22 de maio de 2017

Capítulo 55 - O salão do rei da montanha

Um anão esperava Eragon no abrigo para dragões. Depois de se curvar e balbuciar: “Argetlam”, o anão disse com um sotaque pesado:
— Bom. Acordado. Knurla Orik espera por vocês. — Ele curvou-se de novo e saiu correndo. Saphira pulou para fora da caverna, pousando ao lado de Eragon. Zar’roc estava nas garras dela.
Isso é para quê?, perguntou ele, franzindo o rosto.
Ela inclinou a cabeça.
Use-a. Você é um Cavaleiro e deve portar uma arma condizente com o seu porte. Zar’roc pode ter uma história sangrenta, mas isso não deve influenciar suas ações. Forje uma nova história para ela e carregue-a com orgulho.
Tem certeza? Lembra o conselho de Ajihad?
Saphira bufou, e uma golfada de fumaça saiu pelas suas narinas.
Use-a, Eragon. Se quiser se manter acima das forças aqui, não permita que a censura de alguém dite suas ações.
Como queira, disse ele relutante, prendendo a espada na cinta. Subiu no dorso de Saphira e saíram voando de Tronjheim. Agora, havia tanta luz dentro de Farthen Dûr que a massa indistinta das paredes da cratera, a oito quilômetros em todas as direções, era visível. Enquanto desciam com um movimento em espiral em direção à base da cidade-montanha, Eragon contou a Saphira sobre seu encontro com Angela.
Assim que pousaram perto de um dos portões de Tronjheim, Orik correu para o lado de Saphira.
— Meu rei, Hrothgar, deseja ver vocês dois. Desmonte rapidamente. Devemos nos apressar.
Eragon entrou correndo em Tronjheim atrás do anão. Saphira, facilmente, acompanhou o passo deles, mantendo-se ao lado. Ignorando os olhares das pessoas que estavam no corredor ascendente, Eragon perguntou:
— Onde encontraremos Hrothgar?
Sem diminuir o passo, Orik disse:
— No salão do trono embaixo da cidade. Será uma audiência particular para servir como um ato de otho, de “confiança”. Você não precisa se dirigir a ele de um modo especial, mas fale com respeito. Hrothgar se zanga fácil, mas é sábio e consegue enxergar de modo penetrante o que se passa na mente dos homens, então pense bem antes de falar.
Assim que eles entraram na câmara central de Tronjheim, Orik guiou-os até uma das duas escadas que desciam e ladeavam o hall que havia no lado oposto. Desceram a escada que estava localizada à direita, que se curvava para dentro suavemente, até que estivesse virada para a direção de onde tinham vindo. A outra escada se unia à deles, formando uma larga cascata de degraus levemente iluminados, indo terminar, depois de uns trinta metros, perante duas portas de granito. Uma coroa de sete pontas estava entalhada sobre a superfície de ambas as portas.
Sete anões montavam guarda em cada lado do portal. Empunhavam picaretas polidas e usavam cintos incrustados de pedras preciosas. Quando Eragon, Orik e Saphira se aproximaram, os anões bateram no chão com os cabos das picaretas. Um estrondo grave subiu, rolando escadas acima. As portas abriram-se para dentro.
Um salão escuro, que devia ter de comprimento um pouco mais do que a distância que seria coberta por uma flecha, estava diante deles. O salão do trono era uma caverna natural, as paredes orla das por estalagmites e estalactites, cada uma mais grossa do que o corpo de um homem. Lampiões, pendurados de forma esparsa, produziam uma luz sombria. O piso marrom era liso e polido. No final da sala, no lado oposto, havia um trono negro e uma figura imóvel em cima dele.
Orik curvou-se.
— O rei os espera. — Eragon pôs a mão no lado do corpo de Saphira e os dois continuaram caminhando para a frente. As portas fecharam-se atrás deles, deixando-os sozinhos no mal-iluminado salão do trono com o rei.
Os passos ecoavam pela sala conforme avançavam em direção ao trono. Nos intervalos entre as estalagmites e estalactites, havia grandes estátuas. Cada escultura retratava um rei coroado, sentado em um trono, seus olhos sem vida fixados na distância de modo solene. Seus rostos enfileirados ostentavam feições fortes e poderosas. Havia um nome entalhado em runas embaixo de cada par de pés.
Eragon e Saphira caminhavam com passos longos, solenemente, entre as duas fileiras de monarcas mortos há muito tempo. Passaram por mais de quarenta estátuas, depois viram apenas nichos vazios que esperavam futuros reis. Pararam perante Hrothgar no final do salão.
O rei dos anões estava sentado como uma estátua em cima de um trono elevado, esculpido em uma peça singular de mármore preto maciço, sem adorno e com uma precisão milimétrica. Poder emanava do trono, poder que remetia a épocas ancestrais quando os anões governavam Alagaësia sem a oposição de elfos ou humanos. Um capacete de ouro, adornado com rubis e diamantes estava na cabeça de Hrothgar, em vez de uma coroa. O seu semblante era amargo, desgastado pelo tempo, talhado por muitos anos de experiência. Embaixo de sua testa enrugada brilhavam olhos profundos, duros como pedras e penetrantes.
Sobre seu peito poderoso ondulava uma camisa de cota de malha. Sua barba branca estava enfiada embaixo do seu cinto e em seu colo ele segurava um poderoso martelo de guerra com o símbolo do clã de Orik entalhado na cabeça.
Eragon curvou-se desajeitado e ajoelhou-se. Saphira continuou ereta. O rei mexeu-se, como se estivesse despertando de um longo sono, e falou com uma voz grave e alta:
— Levante-se, Cavaleiro, você não precisa fazer reverências para mim.
Colocando-se em pé, os olhos de Eragon encontraram o olhar impenetrável de Hrothgar. O rei o examinou, contemplando-o seriamente, depois disse com um som gutural:
— Âz knurl deimi lanok. “Cuidado, a rocha se transforma.” É um antigo ditado nosso... E, hoje em dia, a rocha está se transformando rápido demais. — Ele bateu com os dedos no martelo de guerra. — Eu não pude encontrá-lo antes, como Ajihad fez, porque fui forçado a lidar com meus inimigos dentro dos clãs. Exigiram que eu negasse abrigo a você e que o expulsasse de Farthen Dûr. Foi preciso muito trabalho da minha parte para convencê-los do contrário.
— Obrigado — disse Eragon. — Eu não previa quanto conflito minha chegada causaria.
O rei aceitou o agradecimento. Ergueu uma mão nodosa e apontou.
— Veja, Cavaleiro Eragon, onde meus antecessores sentam em seus tronos esculpidos. Há quarenta e um, quarenta e dois comigo. Quando eu passar deste mundo para o cuidado dos deuses, minha hírna será colocada ao lado deles. A primeira estátua é a imagem do meu ancestral Korgan, que forjou este martelo, Volund. Há oito milênios, desde o nascimento da sua raça, os anões são senhores em Farthen Dûr. Nós somos os ossos da terra, mais velhos do que os belos elfos e os selvagens dragões.
Saphira mexeu-se levemente.
Hrothgar inclinou-se para a frente, sua voz saiu com um tom muito sério e grave:
— Sou velho, humano, muito mais do que você possa imaginar, velho o bastante para ter visto os Cavaleiros no auge de sua glória, velho o bastante para ter falado com o último líder deles, Vrael, que veio me prestar reverência neste mesmo local onde estamos. Há poucas pessoas vivas que podem afirmar tantas coisas assim. Lembro-me dos Cavaleiros e como eles se intrometiam em nossos assuntos. Eu também me lembro da paz que eles mantinham, que tornava possível andar sem medo de Tronjheim até Narda.
“Agora, você está perante mim, uma tradição perdida restaurada. Diga-me, e fale com sinceridade, por que você veio a Farthen Dûr? Estou a par dos eventos que o fizeram fugir do Império, mas qual é a sua intenção agora?”
— Por enquanto, Saphira e eu, simplesmente, queremos recuperar nossas forças em Tronjheim — respondeu Eragon. — Não estamos aqui para causar problemas, mas apenas para obtermos abrigo contra os perigos que estamos enfrentando há vários meses. Ajihad deve nos mandar para os elfos, mas até ele fazer isso, não temos o desejo de partir.
— Então, foi apenas o desejo por segurança que os trouxe até aqui? — perguntou Hrothgar. — Vocês pretendem viver aqui e esquecer seus problemas com o Império?
Eragon balançou a cabeça com orgulho, rejeitando aquela questão.
— Se Ajihad lhe falou sobre o meu passado, o senhor deve saber que tenho mágoas o bastante para combater o Império até que não reste mais nada além de cinzas. Contudo, muito mais do que isso... Quero ajudar aqueles que não podem fugir de Galbatorix, inclusive meu primo. Tenho a força para ajudar, então devo fazê-lo.
O rei pareceu ficar satisfeito com a resposta. Ele virou-se para Saphira e perguntou:
— Dragão, o que você pensa sobre essa questão? Qual foi o motivo que lhe trouxe aqui?
Saphira ergueu a ponta do lábio para rosnar.
Diga a ele que estou sedenta pelo sangue dos nossos inimigos e que espero ansiosamente pelo dia em que combateremos Galbatorix juntos. Que eu não sinto compaixão ou misericórdia por traidores e destruidores de ovos como aquele falso rei. Ele me deteve por mais de um século e, até agora, ainda detém dois irmãos meus, que eu libertaria se fosse possível. E diga a Hrothgar que acho que você está preparado para realizar essa tarefa.
Eragon contorceu o rosto ao ouvir as palavras dela, mas as repassou de forma obediente. O canto da boca de Hrothgar ergueu-se, sugerindo um prazer macabro, aumentando as rugas dele.
— Vejo que os dragões não mudaram nada com o passar dos séculos. — Ele bateu levemente no trono com um dos nós de seus dedos. — Sabe por que este trono foi talhado de forma tão plana e angular? Para que ninguém se sentasse confortavelmente nele. É o que acontece comigo e abrirei mão dele, sem arrependimentos, quando minha hora chegar. Mas o que existe para lembrá-lo de suas obrigações, Eragon? Se o Império cair, você tomará o lugar de Galbatorix e reclamará sua coroa?
— Não viso usar uma coroa ou ter domínio sobre algum povo — disse Eragon, perturbado. — Ser um Cavaleiro já é responsabilidade demais. Não, eu não tomaria o trono em Uru’baen... a não ser que não houvesse outro candidato ou alguém com competência bastante para assumi-lo.
Hrothgar advertiu com seriedade:
— Certamente, você seria um rei mais compassivo do que Galbatorix, mas nenhuma raça deve ter um líder que não envelhece e que não deixa o trono. A época dos Cavaleiros passou, Eragon. Eles nunca recuperarão seus dias de glória, nem mesmo se os outros ovos de Galbatorix eclodirem.
Uma sombra cruzou o rosto dele enquanto olhava fixamente para o lado de Eragon.
— Vejo que você carrega a espada de um inimigo, fui avisado disso e também que viajou com o filho de um Renegado. Não me agrada ver essa arma. — Ele esticou uma de suas mãos. — Eu gostaria de examiná-la.
Eragon desembainhou Zar’roc e entregou-a ao rei, com o cabo virado para o soberano. Hrothgar segurou a espada e passou um olho treinado pela lâmina. O fio da arma capturava a luz dos lampiões, refletindo-a brilhantemente. O rei dos anões testou a ponta com a palma da mão e, depois, disse:
— Esta lâmina é um trabalho de mestre. Os elfos raramente concordam em forjar uma espada, preferem arcos e flechas, mas quando forjam, os resultados são incomparáveis. Esta é uma espada que teve um destino cruel, não me agrada vê-la dentro do meu reino. Mas leve-a, se assim desejar. Talvez a sorte dela tenha mudado. — Ele devolveu Zar’roc a Eragon, que a embainhou. — Meu sobrinho demonstrou-se útil durante sua estada aqui?
— Quem?
Hrothgar ergueu uma de suas grossas sobrancelhas.
— Orik, o filho da minha irmã caçula. Ele servia a Ajihad como prova do meu apoio aos Varden. Contudo, parece que ele voltou para o meu comando. Fiquei satisfeito ao saber que você o defendeu com suas palavras.
Eragon entendeu que esse foi outro sinal de otho, de “confiança”, da parte de Hrothgar.
— Eu não poderia exigir um guia melhor.
— Isso é bom — disse o rei, claramente satisfeito. — Infelizmente, não posso conversar com você por muito mais tempo. Meus conselheiros me esperam, pois há um assunto do qual devo cuidar. Mas devo-lhe dizer isto: se desejar o apoio dos anões dentro do meu reino, primeiro deve provar seu valor a eles. Nós temos excelente memória e não gostamos de decisões apressadas. Palavras não decidirão nada, apenas os atos.
— Não me esquecerei disso — disse Eragon, curvando-se de novo.
Hrothgar concordou com a cabeça majestosamente.
— Então, podem ir.
Eragon virou-se com Saphira, e eles começaram a se retirar do salão do rei da montanha. Orik esperava por eles do outro lado das portas de pedra com uma expressão de ansiedade no rosto. Ficou ao lado deles enquanto subiam de volta para a câmara principal de Tronjheim.
— Deu tudo certo? Vocês foram bem recebidos?
— Acho que sim. Mas o seu rei é cauteloso — respondeu Eragon.
— É por isso que ele tem a vida tão longa.
Eu não gostaria de ver Hrothgar zangado conosco, observou Saphira.
Eragon olhou de relance para ela.
É, eu também não. Não sei o que achou de você, parece não aprovar muito os dragões, embora não tenha dito nada.
Isso pareceu divertir Saphira.
Nisso ele é sábio, ainda mais que mal bate nos meus joelhos.
No centro de Tronjheim, sobre a brilhante Isidar Mithrim, Orik disse:
— A bênção que você deu ontem deixou os Varden agitados como uma colmeia virada de cabeça para baixo. A criança que Saphira tocou foi aclamada como uma futura heroína. Ela e sua guardiã foram colocadas nos melhores aposentos. Todos estão comentando sobre o seu “milagre”. Todas as mães humanas pretendem achar você e conseguir a mesma bênção para seus filhos.
Alarmado, Eragon furtivamente olhou em volta.
— O que devemos fazer?
— Além de desfazer o que fizeram? — perguntou Orik com sarcasmo. — Fiquem longe da vista do povo o máximo possível. Ninguém poderá entrar no abrigo para dragões, então lá vocês não serão perturbados.
Eragon ainda não queria voltar para o abrigo. Ainda estava cedo, e ele queria explorar Tronjheim com Saphira. Já que estavam fora do Império, não havia razão para ficarem separados. Mas ele queria evitar chamar a atenção, o que seria impossível com ela ao seu lado.
Saphira, o que você quer fazer?
Ela o tocou com o nariz, suas escamas arrastavam-se em cima do braço dele.
Eu voltarei para o abrigo. Há alguém lá que quero encontrar. Perambule por aí o quanto quiser.
Tudo bem, disse ele, mas quem você quer encontrar?
Saphira apenas piscou um enorme olho antes de sair por um dos quatro túneis principais de Tronjheim.
Eragon explicou para Orik aonde ela ia e disse:
— Eu gostaria de tomar o café da manhã. E, depois, gostaria de conhecer um pouco mais de Tronjheim. É um lugar incrível. Só quero ir para os campos de treinamento amanhã, pois ainda não estou completamente recuperado.
Orik concordou com a cabeça, sua barba sacudia em cima de seu peito.
— Nesse caso, gostaria de visitar a biblioteca de Tronjheim? Ela é muito antiga e contém pergaminhos de grande valor. Você achará interessante ler a história da Alagaësia que não foi maculada pela mão de Galbatorix.
Com uma sensação de agonia, Eragon lembrou como Brom o ensinou a ler. Pensou se ainda tinha a habilidade necessária para fazer tal coisa. Um longo tempo se passou desde que tinha visto palavras escritas.
— Ótimo, vamos fazer isso.
— Muito bem.
Depois de comerem, Orik guiou Eragon através de uma miríade de corredores até o destino deles. Quando chegaram à entrada arqueada da biblioteca, Eragon entrou com veneração.
O recinto fez com que lembrasse uma floresta. Fileiras de graciosas colunas ramificavam-se, subindo até o teto escuro, guarnecido com vigas, cinco andares acima. Entre os pilares, estantes de livros feitas de mármore negro estavam dispostas em uma sucessão imediata. Prateleiras para pergaminhos cobriam as paredes, intercaladas por corredores estreitos, que recebiam o fluxo de três escadas que desciam se retorcendo. Postos em intervalos regulares ao lado das paredes, havia pares de bancos de pedra que ficavam um de frente para o outro. Entre eles havia pequenas mesas cujas bases fluíam suave e perfeitamente até o chão. Incontáveis pergaminhos e livros estavam guardados naquele local.
— Este é o verdadeiro legado da nossa raça — disse Orik. — Aqui residem os textos dos nossos maiores reis e estudiosos, desde a Antiguidade até hoje. Aqui também estão registradas as músicas e histórias compostas por nossos artistas. Esta biblioteca provavelmente é a nossa maior riqueza. Entretanto, não há apenas trabalhos nossos, também há obras humanas aqui. A sua raça vive pouco, mas é muito prolífica. E temos pouco ou quase nada dos elfos. Eles guardam seus segredos com muito ciúme.
— Quanto tempo posso ficar aqui? — perguntou Eragon indo em direção às prateleiras.
— Quanto tempo você quiser. Procure-me se tiver alguma pergunta.
Eragon olhou os volumes encantado, buscando ansiosamente aqueles que tinham títulos e capas interessantes. Surpreendentemente, os anões usavam as mesmas runas para escrever que os humanos.
Sentiu-se, de certa forma, desanimado devido à dificuldade de ler depois de meses de negligência. Passava de um livro ao outro, avançando lentamente para dentro da vasta biblioteca. Por fim, ficou imerso em uma tradução dos poemas de Dóndar, o décimo rei dos anões.
Enquanto examinava as graciosas linhas, passos estranhos aproximaram-se por trás da estante dos livros. O som o assustou, mas censurou a si mesmo por ter sido tão tolo, pois não poderia ser a única pessoa na biblioteca. Mesmo assim, recolocou o livro em seu devido lugar silenciosamente e saiu sem fazer alarde, com os sentidos aguçados, evitando o perigo. Ele já havia sofrido várias emboscadas para ignorar tais sensações. Ouviu passos novamente, só que agora eram dois pares. Apreensivo, saiu depressa por uma passagem, tentando se lembrar exatamente onde Orik estava sentado. Deu um passo para o lado em uma esquina e parou de repente quando se viu frente a frente com os gêmeos.
Os gêmeos estavam em pé lado a lado, ombros alinhados, com uma expressão apática em seus rostos uniformes. Seus olhos negros de cobra o perfuraram. As mãos deles, escondidas dentro das mangas de seus mantos roxos, mexiam-se levemente. Os dois curvaram-se, mas o movimento estava repleto de insolência e sarcasmo.
— Nós temos procurado você — disse um deles. Sua voz soava desconfortavelmente como a de um Ra’zac.
Eragon suprimiu um tremor.
— Por quê? — Ele fez contato mental com Saphira. Ela imediatamente juntou seus pensamentos aos dele.
— Desde que você falou com Ajihad, nós queremos... Pedir desculpas por nossos atos. — As palavras foram ditas em um tom de zombaria, mas não de um modo que Eragon pudesse reclamar. — Viemos demonstrar nosso respeito por você.
Eragon ficou vermelho de raiva quando eles se curvaram de novo.
Cuidado! Alertou Saphira.
Conseguiu controlar sua raiva crescente. Não podia deixar a si mesmo ficar irritado por esse confronto. Uma ideia lhe ocorreu e ele falou com um pequeno sorriso:
— Não, quem deve demonstrar respeito por vocês sou eu. Sem a sua aprovação eu nunca teria entrado em Farthen Dûr. — Curvou-se a eles em resposta, fazendo o movimento do modo mais ofensivo possível.
Viu-se um lampejo de irritação nos olhos dos gêmeos, mas eles sorriram e disseram:
— Nós nos sentimos honrados porque alguém tão... importante... como você nos tem em tão alta estima. Sentimo-nos lisonjeados por suas palavras tão gentis.
Depois, foi a vez de Eragon ficar irritado.
— Eu me lembrarei disso quando precisar.
Saphira intrometeu-se rapidamente nos pensamentos dele.
Você está exagerando. Não diga nada do que possa se arrepender. Eles se lembrarão de todas as palavras que puderem usar contra você.
Já estou tendo dificuldade bastante sem você fazendo comentários, ele disparou. Ela calou-se com um rosnado zangado.
Os gêmeos se aproximaram, a bainha de seus mantos arrastava levemente no chão. A voz deles ganhou um tom mais amigável.
— Mas também temos procurado você por outra razão, Cavaleiro. Os poucos usuários de magia que habitam em Tronjheim formaram um grupo. Nós nos chamamos de Du Vrangr Gata ou a...
— A Trilha Errante, eu sei — interrompeu Eragon, lembrando o que Angela havia falado sobre isso.
— O seu conhecimento da língua antiga é impressionante — disse um dos gêmeos suavemente. — Como estávamos dizendo, Du Vrangr Gata soube dos seus feitos fantásticos, e viemos trazer um convite para se juntar a nós. Ficaríamos honrados em ter alguém da sua estatura como sócio. E creio que também podemos ajudá-lo em troca.
— Como?
O outro gêmeo disse:
— Nós dois acumulamos muita experiência quanto às questões da magia. Nós poderíamos orientá-lo... Mostrar os encantos que descobrimos e ensinar palavras de poder. Nada nos alegraria mais do que se pudéssemos ajudá-lo, mesmo de uma maneira insignificante, em seu caminho para a glória. Nenhum pagamento seria necessário, embora, se você achasse apropriado compartilhar alguns de seus conhecimentos, ficaríamos satisfeitos.
A expressão do rosto de Eragon fechou-se quando ele percebeu o que eles queriam.
— Vocês acham que eu sou idiota? — perguntou ele de modo grosseiro. — Não vou estudar com vocês para que possam descobrir as palavras que Brom me ensinou! Vocês devem ter ficado com muita raiva quando não conseguiram roubá-las da minha mente.
Os gêmeos, repentinamente, derrubaram sua fachada de sorrisos.
— Não brinque conosco, rapaz! Seremos nós que testaremos suas habilidades com a magia. E isso pode ser muito desagradável. Lembre: basta errar na formulação de um encanto para matar uma pessoa. Você pode ser um Cavaleiro, mas nós dois ainda somos mais fortes do que você.
Eragon manteve seu rosto inexpressivo, embora seu estômago tivesse dado um doloroso nó.
— Pensarei na sua oferta, mas pode ser...
— Então, esperaremos sua resposta amanhã. Certifique-se de que seja a certa. — Eles sorriram friamente e andaram de modo altivo para o interior da biblioteca.
Eragon fez uma cara feia. Não vou entrar para Du Vrangr Gata, não importa o que eles façam.
Você devia falar com Angela, disse Saphira. Ela já lidou com os gêmeos antes. Talvez ela possa estar presente quando eles forem testar você. Isso pode evitar que tentem lhe fazer mal.
É uma boa ideia. Eragon ziguezagueou entre as estantes até achar Orik sentado em um banco, polindo seu machado de guerra.
— Eu gostaria de voltar ao abrigo para dragões.
O anão enfiou o cabo do machado em uma alça de couro que havia em seu cinto e levou Eragon até o portão onde Saphira esperava. As pessoas já haviam se juntado em volta dela. Ignorando-as, Eragon montou correndo nas costas dela, e eles escaparam para o céu.
Este problema deve ser resolvido rapidamente. Você não pode permitir que os gêmeos o intimidem, aconselhou Saphira quando pousou em cima da Isidar Mithrim.
Eu sei. Mas espero que possamos evitar deixá-los zangados. Eles podem ser inimigos poderosos.
Ele desmontou rapidamente, mantendo uma das mãos em Zar’roc.
E você também pode ser. Você os quer como aliados?
Ele balançou a cabeça.
De fato, não... Direi a eles amanhã que não entrarei para Du Vrangr Gata.
Eragon deixou Saphira em sua caverna e saiu perambulando fora do abrigo. Ele queria ver Angela, mas não lembrava como achar o esconderijo dela, e Solembum não estava lá para guiá-lo. Vagou pelos corredores desertos, esperando encontrar Angela por acaso.
Quando se cansou de olhar para as salas vazias e as intermináveis paredes cinzentas, refez seu caminho até o abrigo. Ao se aproximar, ouviu alguém falando no recinto. Ele parou e escutou, mas a voz clara se silenciou.
Saphira, quem está ar?
Uma mulher... Ela tem um ar autoritário. Vou distraí-la para você entrar. Eragon soltou Zar’roc em sua bainha. Orik disse que os intrusos ficariam longe do abrigo. Então, quem poderia ser ela? Acalmou os nervos e entrou no abrigo, sua mão estava na espada.
Uma jovem mulher estava em pé no centro do abrigo, olhando curiosamente para Saphira, que havia colocado a cabeça para fora da caverna. A mulher parecia ter uns dezessete anos. A estrela feita com a pedra preciosa lançava-lhe uma luz rosada, dando ênfase à cor de sua pele, que tinha o mesmo tom da de Ajihad. Seu vestido de veludo tinha a cor de vinho e era elegantemente cortado. Uma adaga adornada com joias, gasta pelo uso, pendia de sua cintura em uma bainha de couro modelada.
Eragon cruzou os braços, esperando que a jovem o notasse. Ela continuou a olhar para Saphira, depois fez reverência e perguntou docemente:
— Por favor, poderia me dizer onde está o Cavaleiro Eragon? — Os olhos de Saphira brilharam de satisfação.
Com um pequeno sorriso, Eragon disse:
— Estou aqui.
A jovem virou-se depressa para encará-lo, sua mão voou para a adaga. O rosto dela era formidável, com olhos amendoados, lábios grossos e maçãs do rosto arredondadas. Ela relaxou e fez reverência novamente.
— Eu sou Nasuada — apresentou-se.
Eragon inclinou a cabeça.
— Obviamente, você sabe quem sou, mas o que você quer?
Nasuada sorriu graciosamente.
— Meu pai, Ajihad, mandou-me trazer uma mensagem. Gostaria de ouvi-la?
Para Eragon, o líder dos Varden não pareceu ser do tipo inclinado à paternidade e ao matrimônio. Imaginou quem seria a mãe de Nasuada. Ela deve ter sido uma mulher incomum para ter atraído o olhar de Ajihad.
— Sim, eu gostaria.
Nasuada jogou o cabelo para trás e relatou:
— Ele está satisfeito porque você está se saindo bem, mas aconselhou cautela contra ações como a bênção que você deu ontem. Criam mais problemas do que solucionam. E também recomenda que você prossiga com os testes o mais rápido possível. Ele precisa conhecer a sua capacidade antes de comunicar o fato aos elfos.
— Você veio até aqui em cima só para me dizer isso? — perguntou Eragon pensando na extensão de Vol Turin.
Nasuada balançou a cabeça.
— Eu usei o sistema de roldanas que transporta mantimentos para os níveis mais altos. Poderíamos ter enviado a mensagem usando sinais, mas decidi comunicá-la pessoalmente e conhecer você.
— Você gostaria de se sentar? — convidou Eragon. Ele apontou para a caverna de Saphira.
Nasuada riu levemente.
— Não, estão me esperando em outro lugar. Também devo informá-lo de que meu pai decretou que você pode visitar Murtagh, se desejar. — Uma expressão melancólica perturbou suas feições que antes estavam tranquilas. — Falei com Murtagh mais cedo... Ele está ansioso para falar com você. Parecia estar se sentindo muito solitário. Você devia visitá-lo. — Ela ensinou a Eragon como chegar à cela de Murtagh.
Eragon lhe agradeceu as novidades e perguntou:
— E Arya? Ela está melhor? Eu posso vê-la? Orik não pôde me dizer muita coisa.
Ela sorriu de forma travessa.
— Arya está se recuperando rapidamente, como acontece com todos os elfos. Ninguém tem permissão de vê-la, exceto meu pai, Hrothgar e os curandeiros. Eles passaram muito tempo com ela e ouviram tudo que aconteceu durante sua prisão. — Ela desviou o olhar para Saphira. — Agora, preciso ir. Há algo que você queira que eu transmita a Ajihad em seu nome?
— Não, exceto meu desejo de visitar Arya. E transmita a ele meus agradecimentos pela hospitalidade que tem nos dado.
— Levarei suas palavras diretamente a ele. Adeus, Cavaleiro Eragon. Espero que nos encontremos em breve.
Ela fez uma reverência e saiu do abrigo, com a cabeça erguida.
Se ela realmente veio até aqui em cima só para me conhecer, com roldanas ou não, havia mais alguma intenção nesse encontro do que uma conversa à toa, comentou Eragon.
Isso, disse Saphira, recolocando a cabeça na caverna. Eragon subiu até ela e ficou surpreso ao ver Solembum enrolado na parte vazia na base do pescoço dela. O menino-gato ronronava profundamente, e a sua cauda, que tinha a ponta preta, balançava-se para frente e para trás. Os dois olharam para Eragon com desaforo, como se perguntassem: “O que foi”?
Eragon balançou a cabeça, sem conseguir conter o riso.
Saphira era Solembum que você queria encontrar?
Os dois piscaram para ele e responderam:
Era.
Só perguntei por curiosidade, disse ele. Um sentimento de felicidade borbulhava dentro dele. Isso o fez sentir que os dois seriam amigos e eram criaturas relacionadas com a magia. Ele suspirou, aliviando a tensão do dia enquanto tirava Zar’roc da cinta.
Solembum, você sabe onde Angela está? Eu não a encontrei e preciso do conselho dela.
Solembum apertou com as patas as costas escamosas de Saphira.
Ela está em algum lugar de Tronjheim.
Quando ela voltará?
Logo.
Quando? Perguntou ele impacientemente. Preciso falar com ela hoje.
Não tão logo assim.
O menino-gato recusou-se a falar mais, apesar das persistentes perguntas de Eragon. Ele desistiu e aconchegou-se, encostando-se em Saphira. O ronronado de Solembum era um zumbido monótono e grave acima da cabeça dele.
Preciso visitar Murtagh amanhã, pensou ele, girando o anel de Brom.

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