22 de maio de 2017

Capítulo 57 - Os Espectros crescem

Saphira acordou Eragon com uma batida rápida de seu focinho, machucando-o com sua dura mandíbula.
— Ai! — exclamou ele, colocando-se sentado. A caverna estava escura, exceto por um brilho fraco que emanava do lampião coberto. Do lado de fora do abrigo para dragões, a Isidar Mithrim brilhava com milhares de cores diferentes, iluminada por sua guirlanda de lampiões.
Um anão agitado estava em pé na entrada da caverna, apertando suas mãos.
— Você precisa vir, Argetlam! Grande problema, Ajihad mandou chamá-lo. Não há tempo!
— O que houve? — perguntou Eragon.
O anão apenas balançou a cabeça, sua barba sacudiu-se.
— Vá, você precisa ir! Carkna bragha! Agora!
Eragon pôs Zar’roc na cinta, pegou seu arco e suas flechas e colocou a sela em Saphira.
Daria tudo por uma boa noite de sono, reclamou ela, agachando-se para que ele pudesse montar em suas costas. Bocejou ruidosamente quando Saphira se lançava para fora da caverna.
Orik esperava por eles, com uma expressão séria no rosto, quando pousaram perto dos portões de Tronjheim.
— Vamos, os outros estão esperando. — Ele os guiou por Tronjheim até o gabinete de Ajihad. No caminho, Eragon o bombardeou de perguntas, mas Orik dizia apenas: — Eu mesmo não sei de muita coisa, espere para ouvir tudo de Ajihad.
A porta do grande gabinete foi aberta por um par de guardas corpulentos. Ajihad estava em pé atrás de sua mesa, examinando um mapa tristemente. Arya e um homem com braços musculosos também estavam lá. Ajihad levantou o olhar.
— Que bom que você está aqui, Eragon. Conheça Jörmundur, meu subcomandante.
Cumprimentaram-se e viraram suas atenções para Ajihad.
— Eu convoquei vocês cinco porque corremos um grande perigo. Há quase meia hora, um anão saiu correndo de um túnel abandonado sob Tronjheim. Ele estava sangrando e quase inconsciente, mas resistiu ao ponto de poder contar aos anões o que o perseguia: um exército de Urgals, talvez, a um dia de marcha daqui.
Um silêncio causado pelo choque encheu o recinto. Depois, Jörmundur xingou de modo explosivo e começou a fazer perguntas ao mesmo tempo que Orik. Arya permaneceu em silêncio. Ajihad ergueu suas mãos.
— Silêncio! Ainda há mais. Os Urgals não estão se aproximando por cima da terra, mas embaixo dela. Eles estão nos túneis... Vamos ser atacados por baixo.
Eragon levantou sua voz na confusão que houve a seguir:
— Por que os anões não souberam disso antes? Como os Urgals descobriram os túneis?
— Tivemos sorte de descobrir isso com essa antecedência! — bramiu Orik. Todos pararam de falar para ouvi-lo. — Há centenas de túneis nas montanhas Beor, desabitados desde o dia em que foram abertos. Os únicos anões que passam por eles são os excêntricos que não querem ter contato com os outros. Facilmente poderíamos não ter recebido aviso nenhum.
Ajihad apontou para o mapa, e Eragon aproximou-se. O mapa retratava a metade sul da Alagaësia, mas, ao contrário do mapa de Eragon, ele mostrava a cordilheira das montanhas Beor em detalhes. O dedo de Ajihad estava na parte das montanhas que tocava a fronteira oriental de Surda.
— Aqui — disse ele —, é de onde o anão alega ter vindo.
— Orthíad! — exclamou Orik. Depois da indagação confusa de Jörmundur, ele explicou: — É uma antiga habitação nossa que foi abandonada assim que Tronjheim foi terminada. Durante o seu auge, era a maior das nossas cidades. Mas ninguém vive lá há séculos.
— E é velha o bastante para que alguns túneis tenham desabado — disse Ajihad. — Foi assim que supomos que ela deve ter sido descoberta pela superfície. Suspeito que Orthíad está sendo chamada agora de Ithrö Zhâda. Era para onde a tropa de Urgals que perseguiam Eragon e Saphira deveria ir, e estou certo de que é para onde os Urgals têm migrado durante o ano todo. De Ithrö Zhâda eles podem ir para onde bem entenderem nas montanhas Beor. Eles têm o poder para destruir tanto os Varden quanto os anões.
Jörmundur curvou-se sobre o mapa, analisando-o cuidadosamente.
— O senhor sabe quantos Urgals estão lá? As tropas de Galbatorix estão com eles? Não podemos planejar uma defesa sem saber a dimensão do exército deles.
Ajihad retrucou tristemente:
— Não temos certeza quanto a essas duas coisas, entretanto nossa sobrevivência depende da última questão. Se Galbatorix aumentou as tropas dos Urgals com seus soldados, não teremos nenhuma chance. Mas se ele não fez isso, por não querer que sua aliança com os Urgals seja revelada ou por qualquer outro motivo, é possível alcançarmos a vitória. Nem Orrin nem os elfos podem nos ajudar em um prazo tão curto. Mesmo assim, enviei mensageiros até eles com notícias sobre nosso apuro. Pelo menos, não serão pegos de surpresa se nós cairmos.
Passou a mão sobre sua sobrancelha negra como carvão.
— Eu já falei com Hrothgar, e estabelecemos um plano de ação. Nossa única esperança é conter os Urgals em três dos maiores túneis e direcioná-los para dentro de Farthen Dûr, evitando que entrem aos montes em Tronjheim como gafanhotos.
“Preciso que vocês, Eragon e Arya, ajudem os anões a desmoronar os túneis irrelevantes. Essa tarefa é grande demais para os métodos comuns. Dois grupos de anões já estão trabalhando nisso: um do lado de fora de Tronjheim, e outro embaixo dela. Eragon você trabalhará com o grupo que está no exterior. Arya, você ficará com o que está no subsolo. Orik irá guiá-la até eles.”
— Por que não desmoronamos todos os túneis em vez de deixar os maiores intocados? — perguntou Eragon.
— Porque — respondeu Orik — isso forçaria os Urgals a removerem o cascalho, e eles poderiam tomar uma direção que não nos seria favorável. Além disso, se nos isolarmos, eles poderiam atacar outras cidades dos anões, as quais não seríamos capazes de ajudar a tempo.
— Também há outra razão — disse Ajihad. — Hrothgar me alertou que Tronjheim repousa sobre uma rede de túneis tão densa que se muitos deles forem enfraquecidos, partes da cidade desabarão, afundando no solo devido ao seu próprio peso. Não podemos correr esse risco.
Jörmundur ouviu tudo atentamente e perguntou:
— Então, não haverá combate dentro de Tronjheim? O senhor disse que os Urgals seriam direcionados para fora da cidade, para dentro de Farthen Dûr.
Ajihad respondeu rapidamente:
— Exatamente. Não podemos defender o perímetro inteiro de Tronjheim, é grande demais para nossas tropas, então vamos selar todas as passagens e portões que dão acesso a ela. Isso forçará os Urgals a saírem para as áreas planas que cercam Tronjheim, onde há espaço suficiente para nossas tropas manobrarem. Já que os Urgals têm acesso aos túneis, não podemos arriscar uma batalha demorada. Enquanto estiverem aqui, correremos o perigo constante de eles escavarem e emergirem no piso de Tronjheim. Se isso acontecer, ficaremos encurralados, seremos atacados por fora e por dentro. Temos de evitar que os Urgals tomem Tronjheim. Se eles a dominarem, duvido que teremos força para expulsá-los de lá.
— E quanto às nossas famílias? — perguntou Jörmundur. — Não quero ver minha esposa e meus filhos assassinados pelos Urgals.
As rugas de expressão acentuaram-se no rosto de Ajihad.
— Todas as mulheres e crianças estão sendo levadas para os vales adjacentes. Se formos derrotados, elas terão guias que as levarão até Surda. É tudo que posso fazer.
Jörmundur teve de fazer um esforço para ocultar seu alívio.
— Senhor, Nasuada também vai sair?
— Ela não está satisfeita, mas irá.
Todos os olhos estavam em Ajihad quando ele alinhou os ombros e anunciou:
— Os Urgals chegarão em uma questão de horas. Sabemos que são numerosos, mas nós precisamos defender Farthen Dûr. A derrota significará a ruína dos anões, a morte dos Varden e, finalmente, a derrota para Surda e os elfos. Esta é uma batalha que não podemos perder. Agora, vão e realizem suas tarefas! Jörmundur, prepare os homens para lutar.
Saíram do gabinete e se separaram: Jörmundur foi para os alojamentos, Orik e Arya para as escadas que levavam ao subsolo, e Eragon e Saphira até um dos quatro principais salões de Tronjheim. Apesar de ser muito cedo, a cidade-montanha fervia como um formigueiro. As pessoas corriam, gritavam mensagens e carregavam trouxas com seus pertences.
Eragon já havia lutado e matado antes, mas a batalha que os aguardava o fez sentir arrepios de medo no peito. Ele nunca teve a oportunidade de esperar ansiosamente por uma luta. Agora que a tinha, isso o enchia de pavor. Sentia-se seguro quando ia enfrentar poucos oponentes, ele sabia que poderia derrotar facilmente três ou quatro Urgals usando Zar’roc e a magia, mas em um grande conflito, tudo poderia acontecer.
Saíram de Tronjheim e procuraram os anões que deveriam ajudar. Sem sol ou lua, o interior de Farthen Dûr estava escuro como breu, pontuado por lampiões de brilho saltitante dentro da cratera.
Talvez eles estejam no lado oposto de Tronjheim, sugeriu Saphira. Eragon concordou e pulou para cima das costas dela.
Eles planaram em volta de Tronjheim até que um amontoado de lampiões apareceu. Saphira virou para a direção deles e, com não mais do que um sussurro, pousou ao lado de um grupo de anões assustados, que estavam ocupados cavando com picaretas. Eragon explicou rapidamente porque eles estavam ali. Um anão de nariz pontudo disse a ele:
— Há um túnel a uns quatro metros diretamente abaixo de nós. Qualquer ajuda que você puder dar será bem-vinda.
— Se você esvaziar a área em cima do túnel, verei o que posso fazer. — O anão de nariz pontudo fez uma cara de desconfiado, mas mandou que os escavadores se afastassem do local.
Respirando lentamente, Eragon preparou-se para usar a magia. Seria possível deslocar toda a terra do túnel, mas ele precisava preservar suas forças para mais tarde. Em vez disso, tentaria desabar o túnel ao concentrar sua força em pontos fracos do seu teto.
— Thrysta deloi — sussurrou ele e enviou tentáculos de força para dentro do solo. Quase que imediatamente, eles encontraram rocha. Ele a ignorou e continuou descendo, até sentir o vazio do túnel. Depois, começou a procurar falhas na rocha. Sempre que encontrava uma, fazia força nela, aumentando-a e alargando-a. Foi um trabalho cansativo, mas não mais desgastante do que seria quebrar a rocha com as mãos. Ele não fez um progresso visível, um fato que não passou despercebido pelos anões impacientes.
Eragon perseverou. Logo, ele foi recompensado por um estalo retumbante que pôde ser ouvido claramente na superfície. Houve um rangido persistente e, depois, o solo escorreu para dentro, como água descendo por um tubo, deixando no chão um buraco com mais de seis metros de diâmetro no chão.
Enquanto os anões fascinados enchiam o túnel com cascalho, o anão de nariz pontudo levou Eragon para o próximo túnel. Este foi muito mais difícil de derrubar, mas conseguiu repetir a façanha. Durante as horas seguintes, demoliu mais de meia dúzia de túneis em Farthen Dûr, com a ajuda de Saphira.
A luz surgia tímida no pequeno pedaço de céu acima deles enquanto ele trabalhava. Não era nada demais, mas aumentou a confiança de Eragon. Ele afastou-se das ruínas do último túnel destruído e observou o terreno com interesse.
Um grande êxodo de mulheres e crianças, juntamente com os idosos dos Varden, fluía para fora de Tronjheim. Todos levavam fardos de provisões, roupas e pertences. Um pequeno grupo de guerreiros, composto predominantemente de garotos e idosos, acompanhava-os.
A maioria das atividades, entretanto, acontecia na base de Tronjheim, onde os Varden e os anões reuniam seu exército, que era dividido em três batalhões. Cada seção ostentava o estandarte dos Varden: um dragão branco segurando uma rosa acima de uma espada, que apontava para baixo, em um campo roxo.
Os homens estavam em silêncio, de punhos cerrados. Os cabelos deles pendiam livremente, saindo por baixo de seus capacetes. Vários guerreiros tinham apenas uma espada e um escudo, mas havia várias fileiras munidas com lanças e arpões. Na retaguarda dos batalhões, os arqueiros testavam seus arcos. Os anões trajavam pesadas roupas de batalha. Armaduras feitas com escamas de aço polido iam até a altura dos joelhos, portavam no braço esquerdo pesados escudos redondos, adornados com os brasões de seus clãs. Espadas curtas estavam embainhadas na cintura enquanto, na mão direita eles carregavam picaretas ou machados de guerra. Suas pernas estavam cobertas por uma malha extrafina. Usavam capacetes de ferro e botas guarnecidas com latão.
Uma pequena figura separou-se do batalhão mais distante e foi correndo em direção a Eragon e Saphira. Era Orik, vestido como os outros anões.
— Ajihad quer que vocês se juntem ao exército — disse ele. — Não há mais túneis para demolir. Há comida esperando por vocês.
Eragon e Saphira acompanharam Orik até uma barraca, onde acharam pão e água para Eragon e uma pilha de carne seca para Saphira. Comeram sem reclamar, era melhor do que ficar com fome.
Quando terminaram, Orik mandou que esperassem e desapareceu no meio das fileiras de soldados do batalhão. Voltou, liderando uma fila de anões carregados com pilhas altas de armaduras. Orik pegou uma parte e a entregou para Eragon.
— O que é isso? — perguntou Eragon tocando o metal polido. A armadura era ricamente adornada com entalhes e filigranas de ouro. Tinha mais de dois centímetros e meio de espessura em certos lugares e era muito pesada. Nenhum homem poderia lutar levando tanto peso. E havia peças demais para uma pessoa.
— É um presente de Hrothgar — disse Orik com um ar satisfeito consigo mesmo. — Ela ficou tanto tempo junto com nossos outros tesouros que quase foi esquecida. Ela foi forjada em outra época, antes da queda dos Cavaleiros.
— Mas para que serve? — perguntou Eragon.
— Ora, é uma armadura para dragões, é claro! Você acha que os dragões iam para a batalha desprotegidos? Armaduras completas são raras porque eram muito demoradas para serem feitas e porque os dragões estavam sempre crescendo. Contudo, Saphira ainda não é tão grande, então esta deve caber razoavelmente bem nela.
Armadura para dragões! Enquanto Saphira cheirava uma das peças, Eragon perguntou: O que você acha?
Vamos experimentar, disse com um brilho feroz nos olhos.
Depois de uma bela dose de esforço, Eragon e Orik deram um passo atrás para admirarem o resultado. O pescoço inteiro de Saphira, exceto pelos espinhos em sua crista, estava coberto por placas triangulares da armadura que se sobrepunha. A barriga e o peito estavam protegidos pelas placas mais grossas, enquanto as mais leves cobriam sua cauda. As pernas e as costas estavam completamente envolvidas. As asas dela continuaram nuas. Uma placa inteiriça moldada repousava em cima de sua cabeça, deixando sua mandíbula livre para morder.
Saphira arqueou o pescoço para experimentá-la, e a armadura curvou-se suavemente, acompanhando os movimentos dela.
Isto me deixará mais lenta, mas ajudará a deter as flechas. Como estou?
Muito ameaçadora, retrucou Eragon com sinceridade. Isso a agradou. Orik pegou os itens restantes no chão.
— Eu também trouxe uma armadura para você, embora tenha me dado um bocado de trabalho para achar uma do seu tamanho. Raramente forjamos armaduras para humanos ou elfos. Não sei para quem esta foi feita, mas nunca foi usada e irá servi-lo bem.
Eragon passou por cima da cabeça uma resistente camisa de malha, com as costas forradas de couro, que chegava até a altura dos joelhos, como uma saia. Ela pendia pesada em seus ombros e tinia quando ele andava. Ele prendeu Zar’roc por cima dela, o que ajudou a evitar que a cota ficasse balançando.
Em sua cabeça foi colocado um chapéu de couro, uma touca feita de malha e, finalmente, um capacete dourado e prateado. Proteções metálicas foram postas em seus antebraços e placas de ferro em suas pernas. Em suas mãos havia luvas forradas com cota de malha na parte superior. Finalmente, Orik deu a ele um grande escudo adornado com uma árvore de carvalho.
Sabendo que ele e Saphira tinham ganhado o equivalente a uma pequena fortuna, Eragon curvou-se e disse:
— Obrigado por estas ofertas. Recebemos os presentes de Hrothgar com muita satisfação.
— Não me agradeçam agora — disse Orik com um sorriso. — Esperem até as armaduras salvarem suas vidas.
Os guerreiros em volta deles começaram a marchar. Os três batalhões reposicionaram-se em partes diferentes de Farthen Dûr. Sem saberem ao certo o que deviam fazer, Eragon olhou para Orik, e disse:
— Suponho que devemos acompanhá-los.
Eles se posicionaram atrás de um batalhão que ia em direção à parede da cratera. Eragon perguntou sobre os Urgals, mas Orik só sabia que batedores foram colocados nos túneis e que nada havia sido visto ou ouvido.
O batalhão parou perto de um dos túneis destruídos. Os anões jogaram cascalho de uma maneira que ninguém pudesse sair facilmente dali.
Este deve ser um dos lugares em que eles forçarão os Urgals a sair, comentou Saphira.
Centenas de lampiões estavam presos no topo de estacas fixadas no chão. Elas proviam uma grande área iluminada, que brilhava como o sol da tarde. Fogueiras ardiam em volta da beirada do teto do túnel, enormes caldeirões de piche esquentavam em cima delas. Eragon desviou o olhar, lutando contra a repulsa que sentia. Era um modo terrível de matar alguém, até mesmo um Urgal.
Fileiras de galhos pontudos estavam sendo enterradas no chão, formando uma barreira espinhosa entre o batalhão e o túnel. Eragon viu uma oportunidade de ajudar e se juntou a um grupo de homens que cavavam trincheiras entre os galhos. Saphira também ajudou, removendo a terra com suas garras gigantes.
Enquanto eles trabalhavam, Orik saiu para supervisionar a construção de uma barricada para proteger os arqueiros. Eragon bebia com gratidão no odre sempre que ele passava por perto. Depois que as trincheiras estavam terminadas e munidas com estacas pontudas, Saphira e Eragon descansaram.
Orik retomou, encontrando-os sentados juntos. Ele enxugou a testa.
— Todos os homens e anões estão no campo de batalha. Tronjheim foi lacrada. Hrothgar está no comando do batalhão à nossa esquerda. Ajihad está liderando o que está à nossa frente.
— Quem está comandando este?
— Jörmundur. — Orik sentou-se com um resmungo e colocou seu machado de guerra no chão.
Saphira deu um pequeno empurrão em Eragon.
Olhe. A mão dele apertou Zar’roc quando viu Murtagh, de capacete, empunhando um escudo dos anões e sua comprida espada, aproximando-se com Tornac.
Orik xingou e levantou-se com um pulo, mas Murtagh disse rapidamente:
— Está tudo bem. Ajihad me libertou.
— Por que ele faria isso? — inquiriu Orik.
Murtagh sorriu ironicamente.
— Ele disse que esta seria uma oportunidade de provar minhas boas intenções. Aparentemente, ele não acha que eu seria capaz de fazer muitos danos mesmo se eu me voltasse contra os Varden.
Eragon acenou com a cabeça, dando as boas-vindas, relaxando a pressão no punho da espada. Murtagh era um guerreiro excelente e impiedoso, exatamente a pessoa que Eragon gostaria de ter ao seu lado durante uma batalha.
— Como podemos saber que você não está mentindo? — perguntou Orik.
— Porque assim eu digo — anunciou uma voz firme. Ajihad entrou com passos largos no meio deles, armado para a batalha com o peitoral protegido por uma armadura e com uma espada com punho de marfim.
Ele pôs uma mão forte no ombro de Eragon e afastou-o até um ponto onde os outros não podiam ouvir. Ele lançou um olhar na armadura de Eragon.
— Ótimo, Orik o equipou.
— De fato... Alguma coisa foi vista nos túneis?
— Nada. — Ajihad apoiou-se em sua espada. — Um dos gêmeos ficará em Tronjheim. Ele observará a batalha do abrigo para dragões e passará informações para mim usando o irmão dele. Sei que você pode se comunicar mentalmente. Preciso que diga aos gêmeos qualquer coisa, qualquer coisa incomum que você veja na batalha. Além disso, eu passarei ordens para você por intermédio deles. Entendeu?
O pensamento de estar ligado aos gêmeos encheu Eragon de repugnância, mas ele sabia que seria necessário.
— Entendi.
Ajihad fez uma pausa.
— Você não é um soldado de campo ou cavaleiro e difere do tipo de guerreiro que estou acostumado a comandar. A batalha pode me contradizer, mas creio que você e Saphira estarão mais seguros no chão. No ar, serão um alvo fácil para os arqueiros dos Urgals. Você lutará montado em Saphira?
Eragon nunca havia combatido montado em um cavalo, muito menos em Saphira.
— Não sei o que faremos. Quando monto em Saphira, fico alto demais para lutar, exceto contra um Kull.
— Temo que haverá muitos deles — disse Ajihad. Ele pôs-se ereto, arrancando sua espada do solo. — O único conselho que lhe dou é evitar riscos desnecessários. Os Varden não podem perdê-lo. — Depois de dizer isso, virou-se e saiu.
Eragon voltou para Orik e Murtagh e acocorou-se perto de Saphira, repousando seu escudo em seus joelhos. Os quatro esperavam em silêncio, como as centenas de guerreiros em volta deles. A luz que entrava pela abertura de Farthen Dûr se enfraquecia à medida que o sol se arrastava para baixo da beira da cratera.
Eragon virou-se para examinar o acampamento e ficou paralisado, seu coração batia forte. A uns nove metros de distância, Arya estava sentada com o arco em seu colo. Embora soubesse que isso seria irracional, ele esperava que ela tivesse ido com as outras mulheres para fora de Farthen Dûr. Preocupado, ele foi correndo até ela.
— Você vai lutar?
— Farei o que devo fazer — disse Arya calmamente.
— Mas será perigoso demais!
A expressão no rosto dela ficou séria.
— Não tente me mimar, humano. Os elfos treinam tanto seus homens quanto suas mulheres para lutar. Não sou como uma de suas fêmeas indefesas que fogem sempre que há perigo. Eu recebi a tarefa de proteger o ovo de Saphira... Na qual falhei. Minha breoal foi desonrada e ficaria ainda mais envergonhada se eu não defendesse você e Saphira neste campo. Você esqueceu que sou mais forte com a magia do que qualquer um aqui, incluindo você. Se o Espectro aparecer, quem poderá derrotá-lo além de mim? E quem mais teria tal direito?
Eragon olhou para ela sem saber o que dizer, reconhecendo que ela tinha razão e odiando tal fato.
— Então, tome cuidado. — Nervoso, ele acrescentou na língua antiga: — Wiol pömnuria ilian. — Pela minha felicidade.
Arya desviou o olhar, sem graça. A franja de seus cabelos ocultou seu rosto. Ela passou a mão em seu arco polido e murmurou:
— É meu destino estar aqui. A dívida deve ser paga.
Ele retirou-se abruptamente e foi até Saphira. Murtagh, curioso, olhou para ele.
— O que ela disse?
— Nada.
Envoltos em seus próprios pensamentos, os defensores mergulharam em um silêncio taciturno conforme as horas se arrastavam. A cratera de Farthen Dûr, novamente, ficou escura, exceto pelo brilho sanguíneo dos lampiões e das fogueiras que aqueciam o piche. Eragon se alternava entre examinar de modo míope os elos de aço de sua cota de malha e espiar Arya. Orik, repetidamente, passava uma pedra de amolar na lâmina do seu machado, examinando com frequência o fio entre as passadas. O barulho da pedra raspando no metal era irritante. Murtagh apenas olhava fixamente para o horizonte.
Às vezes, mensageiros atravessavam o acampamento correndo, fazendo os guerreiros ficarem de pé de repente. Mas era sempre um alarme falso. Os homens e os anões ficaram tensos, vozes zangadas eram ouvidas com frequência. A pior parte sobre Farthen Dûr era a falta de vento, o ar era estagnado, sem nenhum movimento. Mesmo quando ficava mais quente, sufocante e repleto de fumaça, não havia alívio.
Conforme a noite se arrastava, o campo de batalha ficou imobilizado, silencioso como a morte. Os músculos estavam tensos devido à espera. Eragon olhava de modo inexpressivo para a escuridão com pálpebras pesadas. Ele se agitava para ficar alerta e tentar se concentrar apesar de seu adormecimento.
Finalmente, Orik disse:
— Está tarde. Nós devíamos dormir. Se algo acontecer, os outros nos acordarão — Murtagh resmungou, mas Eragon estava cansado demais para reclamar. Aconchegou-se perto de Saphira, usando o escudo como travesseiro. Conforme seus olhos se fechavam, viu que Arya ainda estava acordada, vigiando-os.
Seus sonhos foram confusos e perturbadores, repletos de bestas chifrudas e ameaças que não podiam ser vistas. Repetidas vezes, ele ouvia uma voz grave perguntar: “Você está pronto?” Mas ele nunca respondia.
Atormentado por tais visões, seu sono foi leve e intranquilo, até que algo tocou em seu braço. Ele acordou assustado.

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