22 de maio de 2017

Capítulo 53 - Abençoe a criança, Argetlam

Eragon espreguiçou-se no corredor, ele estava doído por ter ficado sentado durante tanto tempo. Atrás dele, os gêmeos entraram na biblioteca de Ajihad e fecharam a porta. Eragon olhou para Orik.
— Sinto muito por você ter arranjado problemas por minha causa — desculpou-se Eragon.
— Não se incomode — resmungou Orik, puxando sua barba. — Ajihad me deu o que eu queria.
Até Saphira ficou surpresa com tal declaração.
— Como assim? — disse Eragon. — Você não pode treinar nem lutar, e está restrito a tomar conta de mim. Como isso pode ser o que você queria?
O anão olhou para ele de modo tranquilizador.
— Ajihad é um bom líder. Ele sabe como aplicar a lei e, ainda assim, ser justo. Fui punido pelo comando dele, mas também sou um dos súditos de Hrothgar. Sob o seu domínio, ainda sou livre para fazer o que desejar.
Eragon percebeu que seria imprudente esquecer a dupla lealdade de Orik e a natureza da divisão do poder dentro de Tronjheim.
— Ajihad colocou-o em uma posição poderosa, não foi?
Orik deu uma grande gargalhada.
— Sem dúvida nenhuma e, desse modo, os gêmeos não podem reclamar de nada. Isso, com certeza, vai irritá-los. Ajihad é muito esperto, se é. Vamos, rapaz, sei que deve estar faminto. E temos de alojar o seu dragão.
Saphira sibilou. Eragon disse:
— O nome dela é Saphira.
Orik se curvou levemente para ela.
— Minhas desculpas. Não me esquecerei disso. — Ele pegou um lampião laranja da parede e guiou-os pelo corredor.
— Há outros em Farthen Dûr que podem usar magia? — perguntou Eragon se esforçando para acompanhar o passo rápido do anão. Segurou Zar’roc cuidadosamente, ocultando com o braço o símbolo na bainha.
— Apenas alguns — disse Orik dando de ombros embaixo de sua cota de malha. — E os que podem usá-la não fazem mais do que curar machucados. Todos tiveram de se juntar para salvar Arya devido à força exigida para poder curá-la.
— Com exceção dos gêmeos.
— Sim — resmungou Orik. — Ela não ia querer mesmo que eles a ajudassem. A arte deles não é para curar. Os talentos deles se resumem a tramar e a fazer planos para obterem poder, em detrimento de todos os outros. Deynor, o predecessor de Ajihad, permitiu que se juntassem aos Varden porque precisava do apoio deles... ninguém pode se opor ao Império sem lançadores de encantos que possam se defender sozinhos em um campo de batalha. Eles formam um par detestável, mas, de fato, têm suas utilidades.
Eles entraram em um dos quatro túneis principais que dividiam Tronjheim. Aglomerados de anões e humanos andavam calmamente e vozes ecoavam alto no piso polido. As conversações cessaram de repente quando viram Saphira, um grande número de olhos fixou-se nela. Orik ignorou os espectadores e virou à esquerda, rumando para um dos distantes portões de Tronjheim.
— Aonde estamos indo? — perguntou Eragon.
— Para fora destes corredores, assim Saphira poderá voar até o refúgio para dragões chamado Estrela Rosa, que fica acima da Isidar Mithrim. Ele não tem teto, o pico de Tronjheim é aberto para o céu, como o de Farthen Dûr, então ela, quer dizer, você, Saphira, será capaz de voar diretamente para dentro do abrigo. Era lá onde os Cavaleiros ficavam quando visitavam Tronjheim.
— E não fica frio ou úmido sem um teto? — indagou Eragon.
— Não. — Orik balançou a cabeça. — Farthen Dûr nos protege das forças da natureza. Nem chuva nem neve podem entrar aqui. Além disso, as paredes do abrigo são orladas por cavernas de mármores para dragões. Elas provêm todo o abrigo necessário. Vocês só precisam temer as estalactites de gelo. Quando elas caem, dizem que podem dividir um cavalo em dois.
Eu ficarei bem, garantiu Saphira. Uma caverna de mármore é mais segura do que qualquer um dos lugares onde já dormimos.
Talvez... Você acha que Murtagh ficará bem?
Ajihad me parece ser um homem honrado. A não ser que Murtagh tente escapar, duvido que ele seja ferido.
Eragon cruzou os braços, indisposto a falar mais. Ele estava confuso devido à mudança nas circunstâncias do dia anterior. A fuga alucinada deles de Gil’ead estava finalmente terminada, mas seu corpo esperava continuar correndo e cavalgando.
— Onde estão nossos cavalos?
— No estábulo próximo ao portão. Podemos visitá-los antes de sairmos de Tronjheim.
Eles saíram de Tronjheim pelo mesmo portão por onde haviam entrado. Os grifos dourados fulgiam com um brilho colorido proporcionado pelo grupo de lampiões. O sol moveu-se durante a conversa de Eragon com Ajihad, pois a luz não entrava mais em Farthen Dûr pela abertura da cratera. Sem aqueles raios singelos, o interior da montanha oca ganhou um tom negro aveludado. A única iluminação vinha de Tronjheim, que cintilava brilhantemente na penumbra. O esplendor da cidade-montanha bastava para iluminar o solo a centenas de metros de distância.
Orik apontou para o pináculo branco de Tronjheim.
— Carne fresca e água da montanha esperam por você lá em cima — disse ele a Saphira. — Você pode ficar em qualquer uma das cavernas. Assim que fizer sua escolha, a roupa de cama será fornecida e ninguém irá perturbá-la.
— Achei que nós iríamos juntos. Não quero que fiquemos separados — protestou Eragon.
Orik voltou-se para ele.
— Cavaleiro Eragon, eu farei de tudo para acomodá-lo, mas será melhor se Saphira esperar no abrigo enquanto você se alimenta. Os túneis até os salões de refeições não são largos o bastante para que ela possa nos acompanhar.
— Por que não podem levar comida para mim lá no abrigo?
— Porque — disse Orik com uma expressão comedida — os alimentos são preparados aqui embaixo, e o caminho até lá em cima é muito longo. Se desejar, um criado poderá subir até o abrigo para levar comida para você. Vai levar algum tempo, mas assim você poderia comer junto com Saphira.
Ele falou sério, pensou Eragon surpreso com o fato de que fariam tamanho sacrifício por ele. Mas o modo como Orik falou o fez imaginar se o anão o estava testando de alguma maneira.
Estou exausta, disse Saphira. E parece que esse abrigo será do meu gosto. Vá, faça a sua refeição e depois me encontre onde eu estiver. Será agradável repousarmos juntos sem o temor de animais selvagens ou soldados. Sofremos as agruras da trilha durante muito tempo.
Eragon olhou pensativo para ela e disse para Orik:
— Comerei aqui embaixo. — O anão sorriu, parecendo satisfeito.
Eragon soltou a sela de Saphira para que ela pudesse deitar sem desconforto.
Você pode levar Zar’roc com você?
Posso, disse ela segurando a espada e a sela com as garras. Mas fique com seu arco. Devemos confiar nessas pessoas, mas nunca a ponto de beirar a tolice.
Eu sei, disse ele com inquietação.
Com um salto explosivo, Saphira varreu o chão com um golpe de ar e decolou. O som rápido e constante de suas asas batendo era o único que se ouvia na escuridão. Quando ela desapareceu depois da beira do pico de Tronjheim, Orik soltou um longo suspiro.
— Ah, rapaz, você é realmente abençoado. Senti no coração uma saudade repentina do céu aberto, dos penhascos altíssimos e da emoção de caçar como um falcão. Ainda assim, meus pés estão melhores no solo, preferivelmente, embaixo dele. — Ele bateu as palmas das mãos com força. — Negligenciei meus deveres de anfitrião. Sei que está sem jantar desde aquela refeição sofrível que os gêmeos acharam por bem servir a vocês. Então, venha, vamos encontrar os cozinheiros e tirar carne e pão deles!
Eragon seguiu o anão, voltando a entrar em Tronjheim e em um labirinto de corredores até que chegaram a um salão comprido, repleto de fileiras de mesas de pedra, altas o bastante somente para anões se sentarem. O fogo ardia nos fornos de pedra-sabão atrás de um longo balcão.
Orik pronunciou palavras, em uma língua desconhecida, para um anão robusto e de cara vermelha, que prontamente deu-lhes pratos de pedra repletos de cogumelos e peixes fumegantes. Depois, Orik guiou Eragon, vários lances de escada acima, até uma pequena alcova entalhada na muralha externa de Tronjheim, onde sentaram de pernas cruzadas. Eragon, sem dar uma palavra, começou a consumir seus alimentos.
Quando os pratos estavam vazios, Orik suspirou satisfeito e sacou um cachimbo de cabo comprido.
Ele o acendeu dizendo:
— Foi um repasto merecido, embora precisasse de uma bela golada de hidromel para fazê-lo descer apropriadamente.
Eragon inspecionou o terreno lá embaixo.
— Vocês cultivam em Farthen Dûr?
— Não, só há luz do sol bastante para musgos, cogumelos e fungos. Tronjheim não pode sobreviver sem os suprimentos que vêm dos vales vizinhos, razão pela qual muitos de nós escolheram viver em outros locais nas montanhas Beor.
— Então, os anões têm outras cidades?
— Não temos tantas quanto gostaríamos. E Tronjheim é a maior delas todas. — Apoiando-se em um cotovelo, Orik deu uma forte tragada em seu cachimbo. — Você viu apenas os níveis mais baixos, então não ficou evidente, porém a maior parte de Tronjheim é deserta. Quanto mais alto você subir, mais vazio ficará. Andares inteiros permanecem intocados há séculos. A maioria dos anões prefere habitar embaixo de Tronjheim e de Farthen Dûr, nas cavernas e passagens que perfuram a pedra. Com o passar dos séculos, construímos, exaustivamente, túneis embaixo das montanhas Beor. É possível ir de um extremo ao outro da cordilheira sem pôr o pé na superfície.
— Parece um desperdício ter todo aquele espaço em Tronjheim sem estar sendo usado — comentou Eragon.
Orik concordou com a cabeça.
— Alguns já debateram em prol de abandonarmos este lugar devido ao seu consumo elevado dos nossos recursos, mas Tronjheim realiza um papel incomensurável.
— Qual?
— Em tempos de aflição, ela pode abrigar nossa nação inteira. Em apenas três momentos na história fomos forçados a recorrer a esse extremo, mas em todas as vezes a cidade nos salvou da destruição certeira. É por isso que sempre a mantemos guarnecida, pronta para ser usada.
— Eu nunca vi algo tão magnífico — admitiu Eragon.
Orik sorriu pegando seu cachimbo.
— Fico feliz porque você pensa assim. Foram precisas gerações para construírem Tronjheim, e nossas vidas são muito mais longas do que as dos homens. Infelizmente, por causa do Império perverso, poucos forasteiros conseguem admirar sua glória.
— Quantos dos Varden estão aqui?
— Anões ou humanos?
— Humanos... Quero saber quantos fugiram do Império.
Orik exalou uma longa baforada de fumaça que se enroscou preguiçosamente na cabeça dele.
— Há por volta de uns quatro mil de sua espécie aqui. Mas esse não é um bom indicador para o que você quer saber. Só as pessoas que desejam lutar vêm para cá. O resto delas está sob a proteção do rei Orrin em Surda.
Tão poucos? Pensou Eragon um tanto decepcionado. Só o exército real contava com quase dezesseis mil soldados quando todos eram convocados, sem contar os Urgals.
— Por que Orrin não luta contra o Império? — perguntou ele.
— Se Orrin demonstrasse qualquer hostilidade — respondeu Orik —, Galbatorix acabaria com ele. Mesmo assim, Galbatorix evita tal destruição por considerar Surda uma ameaça menor, o que é um erro. É devido à ajuda de Orrin que os Varden recebem a maior parte de suas armas e de seus suprimentos. Sem ele, não haveria resistência ao Império. Não fique decepcionado com o número de humanos em Tronjheim. Há muitos anões aqui, muitos mais do que você viu, e todos lutarão quando chegar a hora. Orrin também prometeu nos enviar tropas quando formos lutar com Galbatorix. Os elfos também juraram nos ajudar.
Eragon, distraidamente, fez contato mental com Saphira e viu que ela estava ocupada comendo um grande pedaço de carne sangrento com muito gosto. Notou mais uma vez o martelo e as estrelas entalhadas no capacete de Orik.
— O que isso significa? Vi isso no piso em Tronjheim.
Orik ergueu o capacete de ferro da cabeça e passou um dedo grosso sobre o entalhe.
— Este é o símbolo do meu clã. Nós somos os Ingietum, ferreiros e mestres na forja de metais. O martelo e as estrelas estão incrustados no chão de Tronjheim porque eram a insígnia pessoal de Korgan, nosso patriarca. Um clã para governar, com mais doze à sua volta. O rei Hrothgar também é Durgrimst Ingietum e proporcionou muita glória e honra à minha casa.
Quando devolveram os pratos ao cozinheiro, passaram por um anão no corredor. Ele parou na frente de Eragon, se curvou e disse respeitosamente:
— Argetlam.
O anão deixou Eragon atrapalhado para responder, corado e com o rosto encabulado, mas também estranhamente satisfeito com tal gesto. Ninguém havia se curvado perante ele antes.
— O que ele disse? — perguntou Eragon inclinando-se para ficar mais perto de Orik.
Orik deu de ombros, sem jeito.
— É uma palavra da língua dos elfos que era usada para se referir aos Cavaleiros. Ela significa “mão prateada”. — Eragon olhou de relance para sua mão enluvada, pensando na gëdwey ignasia que embranqueceu a sua palma. — Você deseja voltar para Saphira?
— Há algum lugar onde eu possa me banhar antes? Não tenho a chance de me livrar da sujeira da estrada há muito tempo. Além disso, minha camisa está manchada de sangue, rasgada e fedendo. Eu gostaria de substituí-la, mas não tenho dinheiro para comprar uma nova. Há como eu trabalhar para poder pagar por uma camisa?
— Você pretende insultar a hospitalidade de Hrothgar, Eragon? — Inquiriu Orik. — Enquanto estiver em Tronjheim, você não terá de comprar nada. Você pagará por tudo de outra maneira, Ajihad e Hrothgar cuidarão disso. Venha. Mostrarei onde você poderá tomar um banho e, depois, pegarei uma camisa para você.
Ele desceu com Eragon uma longa escadaria até que estivessem bem abaixo de Tronjheim. Agora, os corredores eram túneis, que apertavam Eragon, pois tinham apenas um metro e meio de altura, e todos os lampiões eram vermelhos.
— Desta forma, a luz não vai cegá-lo quando sair ou entrar em uma caverna escura — explicou Orik. Entraram em um cômodo vazio em que havia uma porta pequena no lado oposto. Orik apontou.
— As piscinas ficam ali, onde você também achará escovões e sabão. Deixe suas roupas aqui. Haverá novos trajes esperando por você quando sair.
Eragon agradeceu-lhe e começou a se despir. Era um pouco sufocante estar sozinho embaixo da terra, especialmente com um teto de pedra tão baixo. Tirou as roupas rapidamente e, com frio, saiu pela porta, entrando na total escuridão. Deu pequenos passos à frente até que seu pé tocasse a água morna. Depois, relaxou ao entrar nela.
A água da piscina era um tanto salobra, mas reconfortante e calmante. Por um momento, ele ficou com medo de boiar para longe da porta, indo para um lugar mais fundo, mas jogou-se para a frente e descobriu que a água batia apenas em sua cintura. Tateou em uma parede escorregadia até achar o sabão e os escovões, e começou a esfregar-se. Depois, boiou com os olhos fechados, aproveitando o calor.
Quando emergiu, pingando, e entrou no cômodo iluminado, ele encontrou uma toalha, uma delicada camisa de linho e uma calça curta. As roupas couberam nele razoavelmente bem. Satisfeito, saiu, entrando no túnel.
Orik esperava por ele com o cachimbo na mão. Voltaram a subir as escadas até Tronjheim e saíram da cidade-montanha. Eragon olhou de relance para o pico de Tronjheim e chamou Saphira ao fazer contato mental. Enquanto ela descia voando do abrigo para dragões, ele perguntou:
— Como vocês se comunicam com as pessoas no topo de Tronjheim?
Orik deu uma risada.
— Esse problema foi sanado há muito tempo. Você não notou, mas atrás dos arcos abertos, que ladeiam cada andar, há uma escadaria singular, ininterrupta, que se espirala em volta da parede da câmara central de Tronjheim. A escada sobe até o abrigo para dragões acima da Isidar Mithrim. Nós a chamamos de Vol Turin, a Escadaria Sem Fim. Subir ou descer essa escada rapidamente não é apropriado para emergências e também não é conveniente para o uso casual. Em vez disso, fazemos sinais com os lampiões para transmitir mensagens. Mas também existe outro meio, embora seja usado raramente. Quando Vol Turin foi construída, uma canaleta polida foi aberta ao lado dela. Tal canaleta age como um escorrega gigante tão alto quanto a montanha.
Os lábios de Eragon se contorceram em um sorriso.
— E é perigoso?
— Nem pense em usá-lo. O escorrega foi feito para anões, é estreito demais para os homens. Se você escorregasse para fora dele, poderia ser jogado contra as escadas, contra os arcos ou, até mesmo, no espaço vazio.
Saphira pousou a poucos metros de distância, suas escamas raspavam umas nas outras secamente.
Quando ela cumprimentou Eragon, humanos e anões fluíram para fora de Tronjheim, agrupando-se em volta dela, fazendo comentários interessados. Eragon observou a multidão que aumentava desordenadamente.
— É melhor você ir — disse Orik empurrando-o para a frente. — Encontre-me neste portão amanhã de manhã. Estarei esperando.
Eragon hesitou.
— Como saberei que o dia amanheceu?
— Mandarei alguém acordá-lo. Agora, vá! — Sem protestar, Eragon espremeu-se, atravessando o grupo de pessoas que se acotovelavam e cercavam Saphira, e montou nas suas costas.
Antes que ela pudesse decolar, uma anciã deu um passo à frente e agarrou o pé de Eragon com um apertão violento. Tentou desvencilhar-se, mas a mão dela parecia uma garra de aço em volta de seu tornozelo; ele não conseguia se livrar do apertão tenaz. Os olhos ardentes e cinzentos que ela fixou nele estavam cercados por rugas cultivadas durante uma vida inteira, a pele estava dobrada em pregas profundas que se estendiam em suas maçãs do rosto caídas. Uma trouxa esfarrapada estava pendurada na dobra do seu braço esquerdo.
Assustado, Eragon perguntou:
— O que a senhora quer?
A mulher inclinou o braço, e um pano caiu da trouxa, revelando o rosto de um bebê. Rouca e aflita, ela disse:
— A criança não tem pais. Não há ninguém que possa cuidar dela, apenas eu, mas estou fraca. Abençoe-a com o seu poder, Argetlam. Abençoe-a para que tenha sorte!
Eragon olhou para Orik em busca de ajuda, mas o anão apenas olhou para ele com uma expressão séria no rosto. A pequena multidão ficou em silêncio, esperando a resposta. Os olhos da mulher ainda estavam pregados nele.
— Abençoe-a, Argetlam, abençoe-a — insistiu ela.
Eragon nunca havia abençoado alguém. Isso não era algo que se fazia levianamente em Alagaësia, pois uma bênção poderia, facilmente, dar errado, e mostrar ser mais uma maldição do que uma dádiva, especialmente se fosse dada com má intenção ou falta de convicção. Será que posso ousar aceitar tal responsabilidade?, pensou ele.
— Abençoe-a, Argetlam, abençoe-a.
De repente, convicto, procurou uma frase ou expressão para usar.
Nada veio à mente até que, inspirado, pensou na língua antiga. Isso seria uma verdadeira bênção, dada com as palavras do poder, por alguém de poder.
Ele inclinou-se e puxou a luva de sua mão direita. Repousando a palma na testa do bebê, ele entoou:
— Atra gulai un ilian tauthr ono un atra ono waíse skölir frá rauthr.
As palavras deixaram-no, inesperadamente, fraco, como se tivesse usado magia. Ele, lentamente, voltou a calçar a luva e disse à mulher:
— Isso é tudo que posso fazer por ela. Se existem palavras que possam prevenir uma tragédia, são essas.
— Obrigada, Argetlam — sussurrou ela, curvando-se levemente. Começou a cobrir o bebê de novo, mas Saphira bufou e virou-se até que sua cabeça pairasse acima da criança. A mulher ficou paralisada, sua respiração ficou presa no peito. Saphira abaixou o focinho e tocou o bebê entre os olhos com a ponta do nariz, depois, ergueu a cabeça delicadamente.
A multidão inteira suspirou, pois na testa da criança, onde Saphira a havia tocado, uma estrela se formou tão branca e brilhante quanto a gëdwey ignasia de Eragon. A mulher olhou fixamente para Saphira com uma expressão exaltada, com uma gratidão muda estampada nos olhos.
Imediatamente, Saphira alçou voo, golpeando os espectadores espantados com o vento produzido por suas fortes batidas de asa. Conforme o chão diminuía embaixo deles, Eragon respirou fundo e abraçou o pescoço dela com força.
O que você fez?, perguntou ele baixinho.
Eu dei a ela esperança. E você deu a ela um futuro.
A solidão, de repente, tomou conta de Eragon apesar da presença de Saphira. O ambiente que o cercava era estranho demais, pela primeira vez percebeu o quanto estava longe de casa. Uma casa destruída, mas ainda era onde seu coração morava.
O que eu me tornei, Saphira?, perguntou ele. Estou apenas no primeiro ano da minha idade adulta, porém já tive uma reunião com o líder dos Varden, sou perseguido por Galbatorix, viajei na companhia do filho de Morzan e, agora, as pessoas me procuram para ganhar bênçãos! Que conselhos posso dar às pessoas que elas já não tenham recebido? Que feitos posso realizar que um exército não possa fazer melhor? É uma insanidade! Eu devia estar em Carvahall com Roran!
Saphira levou um longo tempo para responder, mas suas palavras saíram delicadamente.
Um filhote recém-nascido. É isso que você é. Um filhote! Lutando para ganhar seu lugar no mundo. Posso ser mais jovem do que você em anos, mas sou idosa em meus pensamentos. Não se preocupe com essas coisas. Encontre a paz onde e no que você for. As pessoas amiúde sabem o que deve ser jeito. Tudo o que você precisa fazer é mostrar-lhes o caminho, isso é um conselho sábio. Quanto aos feitos, nenhum exército poderia ter dado a bênção que você deu.
Mas aquilo não foi nada, protestou ele. Foi insignificante.
Pelo contrário, nada disso. O que você viu foi o começo de outra história, outra lenda. Você acha que aquela criança vai se contentar em ser atendente em uma taverna ou uma fazendeira, depois de ter a testa marcada por um dragão e suas palavras impostas a ela? Você está subestimando nosso poder e a força do destino.
Eragon inclinou a cabeça.
É avassalador. Sinto como se estivesse vivendo uma ilusão, um sonho em que todas as coisas são possíveis. Coisas incríveis acontecem de verdade, eu sei, mas sempre com outras pessoas, sempre em um lugar distante e em outro tempo. Mas encontrei o seu ovo, fui instruído por um Cavaleiro e travei um duelo com um Espectro. E essas não podem ser ações do simples rapaz do campo que sou, ou era. Alguma coisa está me modificando.
É o seu destino que o molda, disse Saphira. Todas as épocas precisam de um ícone, talvez essa condição tenha caído sobre você. Jovens do campo não recebem o nome do primeiro Cavaleiro por acaso. O seu homônimo foi o começo, agora você é a continuação. Ou o fim.
Ah! Disse Eragon, balançando a cabeça. É como se falássemos em charadas... Mas se tudo isso era predestinado, será que nossas escolhas têm alguma importância? Ou será que devemos aprender a aceitar nosso destino?
Saphira disse com determinação:
Eragon, escolhi você de dentro do meu ovo. Você recebeu uma chance pela qual muitos morreriam. Não está satisfeito com isso? Livre sua mente de tais pensamentos. Eles não podem ser respondidos e não o deixarão mais feliz.
De fato, disse ele com tristeza. Mesmo assim, eles continuam a se agitar dentro do meu crânio.
As coisas têm sido... Confusas... Desde que Brom morreu. Isso me deixou inquieta, reconheceu Saphira, o que o surpreendeu, pois ela raramente parecia estar confusa. Os dois agora estavam sobre Tronjheim. Eragon olhou para baixo, através da abertura em seu pico e viu o chão do abrigo para dragões, nele estava Isidar Mithrim, a grande estrela de safira. Ele sabia que embaixo dela não havia nada, exceto a grande câmara central de Tronjheim. Saphira desceu até o abrigo planando, sem fazer barulho com as asas.
Planou suavemente por cima de sua borda, descendo em direção a Isidar Mithrim, pousando com o baque seco de suas garras.
Você não vai arranhá-la?, perguntou Eragon.
Acho que não. Não é uma gema qualquer.
Eragon desmontou de Saphira e, lentamente, virou-se fazendo um círculo, absorvendo aquela visão incomum. Estavam em um cômodo sem teto, com dezoito metros de largura por dezoito metros de altura. As paredes eram pontilhadas pelas entradas escuras das cavernas, que tinham vários tamanhos, desde grutas pouco maiores do que um homem a enormes cavernas maiores do que uma casa. Havia degraus brilhantes nas paredes de mármore para que as pessoas pudessem chegar às cavernas mais altas. Uma enorme passagem arqueada servia de saída para o abrigo para dragões.
Eragon examinou a enorme pedra preciosa embaixo de seus pés e, impulsivamente, deitou em cima. Apertou o rosto contra a safira gelada, tentando ver através dela. Linhas distorcidas e pontos coloridos dançantes brilhavam fracamente através da pedra, mas sua espessura tornava impossível discernir com clareza qualquer coisa que estivesse no chão da câmara a quase dois mil metros abaixo deles.
Eu terei de dormir longe de você?
Saphira balançou sua cabeça enorme.
Não. Há uma cama para você na minha caverna. Venha ver.
Ela virou-se e, sem abrir as asas, deu um pulo para cima, de seis metros de altura, pousando em uma caverna de tamanho médio. Ele escalou as paredes, indo atrás dela.
Por dentro, a caverna era marrom-escura e muito mais profunda do que ele esperava. As paredes entalhadas irregularmente davam a impressão de uma formação natural. Perto da extremidade oposta havia uma grossa almofada, grande o bastante para que Saphira pudesse se enroscar sobre ela. Ao lado, havia uma cama entalhada na parede lateral. A caverna era iluminada por apenas um lampião vermelho, equipado com uma pequena persiana para que sua luz fosse apagada.
Gostei daqui, disse Eragon. Passa segurança.
De fato. Saphira enrolou-se em cima da almofada, observando-o.
Com um suspiro, ele afundou no colchão, a exaustão permeava o corpo dele.
Saphira, você não falou muito desde que chegamos aqui. O que você acha de Tronjheim e Ajihad?
Vamos ver... Parece, Eragon, que estamos envolvidos em um novo tipo de operação militar. Espadas e garras são inúteis, mas palavras e alianças podem ter o mesmo efeito. Os gêmeos não gostam de nós, devemos ficar atentos quanto aos atos fraudulentos que eles possam tramar. Poucos anões confiam em nós. Os elfos não queriam um Cavaleiro humano, então também haverá uma oposição por parte deles. O melhor que podemos fazer é identificar aqueles que estão no poder e nos tornarmos amigos deles. E rapidamente, também.
Você acha possível continuarmos independentes dos diferentes líderes?
Ela arrastou as asas, colocando-as em uma posição mais confortável.
Ajihad apoia nossa liberdade, mas talvez nossa sobrevivência se torne difícil se não jurarmos lealdade a um grupo ou a outro. Logo saberemos o que acontecerá.

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