27 de maio de 2017

Capítulo 56 - Premonição de guerra

Duas horas depois, Trianna retornou, liderava uma dupla de guerreiros que carregava um corpo inerte. Assim que Trianna ordenou, os homens largaram o cadáver no chão. Então a feiticeira disse:
— Encontramos o assassino onde Elva informou que ele estaria. Seu nome era Drail.
Motivada por uma curiosidade mórbida, Nasuada examinou o rosto do homem que tentara matá-la. O assassino era baixo, barbado e tinha uma aparência normal, igual aos incontáveis homens que habitavam a cidade.
Sentiu uma certa ligação com o sujeito, como se a tentativa dele de tirar sua vida e o fato de ela ter ordenado a sua morte os ligasse da maneira mais íntima possível.
— Como ele morreu? — perguntou ela. — Não vejo marcas em seu corpo.
— Ele cometeu suicídio com magia quando desarmamos suas defesas e entramos em sua mente, mas antes que pudéssemos dominar suas ações.
— Vocês descobriram algo útil antes de ele morrer?
— Descobrimos. Drail fazia parte de uma rede de agentes baseados aqui em Surda que são leais a Galbatorix. São chamados de Mão Negra. Eles nos espiam, sabotam nossos esforços de guerra e — o melhor que pudemos concluir em nosso breve vislumbre das lembranças de Drail — são responsáveis por dezenas de assassinatos entre os Varden. Aparentemente, eles têm esperado por uma boa chance de matar você desde que chegamos de Farthen Dûr.
— Por que essa Mão Negra ainda não assassinou o rei Orrin?
Trianna encolheu os ombros.
— Não sei dizer. Pode ser que Galbatorix a considere uma ameaça maior do que Orrin. Se esse for o caso, uma vez que a Mão Negra perceba que você está protegida — nesse instante seu olhar se voltou na direção de Elva —, Orrin não viverá um mês a mais a não ser que seja protegido por mágicos dia e noite. Talvez Galbatorix tenha desistido dessa ação direta pois queria que a Mão Negra permanecesse secreta. Surda sempre existiu por causa de sua tolerância. Agora que se tornou uma ameaça...
— Você também pode proteger Orrin? — perguntou Nasuada, virando-se para Elva.
Seus olhos cor de violeta pareciam brilhar.
— Talvez, se ele pedir delicadamente.
Os pensamentos de Nasuada dispararam na tentativa de impedir essa nova ameaça.
— Será que todos os agentes de Galbatorix podem se valer de magia?
— A mente de Drail estava confusa, por isso é difícil dizer — disse Trianna —, mas acredito que muitos possam.
Magia, amaldiçoou-se Nasuada. O maior perigo que os Varden enfrentaram com os mágicos — ou com qualquer pessoa treinada no uso da mente — não era assassinato, era espionagem. Os mágicos podiam invadir os pensamentos das pessoas e juntar informações capazes de destruir os Varden. Foi precisamente por isso que Nasuada e toda a estrutura de comando dos Varden aprendeu a reconhecer quando alguém tocava suas mentes e aprendeu se proteger de tais diligências. Nasuada suspeitava que Orrin e Hrothgar contavam com precauções semelhantes dentro de seus próprios governos.
No entanto, era impraticável avisar todos os indivíduos conhecedores de informações potencialmente prejudiciais e protegê-los da espionagem. Uma das muitas responsabilidades da Du Vrangr Gata era, justamente, caçar qualquer um que estivesse espionando fatos assim nas mentes das pessoas. O custo de tal vigilância era que a Du Vrangr Gata acabava espionando os Varden tanto quanto os seus inimigos. Nasuada se certificou de esconder isso de grande parte dos seus seguidores, pois só iria semear ódio, desconfiança e dissidências. Ela não gostava da prática mas não via nenhuma alternativa.
O que ela havia aprendido sobre a Mão Negra fortaleceu sua convicção de que, de algum modo, os mágicos tinham de ser controlados.
— Por que — perguntou ela — você não descobriu isso antes? Posso entender que você tenha perdido um único assassino, mas uma rede inteira de encantadores dedicados à nossa destruição? Explique-se, Trianna.
Os olhos da feiticeira arderam de raiva com tal acusação.
— Porque aqui, ao contrário do que acontece em Farthen Dûr, não podemos examinar as mentes de todos em busca de má-fe. Há simplesmente pessoas demais para que nós mágicos possamos rastrear. E por isso que não sabíamos da Mão Negra até agora, lady Nasuada.
Nasuada hesitou e depois inclinou a cabeça.
— Entendido. Você descobriu as identidades de outros membros da Mão Negra?
— De alguns.
— Muito bem. Use-as para desmascarar o resto dos agentes. Quero que você destrua essa organização para mim, Trianna. Destrua-os como faria com uma praga de vermes. Dar-lhe-ei quantos homens você precisar.
A feiticeira se curvou.
— Como quiser, lady Nasuada.
Com uma batida na porta, os guardas sacaram suas espadas e se posicionaram nos dois lados da via de acesso, até que seu capitão abriu a porta com um puxão, sem avisar. Havia um jovem pajem do lado de fora, tinha o punho armado para bater novamente. Ele olhou com espanto para o corpo no chão e depois despertou do transe quando o capitão lhe perguntou:
— O que foi, garoto?
— Tenho uma mensagem do rei Orrin para lady Nasuada.
— Então fale e seja breve — disse Nasuada.
O pajem levou um instante para se compor.
— O rei Orrin requisita a sua presença urgente no gabinete do conselho, pois recebeu relatos vindos do Império que exigem a sua atenção imediata.
— Isso é tudo?
— Sim, senhora.
— Tenho que ver isso. Trianna, você já sabe o que deve fazer. Capitão, será que pode dispor de um de seus homens para se livrar de Drail?
— Sim, senhora.
— Além disso, por favor, me ajudem a localizar Farica, minha criada. Ela cuidará para que meu gabinete fique limpo.
— E quanto a mim? — perguntou Elva, inclinando a cabeça.
— Você — disse Nasuada — deve me acompanhar. Quer dizer, caso esteja se sentindo forte o suficiente para fazê-lo.
A garota jogou sua cabeça para trás e, da sua boa pequena e redonda, brotou uma gargalhada fria.
— Sou forte o bastante, Nasuada. Você é?
Ignorando a pergunta, Nasuada entrou no corredor cercada por guardas As pedras do castelo exalavam um cheiro de terra no calor. Mais atrás ela ouvia os passos miúdos de Elva e se sentia perversamente satisfeita pelo fato da criança medonha ter que correr para acompanhar os passos mais longos dos adultos.
Os guardas permaneceram no vestíbulo do gabinete do Conselho, Nasuada e Elva entraram. O escritório era vazio ao ponto de ostentar severidade, refletia a natureza combativa da existência de Surda. Os reis do país haviam devotado seus recursos para a proteção de sua gente e a derrota de Galbatorix, não decoraram o castelo Borromeo com um cabedal inútil, como os anões haviam feito em Tronjheim.
Na sala principal, encontrava-se uma mesa rústica, tinha uns três metros e meio de comprimento, sobre ela havia um mapa da Alagaësia fixado com adagas nas quatro pontas. Como era costume, Orrin estava sentado na cabeceira da mesa, enquanto seus vários conselheiros — muitos dos quais, como bem sabia Nasuada, contrários a ela — ocupavam as cadeiras mais afastadas. O Conselho de Anciãos também estava presente. Nasuada notou a preocupação no rosto de Jörmundur, quando ele a olhou, e deduziu que Trianna também havia lhe falado sobre Drail.
— Majestade, você me chamou? Orrin se levantou.
— Sim, chamei. Agora temos... — Ele parou no meio da frase assim que notou Elva. — Ah, sim, Fronte Luminosa. Eu ainda não havia tido a oportunidade de lhe conceder uma audiência antes, embora relatos dos seus feitos já tenham chegado aos meus ouvidos e, devo confessar, já estava curioso para conhecê-la. Você achou satisfatórios os aposentos que lhe arrumei?
— São muito bons, Majestade. Obrigada. — Ao som de sua voz misteriosa, a voz de um adulto, todos na mesa se encolheram.
Irwin o primeiro-ministro, levantou-se num pulo e apontou um dedo trêmulo para Elva.
— Por que você trouxe este... este ser abominável até aqui?
— Você está se esquecendo dos bons modos, senhor — respondeu Nasuada, embora entendesse o seu sentimento.
Orrin franziu a testa.
— Sim, contenha-se, Irwin. No entanto, sua observação é válida, Nasuada, não podemos ter essa criança presente nas nossas reuniões.
— O Império — disse ela — acabou de tentar me assassinar. — Gritos de surpresa ecoaram pelo salão. — Se não fosse pela atitude de Elva, eu estaria morta. Como consequência, agora deposito toda a minha confiança nela, aonde eu vou, ela vai. — Deixe que eles imaginem o que exatamente Elva pode fazer.
— São de fato notícias desoladoras! — exclamou o rei. — Você já conseguiu pegar o salafrário responsável?
Vendo as expressões ansiosas de seus conselheiros, Nasuada hesitou.
— Seria melhor esperar até que eu possa lhe dar um relato em particular, Majestade.
Orrin parecia desconcertado com sua resposta, mas não insistiu no tema.
— Muito bem. Mas sentem, sentem! Acabamos de receber uma notícia das mais preocupantes. — Depois que Nasuada ocupou o lugar oposto ao rei, com Elva à espreita atrás dela, ele prosseguiu: — Parece que nossos espiões em Gil’ead foram enganados em relação à posição do exército de Galbatorix.
— Como assim?
— Eles acreditam que o exército esteja em Gil’ead, enquanto temos aqui uma carta de um de nossos homens em Urû’baen, que dizem que ele testemunhou uma grande multidão marchando para o sul e passando pela capital há cerca de uma semana e meia. Era noite, por isso ele não pôde ter certeza dos números, mas estava certo de que a horda era bem maior do que os dezesseis mil que formam o núcleo das tropas de Galbatorix. Deve haver algo em torno de cem mil soldados, ou mais.
Cem mil soldados! Um arrepio de medo começou a se instalar na boca do estômago de Nasuada.
— Será que podemos confiar na sua fonte?
— Sua inteligência sempre foi confiável.
— Não entendo — disse Nasuada. — Como Galbatorix poderia mover tantos homens sem que soubéssemos de antemão? Só os vagões com suprimentos teriam quilômetros de comprimento. Era óbvio que o exército estava se mobilizando, mas o Império não estava em nenhum lugar por perto para se organizar para o combate.
Falberd falou então, bateu com sua mão pesada para dar ênfase às suas palavras:
— Eles foram mais espertos. Nossos espiões devem ter sido enganados com magia para pensar que o exército ainda estava em seu quartel de Gil’ead.
Nasuada sentiu o sangue se esvair de seu rosto.
— A única pessoa com poder suficiente para sustentar uma ilusão deste tamanho e com tal duração...
— É o próprio Galbatorix — completou Orrin. — Esta foi a nossa conclusão. Significa que Galbatorix finalmente abandonou sua toca em favor do combate aberto. Agora mesmo enquanto falamos, nosso maior inimigo está se aproximando.
Irwin se inclinou.
— A questão agora é como devemos responder. Temos que enfrentar essa ameaça é claro, mas de que maneira? Onde, quando e como? Nossas próprias forças não estão preparadas para uma campanha desta magnitude, enquanto as suas, lady Nasuada, os Varden, já estão acostumados com o ardente clamor da guerra.
— O que está sugerindo? Que devemos morrer por vocês?
— Eu só fiz uma observação. Entenda como quiser.
Então Orrin disse:
— Sozinhos, seremos esmagados por esse exército tão grande. Precisamos ter aliados, mas acima de tudo precisamos de Eragon, especialmente se formos enfrentar Galbatorix. Nasuada, você mandaria alguém buscá-lo?
— Eu o faria se pudesse, mas até que Arya retorne, não tenho como avisar os elfos ou convocar Eragon.
— Nesse caso — disse Orrin num tom de voz pesado —, temos que ter fé que ela chegará antes que seja tarde demais. Não suponho que possamos esperar a ajuda dos elfos para resolver esse problema. Ao mesmo tempo que um dragão pode atravessar as léguas que separam Aberon e Ellesméra com a velocidade de um falcão, seria impossível para os elfos se organizarem e cruzar a mesma distância antes do Império nos alcançar. Com isso só sobram os anões. Sei que vocês são amigos de Hrothgar há muitos anos, será que não poderiam lhes enviar um pedido de ajuda em nosso nome? Os anões sempre prometeram lutar quando a hora chegasse.
Nasuada assentiu.
— Du Vrangr Gata já tem um acordo com os mágicos anões que nos permitem transmitir mensagens instantaneamente. Irei lhes comunicar o seu, o nosso, pedido. E pedirei a Hrothgar para que mande um emissário a Ceris, a fim de informar aos elfos da situação para que estejam, pelo menos, precavidos.
— Muito bom. Estamos a uma boa distância de Farthen Dûr, mas se podermos retardar o Império por uma semana, os anões conseguirão chegar aqui a tempo.
A discussão que se seguiu foi excessivamente desagradável. Havia várias táticas para derrotar uma força maior — mas não necessariamente superior —, mas ninguém à mesa podia imaginar como poderiam derrotar Galbatorix, especialmente por Eragon ainda ser tão impotente em comparação ao velho rei. A única manobra com chances de dar certo seria cercar Eragon de um grande número possível de mágicos, anões e humanos, e depois tentar fazer com que Galbatorix os enfrentasse sozinho. O problema desse plano, pensava Nasuada, é que Galbatorix superou muitos mais inimigos terríveis durante o aniquilamento dos Cavaleiros, e sua força só cresceu desde então. Ela estava certa de que isto havia ocorrido também com todos os outros que o rei enfrentou. Se ao menos tivéssemos os encantadores dos elfos para aumentar as nossas tropas, então a vitória poderia estar ao nosso alcance. Sem eles... Se não pudermos derrotar Galbatorix, a única alternativa será deixar a Alagaësia e atravessar o mar até encontrar uma nova terra onde possamos construir uma nova vida. Lá poderíamos esperar até Galbatorix partir de vez. Sem mesmo ele pode durar para sempre. A única certeza é que, no fim das contas, todas as coisas acabam passando.
Eles passaram da tática para a logística, e o debate ficou mais acirrado, já que o Conselho de Anciãos discutiu com os conselheiros de Orrin sobre a distribuição de responsabilidades entre os Varden e Surda: quem deveria pagar por isso ou aquilo, providenciar rações para os trabalhadores, administrar os mantimentos para seus respectivos guerreiros e tratar dos inúmeros outros assuntos correlatos que deviam ser abordados.
No meio da disputa verbal, Orrin puxou um rolo de pergaminho que estava em seu cinto e disse para Nasuada:
— No que diz respeito às finanças, vocês fariam o obséquio de me explicar uma questão bastante curiosa que me chamou a atenção?
— Farei o melhor que puder, Majestade.
— Seguro em minhas mãos uma queixa da associação dos tecelões, que garante que a classe, por toda Surda, perdeu boa parte dos seus lucros porque o mercado têxtil foi inundado com uma renda de péssima qualidade, renda que eles juram que é originária dos Varden. — Um olhar aflito invadiu o seu rosto. — Parece tolice perguntar isso, mas será que a alegação deles se baseia em fatos e, se esse for o caso, por que os Varden fariam tal coisa?
Nasuada não fez nenhum esforço para esconder o seu sorriso.
— Se você se lembra bem, Majestade, quando se recusou a dar mais ouro para os Varden, você me aconselhou a procurar outra maneira de nos sustentarmos.
— Assim fiz, e daí? — perguntou Orrin, apertando os olhos.
— Bem, me veio que, ao mesmo tempo em que a renda leva um bom o para ser feita a mão, o que explica o fato de ela ser tão cara, é bem fácil produzi-la valendo-se de magia, devido à pequena quantidade de energia envolvida. Você, de todas as pessoas, como filósofo nato, devia tender isso. Ao vender nossa renda aqui e no Império, nos sustentaremos totalmente. Os Varden não têm mais necessidade de mendigar comida e de abrigo.
Poucas coisas em sua vida deixaram Nasuada tão feliz quanto a expressão incrédula de Orrin naquele instante. O pergaminho congelado no meio do caminho entre seu queixo e a mesa, sua boca levemente aberta e o cômico olhar de reprovação em sua fronte conspiraram para lhe dar a aparência assustada de um homem que havia acabado de ver algo que não entendia. Ela saboreou a reação.
— Renda? — disse ele às pressas.
— Sim. Majestade.
— Você não pode enfrentar Galbatorix com renda!
— Por que não, majestade?
Ele se conteve por algum tempo mas acabou resmungando:
— Porque... porque isso não é uma atitude respeitável, é por isso. Que bardo iria compor um épico sobre nossos feitos e escrever sobre rendas?
— Não lutamos para inspirar épicos a nos louvar.
— Então, que se danem os épicos! Como devo responder à associação de tecelões? Ao vender sua renda por um preço tão barato, você acaba com o sustento das pessoas e enfraquece a nossa economia. Assim não dá. Assim não dá mesmo.
Deixando seu sorriso ficar mais doce e caloroso, Nasuada disse em seu tom mais amigável:
— Oh, querido. Se o prejuízo for grande demais para as suas finanças, os Varden estariam mais do que dispostos a lhes oferecer um empréstimo em troca da gentileza que vocês nos dispensaram... a uma taxa de juros adequada, é claro.
O Conselho dos Anciãos conseguiu manter o seu decoro, mas por trás de Nasuada, Elva se divertia dando uma rápida risada.

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