27 de maio de 2017

Capítulo 54 - Fuga

Depois que avaliaram a proposta de Jeod, de todos os ângulos possíveis, e concordaram em aceitá-la — com algumas poucas modificações — Roran mandou Nolfavrell pegar Gertrude e Mandel no Castanheiro Verde, pois Jeod havia oferecido sua hospitalidade para todo o grupo.
— Agora, se vocês me derem licença — disse Jeod, se levantando. — Tenho que revelar à minha esposa aquilo que nunca deveria ter escondido e preciso lhe pedir para me acompanhar até Surda. Vocês podem escolher um quarto no segundo andar. Rolf irá chamá-los quando o jantar estiver servido. — Com passos longos e lentos, ele saiu da sala.
— Será que é prudente deixar que ele conte tudo para aquela ogra? — perguntou Loring.
Roran encolheu os ombros.
— Prudente ou não, não podemos detê-lo. E não creio que ele ficará em paz até que o faça.
Em vez de ir para um quarto, Roran vagou pela mansão, evitava naturalmente os empregados enquanto ponderava sobre as coisas que Jeod havia dito. Ele parou numa sacada que estava aberta de frente para a estrebaria nos fundos da casa e encheu seus pulmões com o ar fresco, fumegante e carregado do cheiro de esterco.
— Você o odeia?
Ele se virou e deu de cara com a silhueta de Birgit no vão da porta. Ela ajustou seu xale em volta dos ombros enquanto se aproximava.
— Quem? — perguntou ele, sabendo muito bem de quem se tratava.
— Eragon. Você o odeia?
Roran olhou para o céu do crepúsculo.
— Não sei. Odeio-o por ter causado a morte do meu pai, mas ele ainda é a minha família e por isso eu o amo... Suponho que se não precisasse de Eragon para salvar Katrina, não teria nada que tratar com ele por um bom tempo.
— Da mesma forma que eu o odeio e preciso de você, Martelo Forte.
Ele bufou com uma soturna descontração.
— Sim, fomos unidos em face dos últimos acontecimentos, não? Você precisa me ajudar a encontrar Eragon para que eu possa vingar Quimby, acabando com os Ra’zac.
— E para que eu possa me vingar de você depois.
— Isso também. — Roran encarou seus olhos decididos por um instante e reconheceu o vínculo que ambos tinham. Ele achava estranhamente consolador saber que os dois partilhavam do mesmo ímpeto, a mesma fúria ardente que acelerava os seus passos quando os outros hesitavam. Nela, Roran reconhecia um espírito que se afinava com o seu.
Já dentro da casa, Roran parou perto da sala de jantar enquanto ouvia a cadência da voz de Jeod. Curioso, ele enfiou o olho numa fenda perto da dobradiça da porta central. Jeod estava em pé, de frente para uma mulher baixa e loura, a qual Roran supôs que fosse Helen.
— Se o que você diz é verdade, como você pode esperar que eu acredite em você?
— Não posso — respondeu Jeod.
— No entanto, você pede para que eu me torne uma fugitiva ao seu lado?
— Uma vez você se ofereceu para deixar sua família e vagar pelo mundo comigo. Você me implorou para que eu a fizesse sumir de Teirm.
— Uma vez. Eu achava que você era incrivelmente arrojado então, ainda mais com sua espada e sua cicatriz.
— Eu ainda as tenho — disse ele suavemente. — Cometi muitos erros com você, Helen, posso entender isso agora. Mas ainda a amo e quero que fique em segurança. Eu não tenho futuro aqui. Se ficar, só trarei aflição para a sua família. Você pode voltar para o seu pai ou pode vir comigo. Faça o que lhe fará mais feliz. No entanto, imploro para que me dê uma segunda chance, para que tenha coragem de deixar este lugar e se desprender das lembranças amargas da nossa vida aqui. Podemos recomeçar em Surda.
Ela ficou quieta por um bom tempo.
— Aquele jovem que esteve aqui, ele é realmente um Cavaleiro?
— Sim. Os ventos da mudança estão soprando, Helen. Os Varden estão prestes a atacar, os anões estão reunidos, e até mesmo os elfos estão agitando em seus velhos retiros. A guerra se aproxima e, se tivermos sorte, a queda de Galbatorix também.
— Você é importante entre os Varden?
— Eles têm alguma consideração para comigo, por causa do meu papel no resgate do ovo de Saphira.
— Então você poderia almejar uma posição entre eles em Surda?
— Imagino que sim. — Ele colocou as mãos nos ombros da esposa, que não se afastou.
Ela sussurrou:
— Jeod, Jeod, não me pressione. Ainda não posso decidir nada.
— Você vai pensar?
Ela estremeceu.
— É claro. Vou pensar sim.
O coração de Roran estava atormentado quando ele se afastou.
Katrina.


Naquela noite, durante o jantar, Roran notou que os olhos de Helen volta e meia o fitavam, estudava-o e julgava-o, comparava-o a Eragon, disso ele tinha certeza.
Depois da refeição, Roran chamou Mandel e o levou para o pátio atrás da casa.
— O que foi, senhor? — perguntou Mandel.
— Gostaria de falar com você em particular.
— Sobre o quê?
Roran ficou tateando a face do seu martelo cheia de depressões e refletiu sobre o quanto se sentia como Garrow, quando ele lhe dava uma lição sobre responsabilidade, o guerreiro podia até mesmo sentir as mesmas frases brotando em sua garganta. E assim as gerações ensinam as seguintes, pensou.
— Você ficou muito amigo dos marinheiros recentemente.
— Eles não são nossos inimigos — opôs-se Mandel.
— Todos são inimigos a essa altura. Clóvis e seus homens poderiam se voltar contra nós num só instante. Porém, não seria problema algum estar com eles se não fizesse com que você descuidasse dos seus deveres. — Mandel endureceu e suas bochechas se ruborizaram, mas ele não se rebaixou negando a acusação, em consideração a Roran. Satisfeito, este perguntou: — Qual é a coisa mais importante que podemos fazer neste momento, Mandel?
— Proteger nossas famílias.
— Sim. E o que mais?
Mandel hesitou, incerto, e depois confessou:
— Não sei.
— Ajudar um ao outro. E a única maneira que temos para que todos nós sobrevivamos. Fiquei especialmente decepcionado quando soube você estava usando comida para fazer apostas com os marinheiros, pois isso põe em perigo todo o vilarejo. Seu tempo seria bem melhor gasto em caçadas do que nos dados ou no arremesso de facas. Depois que seu pai se foi, cabe a você cuidar da sua mãe e dos seus irmãos. Eles contam com você. Estou sendo claro?
— Muito claro, senhor — respondeu Mandel com a voz abafada.
— Isso acontecerá novamente?
— Nunca mais, senhor.
— Muito bem. Mas eu não o trouxe aqui só para repreendê-lo. Você demonstra ser confiável e é por isso que estou lhe dando uma tarefa que não confiaria a ninguém a não ser a mim mesmo.
— Sim, senhor!
— Amanhã de manhã eu preciso que você volte para o acampamento e leve uma mensagem para Horst. Jeod acredita que o Império possui espiões observando esta casa, por isso é vital que você se certifique de que não está sendo seguido. Espere até sair da cidade e depois livre-se de quem quer que o esteja seguindo na zona rural. Mate-o se for preciso. Quando encontrar Horst, diga a ele para... — Enquanto Roran dava suas instruções, ele ficou vendo a expressão de Mandel mudando, de surpreso para chocado e depois para apavorado.
— E se Clóvis se opuser? — perguntou Mandel.
— Quebre as canas dos lemes das chatas à noite, para que elas não possam ser pilotadas. É um truque sujo, mas seria desastroso se Clóvis ou qualquer um de seus homens chegasse em Teirm antes de vocês.
— Não vou deixar que isso aconteça — prometeu Mandel.
Roran sorriu.
— Muito bem. — Satisfeito por ter resolvido a questão relacionada ao comportamento de Mandel e por saber que o rapaz faria tudo que fosse possível para levar a mensagem até Horst, Roran retornou e deu boa-noite para o seu anfitrião antes de cair no sono.


Com exceção de Mandel, Roran e seus companheiros ficaram confinados na mansão durante todo o dia seguinte, aproveitando a pausa para descansar, afiar suas armas e repassar as estratégias.
Desde o amanhecer até o anoitecer, eles viram Helen algumas vezes, enquanto ela passava apressada de um quarto para o outro, um pouco mais Rolf com seus dentes que pareciam pérolas lustradas, e não viram Jeod, pois o comerciante grisalho saiu para andar pela cidade e — aparentemente por acidente — se encontrou com os poucos homens do mar em quem ele confiava para participar de sua expedição.
Assim que retornou, ele se dirigiu a Roran:
— Podemos contar com cinco pares de mãos a mais. Só espero que seja suficiente. — Jeod permaneceu em sua sala de leitura durante o resto da noite, redigia vários documentos legais e também cuidava dos seus negócios.
Três horas antes da alvorada, Roran, Loring, Birgit, Gertrude e Nolfavrell despertaram e, se esforçaram para conter bocejos prodigiosos, se reuniram na entrada da mansão, onde se cobriram com longos mantos para esconder seus rostos. Um florete estava pendurado na cintura de Jeod, quando este se juntou ao resto do grupo, e Roran achou que a espada estreita de algum modo completava aquele homem esguio, como se lembrasse a ele quem ele realmente era.
Jeod acendeu um lampião a óleo e o ergueu à frente deles.
— Estamos prontos? — perguntou ele. Todos acenaram positivamente. Então Jeod moveu o trinco e eles saíram pela rua vazia de pedras pavimentadas. Atrás deles, Jeod ficou mais algum tempo no corredor de entrada, lançou um olhar ansioso na direção das escadas à direita, mas Helen não apareceu. Com um arrepio, Jeod deixou sua casa e fechou a porta.
Roran colocou a mão sobre o seu braço.
— O que está feito está feito.
— Eu sei.
Eles correram pela cidade escura, reduziu a velocidade para um caminhar rápido sempre que encontravam vigias ou uma criatura da noite qualquer, grande parte destes se afastavam ao vê-los. Uma vez ouviram passos no topo de um prédio próximo.
— O desenho da cidade — explicou Jeod — facilita aos ladrões que querem pular de um telhado para o outro.
Eles diminuíram a marcha e voltaram a caminhar novamente quando chegaram ao portão leste. Pelo fato do portão se abrir para o porto, ele ficava fechado apenas quatro horas durante a noite, para que fosse minimizada a interrupção nas operações comerciais. De fato, apesar da hora, vários homens já trabalhavam perto do portão.
Muito embora Jeod tivesse lhes avisado que isso poderia acontecer, Roran, ainda assim, sentiu uma pontada de medo quando os guardas baixaram seus piques e perguntaram o que vieram fazer ali. Ele molhou a boca e tentou não se inquietar, enquanto o soldado mais velho examinava um rolo que Jeod havia lhe passado. Depois de um longo minuto, o guarda acenou positivamente e devolveu o pergaminho.
— Vocês podem passar.
Assim que estavam no cais e suas vozes fora do alcance de quem estado outro lado da muralha da cidade, Jeod disse:
— Ainda bem que ele não sabe ler.
Os seis ficaram esperando no tablado encharcado até que, um a um, os homens de Jeod emergiram da névoa cinzenta que se assentava sobre a costa. Eles tinham uma aparência ameaçadora, eram silenciosos, ostentavam cabelos trançados que caíam até o meio das costas, suas mãos estavam manchadas de graxa e uma quantidade de cicatrizes que até Roran respeitou. Ele gostou do que viu e podia dizer que os sujeitos também o aprovaram. Eles, no entanto, não gostaram de ver Birgit.
Um dos marinheiros, um verdadeiro brutamontes, apontou o polegar em sua direção e acusou Jeod:
— Você não disse que haveria uma mulher entre nós para a luta. Como vou conseguir me concentrar com uma vagabunda do mato no meu caminho?
— Não fale dela assim — disse Nolfavrell com os dentes cerrados.
— E com seu bezerrinho também?
Num tom de voz calmo, Jeod disse:
— Birgit enfrentou os Ra’zac. E seu filho já matou um dos melhores soldados de Galbatorix. Você pode falar o mesmo de si próprio, Uthar?
— Não é apropriado — disse um outro homem. — Eu não me sentiria seguro com uma mulher ao meu lado, elas não fazem nada a não ser trazer má sorte. Uma dama não devia...
Seja lá o que ele fosse dizer havia se perdido pois, naquele instante, Birgit fez algo muito indigno de uma senhora. Depois de dar um passo para a frente, ela deu um chute entre as pernas de Uthar e em seguida agarrou o segundo sujeito e prensou sua faca contra a garganta dele. A aldeã o segurou por um instante, para que todos pudessem ver o que havia feito, e depois soltou seu cativo. Uthar rolava nas pranchas aos seus pés, tentava suportar a dor e murmurava uma avalanche de palavrões.
— Alguém mais tem alguma objeção? — perguntou Birgit. Ao seu lado, Nolfavrell olhou espantado e boquiaberto para sua mãe.
Roran abaixou o seu capuz para esconder o sorriso. Ainda bem que eles não notaram Gertrude, pensou.
Quando mais ninguém resolveu desafiar Birgit, Jeod perguntou:
— Vocês trouxeram o que eu queria? — Cada homem enfiou a mão dentro de seus mantos e revelaram uma clava pesada e longas cordas. Assim armados, eles seguiram pelo porto na direção do Asa de Dragão, fizeram o possível para não serem detectados. Jeod manteve seu lampião apagado o tempo todo. Perto das docas, eles se esconderam atrás de um armazém e viram duas luzes carregadas por sentinelas circulando pelo convés do navio. A prancha de embarque fora retirada durante a noite.
— Lembrem-se — sussurrou Jeod —, a coisa mais importante é impedir que o alarme seja soado até que possamos partir.
— Dois homens acima, dois homens abaixo, certo? — perguntou Roran.
Uthar respondeu:
— O costume é esse.
Roran e Uthar se despiram até as nádegas, amarraram a corda e os porretes em volta de suas cinturas — Roran deixou seu martelo para trás — e correram pelo cais, longe da visão dos sentinelas, onde se abaixaram dentro da água gelada.
— Odeio quando tenho que fazer isso — disse Uthar.
— Você já fez isso antes?
— Quatro vezes com essa. Não pare de se mover ou irá congelar.
Agarrando-se às estacas lodosas debaixo do desembarcadouro, eles nadaram pelo mesmo trecho pelo qual vieram até alcançar o molhe de pedra que dava no Asa de Dragão, e depois viraram à direita. Uthar encostou os lábios na orelha de Roran.
— Vou pegar a âncora de boroeste. — Roran acenou com a cabeça, autorizando.
Os dois mergulharam nas águas negras e lá se separaram. Uthar nadou como um sapo debaixo da proa do navio, enquanto Roran seguiu direto para a âncora a bombordo e se agarrou à sua enorme corrente. Ele tirou o porrete que estava amarrado em sua cintura, encaixou-o no meio dos dentes — tanto para impedir que eles batessem quanto para liberar suas mãos — e esperou. O metal áspero sugava o calor dos seus braços tão rapidamente quanto o gelo.
Menos de três minutos depois, Roran ouviu o arrastar das botas de Birgit acima dele enquanto caminhava até o final do quebra-mar, defronte ao centro do Asa de Dragão, seguido pelo leve som de sua voz enrolando os sentinelas numa conversa. Com sorte, ela conseguiria desviar a atenção deles da proa.
Agora!
Roran começou a subir, de mão em mão, pela corrente. Seu ombro direito ardia no local onde o Ra’zac o havia mordido, mas ele continuou. Da vigia onde a corrente da âncora entrava no navio, ele escalou as saliências que apoiavam a figura de proa, até pular a amurada e cair no convés. Uthar já estava lá, molhado e ofegante.
Com os porretes na mão, seguiram em direção à popa do navio, escondiam-se onde podiam. Eles pararam menos de três metros atrás dos sentinelas. Os dois homens estavam encostados na amurada, trocando palavras com Birgit.
Num lampejo, Roran e Uthar irromperam e atingiram os sentinelas na cabeça, antes que pudessem sacar seus sabres. Lá embaixo, Birgit acenou para Jeod e o resto do grupo, que ergueu a prancha e deslizou uma de suas extremidades até o navio, onde Uthar a amarrou à amurada.
Quando Nolfavrell correu para dentro, Roran jogou sua corda para o garoto e disse:
— Amarre e amordace esses dois.
Então, todos, menos Gertrude, desceram para os conveses inferiores em busca dos sentinelas restantes. Encontraram quatro homens e mais o intendente naval, o contramestre, o cozinheiro e seu assistente — e todos foram arrancados da cama, os que resistiram levaram pancadas na cabeça ou foram amarrados com firmeza. Nisto, Birgit provou mais uma vez o seu valor, capturou dois homens sozinha.
Jeod colocou os infelizes prisioneiros enfileirados no convés para que pudessem ser vigiados o tempo todo e depois declarou:
— Temos muito o que fazer e pouco tempo. Roran, Uthar é o comandante do Asa de Dragão. Você e os outros acatarão as ordens dele.
Durante as duas horas seguintes, um frenesi se espalhou pela embarcação. Os marinheiros cuidaram do cordame e das velas, enquanto Roran e a gente de Carvahall trabalhou para livrar o porão de carga de suprimentos estranhos, como fardos de lã grossa. Estes foram baixados ao mar para evitar que alguém no cais ouvisse um esguicho. Se era para o povo todo caber dentro do Asa de Dragão, eles precisavam liberar o máximo de espaço possível.
Roran estava no meio da tarefa de amarrar um cabo em volta de um barril quando ouviu o alarme rouco:
— Alguém está vindo! — Todos no convés, exceto Jeod e Uthar, enfiaram as mãos nas cinturas e sacaram suas armas. Os dois homens que permaneceram em pé andavam pelo convés como se fossem sentinelas. O coração de Roran batia acelerado enquanto ele se mantinha imóvel, perguntava a si próprio o que estava prestes a acontecer. Prendeu a respiração enquanto Jeod se dirigia ao intruso... até que seus passos ecoaram pelo passadiço.
Era Helen.
Ela usava uma saia simples, trazia um saco de aniagem pendurado num dos ombros e seu cabelo estava preso com um lenço. Não falou uma só palavra, mas guardou seus apetrechos na cabine principal e voltou para ajudar Jeod. Roran percebeu que nunca tinha visto um homem tão feliz.
O céu acima das montanhas distantes da Espinha havia apenas começado a clarear quando um dos marujos no cordame apontou para o norte e assobiou para indicar que havia avistado os aldeões.
Roran se moveu ainda mais rápido. O tempo que eles tinham havia se esgotado. Ele saiu apressado pelo convés e perscrutou a linha escura de gente avançando pela costa. Essa parte de seu plano dependia do fato de que. ao contrário das outras cidades costeiras, a muralha externa de Teirm não ficava aberta para o mar, mas cercava completamente grande parte da cidade no intuito de repelir ataques piratas constantes. Isso significava que as construções que margeavam o porto ficavam expostas — e que os aldeões podiam subir no Asa de Dragão.
— Rápido agora, rápido! — disse Jeod.
Ao comando de Uthar, os marinheiros trouxeram braçadas de dardos de arremesso para as grandes balistas que haviam no convés, assim como tonéis do alcatrão mais pútrido, eles o abriram e usaram para sujar a metade superior dos dardos. Depois, eles carregaram as balistas a boreste: foram necessários dois homens por arco para puxar as cordas até que elas ficassem enganchadas.
Os aldeões já haviam percorrido dois terços do caminho até o navio antes dos soldados que patrulhavam as muralhas de Teirm os avistarem e soarem o alarme. Mesmo antes daquela primeira nota terminar, Uthar deu um berro:
— Acendam e atirem!
Abrindo vigorosamente o lampião de Jeod, Nolfavrell correu de uma balista para a outra, segurava a chama na frente dos dardos até o alcatrão pegar fogo. No instante em que um projétil ficou pronto, o homem por trás do arco puxou a corda e o dardo sumiu com um baque pesado. No todo, doze flechas ardentes saíram do Asa de Dragão e trespassaram os barcos e as edificações ao longo da baía como se fossem meteoros estrondosos e incandescentes vindos dos céus.
— Puxar cordas e recarregar! — gritou Uthar.
O rangido da madeira curvada encheu o ar, enquanto todos os homens puxavam as cordas de volta. Os dardos foram armados. Mais uma vez, Nolfavrell fez a sua ronda. Roran podia sentir a vibração em seus pés enquanto a balista à sua frente atirava seu projétil letal.
O fogo rapidamente se espalhou ao longo da cidade à beira-mar, formando uma barreira impenetrável, que impedia os soldados de alcançarem o Asa de Dragão pelo portão leste de Teirm. Roran contava com a cortina de fumaça para esconder o barco dos arqueiros que estavam na muralha, mas foi por pouco tempo, uma saraivada de flechas rasgou o cordame e uma delas se cravou no convés bem ao lado de Gertrude antes dos soldados perderem o barco de vista.
Da proa, Uthar gritou:
— Escolham seus alvos!
Os aldeões estavam agora correndo desordenadamente pela praia. Eles atingiram a ponta norte do cais, e um punhado cambaleou e caiu enquanto os soldados em Teirm redirecionavam sua mira. As crianças gritavam apavoradas. Então, os aldeões recuperaram suas forças. Eles correram pesadamente sobre as pranchas de madeira, passaram por um armazém em chamas e ao lado do quebra-mar. A multidão ofegante se lançou sobre o navio numa massa confusa de corpos se abalroando.
Birgit e Gertrude guiaram a torrente humana para as escotilhas na popa e na proa. Em poucos minutos, os vários patamares da embarcação estavam lotados, do porão de carga até a cabine do comandante. Aqueles que não couberam embaixo permaneceram amontoados no convés, segurando os escudos de Fisk sobre suas cabeças.
Como Roran havia pedido em sua mensagem, todos os homens fisicamente capazes de Carvahall se aglomeraram em torno do mastro principal, esperando instruções. Roran viu Mandel no meio da turba e o saudou orgulhosamente.
Então Uthar apontou para um marinheiro e vociferou:
— Você aí, Bonden! Traga esses lambazes para os cabrestantes, suspenda as âncoras e depois vá para os remos. No dobro da velocidade! — Para o resto dos homens que estavam nas balistas, ele deu outra ordem: — Quero que metade de vocês saia daí e vá para as balistas a bombordo. Afastem qualquer grupo que tente embarcar.
Roran foi um dos que trocou de bordo. Enquanto preparava as balistas, alguns retardatários saíram cambaleando do meio da fumaça malcheirosa e subiram no convés. Ao seu lado, Jeod e Helen erguiam os seis prisioneiros, um a um, sobre a prancha a fim de jogá-los para o quebra-mar.
Antes que Roran percebesse, as âncoras haviam sido içadas, a prancha de embarque recolhida, e um tambor ficou batendo sob os seus pés, marcando o tempo para os remadores. Bem lentamente, o Asa de Dragão virou para boreste — na direção do mar aberto — e então, com uma velocidade cada vez maior, se afastou das docas.
Roran acompanhou Jeod até o tombadilho onde ambos ficaram olhando o inferno escarlate devorar tudo o que era inflamável entre Teirm e o oceano. Em meio ao filtro da fumaça, o sol parecia um disco laranja plano, inchado e sangrento, a se erguer sobre a cidade.
Quantos eu matei agora?, perguntou-se Roran.
Ecoando seus pensamentos, Jeod observou.
— Isso vai ferir um grande número de pessoas inocentes.
A culpa fez Roran reagir com mais força do que pretendia:
— Você preferia ficar nas prisões do lorde Risthart? Duvido que muitos sejam feridos por causa das labaredas, e aqueles que não forem também não terão que encarar a morte, como aconteceria conosco se o Império nos pegasse.
— Você não precisa me fazer uma preleção, Roran. Conheço muito bem os argumentos. Fizemos o que era necessário. Não queira ter prazer com o sofrimento que causamos para garantir a nossa própria segurança.
Por volta do meio-dia, os remos haviam sido guardados e o Asa de Dragão navegava com suas próprias forças, era impulsionado por ventos favoráveis do norte. As rajadas de ar faziam o cordame içado emitir um leve zunido.
O navio estava desgraçadamente superlotado, mas Roran estava confiante de que, com algum planejamento cauteloso, conseguiriam chegar a Surda com um mínimo de desconforto. A pior inconveniência era o racionamento, se eles queriam evitar a fome, a comida teria que ser repartida em porções minúsculas. E, em alojamentos tão apertados, a doença era mais do que provável.
Depois que Uthar fez um breve discurso sobre a importância da disciplina num navio, os aldeões se aplicaram nas tarefas imediatas: cuidar dos feridos, desempacotar seus míseros pertences e decidir qual seria a organização mais eficiente para que todos pudessem dormir bem em cada convés. Também tinham que escolher pessoas para preencher as várias funções no Asa de Dragão, quem poderia cozinhar, quem treinaria para marujo sob o comando dos homens de Uthar e assim por diante.
Roran estava ajudando Elain a pendurar uma rede quando se envolveu numa briga acalorada entre Odele, sua família e Frewin, que havia aparentemente abandonado a tripulação de Torson para ficar com Odele. Os dois queriam se casar, mas os pais de Odeie se opunham veementemente, baseados no fato de que o marinheiro não possuía família, uma profissão respeitável, nem os meios para oferecer um mínimo de conforto à sua filha. Roran achou que seria melhor se o casal enamorado permanecesse unido — parecia impossível tentar separá-los enquanto estavam confinados no mesmo navio —, mas os pais de Odele se recusavam a ouvir seus argumentos.
Frustrado, Roran disse:
— O que vocês farão, então? Não dá para mantê-la trancada e acredito que Frewin já provou sua dedicação...
— Ra’zac!
O grito veio do cesto de vigia da gávea.
Sem pensar outra vez, Roran puxou o martelo de seu cinto, o rodopiou e subiu as escadas da escotilha da proa, esfolando a canela no caminho. Correu a toda velocidade na direção da aglomeração concentrada na parte mais alta do tombadilho e parou ao lado de Horst. O ferreiro apontou.
Uma das temíveis montarias dos Ra’zac flutuava como uma sombra esfarrapada sobre o contorno da costa, um dos Ra’zac estava nas suas costas. Ver os dois monstros expostos a luz do dia não diminuía de maneira alguma o horror arrepiante que eles inspiravam em Roran. Ele estremeceu quando a criatura alada deu seu grito terrível, e então a voz de inseto do Ra’zac começou a pairar sobre a água, fraca porém evidente:
— Vocêsss não essscaparão!
Roran olhou para as balistas, mas elas não podiam ser viradas num angulo razoável o bastante para atingir o Ra’zac ou sua montaria.
— Alguém tem um arco?
— Eu tenho — disse Baldor. Ele ajoelhou uma perna e começou a encordoar a sua arma. — Não deixe que eles me vejam. — Todos que estavam no tombadilho se uniram num círculo apertado em torno de Baldor. Fazendo um escudo com seus corpos para evitar o olhar malévolo do Ra’zac.
— Por que ele não ataca? — resmungou Horst.
Intrigado, Roran buscou uma explicação mas não encontrou nenhuma. Foi Jeod que sugeriu:
— Talvez esteja muito claro para eles. Os Ra’zac caçam à noite e, até onde eu sei, não costumam se aventurar prontamente para fora de seus covis enquanto o sol ainda está no céu.
— Não é só isso — disse Gertrude lentamente. — Acho que eles têm medo do oceano.
— Medo do oceano? — zombou Horst.
— Observe-os, eles não voam mais de um metro afastados da costa em momento algum.
— Ela tem razão — disse Roran. Finalmente, uma fraqueza que eu posso usar contra eles!
Alguns segundos depois, Baldor disse:
— Pronto!
Assim que ele se pronunciou, as fileiras de pessoas que estavam na sua frente pularam para o lado, limpando a área para que ele pudesse disparar o seu arco. Baldor levantou-se num salto e, com um único movimento, puxou a pena até o seu rosto e soltou a flecha de bambu.
Foi um tiro heroico. O Ra’zac estava no limite extremo do raio de alcance de um arco longo de madeira — muito além de qualquer marca que Roran já vira um arqueiro atingir — e ainda assim a mira de Baldor foi precisa. Sua flecha atingiu a criatura alada no flanco direito e a besta deu um grito de dor tão grande que os vidros na embarcação se estilhaçaram e as pedras na costa racharam até virarem fragmentos. Roran colocou as mãos nos ouvidos para se proteger daquela rajada sonora medonha. Ainda gritando, o monstro virou continente adentro e caiu atrás de uma fileira de morros enevoados.
— Você o matou? — perguntou Jeod, com o rosto pálido.
— Temo que não — respondeu Baldor. — Não foi nada além de um ferimento.
Loring, que havia acabado de chegar, observou satisfeito.
— Sim. Mas pelo menos você o feriu, e apostaria que eles pensarão duas vezes antes de nos incomodarem novamente.
O desalento se abateu sobre Roran.
— Guarde o seu triunfo para depois, Loring. Isso não representou vitória nenhuma.
— Por que não? — perguntou Horst.
— Porque agora o Império sabe exatamente onde estamos. — O tombadilho ficou em silêncio enquanto tentavam compreender as implicações do que ele havia acabado de dizer.

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