22 de maio de 2017

Capítulo 52 - Ajihad

Eragon entrou em uma elegante biblioteca de dois andares cujas paredes estavam cobertas por prateleiras de cedro. Uma escadaria de ferro fundido se contorcia até chegar a uma pequena plataforma elevada com duas cadeiras e uma mesa para leitura. Lampiões brancos pendiam nas paredes e no teto, de modo que se podia ler um livro em qualquer ponto do aposento. O piso de pedra estava coberto por uma intrincada tapeçaria oval. No lado oposto do cômodo, havia um homem em pé atrás de uma mesa de nogueira.
A sua pele resplandecia a cor de ébano oleado. A cabeça era completamente raspada, mas uma barba preta muito bem aparada cobria seu queixo e lábio superior. Traços fortes sombreavam o rosto, e seus olhos sérios e inteligentes espreitavam embaixo de suas sobrancelhas. Os ombros eram largos e fortes, enfatizados por um colete vermelho bordado com fios dourados, que estava por cima de uma camisa cor de púrpura. Ele se portava com grande dignidade, passando um intenso ar de comando. Quando ele falou, sua voz era forte e confiante:
— Bem-vindos a Tronjheim, Eragon e Saphira. Eu sou Ajihad. Por favor, sentem-se.
Eragon ajeitou-se em uma poltrona perto de Murtagh, enquanto Saphira se acomodou de modo protetor atrás deles. Ajihad ergueu a mão e estalou os dedos. Um homem saiu de trás da escada. Era idêntico ao homem calvo que estava ao lado dele. Eragon olhou admirado para os dois e Murtagh ficou tenso.
— A confusão de vocês é compreensível, eles são irmãos gêmeos — disse Ajihad com um pequeno sorriso. — Eu lhes diria os nomes deles, mas eles não os têm.
Saphira sibilou com aversão. Ajihad a observou por um momento, depois sentou-se em uma cadeira de encosto alto atrás da mesa. Os gêmeos se retraíram para trás da escada e ficaram em pé, impassíveis, lado a lado. Ajihad pressionava os dedos, uns contra os outros, enquanto olhava atentamente para Eragon e Murtagh. Ele os estudou durante um longo tempo com um olhar resoluto.
Eragon mostrou-se constrangido, desconfortável. Depois do que pareceram ser vários minutos, Ajihad abaixou as mãos e acenou para os gêmeos. Um deles foi correndo para o lado de Ajihad, que sussurrou no ouvido dele. O homem calvo, de repente, ficou pálido e balançou a cabeça vigorosamente.
Ajihad franziu a testa, depois concordou com a cabeça como se algo tivesse sido confirmado.
Ele olhou para Murtagh.
— Você me colocou em uma posição difícil ao se recusar a ser examinado. Você só recebeu permissão para entrar em Farthen Dûr, porque os gêmeos me garantiram que poderiam controlá-lo e por causa das suas ações em favor de Eragon e Arya. Entendo que pode haver coisas que queira manter ocultas em sua mente, mas enquanto fizer isso, não poderemos confiar em você.
— Vocês não confiariam em mim de qualquer maneira — disse Murtagh desafiadoramente.
O rosto de Ajihad ficou obscuro quando Murtagh falou, e os olhos dele brilharam perigosamente.
— Embora vinte e três anos tenham passado desde que ouvi essa voz... Eu ainda a reconheço. — Ele ficou em pé de uma maneira ameaçadora, seu peito encheu-se. Os gêmeos ficaram alarmados e juntaram as cabeças, sussurrando de maneira frenética. — Ela saiu de outro homem, que parecia mais um animal do que uma pessoa. Levante-se.
Murtagh obedeceu preocupado, os olhos dele iam freneticamente dos gêmeos para Ajihad.
— Tire a camisa — ordenou Ajihad. Dando de ombros, Murtagh retirou sua túnica. — Agora, vire-se. — Enquanto ele se virava para o lado, a luz começou a iluminar a cicatriz nas costas dele.
— Murtagh — proferiu Ajihad. Um sussurro de surpresa emanou de Orik. Sem dar aviso, Ajihad virou-se para os gêmeos e gritou: — Vocês sabiam disso?
Os gêmeos curvaram a cabeça.
— Descobrimos o nome dele na mente de Eragon, mas não suspeitávamos que este garoto era filho de alguém tão poderoso quanto Morzan. Nunca nos ocorreu...
— E vocês não me disseram nada? — perguntou Ajihad. Ele ergueu uma das mãos, interrompendo a explicação deles. — Falaremos sobre isso depois. — Virou-se para Murtagh de novo. — Primeiro, preciso resolver essa confusão. Você ainda se recusa a ser examinado?
— Eu me recuso — respondeu Murtagh de modo direto, voltando a vestir sua túnica. — Não deixarei que ninguém entre na minha mente.
Ajihad se apoiou em sua mesa.
— Haverá consequências desagradáveis se você não deixar. Até os gêmeos garantirem que você não é uma ameaça, não podemos lhe dar credibilidade, apesar, e talvez por causa, da assistência que você deu a Eragon. Sem essa verificação, as pessoas daqui, anões e humanos, vão fazê-lo em pedaços se souberem da sua presença. Serei forçado a confiná-lo o tempo todo, tanto para a sua proteção quanto para a nossa. E a situação só vai piorar quando Hrothgar, rei dos anões, exigir a sua custódia. Não se coloque em uma situação que pode ser resolvida facilmente.
Murtagh balançou a cabeça com teimosia.
— Não... E mesmo que me submetesse, eu ainda continuaria sendo tratado como um leproso e um excluído. O meu único desejo é partir. Se você me deixar fazer isso pacificamente, nunca revelarei a localização de vocês para o Império.
— O que acontecerá se você for preso e levado para Galbatorix? — perguntou Ajihad. — Ele arrancará todos os segredos da sua mente, não importa a força que você tenha. Mesmo que você consiga resistir, qual é a certeza que temos de que não se juntará a ele no futuro? Não posso correr esse risco.
— Vocês me manterão prisioneiro para sempre? — inquiriu Murtagh ajeitando-se, ficando ereto.
— Não — disse Ajihad. — Só até quando você permitir que seja examinado. Se for considerado confiável, os gêmeos removerão todas as informações sobre a localização de Farthen Dûr da sua mente antes de você partir. Não correremos o risco de alguém com essas informações cair nas mãos de Galbatorix. O que será feito, Murtagh? Decida rápido ou o caminho será traçado para você.
Pare de resistir, implorou Eragon em silêncio preocupado com a segurança de Murtagh. Essa briga não vale a pena.
Então, Murtagh falou. As palavras saíram lenta e nitidamente:
— Minha mente é o único santuário que ainda não foi roubado de mim. Homens já tentaram invadi-la antes, mas aprendi a defendê-la vigorosamente, pois o único lugar onde estou seguro é junto aos meus pensamentos mais profundos. Você me pediu a única coisa que não posso dar, muito menos para esses dois. — Ele apontou para os gêmeos. — Faça comigo o que quiser, mas saiba disso: a morte me levará antes que eu me exponha ao escrutínio deles.
A admiração brilhou nos olhos de Ajihad.
— Não estou surpreso com sua escolha, embora esperasse o contrário... guardas! — A porta de cedro se abriu de repente, e os guerreiros entraram com armas a postos. Ajihad apontou para Murtagh e ordenou: — Levem-no para um quarto sem janelas e fechem bem a porta. Deixem seis homens de guarda e não permitam a entrada de ninguém até que eu vá falar com ele. E também não falem com ele.
Os guerreiros cercaram Murtagh, olhando-o desconfiados. Conforme saíam da biblioteca, Eragon chamou a atenção de Murtagh e balbuciou:
— Sinto muito.
Murtagh deu de ombros, depois olhou para a frente resoluto. Ele desapareceu no corredor com os soldados. O som dos passos foram sumindo lentamente no silêncio.
Ajihad disse de repente:
— Quero todos fora deste local, com exceção de Eragon e Saphira. Agora!
Curvando-se, os gêmeos saíram, mas Orik disse:
— Senhor, o rei vai querer saber de Murtagh. E ainda há a questão da minha insubordinação...
Ajihad franziu o rosto e, depois, fez um gesto com a mão.
— Eu mesmo falarei com Hrothgar. Quanto aos seus atos... espere do lado de fora até eu chamá-lo. E não deixe os gêmeos irem embora. Eu também ainda não terminei o que tenho de tratar com eles.
— Perfeitamente — disse Orik, inclinando a cabeça. Ele fechou a porta com um baque sólido.
Depois de um longo silêncio, Ajihad sentou-se dando um suspiro de cansaço. Passou uma das mãos no rosto e olhou fixamente para o teto. Eragon esperou impacientemente até que ele falasse. Como nada acontecia, ele disse de repente:
— Arya está bem?
Ajihad baixou o olhar em direção a ele e disse seriamente:
— Não... mas os curandeiros me disseram que ela vai se recuperar. Eles cuidaram dela durante a noite toda. O veneno a debilitou terrivelmente. Ela não teria sobrevivido se não fosse por você. Por causa disso, você tem os agradecimentos mais sinceros dos Varden.
Os ombros de Eragon caíram aliviados. Pela primeira vez, ele achou que o esforço do voo deles em Gil’ead tinha valido a pena.
— Então, e agora? — perguntou ele.
— Preciso que você me conte como achou Saphira e tudo que aconteceu desde então — disse Ajihad, formando uma torre com os dedos. — Já sei alguns detalhes por causa da mensagem que Brom nos mandou, e os gêmeos me contaram outras partes. Mas quero ouvir de você, especialmente os detalhes sobre a morte de Brom.
Eragon ficou relutante em compartilhar suas experiências com um estranho, mas Ajihad era paciente.
Conte, Saphira encorajou gentilmente. Eragon mexeu-se na poltrona e começou sua história. Tudo pareceu estranho no início, mas foi ficando mais fácil conforme ele contava os detalhes. Saphira ajudou-o a se lembrar de coisas claramente ao fazer comentários ocasionais. Ajihad ouviu atentamente o tempo todo.
Eragon falou durante horas, frequentemente fazendo uma pausa entre suas palavras. Contou a Ajihad sobre Teirm, embora tivesse mantido as previsões de Angela para si mesmo. E como ele e Brom encontraram os Ra’zac. Revelou até seus sonhos sobre Arya. Quando chegou a Gil’ead, mencionou o Espectro. O rosto de Ajihad ficou com uma expressão séria e ele recostou-se na cadeira com os olhos cobertos.
Quando sua narrativa estava completa, Eragon ficou em silêncio, pensando em tudo que havia ocorrido. Ajihad levantou-se, entrelaçou as mãos nas costas e começou a observar distraidamente uma das prateleiras de livros. Depois de um tempo, voltou para a mesa.
— A morte de Brom foi uma perda terrível. Era um grande amigo meu e um poderoso aliado dos Varden. Ele nos livrou da destruição várias vezes, usando sua coragem e inteligência. Até agora, mesmo estando morto, nos deu a única coisa que pode garantir nosso sucesso: você.
— Mas o que espera que eu realize? — perguntou Eragon.
— Explicarei tudo em detalhes — disse Ajihad. — Mas devemos cuidar de questões mais urgentes primeiro. A notícia da aliança dos Urgals com o Império é extremamente preocupante. Se Galbatorix está formando um exército de Urgals para nos destruir, os Varden sofrerão pressão para poder sobreviver, embora muitos de nós estejam protegidos aqui em Farthen Dûr. Um Cavaleiro, até mesmo um tão maldoso quanto Galbatorix, fazer um pacto com tais monstros é, de fato, uma prova de loucura. Tenho medo até de pensar no que ele prometeu aos monstros em recompensa pela lealdade instável deles. E também há o Espectro. Pode descrever como era tal criatura?
Eragon fez que sim com a cabeça.
— Era alto, magro, muito pálido e com cabelos e olhos vermelhos. Ele estava vestido de preto.
— E quanto à espada dele? Você viu? — perguntou Ajihad energicamente. — Havia um arranhão longo na lâmina?
— Havia — respondeu Eragon surpreso. — Como sabia?
— Porque fui eu que o coloquei lá quando tentava arrancar o coração dele — Ajihad disse com um sorriso macabro. — O nome dele é Durza, um dos inimigos mais cruéis e astuciosos que já passaram por essas terras. Ele é o servo perfeito para Galbatorix e um perigoso inimigo para nós. Você disse que o mataram. Como foi?
Eragon se lembrava de tudo claramente.
— Murtagh o atingiu duas vezes. A primeira flecha acertou-o no ombro, a segunda, bem no meio dos olhos.
— Eu temia isso — disse Ajihad, franzindo o rosto. — Vocês não o mataram. Espectros só podem ser destruídos com um golpe certeiro no coração. Qualquer coisa que não seja isso faz que eles sumam e apareçam em outro lugar na forma de espírito. É um processo doloroso, mas Durza sobreviverá e voltará mais forte do que nunca.
Um silêncio deprimente pairou sobre eles como uma profetizante nuvem de trovão. Depois, Ajihad afirmou:
— Você é um enigma, Eragon, um dilema que ninguém sabe como resolver. Todos sabem o que os Varden querem, ou os Urgals ou até mesmo Galbatorix. Mas ninguém sabe o que você quer. E isso o torna mais perigoso, especialmente para Galbatorix. Ele teme você porque não sabe o que você fará a seguir.
— Os Varden me temem? — perguntou Eragon baixinho.
— Não — respondeu Ajihad com cuidado. — Nós temos esperança. Mas se isso se provar falso, aí sim, nós teremos medo. — Eragon olhou para baixo. — Você precisa entender a natureza incomum da sua posição. Há facções que querem que você sirva aos interesses delas e de mais ninguém. No momento em que você entrou em Farthen Dûr, a influência e o poder delas começaram a tentar conquistar você.
— Incluindo a sua? — perguntou Eragon.
Ajihad sorriu, embora os olhos dele continuassem com um ar penetrante.
— Incluindo a minha. Há certas coisas que você deve saber. A primeira é sobre como o ovo de Saphira foi parar na Espinha. Brom lhe contou o que foi feito com o ovo dela depois que ele foi trazido para cá?
— Não — disse Eragon, olhando de relance para Saphira. Ela piscou os olhos e mostrou a língua para ele.
Ajihad bateu levemente na mesa antes de começar.
— Quando Brom trouxe o ovo pela primeira vez para os Varden, todos ficaram extremamente interessados no destino dele. Nós achávamos que os dragões tinham sido exterminados. Os anões estavam extremamente preocupados, pois o futuro Cavaleiro devia ser um aliado, embora alguns deles se opusessem a haver um novo Cavaleiro. Enquanto os elfos e os Varden tinham um interesse mais particular nessa questão. A razão era bem simples: durante toda a história, os Cavaleiros foram elfos ou humanos, embora a maioria tenha sido de elfos. Nunca houve um Cavaleiro anão.
“Devido à traição de Galbatorix, os elfos estavam relutantes quanto a deixar qualquer um dos Varden lidar com o ovo, temendo que o dragão dentro dele pudesse eclodir para um humano com instabilidades semelhantes. Era uma situação desafiadora, pois ambas as partes queriam um Cavaleiro do lado delas. Os anões só agravavam o problema ao debater de modo obstinado com os elfos e conosco sempre que tinham uma chance. A tensão aumentou, e logo ameaças foram feitas e foram lamentadas posteriormente. E foi quando Brom sugeriu um compromisso que daria uma oportunidade a todos os lados.
“Ele propôs que o ovo fosse levado dos Varden para os elfos todos os anos. Em cada um desses locais, as crianças desfilariam na frente do ovo, e os portadores veriam se ele eclodiria para alguém. Caso isso não acontecesse, os portadores do ovo partiriam e voltariam para o outro grupo. Mas, se o dragão realmente nascesse, o treinamento do novo Cavaleiro começaria imediatamente. Durante o primeiro ano ou um pouco mais, ele ou ela seria instruído aqui por Brom. Depois, o Cavaleiro seria levado para os elfos, que terminariam sua educação.
“Relutantes, os elfos aceitaram esse plano... com a condição de que se Brom morresse antes que o dragão nascesse, eles seriam livres para treinar o novo Cavaleiro sem nenhuma interferência. O acordo foi feito favorecendo-os, pois nós dois sabíamos que o dragão provavelmente escolheria um elfo, mas ele proveu uma necessidade urgente de aparente igualdade.”
Ajihad fez uma pausa, seus olhos expressivos ficaram melancólicos. Sombras apareceram embaixo de suas maçãs do rosto, destacando-as.
— Esperava-se que esse novo Cavaleiro aproximasse nossas duas raças. Aguardamos por muito mais de uma década, mas o ovo não eclodia. A questão deixou nossas mentes e raramente falávamos sobre ela, exceto para lamentar a inatividade do ovo.
“Então, no ano passado, sofremos uma tremenda perda. Arya e o ovo desapareceram quando ela voltava para Tronjheim de Osilon, a cidade dos elfos. Eles foram os primeiros a perceber que ela estava desaparecida. Também encontraram o cavalo dela e alguns guardas mortos em Du Weldenvarden, além de alguns Urgals mortos perto dali. Mas nem Arya nem o ovo estavam lá. Quando essa notícia chegou a mim, temi que os Urgals estivessem com eles dois e que logo descobrissem a localização de Farthen Dûr e da capital dos elfos, Ellesméra, onde a rainha deles, Islanzadi, vive. Agora entendo que eles estavam trabalhando para o Império, o que é bem pior. Não saberemos exatamente o que aconteceu naquele ataque até Arya acordar, mas deduzi alguns detalhes pelo que você contou”.
O colete de Ajihad fez um leve barulho de seda roçando quando ele apoiou os cotovelos na mesa.
— O ataque deve ter sido rápido e determinado, ou Arya teria escapado. Sem ter nenhum aviso e sem ter onde se esconder, ela só poderia ter feito uma coisa: usar magia para transportar o ovo para outro lugar.
— Ela pode usar magia? — perguntou Eragon.
Arya mencionou que recebeu uma droga para suprimir seus poderes, ele queria confirmar que ela havia se referido à magia. Eragon imaginou se ela poderia lhe ensinar mais palavras da língua antiga.
— Essa foi uma das razões por que ela foi escolhida para guardar o ovo. Bem, Arya não poderia mandá-lo para nós, pois estava longe demais. E o reino dos elfos é protegido por barreiras arcanas para evitar que qualquer coisa passe pelas fronteiras deles via meios mágicos. Deve ter pensado em Brom e, no desespero, mandou o ovo em direção a Carvahall. Sem ter tempo para se preparar, não estou surpreso que ela tenha errado pela margem que errou. Os gêmeos me disseram que essa é uma arte imprecisa.
— Por que ela estava mais perto do vale Palancar do que dos Varden? — inquiriu Eragon. — Onde os elfos realmente moram? Onde fica essa... Ellesméra?
O olhar penetrante de Ajihad fixou-se em Eragon enquanto ele pensava naquelas perguntas.
— Eu não lhe revelo isso com muito gosto, pois os elfos guardam esse segredo com extremo cuidado. Mas você deve saber, e faço isso como uma demonstração de confiança em você. As cidades deles ficam bem longe, ao norte, nas profundezas da floresta de Du Weldenvarden. Desde a época dos Cavaleiros, ninguém, anão ou humano, foi considerado amigo suficiente dos elfos para entrar em seus salões frondosos. Nem eu sei como chegar a Ellesméra. Quanto a Osilon... Baseado onde Arya desapareceu, suspeito que seja perto da fronteira oeste de Du Weldenvarden, na direção de Carvahall. Você deve ter muitas outras perguntas, mas guarde-as até eu terminar.
Ele arrumou suas memórias e falou em um ritmo mais rápido.
— Quando Arya desapareceu, os elfos retiraram seu apoio aos Varden. A rainha Islanzadi envolveu-se pessoalmente na questão e recusou-se a fazer qualquer contato conosco. Por isso, embora eu tenha recebido a mensagem de Brom, os elfos ainda não sabem nada sobre você e Saphira... Sem os suprimentos enviados por eles para sustentar minhas tropas, temos nos saído mal nos últimos meses nos combates contra o Império.
“Com a volta de Arya e com a sua chegada, espero que a hostilidade da rainha diminua. O fato de você ter resgatado Arya nos ajudará muito a reconquistar a simpatia dela. Entretanto, o seu treinamento representará um problema tanto para os Varden quanto para os elfos. Obviamente, Brom teve a chance de ensinar a você, mas precisamos saber quanto ele ensinou. Por essa razão, terá de ser testado para determinar a extensão das suas habilidades. Além disso, os elfos vão querer que você termine seu treinamento com eles, embora eu não tenha certeza de que haverá tempo para isso.”
— Por que não? — perguntou Eragon.
— Por vários motivos. Um dos mais importantes entre eles está a notícia que você trouxe sobre os Urgals — respondeu Ajihad, os olhos dele passaram por Saphira. — Entenda, Eragon, os Varden estão em uma posição extremamente delicada. Por um lado, temos de atender os desejos dos elfos se os quisermos como aliados. Ao mesmo tempo, não podemos enfurecer os anões se quisermos continuar em Tronjheim...
— Mas os anões não são parte dos Varden? — quis saber Eragon.
Ajihad hesitou.
— De certa forma, são. Permitem que vivamos aqui e nos dão assistência em nossa luta contra o Império, mas eles são leais apenas ao rei deles. Eu não tenho poder sobre eles exceto para o que Hrothgar me concede, e até ele frequentemente tem problemas com os clãs dos anões. Os treze clãs são subservientes a Hrothgar, mas o chefe de cada clã detém um poder enorme. Escolhem o novo rei dos anões quando o antigo rei morre. Hrothgar simpatiza com nossa causa, mas muitos dos chefes, não. Ele não pode irritá-los desnecessariamente ou perderá o apoio do seu povo. Então, as ações dele em nosso beneficio têm sido severamente limitadas.
— Esses chefes dos clãs — disse Eragon —, eles também estão contra mim?
— Temo que vários estejam — revelou Ajihad preocupado. — Há uma longa inimizade entre os anões e os dragões. Antes que os elfos chegassem e promovessem a paz, os dragões tinham o hábito de devorar os rebanhos dos anões e de roubar o ouro deles, e os anões demoram a esquecer os erros do passado. De fato, nunca aceitaram completamente os Cavaleiros ou permitiram que eles policiassem seu reino. A ascensão de Galbatorix ao poder só serviu para convencer muitos deles de que seria melhor nunca mais ter de lidar com os Cavaleiros ou com dragões novamente. — Ele dirigiu as últimas palavras para Saphira.
Eragon disse lentamente:
— Por que Galbatorix não sabe onde Farthen Dûr e Ellesméra ficam? Certamente, ele já deve ter ouvido falar delas quando foi instruído pelos Cavaleiros.
— Ter ouvido falar, sim, mas ter visto onde ficam, não. Uma coisa é saber que Farthen Dûr fica nessas montanhas, mas achá-la é algo bem diferente. Galbatorix não esteve em nenhum dos dois lugares antes de seu dragão ser morto. Depois disso, é claro, os Cavaleiros não acreditavam nele. Tentou arrancar a informação de vários Cavaleiros durante sua rebelião, mas eles preferiram morrer do que revelá-la a ele. Quanto aos anões, nunca conseguiu capturar um deles vivo, embora isso seja apenas uma questão de tempo.
— Então, por que ele simplesmente não pega um exército e marcha por Du Weldenvarden até achar Ellesméra? — perguntou Eragon.
— Porque os elfos ainda têm poder suficiente para resistir a ele — respondeu Ajihad. — Ele não ousa testar a sua força contra a deles, pelo menos, ainda não. Mas a feitiçaria maldita dele fica mais forte a cada ano. Com outro Cavaleiro ao lado dele, seria impossível detê-lo. Ele fica tentando fazer com que um dos dois ovos de dragão que estão em seu poder eclodam, mas até agora ele não tem obtido sucesso.
Eragon ficou intrigado.
— Como o poder dele pode estar aumentando? A força do corpo dele limita suas habilidades, o poder não pode aumentar sozinho para sempre.
— Nós não sabemos — respondeu Ajihad, erguendo seus ombros largos. — Nem os elfos. Só esperamos que um dia ele seja destruído por um de seus próprios feitiços. — Ele enfiou a mão em seu colete e tirou melancolicamente um pedaço de pergaminho surrado. — Você sabe o que é isto? — perguntou ele, colocando o objeto na mesa.
Eragon inclinou-se para a frente e o examinou. Linhas de letras negras, escritas em uma língua estrangeira, foram redigidas à tinta sobre a página. Grandes partes dos escritos foram destruídos por manchas de sangue. Uma das pontas do pergaminho estava queimada. Ele balançou a cabeça.
— Não. Não sei.
— Isto foi retirado do líder do bando dos Urgals que destruímos na noite passada. O custo disso foram doze homens, eles se sacrificaram para que você pudesse escapar em segurança. Esse idioma é uma invenção do rei, um dialeto que ele usa para se comunicar com seus servos. Levei um bom tempo, mas consegui descobrir seu significado, pelo menos onde estava legível. Está escrito:

... A sentinela em lthrö Zhâda deve permitir que o portador e seus servos passem. Eles partirão com outros da espécie deles e por... Mas somente se as duas facções abstiverem-se de lutar. O comando será dado por Tarok, por Gashz, por Durza, por Ushnark, o Poderoso.

— Ushnark é Galbatorix. Isso quer dizer “pai” na língua dos Urgals, uma presunção que o agrada.

Encontrem o que eles acharem adequado para e... Os lacaios e... devem ser mantidos separados. Nenhuma arma deve ser distribuída até... Para a marcha.

— Nada mais pode ser lido além daqui, exceto por algumas palavras vagas, — disse Ajihad.
— Onde fica essa Ithrö Zhâda? Nunca ouvi falar dela.
— Nem eu — confirmou Ajihad. — O que me faz suspeitar que Galbatorix renomeou um lugar que já existe para seus interesses próprios. Depois de decifrar isto, perguntei a mim mesmo o que centenas de Urgals faziam perto das montanhas Beor, onde você os viu, e aonde estavam indo. O pergaminho menciona “outros da espécie deles”, então presumo que haja mais Urgals no destino aonde iam. Só há um motivo para o rei reunir tamanha força: montar um exército ilegítimo de humanos e monstros para nos destruir. Por enquanto, não podemos fazer nada além de esperar e observar. Sem informações adicionais, não poderemos achar esta Ithrö Zhâda. Contudo, Farthen Dûr ainda não foi descoberta, então há esperança. Os únicos Urgals que a viram morreram ontem à noite.
— Como vocês sabiam que estávamos chegando? — perguntou Eragon. — Um dos gêmeos nos esperava e havia uma emboscada armada para os Kull. — Ele sabia que Saphira ouvia tudo atentamente. Embora estivesse em silêncio, ela teria coisas a dizer depois.
— Nós temos sentinelas posicionadas na entrada do vale que vocês atravessaram, em ambos os lados do rio Dente-de-Urso. Eles nos enviaram um pombo-correio para nos alertar — explicou Ajihad.
Eragon imaginou se tal pombo era o mesmo pássaro que Saphira tentara comer.
— Quando o ovo e Arya desapareceram, você contou ao Brom? Ele me disse que não tinha recebido notícias dos Varden.
— Nós tentamos alertá-lo — disse Ajihad —, mas suspeito que nossos homens foram interceptados e mortos pelo Império. E por que outra razão os Ra’zac teriam ido até Carvahall? Depois disso, Brom estava viajando com você e era impossível falar com ele. Fiquei aliviado quando ele me mandou aquela mensagem de Teirm. Não fiquei surpreso com o fato de ele ter procurado Jeod, eles eram velhos amigos. E Jeod podia nos mandar uma mensagem facilmente, pois ele contrabandeia suprimentos para nós via Surda.
“Tudo isso levantou sérias questões. Como o Império sabia onde preparar a emboscada para Arya e, depois, nossos mensageiros no caminho para Carvahall? Como Galbatorix ficou sabendo quais comerciantes nos davam apoio? Os negócios de Jeod foram quase extintos depois que vocês o deixaram, como também o dos outros comerciantes que nos ajudam. Sempre que um dos navios deles zarpa, desaparece. Os anões não podem nos dar tudo que necessitamos, assim os Varden estão precisando de suprimentos desesperadamente. Receio que temos um traidor, ou traidores entre nós, apesar dos esforços que fazemos ao examinar a mente das pessoas à procura de sinais de traição.”
Eragon refletiu profundamente sobretudo o que tinha acabado de ouvir. Ajihad esperou calmamente até que ele estivesse pronto para falar, sem se incomodar com o silêncio. Pela primeira vez desde que achou o ovo de Saphira, Eragon sentiu que entendia o que acontecia em torno dele. Pelo menos, ficou sabendo de onde Saphira tinha vindo e o que poderia haver em seu futuro.
— O que o senhor quer de mim? — perguntou ele.
— Como assim?
— Quero dizer, o que esperam de mim em Tronjheim? Vocês e os elfos têm planos para mim, mas e se eu não gostar deles? — Um tom mais duro surgiu em sua voz. — Eu lutarei quando for preciso, festejarei quando houver uma ocasião propícia, lamentarei quando houver dor e morrerei quando chegar a minha hora... Mas não deixarei que ninguém me use contra a minha vontade. — Ele fez uma pausa para deixar as palavras ganharem peso. — Os antigos Cavaleiros eram árbitros da justiça e acima de tudo os líderes de sua época. Eu não reclamo tal posição. Duvido que as pessoas aceitariam tamanha submissão, especialmente a alguém tão jovem quanto eu, depois de terem sido livres a vida toda. Mas eu realmente tenho poder e vou usá-lo como achar por bem. O que quero saber é como vocês planejam me usar. Depois, decidirei se concordarei com os seus termos.
Ajihad olhou para ele de uma maneira irônica.
— Se você fosse outra pessoa e estivesse perante outro líder, provavelmente teria sido morto devido a esse discurso insolente. O que o faz pensar que revelarei meus planos só porque você exigiu?
Eragon ficou ruborizado, mas não abaixou o olhar.
— Contudo, você tem razão. A sua posição lhe dá o privilégio de dizer tais coisas. Você não pode escapar da política que envolve a sua situação, você será influenciado de um modo ou de outro. Não quero vê-lo se tornar um peão de qualquer grupo ou propósito, além do que você quer. Deve preservar sua liberdade, pois é nela que reside o verdadeiro poder: a capacidade de fazer escolhas independentemente de qualquer líder ou rei. Minha autoridade sobre você será limitada, mas creio que será para o melhor. A dificuldade reside em nos certificarmos de que as pessoas que detenham o poder vão inclui-lo em suas deliberações.
“Além disso, apesar de seus protestos, as pessoas daqui têm certas expectativas quanto a você. Elas vão lhe apresentar seus problemas, não importa o tamanho deles, e exigirão que você os resolva.”
Ajihad inclinou-se para a frente, a voz dele tinha um tom extremamente sério.
— Haverá casos em que o futuro de alguém estará nas suas mãos... Com a sua palavra, você poderá fazê-lo adernar para a felicidade ou para o infortúnio. Jovens mulheres pedirão sua opinião sobre com quem deverão casar, muitas vão desejá-lo ter como marido, e os velhos perguntarão quais de seus filhos devem receber uma herança. Você deve ser gentil e sábio com todos, pois depositarão sua fé em você. Não fale com desrespeito ou sem pensar, pois suas palavras exercerão um impacto muito maior do que você pretenderá.
Ajihad voltou a recostar-se na cadeira, com os olhos cobertos.
— O fardo de uma liderança é a responsabilidade pelo bem-estar das pessoas sob seu comando. Tenho lidado com isso desde o dia em que fui escolhido para liderar os Varden, e agora essa situação também se aplica a você. Tenha cuidado. Não tolerarei injustiças sob meu comando. Não se preocupe com a sua juventude e inexperiência, pois elas passarão logo.
Eragon não ficou confortável com a ideia de as pessoas virem pedir conselhos a ele.
— Mas o senhor ainda não disse o que devo fazer aqui.
— Por enquanto, nada. Você percorreu mais de seiscentos quilômetros em oito dias, um feito do qual deve se orgulhar. Sei que apreciará um descanso. Quando estiver recuperado, testaremos sua competência com as armas e a magia. Depois disso, bem, explicarei suas opções, e você terá de decidir o seu rumo.
— E quanto a Murtagh? — perguntou Eragon de modo pungente.
A expressão no rosto de Ajihad endureceu. Ele pôs a mão embaixo de sua mesa e levantou Zar’roc. A bainha polida da espada brilhava sob a luz. Ajihad passou sua mão sobre ela, demorando-se sobre o selo entalhado:
— Ele ficará aqui até que permita aos gêmeos entrarem na mente dele.
— Vocês não podem prendê-lo — contestou Eragon. — Ele não cometeu crime algum!
— Não podemos conceder a liberdade a ele sem termos a certeza de que não se voltará contra nós. Inocente ou não, ele é potencialmente perigoso para nós, como o pai dele era — exclamou Ajihad com um tom de tristeza.
Eragon percebeu que Ajihad não seria convencido do contrário e que a preocupação dele era válida.
— Como o senhor conseguiu reconhecer a voz dele?
— Uma vez, encontrei o pai dele — disse Ajihad brevemente. Ele deu um tapa de leve no punho de Zar’roc. — Eu queria que Brom tivesse me dito que tinha pegado a espada de Morzan. Sugiro que você não a use dentro de Farthen Dûr. Muitos aqui se lembram da época de Morzan com raiva, especialmente os anões.
— Eu me lembrarei disso — prometeu Eragon.
Ajihad deu Zar’roc a ele.
— Isso me lembra: estou com o anel de Brom, o que ele enviou como confirmação de sua identidade. Eu o estava guardando para quando ele voltasse para Tronjheim. Mas como agora ele está morto, suponho que pertença a você, e acho que ele ia querer que você ficasse com o anel. — Ele abriu uma gaveta na mesa e pegou a joia.
Eragon a aceitou com reverência. O símbolo entalhado na face da pedra de safira era idêntico à tatuagem no ombro de Arya. Ele pôs o anel no dedo indicador, admirando como refletia a luz.
— Eu... Eu estou honrado — disse ele.
Ajihad concordou com a cabeça solenemente, empurrou sua cadeira para trás e ficou em pé. Olhou para Saphira e falou com ela, sua voz encheu-se de mais volume.
— Não pense que me esqueci de você, ó poderoso dragão. Falei todas essas coisas tanto para o seu beneficio quanto para o de Eragon. E é mais importante que você saiba sobre elas, pois cabe a você a tarefa de protegê-lo nesses tempos perigosos. Não subestime o seu poder e não vacile ao lado dele, pois sem você ele com certeza não terá sucesso.
Saphira abaixou a cabeça até que os olhos deles estivessem nivelados e ficou olhando fixamente para ele através de suas pupilas negras em forma de fenda. Eles examinaram um ao outro em silêncio, nenhum dos dois piscou. Ajihad foi o primeiro a se mover. Ele desceu o olhar e disse baixinho:
— De fato, é um prazer conhecer você.
Ele terá sucesso, disse Saphira com respeito. Ela jogou a cabeça para o lado para encarar Eragon. Diga a ele que estou impressionada tanto com Tronjheim quanto com ele. O Império tem razão de temê-lo. Mas comunique a ele, contudo, que se ele tivesse decidido matar você, eu teria destruído Tronjheim e o partido ao meio com meus dentes.
Eragon hesitou, surpreso com o veneno na voz dela, depois passou a mensagem. Ajihad olhou para ela seriamente.
— Eu não esperaria nada menos de alguém tão nobre, mas duvido que conseguiria passar pelos gêmeos.
Saphira bufou com escárnio:
Ora!
Entendendo o que ela quis falar, Eragon disse:
— Então eles devem ser muito mais fortes do que aparentam. Creio que ficariam extremamente apavorados se viessem a se deparar com a fúria de um dragão. Os dois podem ser capazes de me derrotar, mas nunca Saphira. Você devia saber, o dragão de um Cavaleiro aumenta sua magia além dos níveis que um mago normal teria. Brom sempre foi mais fraco do que eu por causa disso. Acho que na ausência dos Cavaleiros, os gêmeos superestimaram seus poderes.
Ajihad ficou com uma expressão consternada.
— Brom era considerado um dos nossos mais fortes mestres de encantos. Só os elfos conseguiam superá-lo. Se o que você disse é verdade, devemos reconsiderar muitas coisas. — Ele curvou-se perante Saphira. — Seja como for, estou feliz por não ter sido necessário fazer mal a nenhum de vocês dois.
Saphira abaixou a cabeça em retorno.
Ajihad pôs-se ereto com um ar altivo e gritou:
— Orik! — O anão entrou correndo na biblioteca e ficou em pé em frente à mesa cruzando os braços. Ajihad franziu o rosto ao olhar para ele irritado. — Você me causou muitos problemas, Orik. Tive de ouvir as reclamações de um dos gêmeos a manhã toda sobre a sua insubordinação. Eles não esquecerão isso até você ser punido. Infelizmente, eles estão certos. É uma questão séria que não pode ser ignorada. Devemos prestar contas.
Os olhos de Orik brilharam em direção de Eragon, mas seu rosto não revelava nenhuma emoção.
Ele falou rápido em tons grosseiros:
— Os Kull estavam quase em Kóstha-mérna. Atiravam flechas em Saphira, em Eragon e Murtagh, mas os gêmeos não fizeram nada para detê-los. Como... Sheilven, eles se recusaram a abrir os portões mesmo quando vimos Eragon gritando a senha de abertura no outro lado da cachoeira. E eles se recusaram a agir quando Eragon não emergiu no lago. Talvez eu tenha errado, mas não podia deixar um Cavaleiro morrer.
— Eu não tinha forças para poder sair da água sozinho — expressou Eragon. — Eu teria me afogado se ele não tivesse me puxado.
Ajihad olhou de relance para Eragon e, em seguida, perguntou a Orik seriamente:
— E depois, por que você se opôs a eles?
Orik ergueu o queixo de modo desafiador.
— Eles não tinham o direito de entrar à força na mente de Murtagh. Mas eu não os teria impedido se soubesse quem ele era.
— Não, você fez o certo, embora fosse mais simples se não o tivesse feito. Não temos o direito de entrar à força na mente de ninguém, não importa quem seja. — Ajihad tocou sua densa barba. — Suas ações foram nobres, mas você contrariou uma ordem direta do seu comandante. A pena por isso sempre foi a morte.
Orik esticou as costas de repente.
— O senhor não pode matá-lo por isso! Ele só estava me ajudando — gritou Eragon.
— Você não tem o direito de interferir — disse Ajihad com severidade. — Orik infringiu a lei e deve sofrer as consequências. — Eragon começou a protestar de novo, mas Ajihad o interrompeu ao erguer a mão. — Mas você está certo. A sentença será atenuada devido às circunstâncias. De agora em diante, Orik, você está removido do serviço ativo e está proibido de se envolver em qualquer atividade militar sob o meu comando. Entendeu?
O rosto de Orik ficou obscuro, mas depois ele apenas parecia estar confuso. Ele concordou com a cabeça rapidamente:
— Entendi.
— Além disso, na falta de suas atividades regulares, vou nomeá-lo guia de Eragon e Saphira durante a estada deles aqui. Você deverá garantir que eles recebam todos os confortos e amenidades que temos para oferecer. Saphira ficará acima da Isidar Mithrim. Eragon poderá se alojar onde quiser. Quando ele se recuperar da viagem, leve-o para o campo de treinamento. Estão esperando por ele — disse Ajihad com um brilho de satisfação nos olhos.
Orik curvou-se humildemente.
— Entendi.
— Muito bem, vocês todos podem ir. Mandem os gêmeos entrarem quando saírem.
Ao sair, Eragon curvou-se e perguntou:
— Onde posso encontrar Arya? Eu gostaria de vê-la.
— Ninguém tem permissão para visitá-la. Terá de esperar até que ela vá ao seu encontro. — Ajihad desviou o olhar para baixo, para a sua mesa, em um gesto claro de dispensa.

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