22 de maio de 2017

Capítulo 56 - O teste de Arya

Na manhã do terceiro dia em Tronjheim, Eragon pulou da cama descansado e cheio de energia. Prendeu Zar’roc na cinta e jogou nas costas seu arco e sua aljava, com somente a metade da capacidade de flechas. Depois de um voo prazeroso dentro de Farthen Dûr com Saphira, encontrou Orik em um dos portões principais de Tronjheim. Eragon perguntou a ele sobre Nasuada.
— Uma garota incomum — respondeu Orik, olhando com reprovação para Zar’roc. — Ela é completamente dedicada ao pai e passa todo o tempo ajudando-o. Acho que ela faz mais por Ajihad do que ele desconfia... Houve ocasiões em que ela lidou habilmente contra os inimigos dele sem revelar sua participação nisso.
— Quem é a mãe dela?
— Isso, eu não sei. Ajihad estava sozinho quando trouxe Nasuada, recém-nascida, para Farthen Dûr. Ele nunca disse de onde ele e Nasuada vieram.
Então, também ela cresceu sem conhecer a mãe. Ele tentou afastar tal pensamento da mente.
— Estou inquieto. Seria bom usar meus músculos. Onde devo ir para fazer esse “teste” de Ajihad?
Orik apontou para um lugar ao longe em Farthen Dûr.
— O campo de treinamento fica a oitocentos metros de Tronjheim, mas não podemos vê-lo daqui, porque fica atrás da cidade-montanha. É uma grande área onde tanto os anões quanto os humanos treinam.
Eu também vou, afirmou Saphira.
Eragon passou a mensagem a Orik, e o anão ficou puxando sua barba.
— Essa pode não ser uma boa ideia. Há muitas pessoas no campo de treinamento. Com certeza, você atrairia muita atenção.
Saphira rosnou bem alto:
Eu vou! E isso encerrou o assunto.
O barulho desordenado das lutas vindo do campo chegou até eles: as batidas altas produzidas pelos choques de metais, o baque seco das flechas atingindo alvos almofadados, o chocalhar e os estalos de pedaços de madeira sendo quebrados e os gritos dos homens no clima da batalha. Os barulhos eram misturados, entretanto cada grupo tinha ritmos e padrões peculiares.
Grande parte do campo de treinamento estava ocupada por um grupamento de soldados campais, que lutavam com seus escudos e machados de guerra, que eram quase tão altos quanto os homens. Treinavam em grupo, com várias formações diferentes. Exercitando-se ao lado deles, havia centenas de soldados sozinhos armados com espadas, clavas, lanças, machados, chicotes e escudos de todos os tipos e tamanhos, e Eragon chegou até a ver alguém empunhando um forcado. Quase todos os guerreiros trajavam armaduras, geralmente uma malha com um capacete, as armaduras inteiriças não eram tão comuns. Havia tanto anões quanto humanos, embora os dois grupos evitassem se misturar um com o outro. Atrás dos guerreiros que lutavam, havia uma larga fileira de arqueiros que disparavam frequentemente contra bonecos feitos com sacos cinzentos.
Antes que Eragon tivesse tempo para pensar o que ele deveria fazer, um homem barbado – sua cabeça e seus ombros largos estavam cobertos por uma capa curta com touca de malha – dirigiu-se a passos largos até eles. O resto dele estava protegido com um traje feito com couro de boi que ainda tinha pelos. Uma espada enorme – quase tão grande quanto Eragon – pendia atravessada em cima de suas costas largas.
Passou o olhar rapidamente por Saphira e Eragon, como se estivesse avaliando o perigo que eles representavam, e disse em um tom rouco:
— Knurla Orik. Você não aparece aqui há muito tempo. Não restou ninguém para lutar comigo.
Orik sorriu.
— Oeí, é porque você machuca todo mundo, dos pés à cabeça, com sua espada monstruosa.
— Todo mundo menos você — corrigiu ele.
— Isso é porque sou mais rápido do que um gigante como você.
O homem olhou para Eragon de novo.
— Sou Fredric. Disseram-me para descobrir o que você sabe fazer. Você é muito forte?
— Forte o bastante — respondeu Eragon. — Tenho que estar em forma para lutar usando magia.
Fredric balançou a cabeça, sua touca tiniu como uma sacola de moedas.
— Não há lugar para a magia no que fazemos aqui. A não ser que você tenha servido em um exército, duvido que as lutas das quais você participou, tenham durado mais de alguns minutos. A nossa preocupação é se você se sairá bem em uma batalha que possa se arrastar durante horas, ou até mesmo semanas, se for um cerco. Você sabe usar outras armas além da espada e do arco?
Eragon pensou na pergunta.
— Somente meus punhos.
— Boa resposta! — riu Fredric. — Bem, vamos começar com o arco para ver como você se sai. Depois, assim que algum espaço ficar livre no campo, tentaremos... — Ele interrompeu seu discurso de repente e olhou para além de Eragon, fechando a carranca.
Os gêmeos caminhavam de modo altivo em direção a eles, suas cabeças carecas e pálidas contrastavam com suas túnicas cor de púrpura. Orik resmungou algo em sua própria língua enquanto tirava seu machado de guerra da cinta.
— Já disse para vocês ficarem longe da área de treinamento — disse Fredric dando um passo à frente de modo ameaçador.
Os gêmeos pareciam ser frágeis perante o corpanzil dele. Eles olharam para Fredric com arrogância.
— Recebemos ordens de Ajihad para testar a perícia de Eragon com a magia, antes de você fatigá-lo ao bater em pedaços de metal.
Fredric olhou para eles com raiva.
— Por que outra pessoa não pode testá-lo?
— Ninguém tem poder bastante — falaram os gêmeos torcendo o nariz. Saphira soltou um rosnado grave e olhou fixamente para eles. Um filete de fumaça saiu de suas narinas, mas eles a ignoraram. — Venha conosco — ordenaram e foram andando a passos largos para um canto vazio do campo de treinamento.
Dando de ombros, Eragon seguiu-os com Saphira. Atrás, ele ouviu Fredric falar para Orik baixinho:
— Devemos evitar que eles vão longe demais.
— Eu sei — respondeu Orik em um tom de voz baixo. — Mas não posso interferir de novo. Hrothgar deixou claro que não poderá me proteger na próxima vez em que isso acontecer...
Eragon fez força para conter sua ansiedade que crescia a cada instante. Os gêmeos podiam saber mais técnicas e palavras do que ele...
Contudo, lembrou-se do que Brom havia dito a ele: os Cavaleiros eram mais fortes com relação à magia do que os homens comuns. Mas será que isso seria o suficiente para resistir ao poder duplo dos gêmeos?
Não se preocupe tanto, eu ajudarei você, disse Saphira. Nós também somos dois.
Ele tocou-a gentilmente na pata, aliviado por suas palavras. Os gêmeos olharam para Eragon e perguntaram:
— E qual é a sua resposta para nós, Eragon?
Negligenciando a expressão intrigada de seus companheiros, ele disse secamente:
— É não.
Linhas de expressão zangada apareceram no canto da boca dos gêmeos. Eles viraram-se, de modo que encararam Eragon obliquamente e, curvando-se, desenharam um grande pentagrama no chão. Eles foram para o meio e falaram rispidamente:
— Nós começaremos agora. Você tentará cumprir as tarefas que determinarmos a você... É só isso.
Um dos gêmeos enfiou a mão em seu manto e tirou uma pedra polida do tamanho do punho de Eragon e colocou-a no chão.
— Levante-a até a altura dos seus olhos.
Isso é fácil, comentou Eragon com Saphira.
— Stenr reisa! — A pedra tremeu e, depois, começou a subir suavemente. Antes que ela alcançasse mais de trinta centímetros de altura, uma resistência inesperada interrompeu o avanço dela em pleno ar. Um sorriso surgiu nos lábios dos gêmeos. Eragon olhou fixamente para eles, furioso. Tentavam fazer que Eragon não passasse no teste! Se ele ficasse exausto agora, seria impossível cumprir as outras tarefas mais pesadas. De fato, estavam convencidos de que as forças deles unidas poderiam cansá-lo facilmente.
Mas eu também não estou sozinho, disse Eragon, rangendo os dentes para si mesmo. Saphira, agora!
Sua mente uniu-se à dele, e a pedra deu um pulo para cima, vibrando na altura dos olhos. Os gêmeos olharam de modo cruel.
— Muito... bom — sibilaram.
Fredric pareceu ficar intimidado com aquela demonstração de magia.
— Agora, mova a pedra em um círculo.
Novamente, Eragon lutou contra os esforços deles para prejudicá-lo e, de novo, para a raiva óbvia da dupla, ele prevaleceu. Os exercícios aumentaram em complexidade e dificuldade até que Eragon fosse forçado a parar e pensar cuidadosamente sobre quais palavras deveria usar. E, cada vez mais, os gêmeos lutavam com ele amargamente, embora nunca demonstrassem sinais de cansaço no rosto.
Foi só com o apoio de Saphira que Eragon conseguiu se manter firme. Em uma pausa entre duas das tarefas, ele perguntou a ela: Por que eles continuam com este teste? Nossas habilidades já ficaram claras o bastante a julgar pelo que eles viram em minha mente.
Ela inclinou a cabeça de modo pensativo.
Sabe de uma coisa? Disse intrigado, quando percebeu o que eles queriam. Eles estão usando isso como uma oportunidade para descobrir quais palavras da língua antiga eu sei e para, talvez, aprender coisas novas.
Então, fale baixinho para que eles não possam ouvi-lo e use as palavras mais simples possíveis.
A partir daquele momento, Eragon usou apenas um punhado de palavras básicas para completar as tarefas. Mas encontrar meios para que elas tivessem o mesmo efeito de frases completas explorou a criatividade dele ao máximo. Ele foi recompensado pela frustração que contorcia o rosto dos gêmeos conforme ele os derrotava uma vez atrás da outra. Não importava quanto tentassem, não conseguiam fazer com que Eragon usasse palavras novas da língua antiga.
Mais de uma hora se passou, mas os gêmeos não demonstravam sinal de que iam parar. Eragon estava com calor e com sede, mas privou-se de pedir uma pausa, ele persistiria tanto quanto eles. Fizeram vários testes: manipular água, lançar fogo, adivinhação, malabarismo com pedras, endurecer couro, congelar coisas, controlar o voo de uma flecha e curar arranhões. Ele pensava quanto tempo demoraria até que os gêmeos ficassem sem novas ideias.
Finalmente, os gêmeos ergueram as mãos e disseram:
— Resta apenas mais uma coisa a fazer. É bem simples. Qualquer usuário competente de magia acharia isso fácil. — Um deles tirou um anel de prata do dedo e entregou-o a Eragon de forma convencida. — Evoque a essência da prata.
Eragon olhou confuso para o anel. O que ele devia fazer? “A essência da prata”, o que era isso? E como ela podia ser evocada? Saphira não tinha a menor ideia de como fazer aquilo, e os gêmeos não iriam ajudar.
Ele nunca havia aprendido o nome da prata na língua antiga, embora soubesse que fazia parte de argetlam. Nervoso, ele juntou as duas únicas palavras que combinariam, ethgrí, “evocar”, com arget.
Colocando-se bem ereto, reuniu o poder que lhe restava e abriu os lábios para fazer a invocação. De repente, uma voz clara e vibrante rompeu o ar.
— Pare!
A palavra caiu em Eragon como água fria, a voz era estranhamente familiar, como uma melodia que ele conhecia. Sentiu um arrepio na nuca. Lentamente Eragon virou-se para a fonte do som.
Uma figura solitária estava em pé atrás deles: Arya. Uma faixa de couro envolvia sua testa, prendendo seus volumosos cabelos negros, que caíam atrás de seus ombros em uma cascata lustrosa. Sua espada delgada pendia na cintura, seu arco, atravessado nas costas. Roupas de couro preto vestiam suas formas torneadas, elas não eram dignas de alguém tão bela. Era mais alta do que a maioria dos homens, sua postura era perfeitamente equilibrada e relaxada. Um rosto sem marcas não refletia o horrível abuso que ela havia enfrentado.
Os ardentes olhos cor de esmeralda de Arya estavam fixos nos gêmeos, que tinham ficado pálidos de medo. Ela aproximou-se com passos silenciosos e disse em um tom suave, porém ameaçador:
— Que vergonha! É uma vergonha pedir para ele fazer o que apenas um mestre é capaz. É uma vergonha vocês usarem tais métodos. É uma vergonha terem dito a Ajihad que não conheciam as habilidades de Eragon. Ele é competente. Agora, saiam! — Arya franziu o rosto perigosamente, suas sobrancelhas inclinadas encontraram-se como raios, formando um agudo V, e apontou para o anel na mão de Eragon. — Arget! — exclamou ela como um trovão.
A prata brilhou, e uma imagem espectral do anel materializou-se ao lado dele. As duas coisas eram idênticas, só que a aparição afigurava ser mais pura e brilhava com uma luz incandescente branca. Ao verem aquilo, os gêmeos viraram-se e saíram depressa, seus mantos debatiam-se ao vento freneticamente. O anel insubstancial desapareceu da mão de Eragon, deixando o círculo de prata para trás. Orik e Fredric estavam em pé, observando Arya com cautela. Saphira agachou-se, pronta para agir.
A elfa examinou todos eles. Seus olhos profundos pararam em Eragon. Depois, virou-se e andou a passos largos até o centro do campo de treinamento. Os guerreiros pararam de lutar e olharam maravilhados para ela. Em poucos momentos, o campo inteiro ficou em silêncio, admirado com a presença dela.
Eragon foi arrastado para a frente de modo inexorável devido ao fascínio que sentia. Saphira falou, mas ele abstraiu os comentários dela. Um grande círculo formou-se em volta de Arya. Olhando apenas para Eragon, ela declarou:
— Reclamo o direito de fazer o seu teste de armas. Desembainhe sua espada.
Ela quer duelar comigo!
Mas eu acho que ela não quer lhe fazer mal, retrucou Saphira lentamente. Ela deu um pequeno empurrão nele com o nariz. Vá e porte-se dignamente. Ficarei observando.
Eragon, relutante, deu um passo à frente. Ele não queria fazer aquilo em um momento em que estava exausto devido ao uso da magia e quando havia tantas pessoas olhando. Além disso, Arya podia não estar em forma para lutar. Fazia apenas dois dias desde que ela havia recebido o néctar de Túnivor. Vou abrandar meus golpes para que ela não se machuque, decidiu ele.
Encararam-se no meio do círculo de guerreiros. Arya desembainhou a sua espada com a mão esquerda. A arma era mais fina do que a de Eragon, porém tão comprida e afiada quanto a dele. Ele tirou Zar’roc suavemente para fora de sua bainha polida e segurou a espada de ponta para baixo ao lado do corpo. Por um longo momento, ficaram imóveis, a elfa e o humano se observando. Passou rapidamente pela mente de Eragon que foi daquela maneira que muitas de suas lutas com Brom haviam começado.
Ele moveu-se para a frente com cautela. Com um movimento veloz e abrupto, Arya pulou para cima dele, visando acertá-lo nas costelas. Eragon, por reflexo, bloqueou o ataque, suas espadas encontraram-se em uma chuva de fagulhas. Zar’roc foi jogada para o lado como se não pesasse mais do que uma mosca.
Entretanto, a elfa não tirou vantagem daquela abertura, mas girou para a direita, seus cabelos chicotearam o ar, e atacou o outro lado dele. Ele mal conseguiu deter o golpe e recuou freneticamente, surpreso com a ferocidade e a velocidade dela.
Tardiamente, Eragon lembrou o aviso de Brom de que até o elfo mais fraco poderia vencer facilmente qualquer humano. Ele tinha tantas chances de derrotar Arya quanto teve com Durza. Ela atacou novamente, mirando a cabeça dele. Ele abaixou-se para evitar aquela lâmina afiada como navalha. Mas então por que ela estava... brincando com ele? Durante longos segundos, ele ficou muito ocupado defendendo-se contra ela para pensar nisso, mas depois percebeu: Ela quer saber o meu nível de perícia.
Ao compreender isso, começou a realizar as sequências de golpes mais complicadas que sabia. Ele fluía de uma posição para outra, combinando-as de forma imprudente, modificando-as de todas as maneiras possíveis. Mas não importava quão inventivo ele fosse, a espada de Arya sempre bloqueava a dele. Ela igualava as ações dele com uma graciosidade sem esforço.
Engajados em uma dança violenta, seus corpos estavam unidos e separados pelas lâminas faiscantes. Às vezes, quase se tocavam, suas peles tensas ficavam separadas pela largura de um fio de cabelo, mas depois o ímpeto da luta os separava, retrocediam por um segundo, somente para se juntarem novamente. Suas imagens sinuosas entrelaçavam-se como formas retorcidas de uma fumaça soprada pelo vento.
Eragon não podia se lembrar de quanto tempo lutaram. Foi atemporal, preenchido apenas por ação e reação. Zar’roc ficou pesada em sua mão, seu braço queimava ferozmente a cada golpe. Finalmente, jogouse para a frente de maneira abrupta, Arya ligeiramente deu um passo para o lado, passando a ponta de sua espada na altura do maxilar dele com uma velocidade sobrenatural.
Eragon paralisou quando o metal gélido tocou sua pele. Seus músculos tremiam devido ao esforço.
Indistintamente, ele ouviu Saphira bufar de emoção e os guerreiros gritando ruidosamente em volta deles.
Arya baixou sua espada e a colocou na bainha.
— Você passou — disse ela baixinho no meio da balbúrdia.
Chocado, ele lentamente se pôs ereto. Fredric, agora, estava ao lado dele, batendo entusiasmado nas costas do rapaz.
— Vocês demonstraram uma habilidade incrível com a espada! Eu até aprendi alguns movimentos novos ao vê-los lutar. E a elfa... Estonteante!
Mas eu perdi, protestou ele silenciosamente. Orik elogiou a atuação dele com um sorriso largo, mas tudo que Eragon notava era Arya em pé, solitária e em silêncio. Ela fez um movimento sutil com o dedo, não mais do que uma breve contração, apontando para uma pequena colina a quase dois quilômetros do campo de treinamento, depois virou-se e saiu andando. A multidão derretia-se perante ela. Um silêncio caía sobre os homens e anões enquanto ela passava.
Eragon virou-se para Orik.
— Preciso ir. Voltarei em breve para o abrigo para dragões. — Com um golpe ligeiro, ele colocou Zar’roc em sua bainha e montou em Saphira. Ela decolou do campo de treinamento, que se transformou em um mar de rostos, quando todos olhavam para ela.
À medida que ganhavam altura em direção à colina, Eragon viu Arya correndo abaixo deles, com passos largos e calmos. Saphira comentou:
As formas dela o agradam, não é?
Agradam, admitiu ele ficando ruborizado.
O rosto dela tem mais personalidade do que a maioria dos humanos, disse ela torcendo o nariz. Mas é muito comprido, como o de um cavalo, e, no geral, as formas dela são bem insossas.
Eragon olhou para Saphira surpreso.
Você está com ciúmes, não está?
Impossível. Nunca sinto ciúmes, ofendeu-se ela.
Mas você está agora, admita! Ele riu.
Estalou as mandíbulas bem alto.
Não estou! Ele sorriu e balançou a cabeça, deixando a negação dela prevalecer. Ela pousou pesadamente na colina, sacudindo-o rudemente. Eragon desmontou com um pulo, sem fazer nenhum comentário sobre aquilo.
Arya estava bem próxima, atrás deles. Seus passos largos e celeres a transportaram mais rápido do que os de qualquer corredor que Eragon já havia visto. Quando ela chegou ao topo da colina, sua respiração estava suave e regular. De repente, com um nó na língua, Eragon abaixou seu olhar. Ela passou rapidamente por ele e disse a Saphira:
— Skulblaka, eka celöbra ono un mulabra ono un onr Shur’tugal né haina. Atra nosu waíse fricai.
Eragon não reconheceu a maior parte das palavras, mas Saphira, obviamente, entendeu a mensagem. Ela mudou as asas de posição e examinou Arya cuidadosamente. Depois, concordou com a cabeça e emitiu um murmúrio grave. Arya sorriu.
— Estou feliz ao vê-la recuperada — disse Eragon. — Não sabíamos se você viveria ou não.
— É por isso que vim até aqui hoje — revelou Arya, virando-se para ele. Sua voz sonora tinha sotaque e era exótica. Ela falava com clareza, com a insinuação de um trinado, como se estivesse prestes a cantar. — Tenho para com você uma dívida que deve ser paga. Você salvou a minha vida. Isso nunca poderá ser esquecido.
— Não foi... nada — respondeu Eragon atrapalhando-se com as palavras, sabendo que não eram verdadeiras, já no momento em que as pronunciava. Encabulado, ele mudou de assunto. — Como você foi parar em Gil’ead?
A dor marcou o semblante de Arya. Ela olhou para o horizonte.
— Vamos caminhar. — Desceram a pequena colina e andaram com tranquilidade em direção a Farthen Dûr. Eragon respeitou o silêncio de Arya enquanto caminhavam. Saphira andava silenciosamente ao lado deles. Finalmente, Arya ergueu a cabeça e disse com a graça de sua espécie: — Ajihad me disse que você estava presente quando o ovo de Saphira apareceu.
— Isso. — Pela primeira vez, Eragon pensou na energia que deve ter sido usada para transportar o ovo pelas dezenas de quilômetros que separavam Du Weldenvarden da Espinha. Tentar realizar tal feito era pedir para que um desastre acontecesse, quiçá a morte.
As palavras seguintes dela foram pesadas.
— Então, saiba disso: no momento em que você o contemplou, eu fui capturada por Durza. — A voz dela estava cheia de rancor e pesar. — Era ele que liderava os Urgals que emboscaram e exterminaram meus companheiros, Faolin e Glenwing. De alguma maneira, ele sabia onde nos esperar, não tivemos nenhum aviso. Eu fui drogada e levada para Gil’ead. Lá, Durza recebeu ordens de Galbatorix para descobrir para onde eu tinha enviado o ovo e tudo que eu sabia sobre Ellesméra.
Ela olhou friamente para a frente, suas mandíbulas estavam fechadas com força.
— Durante meses, ele tentou descobrir o que queria sem sucesso. Seus métodos eram... Hostis. Quando a tortura falhava, ordenava aos soldados a me usarem como queriam. Felizmente, ainda me restavam forças para manipular a mente deles e deixá-los incapazes. Por fim, Galbatorix ordenou que eu fosse levada para Uru’baen. O pavor tomou conta de mim quando soube disso, pois tanto minha mente quanto meu corpo estavam cansados demais e não teriam força para resistir. Se não fosse por você, eu estaria perante Galbatorix no prazo de uma semana.
Eragon tremeu por dentro. Foi incrível ela ter sobrevivido a tantas coisas. A lembrança de seus maus-tratos e ferimentos ainda estava viva em sua mente. Baixinho, ele perguntou:
— Por que você me contou tudo isso?
— Para que você saiba do que eu fui salva. Não ouse pensar que posso ignorar seu ato.
Envergonhado, ele abaixou a cabeça.
— O que você fará agora... voltará para Ellesméra?
— Não, ainda não. Há muita coisa a ser feita aqui. Não posso abandonar os Varden. Ajihad precisa da minha ajuda. Vi você ser testado quanto à magia e às armas hoje. Brom o instruiu bem. Você está pronto para prosseguir com seu treinamento.
— Quer dizer que vou para Ellesméra?
— Isso.
Eragon sentiu uma ponta de irritação. Será que ele e Saphira não podiam opinar quanto a esse assunto?
— Quando?
— Ainda será decidido, mas levará algumas semanas.
Pelo menos, eles nos deram esse tempo todo, pensou Eragon. Saphira falou algo a ele, e ele perguntou a Arya:
— O que os gêmeos queriam que eu fizesse?
Os lábios esculpidos de Arya contorceram-se de nojo.
— Algo que nem eles podem realizar. É possível falar o nome de um objeto na língua antiga e evocar sua forma verdadeira. Isso requer anos de aperfeiçoamento e grande disciplina, mas a recompensa é o controle completo sobre o objeto. É por isso que o nome verdadeiro da pessoa é sempre mantido em segredo, pois se ele cair nas mãos de alguém que tenha maldade no coração, terá domínio total sobre você.
— É estranho — disse Eragon depois de um momento —, mas antes de ser capturado em Gil’ead, eu a via nos meus sonhos. Era como se eu a visse em uma bola de cristal, e fui capaz de vê-la depois, mas isso acontecia sempre enquanto eu dormia.
Arya mordeu os lábios pensativa.
— Houve ocasiões em que sentia como se outra pessoa estivesse me observando, mas eu estava frequentemente confusa e febril. Nunca ouvi falar que alguém, nem nas tradições ou nas lendas, pudesse ter visões durante o sono.
— Eu mesmo não entendo — disse Eragon, olhando para as suas mãos. Ele girava o anel de Brom em seu dedo. — O que a tatuagem nas suas costas significa? Eu não queria vê-la, mas quando estava curando suas feridas... Não pude evitar. É igual ao símbolo neste anel.
— Você tem um anel com um yawë nele? — perguntou ela de repente.
— Tenho. Era de Brom. Quer ver?
Ele mostrou-lhe o anel. Arya examinou a pedra de safira e disse:
— Isto é um presente dado apenas aos amigos mais estimados dos elfos. De fato, tão estimados que não damos um destes há séculos. Pelo menos, eu pensava assim. Eu não sabia que a rainha Islanzadi tinha Brom em tão alto apreço.
— Então, eu não deveria usá-lo — disse Eragon temendo ser presunçoso.
— Não, use-o. Ele lhe dará proteção se encontrar meu povo por acaso e poderá ajudá-lo a ganhar a simpatia da rainha. Não fale a ninguém sobre a minha tatuagem. Isso não deve ser revelado.
— Tudo bem.
Ele gostou de conversar com Arya e queria que a conversa deles tivesse demorado mais tempo. Quando se separaram, ele ficou vagando por Farthen Dûr, conversando com Saphira. Apesar da sua insistência, ela se recusou a dizer o que Arya havia dito a ela. Finalmente, seus pensamentos se voltaram para Murtagh e, depois, para o conselho de Nasuada. Vou arranjar alguma coisa para comer, depois irei vê-lo, ele decidiu. Será que poderia me esperar para que eu volte para o abrigo com você?
Eu esperarei. Vá, disse Saphira.
Com um sorriso agradecido, Eragon foi correndo para Tronjheim, comeu em um canto obscuro da cozinha e seguiu as instruções de Nasuada até chegar a uma pequena porta cinza que estava guardada por um homem e por um anão. Quando ele pediu permissão para entrar, o anão bateu na porta três vezes e a destrancou.
— Basta gritar quando quiser sair — disse o homem com um sorriso amigável.
A cela era aquecida e bem iluminada, com uma pia em um canto e uma escrivaninha, munida com penas e tinteiros, em outro. O teto era ricamente adornado com entalhes de imagens laqueadas, o piso era coberto por um tapete felpudo. Murtagh estava deitado em uma cama robusta, lendo um pergaminho. Ele olhou para cima, surpreso, e exclamou alegremente:
— Eragon! Eu esperava que você viesse!
— Como... Bem, eu pensei...
— Você pensou que eu estava enfiado em algum buraco de rato comendo pão duro — disse Murtagh colocando-se ereto com um sorriso no rosto. — Na verdade, eu esperava a mesma coisa, mas Ajihad permitirá que eu usufrua de tudo isso enquanto não causar problemas. E eles me trazem lautas refeições, como também tudo que eu quiser da biblioteca. Se eu não tomar cuidado, vou virar um intelectual gorducho.
Eragon riu e, com um sorriso curioso, sentou perto de Murtagh.
— Mas você não está zangado? Você ainda é um prisioneiro.
— Ah, fiquei no começo — disse Murtagh dando de ombros. — Mas quanto mais penso sobre isso, mais percebo que este é o melhor lugar para mim. Mesmo se Ajihad me concedesse a liberdade, eu ficaria no meu quarto a maior parte do tempo.
— Mas por quê?
— Você sabe muito bem. Ninguém ficaria à vontade perto de mim, conhecendo a minha verdadeira identidade. E sempre haveria pessoas que não conseguiriam se privar de usar palavras e olhares desagradáveis. Mas chega disso, estou ansioso para ouvir as novidades. Vamos, conte.
Eragon recontou os eventos dos últimos dois dias, incluindo seu encontro com os gêmeos na biblioteca. Quando ele terminou, Murtagh recostou-se, refletindo.
— Eu suspeito — disse ele — que Arya é mais importante do que nós imaginávamos. Pense em tudo que você descobriu: ela é mestre com as armas, poderosa na magia e, acima de tudo, foi escolhida para guardar o ovo de Saphira. Ela não pode ser alguém comum, mesmo entre os elfos.
Eragon concordou.
Murtagh olhou para o teto.
— Sabe, acho essa prisão estranhamente pacífica. Pela primeira vez na vida, não preciso ter medo. Eu sei que deveria ter... Entretanto alguma coisa neste lugar me transmite tranquilidade. E uma boa noite de sono também ajuda.
— Sei o que você está insinuando — disse Eragon ironicamente. Ele se moveu para um ponto mais macio na cama. — Nasuada disse que o visitou. Ela falou algo interessante?
O olhar de Murtagh voltou-se para um ponto distante, e ele balançou a cabeça.
— Não, ela só queria me conhecer. Ela não parece uma princesa? E a maneira como se porta! Assim que entrou por aquela porta, achei que era uma das ilustres damas da corte de Galbatorix. Eu já vi condes e viscondes com esposas que, comparadas a ela, estavam mais apropriadas para viverem como glutonas do que como membros da nobreza.
Eragon ouviu os elogios dele com uma preocupação que aumentava cada vez mais. Talvez isso não signifique nada, ele lembrou a si mesmo. Você está tirando conclusões apressadas. Contudo, o agouro não o abandonava. Tentando espantar aquela sensação, ele perguntou:
— Quanto tempo você vai permanecer preso, Murtagh? Você não pode se esconder para sempre.
Murtagh deu de ombros negligentemente, mas havia um peso atrás das palavras dele.
— Por enquanto estou gostando de ficar aqui e descansar. Não há razão para buscar abrigo em outro lugar nem para me submeter ao exame dos gêmeos. Sem dúvida, vou acabar me cansando disso, mas por enquanto... Estou satisfeito.

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