27 de maio de 2017

Capítulo 57 - Espada vermelha, espada branca

No nascer do sol sobre o horizonte arborizado, Eragon respirou ainda mais fundo, acelerou seu batimento cardíaco e abriu os olhos ao retornar à consciência. Ele não esteve adormecido, pois não dormira desde sua transformação. Quando se sentia cansado e se deitava para descansar, entrava num estado próximo ao transe. Lá ele tinha muitas visões extraordinárias e andava entre as sombras cinzentas de suas memórias, contudo permanecia o tempo todo a par do que o cercava.
Ele via o nascer do sol e pensava sobre Arya, ela enchia a sua mente como em todas as horas, desde o Agaetí Blödhren dois dias atrás. Na manhã posterior à celebração, ele a procurou na Mansão Tialdarí — na intenção de explicar seu comportamento — só para descobrir que ela já havia partido para Surda. Quando a verei novamente? pensou incerto. Na luz clara do dia, percebeu como a magia dos dragões e dos elfos havia entorpecido sua razão durante o Agaetí Blödhren. Posso ter agido como um idiota, mas a culpa não foi totalmente minha. Não fui mais responsável por minha conduta do que se estivesse bêbado.
Ainda assim, tudo que ele havia dito para Arya era verdadeiro — mesmo que normalmente não fosse revelar tanto de si próprio. Sua rejeição feriu Eragon profundamente. Agora livre dos encantos que haviam enevoado a sua mente, foi forçado a admitir que ela provavelmente tinha razão, que a diferença de idade era grande demais para ser superada. Era difícil aceitar e, tão logo o fez, tal entendimento só aumentou a sua angústia.
Eragon já havia ouvido a metáfora “coração partido”. Até então, ele sempre a considerou uma imagem, não um sintoma físico de fato. Mas, agora ele sentia uma dor profunda no peito — como a de um músculo dolorido — e cada batida do seu coração lhe doía.
Seu único consolo era Saphira. Naqueles dois dias, em nenhum instante ela criticou o que ele havia feito, tampouco o deixou sozinho por mais de alguns minutos, deu-lhe o suporte do seu companheirismo.
Ela também conversava bastante com o parceiro, fazia o máximo possível para tirá-lo de seu silêncio.
Para não ficar o tempo todo pensando em Arya, Eragon pegou o quebra-cabeça de anéis de Orik em sua mesa-de-cabeceira, e o rolou entre os dedos, maravilhado com o quão aguçados haviam ficado os seus sentidos.
Ele podia sentir cada pequena falha no metal retorcido. Enquanto estudava o anel, notou um arranjo nos elos de metal, um padrão que lhe havia fugido antes. Confiando no seu instinto, manipulou os aros na seq-ência sugerida pela sua observação. Para a sua alegria, as oito pecas se encaixaram perfeitamente, formaram enfim um todo sólido. Ele fez o anel escorregar sobre o quarto dedo da mão direita, admirando o quanto os aros entrelaçados refletiam a luz.
Você não podia fazer isso antes, observou Saphira da plataforma onde ela dormia.
Posso ver muitas coisas que antes estavam ocultas para mim.
Eragon foi até o banheiro e fez sua higiene matinal, incluía a remoção dos pelos do rosto com um feitiço. Apesar do fato de agora estar extremamente parecido com um elfo, ele havia mantido a capacidade de ter uma barba, se quisesse.
Orik estava esperando por eles quando Eragon e Saphira chegaram ao campo de duelos. Seus olhos ficaram radiantes quando Eragon levantou a mão e mostrou o quebra-cabeça do anel.
— Você o resolveu, então!
— Isso demorou mais tempo do que eu esperava — disse Eragon —, mas, sim. Você também está aqui para treinar?
— É. Eu já treinei golpes de machado com um elfo que teve um prazer demoníaco em rachar a minha cabeça. Não... eu vim para ver você lutar.
— Você já me viu lutar anteriormente — indicou Eragon.
— Não vejo há um bom tempo.
— Você quer dizer que está curioso para ver o quanto eu mudei.
Orik encolheu os ombros em resposta.
Vanir se aproximou vindo do outro lado do campo. Ele gritou:
— Está pronto, Matador de Espectros? — A conduta transigente do elfo se abrandou desde o seu último duelo, antes do Agaetí Blödhren, mas não muito.
— Estou pronto.
Eragon e Vanir se posicionaram um de frente para o outro numa área aberta no campo. Esvaziando sua mente, Eragon agarrou e sacou Zar’roc o mais rápido que podia. Para sua surpresa, a espada parecia não pesar mais do que uma vara de salgueiro. Sem a esperada resistência, o braço de Eragon estalou na mesma hora, fazendo a espada sair de sua mão e voar para longe, girando, uns vinte metros para a direita, onde se enterrou no tronco de um pinheiro.
— Você não consegue nem segurar a sua espada, Cavaleiro? — perguntou Vanir.
— Desculpe, Vanir-vodhr — disse Eragon, ofegante. Ele apertou o cotovelo, esfregando a articulação machucada para diminuir a dor. — Julguei mal a minha força.
— Certifique-se de que isso não venha a acontecer novamente. — Indo até a árvore, Vanir agarrou o cabo da Zar’roc e tentou soltar a espada. A arma permanecia imóvel. As sobrancelhas do elfo se encontraram enquanto ele franzia a testa para aquela lâmina vermelha inflexível, como se suspeitasse de alguma espécie de truque. Escorando-se, o elfo fez bastante força para trás e, com o estalar da madeira, conseguiu arrancar Zar’roc do pinheiro.
Eragon aceitou a espada de volta, dada por Vanir, e ergueu Zar’roc, incomodado com a sua leveza. Algo está errado, pensou.
— Tome o seu lugar!
Desta vez foi Vanir que iniciou a luta. Num único salto, cruzou a distância que os separava e deu uma estocada na direção do ombro direito de Eragon. Para Eragon, parecia que o elfo se movia mais lentamente do que o normal, como se os reflexos de Vanir tivessem sido reduzidos ao nível de um humano. Foi fácil para Eragon desviar o golpe do elfo, e faíscas azuis voaram do metal tão logo suas espadas se encontraram.
Vanir caiu, surpreso. Ele atacou novamente, e Eragon evitou a espada inclinando-se para trás, como se fosse uma árvore balançando ao vento. Numa rápida sucessão, Vanir disparou uma série de golpes pesados sobre Eragon, cada um dos quais o Cavaleiro bloqueou ou se esquivou, usava tanto a bainha como a própria espada, para frustrar os ataques violentos do elfo.
Eragon logo percebeu que o dragão espectral do Agaetí Blödhren havia feito mais do que alterar sua aparência, ele também lhe concedera as habilidades físicas dos elfos. Em força e velocidade, Eragon agora se equiparava ao elfo mais atlético.
Inflamado por aquela percepção e pelo desejo de testar seus limites, Eragon pulou o mais alto que pôde. Zar’roc emitiu um brilho avermelhado à luz do sol, enquanto ele voava rumo ao céu, erguendo-se a mais de três metros do chão, como um acrobata, antes de cair atrás de Vanir, virado para a direção de onde ele havia começado a manobra.
Uma gargalhada ameaçadora brotou de Eragon. Ele não era mais indefeso perante os elfos, Espectros e outras criaturas da magia. Ele não sofreria mais com o desprezo dos elfos. Não teria mais que se fiar em Saphira ou Arya para salvá-lo de inimigos como Durza.
Ele atacou Vanir, e soou um estrondo no campo enquanto eles lutavam um contra o outro, movendo-se com gestos de extrema violência para trás e para frente, sobre a grama pisoteada. A força dos seus golpes criava rajadas de vento que açoitavam seus cabelos, deixava-os emaranhados. Mais acima, as árvores balançavam e soltavam suas folhas. O duelo tomou grande parte da manhã pois, mesmo com as recém-adquiridas habilidades de Eragon, Vanir ainda assim era um oponente formidável. Mas no fim das contas, Eragon não teria suas expectativas negadas. Girando com Zar’roc, passou pela guarda de Vanir e o atingiu na parte de cima do braço, quebrando o osso.
Vanir deixou sua espada cair, e seu rosto ficou pálido de susto.
— Como a sua espada é rápida — disse ele, e Eragon reconheceu o famoso verso de A Balada de Umhodan.
— Pelos deuses! — exclamou Orik. — Essa foi a melhor demonstração de manejo de espada que já vi, e eu estava lá quando você enfrentou Arya em Farthen Dûr.
Então Vanir fez o que Eragon jamais poderia esperar: o elfo virou sua mão sadia no gesto de lealdade, colocou-a sobre o esterno e se curvou.
— Peço desculpas pelo meu comportamento anterior, Eragon-elda. Achava que você iria condenar minha raça à extinção e por conta do meu medo agi de forma vergonhosa. No entanto, me parece que a sua raça não ameaça mais a nossa causa. — Num tom de voz relutante, ele acrescentou: — Agora você é merecedor do título de Cavaleiro.
Eragon se curvou, retribuindo o gesto.
— Você me honra. Lamento tê-lo deixado tão ferido. Você me permite curar o seu braço?
— Não, devo deixar a natureza cuidar dele no seu próprio ritmo, como lembrança de que uma vez cruzei espadas com Eragon Matador de Espectros. Você não precisa temer que isso venha a atrapalhar nosso duelo de amanhã, também sou muito bom com a minha mão esquerda.
Ambos se curvaram novamente e então Vanir partiu. Orik bateu em sua coxa e disse:
— Agora temos uma chance de vitória, uma chance de verdade! Posso sentir isso em meus ossos. Tendo ossos de pedra, como eles dizem. Ah, isso deixará Hrothgar e Nasuada imensamente felizes.
Eragon ficou quieto e se concentrou para limpar a bainha de Zar’roc, mas disse para Saphira: Se bastasse força muscular para depor Galbatorix, os elfos já o teriam feito há muito tempo. Ainda assim, ele não conseguia conter a felicidade por ter aumentado sua destreza, assim como por ter se livrado das dores em suas costas. Os constantes acessos de dor eram como uma névoa, agora dissipada de sua mente, permitia que ele pensasse com clareza mais uma vez.
Restavam alguns minutos para o encontro marcado com Oromis e Glaedr, por isso Eragon pegou seu arco e a aljava, que estavam pendurados nas costas de Saphira, ele andou até o campo onde os elfos praticavam arco e flecha. Como os arcos dos elfos eram bem mais poderosos que o seu, os alvos deles lhe pareciam, ao mesmo tempo, muito pequenos e distantes. Ele tinha que atirar do meio do caminho entre a marca e o alvo.
Em posição, Eragon encaixou uma flecha e lentamente puxou a corda, satisfeito com a facilidade. Ele mirou, soltou a flecha e manteve a sua posição, esperando para ver se atingiria o alvo. Como uma vespa enlouquecida, a seta seguiu zunindo em direção ao alvo e se enterrou bem no centro. Ele sorriu. Repetidas vezes, o cavaleiro atirou no alvo. Sua velocidade aumentava conforme sua confiança, até ele disparar trinta flechas num minuto.
Na trigésima primeira flecha, ele puxou a corda de um jeito levemente mais forte do que jamais havia feito — ou era capaz de fazer — antes. Com um estrondo, a madeira do arco quebrou ao meio sob a sua mão esquerda, arranhando seus dedos e disparando uma rajada de estilhaços da parte de trás do arco. Sua mão ficou dormente por causa do solavanco.
Eragon olhou para os restos de sua arma, consternado com a perda. Garrow a fizera como presente de aniversário há mais de três anos. Desde então, dificilmente uma semana se passava sem que Eragon não usasse seu arco. Ele o ajudara a trazer comida para casa em inúmeras ocasiões quando, de outra maneira, ficariam com fome. Com ele, matou seu primeiro cervo. Com ele, matou seu primeiro Urgal. E através dele, usou a magia pela primeira vez. Perder seu arco era como perder um velho amigo com o qual se podia contar até mesmo na pior das situações.
Saphira cheirou os dois pedaços de madeira que balançavam em suas mãos e disse: Parece que você precisa de um novo lançador de varas.
Ele resmungou — não estava disposto a falar — e saiu para recuperar suas flechas.
Do campo aberto, ele e Saphira voaram para os brancos rochedos de Tel’naeír e se apresentaram a Oromis, que estava sentado num banco em frente à sua cabana, olhando montanha abaixo com seus olhos que enxergavam longe. Ele disse:
— Você já se recuperou totalmente, Eragon, da magia potente da Celebração de Juramento ao Sangue?
— Sim, mestre.
Um longo silêncio se seguiu enquanto Oromis bebia uma xícara de chá de amora silvestre e voltava a contemplar a velha floresta. Eragon esperou sem reclamar, ele estava acostumado com tais pausas quando lidava com o velho Cavaleiro. Finalmente, Oromis se pronunciou:
— Glaedr me explicou, o melhor que pôde, o que aconteceu com você durante a celebração. Tal coisa jamais havia ocorrido na história dos Cavaleiros... Mais uma vez, os dragões se provaram capazes de muito mais do que imaginávamos. — Ele tomou um gole de seu chá. — Glaedr estava incerto quanto às exatas mudanças que você iria experimentar, por isso gostaria que você descrevesse a extensão total da sua transformação, incluindo a sua aparência.
Eragon resumiu rapidamente como ele fora alterado, detalhou o aumento da sensibilidade na visão, no olfato, na audição, no tato e terminou com um relato de seu embate com Vanir.
— E como — perguntou Oromis — você está se sentindo em relação a tudo isso? Você se ressente do fato de que o seu corpo foi manipulado sem a sua permissão?
— Não, não! De jeito nenhum. Eu poderia ter me ressentido antes da batalha de Farthen Dûr, mas agora me sinto simplesmente grato por minhas costas não estarem doendo mais. Eu teria, de livre e espontânea vontade, me submetido a mudanças muito maiores para escapar da maldição de Durza. Não, minha única resposta é gratidão.
Oromis acenou positivamente a cabeça.
— Fico feliz por você ser sábio o bastante para tomar essa posição, pois seu dom vale mais do que todo o ouro que existe no mundo. Com isso, acredito que nossos pés estejam finalmente no caminho certo. — Mais uma vez ele sorveu o chá. — Vamos em frente. Saphira, Glaedr a espera na Pedra dos Ovos Quebrados. Eragon, hoje começará o terceiro estágio do Rimgar, se você puder. Gostaria de ter uma noção de tudo que você é capaz de fazer.
Eragon seguiu na direção do quadrado de terra batida onde eles normalmente executavam a Dança da Cobra e do Grou, mas hesitou ao ver que o elfo de cabelos prateados havia ficado para trás.
— Mestre, você não vem se juntar a mim?
Um sorriso triste brotou no rosto de Oromis.
— Hoje não, Eragon. Os feitiços exigidos pela Celebração de Juramento ao Sangue exigiram demais de mim. Isso e a minha... doença. Usei as minhas últimas forças para vir me sentar aqui fora.
— Lamento, mestre. — Será que ele se ressente do fato de os dragões não terem optado por curá-lo também?, pensou Eragon. Ele imediatamente deixou esse pensamento de lado, Oromis jamais seria tão mesquinho.
— Não fique assim. O fato de eu estar aleijado não é culpa sua.
Enquanto Eragon lutava para completar o terceiro estágio do Rimgar. Ficou óbvio que ainda lhe faltava o equilíbrio e a flexibilidade dos elfos, dois atributos que até mesmo eles tinham que trabalhar para adquirir. De uma certa maneira, ele saudava essas limitações pois, se fosse perfeito, o que lhe restaria para alcançar?


As semanas seguintes foram difíceis para Eragon. Por um lado ele fez um progresso enorme com seu treinamento, dominava sequências que outrora o confundiam. Ele ainda achava as lições de Oromis desafiadoras mas não se sentia inadequado, como se estivesse afundando no mar da sua própria incapacidade. Era mais fácil para Eragon ler e escrever, e sua força aumentada significava que ele agora podia invocar onze feitiços que exigiam muita energia e poderiam matar qualquer humano normal. Sua força também evidenciou quão fraco Oromis era, em comparação a outros elfos.
Contudo, apesar de todas essas habilidades, Eragon experimentou uma sensação crescente de descontentamento. Não importava o quanto ele se esforçava para esquecer Arya, cada dia que passava aumentava a sua saudade, a agonia só piorava pelo fato de saber que ela não queria vê-lo ou conversar com ele. Porém, mais do que isso, lhe parecia que uma tempestade agourenta estava se formando além do horizonte, uma tempestade que ameaçava cair a qualquer momento e se espalhar por todo o remo. devastando tudo e todos.
Saphira partilhava da sua inquietação. Ela disse: O mundo está se esticando e ficando mais fino, Eragon. Logo ele se romperá e a loucura vai jorrar. O que você sente é o que os dragões sentem e o que os elfos sentem — a marcha inexorável do destino enquanto o fim da nossa era se aproxima. Chore por aqueles que morrerão no caos que deverá consumir a Alagaësia. E torça para que possamos ter um futuro mais brilhante com a força da sua espada, de seu escudo, das minhas presas e das minhas garras.

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