27 de maio de 2017

Capítulo 53 - Um aliado inesperado

Roran já havia puxado o seu martelo do cinto e já estava para se levantar da cadeira quando ouviu o nome de seu pai. Foi a única coisa que o impediu de atravessar a sala com um salto para nocautear Jeod. Como ele sabe quem é Garrow? Ao seu lado, Loring e Birgit já tinham levantado num só pulo, sacaram facas de suas mangas, e até Nolfavrell já estava pronto para lutar com uma adaga na mão.
— Você é Roran, não? — perguntou Jeod calmamente. Ele não se mostrou nem um pouco alarmado com suas armas.
— Como você adivinhou?
— Porque Brom trouxe Eragon até aqui, e você se parece com seu primo. Quando vi o seu pôster ao lado de Eragon, deduzi que o Império devia ter tentado capturá-lo e você escapou. Embora — o olhar de Jeod se voltou para os outros três — mesmo com toda a minha imaginação, jamais pudesse suspeitar que você fosse trazer o resto de Carvahall com você.
Atordoado, Roran caiu novamente na cadeira e colocou o martelo no meio dos joelhos, à mão.
— Eragon esteve aqui?
— Sim. E Saphira também.
— Saphira?
Mais uma vez, a surpresa ficou estampada no rosto de Jeod.
— Você não sabe, então?
— Sei do quê?
Jeod refletiu por algum tempo.
— Acho que é chegada a hora de pararmos de fingir, Roran Garrowson, e falar abertamente e sem disfarces. Posso responder muitas das perguntas que você deve ter, como por que o Império o está perseguindo. Mas, em troca, preciso saber o motivo que o trouxe até Teirm... o verdadeiro motivo.
— E por que deveríamos confiar em você, Perna-de-pau? — interpelou Loring. — Você poderia estar trabalhando para Galbatorix.
— Fui amigo de Brom por mais de vinte anos, antes de ele virar contador de histórias em Carvahall — disse Jeod — e fiz o melhor que pude para ajudar ele e Eragon quando estiveram sob o meu teto. Mas como nenhum deles está aqui para atestar o meu caráter, coloco minha vida em suas mãos, para que façam o que quiserem. Poderia gritar por socorro, mas não o farei. Nem os enfrentarei. Tudo que lhes peço é que me contem sua história e escutem a minha. Então poderão decidir que maneira de agir será mais apropriada. Vocês não estão em perigo imediato, então qual é o problema em falar?
Birgit capturou o olhar de Roran com um movimento do queixo.
— Ele pode estar simplesmente tentando salvar sua pele.
— Talvez — respondeu Roran —, mas temos que descobrir o que ele sabe. — Com o braço por baixo da cadeira onde estava, ele a arrastou pela sala, colocou seu encosto contra a porta, e depois se sentou, para que ninguém pudesse irromper subitamente e pegá-los desprevenidos. Roran apontou seu martelo para Jeod. — Muito bem. Você quer falar? Então falemos, você e eu.
— Seria melhor se você falasse primeiro.
— Se eu o fizer e nós não ficarmos satisfeitos com suas respostas depois, teremos que matá-lo — avisou Roran.
Jeod cruzou os braços.
— Que seja assim, então.
Sem querer. Roran se impressionou com a firmeza do comerciante, Jeod parecia despreocupado com seu destino.
— Que seja assim — repetiu Roran.
Roran já havia revivido mentalmente os eventos que transcorreram desde a chegada dos Ra’zac em Carvahall muitas vezes, mas jamais os havia descrito detalhadamente para outra pessoa. Enquanto o fazia, ele ia ficando perplexo com tudo que acontecera a ele e aos outros aldeões em tão pouco tempo e como fora fácil para o Império destruir suas vidas no vale Palancar.
Ressuscitar antigos horrores foi doloroso para Roran, mas ele pelo menos teve o prazer de ver Jeod demonstrar uma admiração genuína quando ouviu o relato sobre como os aldeões haviam expulsado os soldados e os Ra’zac do seu acampamento, o cerco de Carvahall depois disso, a traição de Sloan, o rapto de Katrina, como Roran havia convencido os aldeões a fugir e as privações que tiveram durante a jornada até Teirm.
— Pelos Reis Perdidos! — exclamou Jeod. — Essa é uma história das mais extraordinárias que já ouvi! Pensar que você conseguiu se opor a Galbatorix e que neste momento o vilarejo inteiro de Carvahall está escondida nas cercanias de uma das maiores cidades do Império e o rei nem ao menos sabe disso... — Ele balançou a cabeça de admiração.
— Sim, essa é a nossa situação — resmungou Loring — e ela é, no máximo, precária, por isso é bom você explicar muito bem por que devemos correr o risco de deixá-lo viver.
— Isso me coloca numa situação um tanto... — Jeod parou assim que alguém balançou o trinco atrás da cadeira de Roran, tentando abrir a porta, e depois bateu nas tábuas de madeira. No corredor, uma mulher gritava:
— Jeod! Deixe-me entrar, Jeod! Você não pode se esconder nessa sua caverna.
— Posso? — murmurou Jeod.
Roran estalou os dedos para Nolfavrell, e o garoto lhe jogou a sua adaga. Ele deu a volta em torno da mesa e encostou o fio da lâmina na garganta de Jeod.
— Faça-a ir embora.
Levantando a voz, Jeod disse:
— Não posso falar agora, estou no meio de uma reunião.
— Mentiroso! Você não tem negócio nenhum. Está falido! Venha para fora e me encare, seu covarde! Você não é homem nem para encarar sua mulher de frente? — Ela parou por um segundo, como se estivesse esperando uma resposta, e então seus berros aumentaram de volume: — Covarde! Você é uma pessoa baixa e medrosa, um imbecil nojento e pusilânime que não tem juízo nem para tocar um frigorífico, quanto mais uma companhia de exportação. Meu pai jamais teria perdido tanto dinheiro!
Roran estremeceu enquanto os insultos continuavam. Não posso deter Jeod se ela continuar muito tempo.
— Fique quieta, mulher! — ordenou Jeod, e fez-se o silêncio. — Nossa sorte pode estar prestes a mudar para melhor se você tiver o bom senso de conter a sua língua e não ficar me insultando como se fosse a mulher de um peixeiro.
Sua resposta foi fria:
— Eu esperarei como você quer na sala de jantar, querido marido, e, a não ser que você resolva me escutar na hora da refeição noturna, eu deixarei esta maldita casa para nunca mais voltar. — O som dos seus passos foi sumindo à distância.
Quando ele se certificou de que a mulher havia partido, Roran tirou a adaga do pescoço de Jeod e devolveu a arma para Nolfavrell antes de se sentar novamente na cadeira encostada na porta.
Jeod esfregou o seu pescoço e depois, constrangidos, disse:
— Se não chegarmos a um entendimento, é melhor que você me mate, seria mais fácil do que explicar a Helen que eu gritei com ela a troco de nada.
— Você tem a minha compreensão, Perna-de-pau — disse Loring.
— Não é culpa dela... não mesmo. Ela simplesmente não entende por que tanto infortúnio se abateu sobre nós. — suspirou Jeod. — Talvez a culpa tenha sido minha por não ter ousado lhe contar.
— Contar o quê? — perguntou Nolfavrell.
— Que eu sou um agente dos Varden. — Jeod hesitou assim que percebeu suas expressões confusas. — Talvez eu deva começar do princípio. Roran, você ouviu rumores nos últimos meses da existência de um novo Cavaleiro que se opõe a Galbatorix?
— Murmúrios aqui e acolá, sim, mas nada a que eu possa dar algum crédito.
Jeod hesitou.
— Não sei outra maneira de lhe dizer isso, Roran... mas há um novo Cavaleiro na Alagaësia e ele é o seu primo, Eragon. A pedra que ele encontrou na espinha era de fato um ovo de dragão que eu ajudei os Varden a roubarem de Galbatorix há anos. O dragão saiu do ovo para Eragon e ele a batizou de Saphira. Foi por isso que os Ra’zac foram até o vale Palancar. Eles retornaram porque Eragon se tornou um inimigo temível do Império e Galbatorix esperava que, capturando você, pudesse colocá-lo num xeque-mate.
Roran jogou sua cabeça para trás e uivou de tanto gargalhar, até as lágrimas se amontoarem nos cantos dos seus olhos e seu estômago doer por causa das convulsões. Loring, Birgit e Nolfavrell o olharam com uma sensação parecida com a de medo, mas Roran não ligou para suas opiniões. Ele riu do absurdo da afirmação de Jeod. Riu da terrível possibilidade de Jeod ter contado a verdade.
Respirando de um jeito áspero, Roran foi aos poucos voltando ao normal, apesar de um acesso ocasional de risos sem graça. Esfregou o rosto com a manga de sua camisa e depois observou Jeod atentamente, com um sorriso duro nos lábios.
— Isso explica aos fatos, vou lhe dizer. Mas assim como uma meia dúzia de outras explicações nas quais pensei.
Birgit disse:
— Se a pedra de Eragon era um ovo de dragão, então de onde ele veio?
— Ah! — respondeu Jeod — essa é uma questão sobre a qual eu estou muito bem informado...
Confortável em sua cadeira, Roran ouviu, meio descrente, Jeod contar uma história fantástica sobre como Brom — o velho e rabugento Brom! — havia outrora sido um Cavaleiro e supostamente havia ajudado a fundar os Varden, como Jeod havia descoberto uma passagem secreta para Urû’baen, como os Varden fizeram para surrupiar os três últimos ovos de dragão de Galbatorix, e como um único ovo foi salvo depois que Brom enfrentou e matou Morzan dos Renegados. Como se isso não fosse absurdo o bastante, Jeod prosseguiu descrevendo um pacto entre os Varden, os anões e os elfos, de que o ovo deveria ser levado para algum lugar entre Du Weldenvarden e as montanhas Beor, e fora por isso que o ovo e os encarregados de levá-lo estavam perto dos limites da grande floresta quando caíram numa emboscada armada por um Espectro.
Um Espectro... há!, pensou Roran.
Cético como era, Roran prestou atenção com interesse redobrado quando Jeod começou a falar sobre Eragon encontrara o ovo e cuidar do dragão Saphira na floresta próxima à fazenda de Garrow. Roran andava ocupado na época — estava se preparando para viajar para o moinho de Dempton em Therinsford — mas se lembrou de como Eragon estava distraído, como passava todos os momentos que podia fora de casa. fazendo sabe-se lá o quê...
Enquanto Jeod explicava como e por que Garrow morreu, a raiva começou a se apossar de Roran por Eragon ter ousado manter em segredo o dragão, quando era tão óbvio que isso colocava todos em perigo. A culpa é dele por meu pai ter morrido!
— O que ele estava pensando? — vociferou Roran.
Ele odiou o jeito que Jeod o encarou com ar calmo e compreensivo.
— Duvido que Eragon se entendesse naquela situação. Cavaleiros e dragões estão tão intimamente ligados que é normalmente difícil diferenciar um do outro. Era tão difícil para ele ver Saphira ferida quanto cortar fora sua própria perna.
— Ele poderia — murmurou Roran. — Por causa dele, tive que fazer coisas muito dolorosas e bem sei... ele poderia.
— Você tem o direito de se sentir assim — disse Jeod —, mas não se esqueça de que o motivo que levou Eragon a deixar o vale Palancar era o desejo de proteger você e todos que lá ficaram. Imagino que tenha sido uma escolha extremamente difícil para ele fazer. Do ponto de vista de Eragon, ele se sacrificou para garantir a sua segurança e vingar o seu pai. E, embora partir não tenha surtido o efeito desejado, as coisas certamente teriam sido muito piores se Eragon tivesse ficado.
Roran não disse nada mais até Jeod mencionar que o motivo que levou Brom e Eragon a visitar Teirm era ver se eles podiam usar os manifestos de carga dos navios da cidade para localizar o covil dos Ra’zac.
— Eles conseguiram? — gritou Roran, assustando-se ao ponto de se levantar.
— De fato, nós conseguimos.
— Bem, onde eles estão, então? Pelo amor de Deus, homem, diga logo, você sabe como isso é importante para mim!
— De acordo com os registros, parece claro que o antro dos Ra’zac está na formação conhecida como Helgrind, perto de Dras-Leona. Depois até recebi uma mensagem dos Varden dizendo que o relato de Eragon confirmava isso.
Roran agarrou seu martelo com entusiasmo. É um longo caminho daqui até Dras-Leona, mas Teirm possui acesso para a única passagem aberta entre aqui e a extremidade sul da Espinha. Se eu conseguir fazer com que todos sigam com segurança pela costa, então poderia ir para essa tal de Helgrind, resgatar Katrina, caso ela esteja lá, e seguir pelo rio Jiet até Surda.
Uma parte dos pensamentos de Roran deve ter se revelado em seu rosto, pois Jeod disse:
— Isso não pode ser feito, Roran.
— O quê?
— Nenhum homem pode tomar Helgrind. É uma montanha de pedra maciça, negra, e impossível de ser escalada. Pense nas montarias pútridas dos Ra’zac, é bem provável que elas tenham um ninho perto do topo de Helgrind em vez de um leito no chão, onde ficam mais vulneráveis. Como, então, você os alcançaria? E, se conseguisse, será que realmente acredita que poderia derrotar ambos os Ra’zac e suas duas montarias, se é que não há mais deles? Não tenho dúvidas de que você é um guerreiro formidável. Afinal de contas, você e Eragon partilham do mesmo sangue. Mas esses adversários estão além de qualquer humano normal.
Roran balançou a cabeça.
— Não posso abandonar Katrina. Pode ser uma tentativa infrutífera, mas tenho que tentar libertá-la, mesmo que custe a minha vida.
— Não vai fazer bem algum a Katrina se você acabar morto — advertiu Jeod. — Se eu puder lhe dar um conselho: tente chegar a Surda como você planejou. Uma vez por lá, estou certo de que poderá pedir ajuda a Eragon. Nem mesmo os Ra’zac poderão se equiparar a um Cavaleiro e seu dragão num combate aberto.
Em sua imaginação, Roran viu as enormes feras de pele cinzenta em que os Ra’zac montavam. Ele relutava em reconhecer isso, mas sabia que tais criaturas estavam além da sua capacidade de matar, não importava a força da sua motivação. No instante em que aceitou tal verdade, Roran finalmente acreditou na história de Jeod — pois se não o fizesse, Katrina estaria perdida para sempre.
Eragon, pensou ele. Eragon! Pelo sangue que derramei e que coagulou em minhas mãos, juro sobre o túmulo do meu pai que farei com que você repare o que fez atacando Helgrind comigo. Se foi você que causou essa confusão, então eu farei com que ponha tudo em ordem.
Roran gesticulou para Jeod.
— Continue o seu relato. Vamos ouvir o resto dessa trama lamentável antes que o dia se ponha.
Então Jeod falou da morte de Brom, de Murtagh, filho de Morzan, da captura e da fuga em Gil’ead, de um voo desesperado para salvar um elfo, de Urgals, anões e de uma grande batalha que ocorreu num lugar chamado Farthen Dûr, onde Eragon derrotou um Espectro. E Jeod lhes falou sobre como os Varden deixaram as montanhas Beor e foram para Surda, e de como Eragon agora estava, naquele exato momento, metido no interior de Du Weldenvarden, aprendendo os segredos misteriosos da magia e das artes da guerra dos elfos, mas logo iria retornar.
Quando o comerciante silenciou, Roran se juntou a Loring, Birgit e Nolfavrell nos fundos da sala e pediu suas opiniões. Num tom de voz baixo, Loring disse:
— Não posso dizer se ele está mentindo ou não, mas qualquer homem capaz de contar uma história dessas sob a ameaça de uma faca merece viver. Um novo Cavaleiro! E Eragon, além disso! — Ele balançou a cabeça.
— Birgit? — perguntou Roran.
— Não sei. E tudo tão estranho... — hesitou. — Mas deve ser verdade. Outro Cavaleiro é a única coisa que poderia forçar o Império a nos perseguir de forma tão impetuosa.
— Sim — concordou Loring. Seus olhos cintilavam de entusiasmo. — Andávamos envolvidos em acontecimentos bem mais significativos do que imaginávamos. Um novo Cavaleiro. Pense nisso! A velha ordem está prestes a ser varrida, eu lhe digo... Você estava certo o tempo todo, Roran.
— Nolfavrell?
O garoto ficou todo sério quando lhe fizeram a pergunta. Ele mordeu o lábio e depois disse:
— Jeod está me parecendo honesto. Acho que podemos confiar nele.
— Muito bem — disse Roran. Ele andou novamente até onde Jeod estava, apoiou as articulações dos dedos na beirada da mesa e prosseguiu: — Duas últimas perguntas, Perna-de-pau. Como são Brom e Eragon? E como você reconheceu o nome de Gertrude?
— Sei de Gertrude porque Brom mencionou que deixou uma carta para você aos cuidados dela. Quanto à aparência dos dois: Brom era um pouco mais baixo do que eu. Ele tinha uma barba espessa, nariz curvo e carregava um bastão entalhado. E ouso dizer que ele ficava meio irritado de vez em quando. — Roran reconheceu, era Brom. — Eragon era... jovem. Cabelos e olhos castanhos, uma cicatriz no pulso, e nunca parava de fazer perguntas. — Roran reconheceu novamente, era o seu primo.
Roran enfiou o martelo novamente debaixo do seu cinto. Birgit, Loring e Nolfavrell embainharam suas facas. Então, Roran afastou sua cadeira da porta e os quatro voltaram a se sentar como seres civilizados.
— E agora, Jeod? — perguntou Roran. — Você pode nos ajudar? Sei que você está numa situação difícil, mas nós... estamos desesperados e não temos ninguém para nos acudir. Como agente dos Varden, você pode nos garantir a proteção deles? Estamos dispostos a servi-los caso nos protejam da ira de Galbatorix.
— Os Varden — disse Jeod — ficariam mais do que felizes em ter vocês. Mais do que felizes. Suspeito que você já tivesse imaginado isso. Quanto à ajuda... — Ele passou a mão no rosto e se voltou para Loring e para as fileiras de livros nas prateleiras. — Já estou a par, há quase um ano, de que a minha verdadeira identidade, assim como as de muitos outros comerciantes aqui e acolá que já ajudaram os Varden, foi entregue para o Império. Por causa disso, nunca ousei fugir para Surda. Se tentasse, o Império poderia me prender, e quem sabe então por quais horrores eu poderia passar? Tive que testemunhar a destruição gradual do meu negocio sem poder tomar nenhuma atitude para evitar. O que é pior, agora que não posso mandar nada para os Varden pelo mar, e eles não ousam mandar enviados para cá, é que passei a temer que o lorde Risthart me acorrentasse e me arrastasse para as masmorras, já que não interesso mais ao Império. Venho esperando por isso todo dia, desde que declarei falência.
— Talvez — sugeriu Birgit — eles queiram que você fuja para que possam capturar quem quer que você leve junto.
Jeod sorriu.
— Talvez. Mas agora que vocês estão aqui, tenho um meio de fugir que eles jamais poderiam prever.
— Então, você tem um plano? — perguntou Loring.
A alegria se espalhou pelo rosto de Jeod.
— Oh, sim, eu tenho um plano. Vocês quatro viram o navio Asa de Dragão atracado no porto?
Roran lembrou-se da embarcação.
— Sim.
— O Asa de Dragão pertence à Companhia de Navegação Blackmoor, pertence ao Império. Ele carrega suprimentos para o exército, que se mobilizou num nível alarmante recentemente, recrutou soldados entre os camponeses e requisitou cavalos, asnos e bois. — Jeod levantou uma sobrancelha. — Não estou certo do que isso indica, mas é possível que Galbatorix tenha a intenção de marchar sobre Surda. De qualquer maneira, o Asa de Dragão irá para Feinster durante a semana. E o melhor barco que já foi construído, foi feito a partir de um novo modelo idealizado pelo mestre e construtor naval Kinnell.
— E você quer tomá-lo — concluiu Roran.
— Sim. Não só para incomodar o Império ou porque o Asa de Dragão tenha a reputação de ser o mais rápido navio de sua tonelagem, mas porque ele já está totalmente abastecido para uma viagem longa. E como sua carga é comida, teríamos o suficiente para toda o vilarejo.
Loring deu uma gargalhada forçada.
— Espero que você possa guiá-lo sozinho, Perna-de-pau, pois nenhum de nós sabe lidar com algo maior do que uma chata.
— Alguns homens das tripulações dos meus barcos ainda estão em Teirm. Eles estão na mesma posição que eu, incapazes de lutar e de fugir. Tenho certeza de que não pensarão duas vezes se tiverem uma chance de ir para Surda. Eles lhes poderão ensinar o que fazer no Asa de Dragão. Não será fácil, mas não vejo alternativas.
Roran sorriu. O plano era bem ao seu gosto: rápido, decisivo e inesperado.
— Você mencionou — disse Birgit — que no ano passado nenhum dos seus navios, nem os dos outros comerciantes que servem aos Varden, chegaram aos seus destinos. Por que então essa missão será bem sucedida quando tantas outras falharam?
Jeod respondeu rápido:
— Porque a surpresa está do nosso lado. A lei requer que os navios mercantes submetam o seu itinerário para autorização junto à autoridade portuária pelo menos duas semanas antes da partida. Leva um bom tempo para preparar um barco para zarpar, por isso, se partirmos sem dar viso, pode demorar uma semana ou mais para Galbatorix armar naus para interceptá-lo. Se a sorte estiver do nosso lado, veremos pouca coisa além do mastaréu dos nossos perseguidores. Então — prosseguiu Jeod — se vocês estiverem dispostos a fazer essa tentativa, isso é o que precisamos fazer...

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Boa leitura :)