidamente pensou no que Brom havia falado a ele quanto a lutar com outro usuário da magia. Não era nada encorajador. E Ajihad havia dito que os Espectros só podiam ser destruídos se fossem atingidos no coração.
Durza olhou para ele com desdém e disse:
— Kaz jtierl trazhid! Otrag bagh. — Os Urgals olharam para Eragon desconfiados e formaram um círculo em volta do perímetro do recinto. Durza aproximou-se lentamente de Eragon com uma expressão triunfante. — Então, meu jovem Cavaleiro, nos encontramos de novo. Você foi um tolo ao fugir de mim em Gil’ead. Isso somente vai piorar as coisas para você no final.
— Você nunca me capturará vivo — rosnou Eragon.
— É mesmo? — perguntou Durza, erguendo uma sobrancelha. A luz da estrela de safira dava à pele dele uma tonalidade apavorante. — Não estou vendo o seu “amigo” Murtagh por perto para ajudá-lo. Você não pode me deter agora. Ninguém pode!
O medo tocou Eragon. Como ele sabe sobre Murtagh? Pondo todo o escárnio que podia em sua voz, ele caçoou:
— Foi bom levar uma flechada?
A expressão no rosto de Durza fechou-se momentaneamente.
— Eu serei pago em sangue por causa daquilo. Agora, diga, onde seu dragão está escondido?
— Nunca.
Durza exibiu uma expressão mais zangada ainda.
— Então, tirarei essa informação de você à força! — A espada dele assobiou no ar. No momento em que Eragon aparou a espada com seu escudo, uma sonda mental se fincou fundo em seus pensamentos. Lutando para proteger sua consciência, empurrou Durza para trás e atacou com a mente.
Eragon investiu com todas as suas forças contra as barreiras, sólidas como o ferro, em volta da mente de Durza, mas sem nenhum proveito. Girou Zar’roc, tentando pegar Durza de guarda baixa. O Espectro desviou o golpe para o lado sem fazer nenhum esforço, e respondeu ao ataque com a velocidade de um raio.
A ponta da espada atingiu as costelas de Eragon, cortando a cota de malha e deixando-o sem ar. Contudo, a malha cedeu, e a lâmina não cortou a pele dele por um fio. A distração era tudo que Durza precisava para invadir a mente de Eragon e começar a tomar o controle.
— Não! — gritou Eragon jogando-se para cima do Espectro. O rosto dele se contorceu quando lutava com Durza, que puxou com força o braço com que ele empunhava a espada. Durza tentou cortar a mão de Eragon, mas ela estava protegida pela luva com forro de cota, fazendo a espada ser jogada para baixo.
Quando Eragon chutou a perna dele, Durza rosnou de raiva e golpeou com seu escudo negro, jogando o rapaz no chão. Eragon sentiu gosto de sangue na boca, o pescoço dele latejava.
Ignorando seus ferimentos, rolou e arremessou seu escudo para cima de Durza. Apesar da velocidade superior do Espectro, o pesado escudo feriu-o na cintura. Quando Durza tropeçou, Eragon atingiu-o no braço com Zar’roc. Um fio de sangue desceu pelo braço do Espectro.
Eragon investiu contra ele com sua mente e penetrou nas defesas enfraquecidas de Durza. Um turbilhão de imagens envolveu-o de repente, passando depressa por sua consciência...

Durza como um menino levando uma vida nômade com seus pais na planície deserta. A tribo os abandonou e chamava o pai dele de “violador de juramentos”. Mas ele não era Durza na época, mas Carsaib, o nome que a mãe dele cantava suavemente enquanto penteava seus cabelos...

O Espectro cambaleou fortemente, seu rosto contorcido pela dor. Eragon tentou controlar a torrente de memórias, mas a força delas era avassaladora.

Em pé em uma colina perto das sepulturas dos pais, chorando porque os homens não o mataram também. Depois se virando e se afastando sem rumo para o meio do deserto...

Durza encarou Eragon. Um ódio terrível emanava de seus olhos castanho-avermelhados. Eragon estava com um dos joelhos no chão, quase em pé, lutando para blindar sua mente.

Como o velho viu Carsaib deitado, quase morto, em uma duna de areia. Os dias que Carsaib levou para se recuperar e o medo que ele sentiu quando descobriu que seu salvador era um feiticeiro. Como ele implorou para aprender a controlar os espíritos. Como Haeg finalmente concordou. Ele o chamava de “Rato do Deserto”...

Agora, Eragon estava em pé. Durza atacou... Espada erguida... Escudo ignorado em sua fúria.

Os dias passados treinando sob o sol escaldante, sempre alerta quanto aos lagartos que caçavam para comer. Como o poder dele aumentava lentamente, dando a ele orgulho e confiança. As semanas gastas cuidando de seu mestre adoecido depois de um encanto que deu errado. A alegria dele quando Haeg se recuperou...

Mas não havia tempo para reagir... Não havia tempo...

Os bandidos que atacaram durante a noite, matando Haeg. O ódio que Carsaib sentiu, e os espíritos que ele havia invocado para obter vingança. Mas os espíritos eram mais fortes do que ele esperava. Eles se viraram contra ele, possuindo sua mente e seu corpo. Ele gritou. Ele era... EU SOU DURZA!

A espada acertou pesadamente as costas de Eragon, cortando tanto a malha de aço quanto a pele. Ele gritou quando a dor explodiu em seu corpo, forçando-o a ficar de joelhos. A agonia curvou seu corpo e apagou todos os seus pensamentos. Cambaleou, quase perdendo a consciência, o sangue quente escorria pelas suas costas. Durza disse algo que ele não conseguiu ouvir.
Em meio à aflição, Eragon levantou os olhos para os céus, as lágrimas escorriam pelo seu rosto.
Tudo tinha dado errado. Os Varden e os anões estavam destruídos. Ele foi derrotado. Saphira se entregaria pelo bem dele, como ela já havia feito antes, e Arya seria recapturada ou morta. Por que tinha de terminar assim? Que justiça poderia ser essa? Tanta coisa por nada.
Enquanto ele olhava para a Isidar Mithrim muito acima de seu corpo torturado, um clarão de luz rompeu em seus olhos, cegando-o. Um segundo depois, a câmara retumbou com um estrondo ensurdecedor.
Então, a visão dele clareou, e ele suspirou descrente.
A estrela de safira foi quebrada em vários pedaços. Um círculo que se expandia, formado por cacos afiados como adagas, despencava em direção ao chão distante, os cacos brilhantes aproximavam-se das paredes. No centro da câmara, voando, descendo, com a cabeça apontada para baixo, estava Saphira. As mandíbulas dela estavam abertas e do meio delas brotava uma grande língua de fogo, de cor amarelo brilhante e com um quê de azul. No dorso dela estava Arya, seus cabelos debatiam-se freneticamente, braço erguido, a palma de sua mão brilhava com uma aura de magia verde.
O tempo pareceu andar mais devagar quando Eragon viu Durza inclinar a cabeça em direção ao teto. Primeiro, o susto, depois a raiva, contorceram o rosto do Espectro. Olhando com desprezo e audácia, ergueu a mão e apontou para Saphira, uma palavra se formava em seus lábios.
Uma reserva de força oculta, de repente, emergiu dentro de Eragon, arrancada das profundezas de seu ser. Seus dedos agarraram com força o cabo de sua espada. Ele atravessou a barreira em sua mente e apoderou-se da magia. Toda a sua dor e sua raiva se concentraram em uma só palavra:
— Brisingr!
Zar’roc ardeu com uma luz sangrenta, chamas sem calor corriam por sua extensão... Ele jogou-se para a frente... E acertou Durza no coração.
Durza olhou chocado para a lâmina que se projetava de seu peito. A sua boca estava aberta, mas, em vez de palavras, um uivo fantasmagórico foi proferido. A espada despencou de seus dedos sem força. Agarrou Zar’roc, como se quisesse arrancá-la, mas ela estava presa firmemente nele.
Então, a pele de Durza ficou transparente. Embaixo dela não havia carne ou ossos, mas padrões contorcidos de escuridão. Ele berrou ainda mais alto quando a escuridão pulsou, rompendo a pele. Com um último grito, Durza foi dilacerado da cabeça aos pés, liberando a escuridão, separadas em três entidades distintas, que atravessaram voando as paredes de Tronjheim e saíram de Farthen Dûr. O Espectro estava acabado.
Despojado de forças, Eragon caiu para trás de braços abertos. Acima dele, Saphira e Arya já haviam quase chegado ao chão, afigurava-se que elas iam se despedaçar junto com os restos letais da Isidar Mithrim. Quando a visão dele falhou, Saphira, Arya e a miríade de fragmentos, todos eles, pareceram parar de cair e ficaram flutuando em pleno ar.

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